3. FUNDAMENTOS PARA UMA SOCIOLOGIA DO CAMPO DO PLANEJAMENTO URBANO
3.3. Lutas de classificação, capital e poder simbólico
Pierre Bourdieu (2004, p. 156-157) afirma que a realidade social é também um objeto da percepção e, portanto, a “ciência social deve tomar como objeto não apenas essa realidade, mas também a percepção dessa realidade, as perspectivas, os pontos de vista que, em função da posição que ocupam no espaço social objetivo, os agentes têm sobre essa realidade”.
O planejamento urbano caracteriza-se como uma atividade diretamente conduzida ou mediada pelo Estado, uma estrutura institucional que assume o sentido de instância que pretende regular universal e legitimamente as práticas sociais. Destaque-se, portanto, o caráter político-estatal do campo do planejamento urbano – vinculado a um sentido de instância moral de regulação universal legítima das condutas. Neste sentido, Bourdieu (2004, p. 95) indica que as:
[...] coisas da cultura, particularmente as divisões e hierarquias sociais a elas associadas, são constituídas como natureza pela ação do Estado que, instituindo-as ao mesmo tempo nas coisas e nos espíritos, confere todas as aparências do natural a um arbitrário cultural.
Porém, destaque-se que essa naturalização não deve ser considerada a priori e de forma absoluta. Ao contrário, essa potencialidade estatal deve ser compreendida como uma construção histórico-social que remete também à articulação, ou inscrição, do Estado a/em
outras instituições também capazes de instituir relações sociais e formas de consciência – como o capital e o mercado. Além disto, é possível levantar a hipótese da existência de agentes que potencialmente são capazes de instituir sociabilidades, institucionalidades e jurisdicidades alternativas às hegemônicas.
Mais do que isto, essa reflexão remete à necessidade metodológica de trabalhar com uma concepção de Estado enquanto ente não monolítico, compreendido de forma ampla em uma perspectiva gramsciana. Desta forma, enquanto Estado ampliado que articula, unifica e distingue sociedade política e sociedade civil, a manutenção do caráter de educador universal é compreendida em uma perspectiva dialética. Bourdieu (2004, p.117), discutindo a especificidade do Estado enquanto ordenador e regulador social, afirma que ele detém o poder de instituir e difundir estruturas cognitivas e a “submissão à ordem estabelecida é o produto do acordo entre as estruturas cognitivas que a história coletiva (filogênese) e individual (ontogênese) inscreveram nos corpos e nas estruturas objetivas do mundo ao qual se aplicam” (Bourdieu, 2004, p.117-118). Desta forma, se o Estado pode exercer uma “violência simbólica é porque ele se encarna tanto na objetividade, sob a forma de estruturas e de mecanismos específicos, quanto na ‘subjetividade’” (Bourdieu, 2004, p. 97-98). Neste sentido, Pierre Bourdieu (2004, p. 115) afirma que o “Estado pode impor e inculcar de modo universal, na escala de um certo âmbito territorial, estruturas cognitivas e de avaliação idênticas, ou semelhantes”. Nessa perspectiva, para Bourdieu (2004, p. 116-117) o Estado:
(...) exerce permanentemente uma ação formadora de disposições duradouras, através de todos os constrangimentos e disciplinas corporais e mentais que impõe, de maneira uniforme, ao conjunto dos agentes (...) lugar de consagração, no qual se instituem, entre os eleitos e os eliminados, diferenças duradouras, freqüentemente definitivas (...) (Bourdieu, 2004, p.116).
(...) instaura e inculca formas e categorias de percepção e de pensamento comuns, quadros sociais da percepção, da compreensão ou da memória, estruturas mentais, formas estatais de classificação (Bourdieu, 2004, p.116-117).
Desta forma, participar do campo do planejamento urbano adquire relevância, pois remete a um jogo de classificação, simbólico, que detém perspectiva normativa e caráter instituinte potenciais. Neste sentido, as lutas do PD podem ser percebidas como lutas de classificações, vinculadas à capacidade dos diferentes agentes sociais de constituir, mobilizar e difundir representações sobre a realidade social, em disputa com outras representações e potencializando formas específicas de percepção e de intervenção na realidade. Essa disputa por classificações não se faz em um vazio social, mas em uma estrutura processualmente constituída e transformada, com gênese e evolução, e detendo um caráter relacional: o campo.
Desta forma, o campo constitui-se enquanto espaço legítimo de produção e imposição de categorias de pensamento que são difundidas socialmente, apontando para o que Bourdieu (2004, p.22) define como “princípios geradores de práticas distintas e distintivas”, “esquemas classificatórios, princípios de classificação, princípios de visão e de divisão e gostos diferentes”.
Nessa perspectiva, cabe refletir sobre o poder simbólico, vinculado à habilidade “para conservar ou transformar a realidade social pela formação de suas representações, isto é, pela inculcação de instrumentos cognitivos de construção da realidade que escondem ou iluminam suas arbitrariedades inerentes” (Wacqüant, 2002, p. 99). Bourdieu (2004, p. 83) compreende os campos como universos sociais relativamente autônomos “nos quais profissionais da produção simbólica enfrentam-se em lutas que têm como alvo a imposição de princípios legítimos de visão e de divisão do mundo natural e do mundo social”.
Deriva-se daí a reflexão metodológica de que essa dimensão simbólica detém dois sentidos essenciais. Um sentido interno de instituição e transformação das representações e das disposições que regulam as condutas e reproduzem distinções, hierarquias e pertencimentos no campo. Um sentido externo, que se refere à capacidade dos agentes sociais difundirem suas representações, disposições e classificações para segmentos sociais não participantes do campo, interferindo em estruturas e relações sociais mais gerais. Nos dois sentidos, os discursos e as práticas dos agentes sociais podem ser criticamente analisados se contextualizados em matrizes de planejamento urbano distintas e coexistentes, em disputa no campo e na sociedade.
Essa dimensão e esse caráter, simbólicos, das lutas sociais vinculadas ao campo, remetem à compreensão do capital simbólico como “uma propriedade qualquer (de qualquer tipo de capital, físico, econômico, cultural, social), percebida pelos agentes sociais cujas categorias de percepção são tais que eles podem entendê-las (percebê-las) e reconhecê-las, atribuindo-lhes valor” (Bourdieu, 2004, p. 107). Trata-se da “forma que todo tipo de capital assume quando é percebido através das categorias de percepção, produtos da incorporação das divisões ou das oposições inscritas na estrutura da distribuição desse tipo de capital” (Bourdieu, 2004, p.107-108). Portanto, o capital simbólico é um capital com base cognitiva, apoiado sobre o conhecimento e o reconhecimento (Bourdieu, 2004, p.150). É importante, portanto, articular a análise da transformação do campo ao capital simbólico, destacando a difusão, imposição e institucionalização de diferentes princípios de classificação, que são
gerados, adquiridos, descartados e/ou conservados pelos agentes sociais, individual e coletivamente.
Para Bourdieu (2004, p.172), o capital simbólico é comum a todos os membros de um grupo, instrumento e alvo de estratégias coletivas que visam conservá-lo ou ampliá-lo e de estratégias individuais que visam adquiri-lo ou conservá-lo. Toda essa dimensão e esse trabalho simbólico, que adquire grande importância no campo, remetem aos reconhecimentos e proximidades entre os diferentes agentes em presença, inclusive a partir das disposições, interesses e posições compartilhados:
(...) o trabalho simbólico de constituição ou de consagração necessário para criar um grupo unido (...) tem tanto mais oportunidades de ser bem-sucedido quanto mais os agentes sociais sobre os quais ele se exerce estejam inclinados – por sua proximidade no espaço das relações sociais e também graças às disposições e interesses associados a essas posições – a se reconhecerem mutuamente e a se reconhecerem em um mesmo projeto (político ou outro) (Bourdieu, 2004, p.50-51).
Nessa perspectiva, os habitus, que somente podem ser compreendidos enquanto gerados e situados em um campo, instituem sentimentos e percepções adequados para, tendencialmente, assegurar dinâmicas de integração, atos de reafirmação e de reforço que produzem criações continuadas e envolvem trabalho constante de manutenção de sentimentos, o que remete, por exemplo, às trocas/interações comuns e continuadas e as trocas/interações extraordinárias e solenes, que produzem e reproduzem sentimentos e adesão vital ao grupo e seus interesses (Bourdieu, 2004, p. 129-130). Porém, compreendendo-se os habitus como vinculados a setores do mundo, decorrem questões relacionadas ao que é compartilhado e ao que é diferenciado, ao que integra e até que ponto pode ir essa integração e consensualidade, como integra, e como são mantidas diferenciações, em dois sentidos; diferenciações de princípio e nas formas diversas de apropriação. Para ficar mais claro: como perceber os habitus e as disposições sociais em um cenário onde convivem diferentes matrizes e concepções de planejamento no campo?
Da mesma forma, sanções negativas também estão associadas aos habitus, entendidos em uma perspectiva não racionalista, constituindo lições brutais e/ou tácitas e quase imperceptíveis da existência cotidiana, tais como insinuações, reprovações, silêncios, evitações (Bourdieu, 2004, p. 151). Constituem-se também separações entre o sagrado e o profano, inclusive rituais associados às dinâmicas de pertencimento, legitimação e segregação. As classificações tornam-se atos de ordenação da vida social, instituindo distinções na forma de estatutos – uma relação de ordem definitiva, perene, que articula
membros de uma ordem enquanto um conjunto delimitado de pessoas separadas das outras pessoas, com legitimidade para dominar (Bourdieu, 2004, p.38). As dinâmicas de ordenação podem, portanto, assumem o sentido de consagração, entronização em uma categoria sagrada, uma nobreza (Bourdieu, 2004, p.38).
Compõe a análise perceber como esses mecanismos de ordenação da vida social estão presentes no campo do planejamento urbano e como se configuram através do pertencimento a uma instituição, das hierarquias existentes, da dimensão sagrada e mágica e do caráter profano, dos rituais, dos mecanismos de apadrinhamento, de sagração, dos vínculos e divisões entre a competência técnica e a função social, das barreiras e fronteiras invisíveis, dos canais de deslocamento e da busca de permanência e de ascensão no campo. O próprio Bourdieu (2004, p.44) faz referências às lutas permanentes por oportunidades de poder, posição e prestígio – sempre ameaçadas –, exigindo sistemas cerimoniais e posturas que pesam como fardos e produzem ressentimentos.