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CAPÍTULO IV: MOMENTO CONSEQUÊNCIAS – VITIMIZAÇÃO COLETIVA O entendimento da composição do trânsito e de suas modificações e

LOCALIZADA E ALGUNS DE VÁRIOS ASPECTOS

5.2 Local do acidente

Um dos procedimentos para a construção dos tipos “puros ideais” de Weber é a aproximação da realidade com o quadro construído como ideal, tratando-se da reunião de elementos com determinados traços (WEBER, 2003), aproximando-os da realidade empírica observada. Objetivando seguir esses passos – para a construção do tipo ideal do local do acidente, no tocante à tentativa experimental de construção do um esboço retrato sociológico situacional – procedeu-se a observação, da estrutura social formada durante a ocorrência de um acidente, em via pública, anotando as características que se repetiam, e como se repetiam, descrevendo-as para que suas características fossem desenhadas e relacionadas à ocorrência do acidente.

66 O Modelo Honda CB 500F, de 500 cilindradas, considerado, em termos de cilindradas, uma moto mediana, tem o peso seco estipulado em cento e setenta e oito quilogramas (178 kg) e pode atingir mais de cento e oitenta quilômetros por hora (180 km/h).

Para a coleta de dados, realizou-se o acompanhamento de atendimento do SAMU de Picos para acidentes na zona urbana do município, alguns acompanhamentos ocorreram de maneira planejada e outros de maneira ocasional, ou éramos avisados e seguíamos assim para o local. A observação se completou por meio da visualização de vídeos disponíveis na internet, referentes a acidentes diversos envolvendo motociclistas. Feito isso, identificou-se alguns traços comuns e frequentes para recriar de maneira tipo ideal o quadro de um acidente de moto em via pública, assim, com a soma destes comportamentos que identificavam regularidade de ações significativas, criamos o esboço do retrato sociológico médio de um acidente de moto. Observando que a existência de algumas das características descritas é condicionada a gravidade do acidente, verificou-se a necessidade de variar também a descrição das mesmas, relacionando a característica ao resultado do acidente para a vítima.

Delineia-se agora a construção do tipo ideal Local do acidente.

Ouve-se um barulho de frenagem produzido pelo atrito da borracha com o asfalto, em seguida, o barulho torna-se peculiar, denunciando um acidente de trânsito. Os mais rápidos, ao identificarem exatamente de onde veio o barulho, ainda conseguem ver as vítimas em movimento conduzidas pela velocidade resultante em seus corpos e a moto ainda em movimento, mas já ao chão. Algumas vezes, nessa observação rápida, encontram-se tanto a moto como o piloto “voando pelos ares”, e caso o piloto seja arremessado na contramão, onde há carros trafegando, a visão pode se tornar escabrosa, muito perturbadora, vitimando, deste modo o observador. Outras pessoas inicialmente olham assustadas procurando entender o que aconteceu e onde aconteceu, os primeiros motoristas e motociclistas começam a chegar e a parar rapidamente, em grandes cidades, param o trânsito, cercando tanto a vítima como o carro envolvido no acidente – caso haja algum carro envolvido – porém esse fenômeno, chamado aqui de “cercamento”, não foi observado pelo pesquisador em Picos. Algumas pessoas, que percebem a gravidade do acidente, antes de se aproximarem, já tentam contato através de telefones celulares com a equipe de atendimento de emergência, outras usam esses aparelhos apenas para registrar imagens da vítima, sendo essa última situação cada vez mais comum. Lentamente, algumas pessoas começam a se aproximar, e em menos de um minuto, o acidentado já está cercado por dezenas de pessoas, esse número varia conforme a gravidade do acidente, quanto mais grave, mais pessoas acompanham, caso

a vítima venha a falecer no local, o número de curiosos rapidamente supera uma centena67.

Entre as pessoas presentes no local, algumas tentam se comunicar com a vítima e outras conversam entre si, perguntando como aconteceu, quando aconteceu e se alguém conhecia ou conhece a vítima. Caso o acidentado esteja consciente e responda aos diálogos, tentam acalmá-la e pedem um número para que possam ligar informando algum familiar sobre o acidente ocorrido. Nesse momento, em volta da vítima há um círculo de pessoas, algumas revezando a posição com outras para exercer seus olhares de curiosidade, todavia há outros que permanecem até a retirada da vítima ou de seu corpo. Alguns indivíduos mais próximos fisicamente da pessoa acidentada pedem de maneira ríspida, para as pessoas se afastarem, o pedido é prontamente atendido, porém rapidamente as pessoas voltam a se aproximarem.

Sendo o causador do acidente um condutor de automóvel e a vítima aparentar não estar bem, a possibilidade de o motorista fugir do local do acidente é grande, principalmente quando desconfia, ou constata, a morte do motociclista. Alguns condutores de automóveis envolvidos em acidentes que também envolvem motociclistas permanecem no local, mas geralmente ficam longe, afastados das pessoas e bastante desconfiados ou abalados, geralmente, falando ao celular quase todo o tempo.

Com a chegada de familiares ou amigos da vítima ao local, são incorporados ao ambiente, conforme a gravidade, cenas de desespero, compostas por gritos, choro, desmaios, atordoamento. Muitas vezes ocorre a necessidade de contenção do familiar, pois ele pode agravar a situação de saúde do vitimado ou alterar o local do ocorrido68. Estando a vítima com vida e consciente, o familiar tenta acalmá-la, evitando que se mova, às vezes segurando em sua mão e comunicando-se o tempo todo com ela e, esporadicamente, com outros familiares por telefone.

Com a presença institucional – que aqui se refere a policiais, guardas de trânsito ou equipes de socorro, de perícia ou remoção de corpos – o local toma outro contorno. É

67 O último caso acompanhado em Picos-PI, pelo pesquisador, refere-se a um motociclista que se chocou com a traseira de um ônibus na BR 316, faixa amostral do lócus da pesquisa, a vítima faleceu no local do acidente, o pesquisador chegou antes do socorro médico e contabilizou cento e cinquenta e oito (158) pessoas no local.

68 Foi observado que antes da chegada das equipes que irão isolar a área, há a significativa alteração, por parte de populares, da cena do acidente, com deslocamentos de veículos, tocando ou movimentando a vítima. Em alguns casos ocorre o furto de capacetes, dinheiro ou pertences das pessoas envolvidas no acidente.

providenciado o isolamento de um perímetro em torno dos componentes materiais e humanos do acidente, o fluxo do trânsito é parado, ou desviado, criando um clima institucional em volta do local. Informações começam a ser colhidas, dados e documentos de vítimas, veículos e envolvidos são solicitados e coletados, o local começa a ser periciado e os registros oficiais têm início.

Ao longe, o som típico do SAMU começa a ecoar, ficando cada vez mais agudo, fato que pode proporcionar um pequeno alívio para as vítimas conscientes e seus familiares, quando estes estão presentes no local. Caso já exista a presença institucional com a chegada das equipes médicas, torna-se preciso reforçar o espaço delimitado para o isolamento, pois as pessoas sabem que os socorristas movimentarão o acidentado, abrindo espaço para que alguns invadam a área anteriormente isolada. No caso de não haver a presença institucional anterior, os próprios socorristas terão que delimitar, através apenas de pedidos ou ordens, a área de isolamento. Esses pedidos e ordens terão que ser repetidos algumas vezes, pois as pessoas se afastam e voltam a se aproximar.

Falecendo a pessoa no local, o corpo precisa ser periciado e removido, ampliando assim o tempo de permanência dos familiares da vítima e dos curiosos. Mesmo havendo a presença institucional, com o início da perícia no veículo e no corpo, as pessoas que já foram afastadas anteriormente se aproximam mais uma vez e tendem a invadir a área isolada. Nesse momento, sempre há muitas pessoas com celulares prontos para filmagens e fotografias. Algumas pessoas fazem essa invasão andando às pressas, enquanto outros literalmente correm, para registrar com seus aparelhos móveis imagens do veículo ou do corpo, chegando a ficar muito próximo a estes. Esse momento é sempre acompanhado de tensão entre as equipes que fazem a presença institucional, os familiares e amigos das vítimas, que se irritam com essa curiosidade, encarada pelos peritos da equipe de socorro e policiais como intervenção em seu trabalho e pelos familiares como desrespeito ao ente falecido.

Após o corpo ser removido e os veículos retirados, as pessoas, lentamente, começam a deixar o local, tecendo comentários sobre destino, morte, imprudência, a vida particular dos envolvidos e a reação dos familiares. É comum relatarem também casos parecidos que presenciaram ou contarem piadas sobre o acidente em si ou sobre o comportamento, aparência ou vestimentas de algumas pessoas que estavam presentes.

Ainda há aqueles que permanecem por mais tempo69, observando as marcas deixadas no local: pedaços de tecido humano, sangue, fragmento dos veículos, ou material deixado pelas equipes. Alguns chegam a manusear esses materiais.

Quando o último grupo de curiosos se desfaz, restam no local apenas as marcas físicas do acidente, e tudo volta a normalidade na via. Pessoas que não souberam do ocorrido e passam conduzindo veículos desviam, curiosas, das marcas de sangue e pedaços dos veículos existentes na rodagem, outras passam tranquilamente sem se dar conta das marcas do acidente. Para as equipes que atuaram na ocorrência, o caminho é retornar a ficar de prontidão para o próximo evento. E, assim, o trânsito flui...

Assim, como poderemos observar a frente, o evento acidente de moto congrega relações sociais tanto nos comportamentos que contribuem para a ocorrência do fato, e como observados agora na construção do senário após o ocorrido, com características que se repetem em uma média social no local do acidente, restando na maior parte dos casos, para o sentido de “acidente” vinculado a um evento inesperado de difícil previsão e controle apenas os eventos físicos ocorridos durante a ação acidental. Desse modo, temos os fundamentos sociológicos que justificam uma visão de planejamento e compartilhamento de gestão entre estado e usuários com iniciativa e comando do estado.