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Enunciado 1 – Tchau, querido!

5.5 Maio de 2016, enunciado-chave 5: "Sexta-feira 13"

Cenário nacional na época:

Em maio de 2016, Dunga escalou a seleção brasileira de futebol que iria disputar a Copa América Centenário, deixando Neymar de fora; Eduardo Cunha teve seu mandato de Deputado Federal suspenso por 11 votos a 0; no dia 12, Dilma foi afastada do seu mandato como presidente e Michel Temer fez o seu primeiro discurso como presidente em exercício.

Gráfico 6 – Charges de maio de 2016.

Fonte: Autoria própria.

No último mês analisado, Ivan produziu 11 charges, das quais oito tratavam de política, sendo sete as exclusivas sobre Dilma/impeachment. Devemos lembrar que o levantamento de dados finalizou no dia 13 e os números refletem apenas o período que essa pesquisa considerou.

As charges foram impressas no Novo Jornal e alimentaram o blog Sorriso Pensante. No Facebook, Ivan postou apenas a charge que utilizamos na análise do mês, intitulada "Sexta- feira 13".

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5.5.2 Apresentação do enunciado

Enunciado-chave 5 – Sexta-feira 13.

Fonte: Ivan Cabral. Disponível em: <http://www.ivancabral.com/2016/04/charge-do-dia-tchau- querido.html>. Acesso em 9 jul. 2017.

Michel Temer assume o cargo de presidente do Brasil no dia 13 de maio e Ivan ilustra o fato em uma charge sem texto, mas com muita carga enunciativa. O dia 13 de maio caiu em uma sexta-feira e, no Brasil, a combinação da data com o dia da semana é conhecida como azarada, em que bruxos estão à solta e as coisas tendem a dar errado.

Utilizando do conhecimento folclórico envolvendo o dia, Ivan ilustrou o novo presidente centralizado no enunciado com o plano de fundo composto por cores frias e escuras, criando um ambiente sombrio.

O Michel retratado por Ivan é um homem de traços sérios, porém carregando um leve sorriso que beira a inocência com um pouco de felicidade. A caricatura do novo presidente tem nariz afilado e bem vertical, sobrancelhas marcantes, rugas da idade no rosto, cabelos grisalhos e bem penteados. Há um queixo curto, porém, protuberante com uma leve "papada" abaixo do rosto e dos olhos; Temer está vestido com um paletó azul – traje típico de políticos do sexo masculino – e uma gravata vermelha, destoando de toda a composição de cores da charge. Os braços do personagem estão para trás, escondendo as mãos nas costas, simbolizando uma

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posição defensiva. Descendo a partir do ombro direito, há um cinto grosso com uma marcante fivela no local onde deveria estar a faixa presidencial, símbolo que representa a posse do cargo no Brasil. A substituição da suave faixa por um cinto aparentemente resistente transmite a ideia de que o novo presidente assumiu o cargo "à força" e que, agora, estava garantido na posição. Os olhos de Temer miram o leitor, encarando-o diretamente.

Sobre os ombros do novo presidente há um gato preto, outro elemento que simboliza o azar e também está diretamente ligado à sexta-feira 13. O gato tem as patas traseiras sobre o ombro esquerdo e as dianteiras sobre o direito e, passando por trás da cabeça de Michel Temer, o "felino azarado" também contempla o leitor. Com o gato nessa posição, o chargista repassa a ideia de que era o azar que estava por trás da presidência de Temer, além de que, para ele, esse azar estaria, agora, com a população brasileira.

5.5.3 Embates dialógicos

A última charge analisada nesta pesquisa é a primeira que Ivan faz de Michel Temer como presidente do Brasil (embora que ainda em exercício, porém confirmado meses depois). O enunciado gerou 150 reações clicáveis no Facebook, além de 37 compartilhamentos e oito comentários.

O chargista polemizou veladamente sobre o final do mandato de Dilma e a ascensão de Temer ao poder, criticando com sutileza enunciativa, porém carregada de valoração.

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Enunciados-resposta 8.

Fonte: Facebook.

Os leitores iniciaram os embates responsivos com polêmicas veladas sobre o enunciado. Freire diz: "coitado do gatinho!!", revelando pena do animal por estar perto de Michel Temer. Mir segue a mesma linha de raciocínio e protege o felino por estar associado ao novo presidente, porém deixa uma dúvida se a sua crítica está direcionada ao chargista por referir-se ao gato preto como azarento. Oliveira (um outro Oliveira, diferente do presente nos embates dialógicos dos enunciados-chave 1, 2 e 4) elogia Ivan com um "perfeito!".

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Outra polêmica velada surge logo após, porém apoiando o novo presidente. Ákila afirma que "não há o que Temer". O uso do "temer" como verbo mostra que o leitor explica para o chargista que não há motivos para ter medo da gestão do novo presidente e reforça isso quando transforma o verbo em sujeito, grafando-o com a primeira letra maiúscula, transformando "temer" em Temer, sobrenome de Michel.

O leitor Dias traz uma polêmica aberta, afirmando que ele (Temer) vai trair o gato, apontando que o novo presidente é capaz disso após fazer o mesmo com Dilma, antiga aliada política que chegou ao cargo junto a ele.

Silva, comentando como se fosse o gato ilustrado no ombro de Michel Temer, faz sua crítica veladamente: "Oh não, um Temer cruzou o meu caminho!!! 180 dias d azar!!! [sic]". Aludindo à falta de sorte que o gato teria em estar próximo a ele. Os 180 dias aos quais a leitora se referiu em seu enunciado referem-se ao tempo em que Michel estaria como presidente temporário enquanto a presidente afastada poderia defender-se e voltar ao cargo, provavelmente em uma demonstração de esperança do retorno de Dilma Rousseff.

Gomes parabeniza Ivan pelo enunciado e tenta explicá-lo quando diz que o azar esteve em descobrir "um traidor que se acha mais esperto que um gado" (provavelmente o leitor se referia ao gato mas digitou errado), polemizando abertamente. Paiva finaliza a onda de respostas com uma gargalhada grafada pela letra "k" repetida.

Alguns enunciados apresentam uma quantidade maior de respostas, pois o nível de polêmica que gira em torno do acontecimento que serve como base para a produção da charge direciona a proporcionalidade da quantidade de respostas recebidas pelo enunciado. Embora haja, em outros momentos, uma pequena quantidade de respostas nos enunciados, isso não interfere na análise dos resultados e tampouco reduz a importância da intensidade enunciativa dos embates que surgem, pois, como já dito, em uma análise social os detalhes que compõem essas respostas são mais importantes do que a quantidade em que elas aparecem. Seja em muitas ou em poucas respostas, observamos que os enunciados chargísticos sempre buscam um leitor e esses, quando encontram um meio para externar as suas respostas, o fazem com afinco.

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6 ACABAMENTO FINAL

As charges quebram a linearidade por natureza, inicialmente por marcar presença em meios nos quais o padrão é composto por textos escritos e, obviamente, pelas características do gênero, de criticar, opinar e convidar “o outro” para o embate.

Como os enunciados chargísticos buscam esse outro ativamente, exigindo um resgate de experiências e conhecimento de mundo para que haja responsividade e, após a compreensão do discurso, iniciar o embate dialógico, é notável que elas – as charges – sejam um gênero com um grande potencial enunciativo e responsivo.

Em um meio digital em que existem inúmeros canais para veiculação, assim como para respostas, um gênero como a charge tem um grande palco para embates dialógicos. Seria confortável para os leitores contrários à opinião de Ivan Cabral que deixassem de segui-lo ou não se posicionassem em relação aos seus enunciados, mas como a responsividade do gênero é alta, esses leitores, além de naturalmente responderem ao discurso, externam suas respostas, preferindo o embate. Muitos desses "leitores-responsivos" são ainda reincidentes, retornando ao embate a cada novo enunciado. Assim, na internet, a charge encontrou um novo meio que modifica a forma com que os leitores lidavam com o gênero.

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Um dos pontos que faz com que haja uma alta responsividade das charges é o fato de que elas são enunciados concretos, construídos e baseados na realidade vivida por leitores e chargista, inseridos em contextos reais (e atuais) que aproximam ainda mais o público leitor.

Para fins de pesquisa, necessitamos restringir o corpus da análise nas charges de Ivan Cabral, porém a escolha de charges com uma grande carga de embates serviu para mostrar que a responsividade existe em todo enunciado e, agora, com o avanço das redes sociais e da internet, que possibilitam uma interatividade ainda maior, essas respostas vêm à tona com muito mais facilidade.

Os enunciados que apresentamos eram, naturalmente, compostos de vozes desconcertantes, como representantes das forças centrífugas apresentadas por Bakhtin, assim como as vozes presentes nos embates que surgiram nas análises, algumas com a característica centralizadora das forças centrípetas (em relação aos enunciados produzidos por Ivan quando de acordo com eles) mas, em sua maioria, ainda mais desestabilizadoras quando o embate estava entre chargista e leitor com posicionamento ideológico antagônico.

Enquanto a charge traz, naturalmente, a polêmica revestida de técnicas que a tornem velada, os embates, que inicialmente surgem da mesma maneira, passam a ser mais claros e abertos, fazendo com que o sentido da palavra “diálogo” fique ainda mais distante do uso comum, passando de uma relação apaziguadora a um embate entre duas ou mais vozes.

Como visto durante a pesquisa, baseando-se nas teorias bakhtinianas de heterodiscursividade e relações dialógicas, os discursos não podem ser construídos isoladamente (principalmente, os produzidos com a fôrma composicional do gênero charge). O discurso chargístico é carregado de repertórios e de saberes pertencentes ao enunciador que os constituiu em suas experiências, direcionado a um leitor que também tem suas experiências e vivências e vai utilizá-las para compreender e, necessariamente, responder ao enunciado (por mais que não externe essa resposta). Para resgatar o repertório do leitor e fazer com que o enunciado seja compreendido, o chargista insere a sua fala em um contexto que seja comum à sua plateia; assim, nos enunciados que analisamos, podemos encontrar inúmeras situações do cotidiano, palco onde as charges vivem.

Todos os cinco enunciados analisados trazem elementos comuns para construção de sentido, contextualizando o que acontecia à época e ilustrando os acontecimentos, carregados com a ideologia do chargista Ivan Cabral. A ideologia (no caso, política) foi empregada em todos os enunciados, assim como em seus enunciados-resposta, pois não há discurso neutro, não há discurso sem ideologia, e ela se apresenta naturalmente nos enunciados.

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O simples ato de fazer uma escolha lexical para se referir a alguma situação já faz o enunciador denunciar a qual "círculo ideológico" pertence; a sua articulação enunciativa também aponta qual o direcionamento de seu pensamento crítico.

As charges analisadas estavam alinhadas aos acontecimentos de um país politicamente desestabilizado, com uma visível segregação dos lados opostos que conflitavam sobre o assunto. Nos embates dessas charges, vimos leitores-enunciadores divergindo ideologicamente e necessitando deixar registrado o seu posicionamento, a sua resposta e o seu ataque àquilo que lhe era estranho, que não condizia com a sua opinião, da mesma forma que o apoio e o suporte àqueles que lhes eram coerentes no raciocínio.

Em muitos casos, como nos enunciados-resposta 1, 2 e 7, esses embates ficaram mais claros entre os leitores das charges, quando a troca de enunciados estava visivelmente entre opostos que tentavam refutar o outro a cada articulação.

Essas polêmicas enunciativas surgiam veladamente e ganhavam abertura de acordo com as réplicas que surgiam, deixando evidente o que o enunciador desejava desde o início. Da mesma forma aconteceu com os enunciados produzidos por Ivan: no primeiro que analisamos (enunciado-chave 1, Gato Pingado), a polêmica trazida pelo chargista surge velada, sugerindo uma neutralidade enquanto ele questionava a baixa participação nos protestos por meio de um gato humanizado, não deixando tão claro qual o seu "alvo", podendo ser apenas uma crítica aos manifestantes que haviam deixado de lado a luta pela corrupção no país. No último enunciado analisado (enunciado-chave 5, Sexta-feira 13) temos também um outro gato na cena enunciativa, desta vez em sua forma animalesca, porém deixando mais claro o seu posicionamento: criticar o novo presidente.

Vimos, com essa pesquisa, que a charge é um gênero discursivo de fato, composta de enunciados concretos que, para existirem, necessariamente são ancorados à realidade. Isso faz com que haja uma necessidade responsiva muito grande em relação a outros gêneros, pois para ser compreendida exige um alinhamento entre o autor, o leitor e o meio onde foi concebida. Concluímos também que a carga construtiva dos enunciados chargísticos (assim como suas respostas) evolui de acordo com o tema ao qual está se referindo, compartilhando das tensões que o cercam. No nosso recorte temporal para a pesquisa, estávamos situados em um país dividido politicamente, com embates constantes e severos – fossem em articulações políticas ou fossem nas ruas – e, nas charges que analisamos, vimos a mesma intensidade, porém, trocando os votos das plenárias e os gritos das avenidas pelas palavras e enunciados construídos e expostos nas páginas eletrônicas da internet.

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Pensar a charge sem pensar em resposta é tão difícil quanto pensar em enfrentamentos ideológicos envolvendo política sem embates polêmicos e vozes conflitantes.

Esta pesquisa traz a atenção a um gênero discursivo naturalmente complexo, que tem uma construção híbrida, trazendo imagem, texto, vozes distintas que se misturam, brevidade construtiva, curto prazo de validade, humor e arte; um gênero que busca o outro por meio do ataque e que, em um mundo cada vez mais digital, esse outro retorna ao enunciado com suas respostas das mais variadas formas possíveis. Assim, vemos que a responsividade da charge, além de ser inerente ao gênero, se torna muito mais ativa quando há um canal para que essas respostas sejam expostas e, quando o meio em que o enunciado é concebido está repleto de ideias antagônicas e conflitantes, elas acompanham o tom, surgem rapidamente e trazem uma carga acentuada com ideologias favoráveis ou inversas, assim como as charges que as motivam.