Capítulo 3: A ciência entra na roda
3.6 Lugares da ciência no programa Roda Viva 195
Dos 1.020 programas produzidos entre os anos de 1986 e 2006, 165 tratam da temática ciência e tecnologia. Dentre esse montante, há seis debates, nos quais não há apenas um especialista convidado, mas vários que se propõem a discutir um tema103. Os especialistas que participaram desses debates foram incorporados nas análises a seguir e estão em destaque na
Tabela 10.
103O programa Roda Viva produziu debates especiais na área de C&T, dos quais participaram mais de um entrevistado, registrando a presença de 13 especialistas no cômputo geral. Os programas de debates são: Aids, que foi exibido no dia 19 de janeiro de 1987; Contaminação Radioativa, exibido no dia 19 de outubro de 1987; Crise energética, exibido no dia 14 de maio de 2001; Dengue, exibido no dia 25 de fevereiro de 2002; Transposição do Rio São Francisco, exibido no dia 14 de fevereiro de 2005 e Debate Cem anos de psicanálise, exibido no dia 23 de outubro de 2000. Todos os debates citados estão disponíveis no site www.memoriarodaviva.com.br, com exceção do programa Contaminação Radioativa, cuja transcrição se encontra no Anexo III da tese.
Figura 14 – Entrevistas programa Roda Viva por tema
Fontes: Centro de Memória da Fundação Padre Anchieta e site do programa Roda Viva
Podemos perceber, pela análise do gráfico acima (Figura 14), que a temática científica e tecnológica é pouco abordada no programa. O total das entrevistas encontradas para o primeiro período (1986-1994) indicou 437 programas, destes, 43 contemplavam temas de C&T; para o segundo período (1995-2003), foi registrado um total de 439 entrevistas, dentre as quais, 85 referiam-se às atividades ligadas à produção científica e tecnológica; para o último e menor período foram encontradas 144 entrevistas, destas 37 foram enquadradas na categoria ciência e tecnologia. Em termos percentuais, tem-se que 9,8% do total de entrevistas dedicaram-se à temática de C&T para o primeiro período; 19,3% para o segundo e 25,7% para o último período, de forma que é importante pontuar, em um primeiro momento, considerável aumento de entrevistas nesta área nos anos 2000. Um dos motivos que pode explicar alta incidência desta temática a partir dos 2000 está na fala de Paulo Markun:
Em 2000, a gente percebeu que os temas de C&T ficaram mais atraentes; os jornais passaram a divulgar o projeto Genoma, teve início uma discussão sobre os transgênicos, a crise de energia também, em 2001... Os jornais estavam falando mais sobre C&T, sabe? O governo federal criou os fundos setoriais e o ministro [Sardenberg] estava na “moda” [Markun fez aspas com as mãos]. Daí começamos a chamar, sempre que possível, gente desta área.
294 198 185 165 94 84 0 50 100 150 200 250 300 350 Política Nacional
Sociedade Economia Ciência e Tecnologia
Política Internacional
Vê-se, pela fala do apresentador, que uma série de fatores ampliou a visibilidade da atividade científica na mídia, provocando uma ascensão do tema no programa para o último período. Em um primeiro momento, Paulo Markun citou o aumento de matérias e notícias sobre C&T nos principais jornais impressos de São Paulo. Interessados em compreender o que foi apresentado à opinião pública sobre atividades científicas, Cidobal Moares e Tatiana Silveira (2001) analisaram os três principais jornais de circulação nacional – Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e Gazeta para os anos de 1989, 1995, 1999 e 2000. O objetivo da pesquisa consistia em compreender como esses veículos de comunicação atuaram como atores, pressionando o tema a entrar na agenda pública e política. Segundo os autores, a presença percentual de matérias de C&T nesses veículos de comunicação foi inconstante para todo o período analisado, no entanto, eles observaram um aumento geral entre os jornais de circulação nacional de temas de C&T para o ano de 2000. Ainda segundo eles, a ciência que prevalece na mídia é a que tem resposta para as questões diretas aos problemas da sociedade, tais como meio ambiente, saúde, engenharia e agricultura. Também constataram que a maioria das matérias sobre ciência privilegiava as informações e descobertas nacionais, realizadas especialmente nos centros de pesquisa e laboratórios do Sudeste. Por fim, Moraes e Silveira indicaram que as instituições governamentais foram as que mais contribuíram como fontes de informação para o noticiário científico, com taxa média que variava entre 30% e 50% do total das fontes (Souza e Silveira, 2001: 6). De maneira geral, os autores concluíram que a ciência apresentada nos jornais paulistas de tiragem nacional estava restrita ao Estado de São Paulo. A análise das amostras das entrevistas do Roda Viva chegou a conclusões bastante semelhantes, que serão apresentadas a seguir.
Voltando à fala de Paulo Markun, o apresentador também citou dois pontos importantes da política nacional que impulsionaram os financiamentos para as áreas de C&T: a nomeação de Ronaldo Sardenberg104, que, por sua vez, criou os fundos setoriais. Ao assumir essa pasta em julho de 1999, Sardenberg estimulou a mudança de perfil das pesquisas nacionais. Além disso, apresentou muitas dessas pesquisas ao empresariado. Por fim, investiu em releases. Assim, os meios de comunicação passaram
104 Ronaldo Sardenberg foi ao programa Roda Viva em dois momentos, em 1998, como Ministro do Planejamento e, em 2001, como Ministro de Ciência e Tecnologia. Cf. www.memoriarodaviva.fapesp.br.
a divulgar mais pesquisa nacionais. Não à toa Sardenberg ocupou mais espaço nos principais jornais que os ministros da Indústria e Comércio, por exemplo (Rezende, 2010: 210). Foi ele o responsável pelos fundos setoriais, um novo mecanismo para gerar recursos adicionais para o sistema de C&T, oportunidade de aumentar a verba dessa pasta. No total, são 12 fundos abastecidos por contribuições compulsórias de setores específicos do sistema produtivo. O resultado dessa inciativa foi o aumento de verba para o sistema de C&T e a possibilidade de realizar atividades de pesquisa e inovação com o empresariado. Para as pesquisas futuras, seria interessante estender o período para além de 2006, procurando averiguar se e como os temas de C&T passaram a ser discutidos e apresentados105. Para o período a que se propôs esta pesquisa, a amostra dos registros indicou os seguintes resultados, apresentados na Tabela 9.
Tabela 9 – Entrevistas do programa Roda Viva por áreas de C&T por período (1986-2006)
Área de C&T Período Total
1986-1994 1995-2003 2004-2006
CNA (Ciências Naturais e Agrárias) 4 4 3 10
MA (Meio Ambiente) 8 6 7 21
CMS (Ciências Médicas e da Saúde) 16 18 12 46
CES (Ciências Exatas e na Sociedade) 5 8 9 22
T (Tecnologia) 2 7 4 13
CHS (Ciências Humanas e Sociais) 14 45 17 76
Total 43 85 37 188
Fontes: Centro de Memória da Fundação Padre Anchieta e site do programa Roda Viva
A partir dessa primeira amostragem foi possível perceber que a maioria das entrevistas foi realizada com professores e/ou especialistas da área de humanidades e ciências sociais, tais como cientistas políticos, sociólogos, historiadores, antropólogos, entre outros, como mostram gráfico e tabela a seguir.
105 Para os anos seguintes, por exemplo, encontramos muitas pesquisas na área de C&T, entre as quais destaco Miguel Nicolelis (10/11/2008); Suzana Herculano-Houzel (17/3/2008); Debate Aquecimento Global (12/2/2007); Odair Dias Gonçalves (07/7/2007).
Figura 15– Especialista convidado ao programa Roda Viva (1986-2006)
Fontes: Centro de Memória da Fundação Padre Anchieta e site do programa Roda Viva
Tabela 10 – Especialistas convidados ao programa Roda Viva por área por período (1986-2006)
Área de C&T Especialidade
Período Total 1986-1994 1995-2003 2003-2006 Ciências Humanas e Sociais (CHS) antropólog(x) 4 3 2 9 arqueólog(x) 0 0 1 1 cientista polític(x) 2 6 3 11 educador(x) 1 3 1 5 filósof(x) 2 5 3 10 historiador(x) 2 7 4 13 linguista 0 0 1 1 sociólog(x) 4 5 7 16 Total parcial CHS 66
Meio Ambiente (MA) biólog(x) 0 1 1 2
geógraf(x) 3 1 1 5 Total parcial MA 7 9 1 11 5 10 13 1 16 2 5 1 1 1 2 5 4 1 1 26 0 5 10 15 20 25 30