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Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Barbosa Moreira Lima*

Em primeiro lugar, em minhas considerações iniciais, desejo dizer da grande honra de estar aqui presente, nessa sala, de história oral, para registrar o meu depoimento para a posteridade. Alguém vai tomar conhecimento dele e se interessar pela história do 1o Grupo de Aviação de Caça.

Como veículo de comunicação do 1o Grupo de Caça, cito o livro Senta a Pua, que a BIBLIEX publicou para minha grande alegria. Fui honrado com a confecção de 43 mil exemplares na 1a edição.

A 2a edição, da qual exibo um exemplar, o Instituto Histórico-Cultural da Aero-náutica, o nosso INCAER, foi quem fez. Por que a 2a edição? Porque anos depois, o Grupo de Caça recebeu a Medalha Presidencial do Governo dos Estados Unidos da América, com a aprovação do Congresso norte-americano, condecoração que, em in-glês, denomina-se de Presidential Unit Citation. Essa comenda nos foi outorgada 41 anos depois. Por que 41 anos depois? Porque, na fase final da guerra, o nosso Grupo de Caça, Esquadrão na organização americana, contando apenas com 22 pilotos, realizou 44 surtidas por dia, ou seja, quarenta e quatro vôos para atacar o inimigo diariamente, o que significa a impressionante média de dois ataques por dia por piloto.

Lembro-me que, antes da Ofensiva da Primavera – 4de abril a 2 de maio de 1945 – o Comandante do 350o Grupo de Caça americano, que possuía três Esquadrões e mais o nosso, que era o 1o Esquadrão de Caça Brasileiro – 1st Brazilian Fighter Squadron – reuniu os Comandantes dos quatro Esquadrões e declarou: “Nós vamos fazer, agora, o esforço máximo na Ofensiva da Primavera. Para tanto, recebemos ordens do Comando Superior para que cada Esquadrão voe 44 surtidas diárias e você, Coronel Nero, que, no momento, somente tem 22 pilotos em seu efetivo, e seus homens, que já chegaram ao limite da resistência humana, proponho que parem de voar. Considerando que o “350o” dispõe de cerca de noventa pilotos de recompleta-mento em Nápoles, prontos para o combate, gostaria que você considerasse a possi-bilidade do meu Grupo poder usá-los durante o esforço máximo na Ofensiva da Primavera, voando os aviões brasileiros e, se possível, contando com a colaboração de alguns homens de apoio do 1st Brazilian Fighter Squadron.

De imediato, Nero Moura, ponderadamente, dentro de sua característica de de-cidir com rapidez, disse: “Coronel Nielsen, vou consultar os meus pilotos. Todos eles são voluntários, como eu, tenho o dever de ouvi-los antes.” E foi. Em uma reunião-relâmpago conosco, menos de 15 minutos, respondemos, por decisão unânime: “Va-mos voar até o fim, não importa que seja uma, duas ou até três missões diárias. O Brasil não vai fechar a porta do Grupo de Caça por falta de gente. A missão será cumprida.” Ele voltou, repetiu o que ouvira de nós e o Coronel Nielsen, que já deveria estar esperando por essa resposta, sem mais ponderações, encerrou o assunto. Os

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pilotos brasileiros voaram nesse final da guerra – de 4 de abril até o dia 2 de maio, quando findaram as operações bélicas na Itália – algumas vezes até três missões por dia. É importante observar que nem sempre havia 22 pilotos disponíveis, considerando que, nessa fase, tivemos dois companheiros mortos em combate, um prisioneiro de guerra e mais dois abatidos que saltaram de pára-quedas atrás das linhas inglesas.

Para que não haja dúvida sobre a atuação do 1o Grupo de Aviação de Caça e seus remanescentes 22 pilotos que se engajaram na batalha da Ofensiva da Primave-ra, farei um resumo das baixas que sofremos naquele período. Nosso maior inimigo foi a Artilharia Antiaérea dos alemães. O recuo ou retirada dos alemães fez com que aumentasse a concentração de fogos contra seu inimigo maior – a aviação de ataque aliada. Tivemos duas perdas fatais: a do Santos, no dia 13, e a do Dorneles, em 26 de abril, aumentada com mais um prisioneiro de guerra, o Coelho, no dia 22, cuja história é boa, porque ele acabou se tornando Comandante de um hospital alemão. Deixamos, ainda, de contar por alguns dias com mais quatro pilotos: dois que salta-ram de pára-quedas, o Armando, creio que no dia 9, e o Goulart, no dia 30, recolhi-dos nas linhas inglesas por uma de suas patrulhas, além do Pessoa Ramos e do Menezes, feridos em combate. Vários companheiros tiveram seus P-47 atingidos, inclusive o meu D-4, que perdeu metade do profundor no dia 23.

Tudo isso que foi narrado acabou sendo reconhecido pelo Governo americano, 41 anos depois, através de um fato concreto, a concessão da comenda – Presidencial Unit Citacion – proposta em 17 de maio de 1945 e a nós entregue em 22 de abril de 1986, na Base Aérea de Santa Cruz, com a presença de dez generais da USAF, do Secretário da Força Aérea dos EUA, representando o Presidente Reagan, do Presiden-te Sarney e de uma dezena de vePresiden-teranos do “350o”.

Ainda sobre a Ofensiva da Primavera, registro um fato que revela o grau de eficiência de nossa Unidade. A Esquadrilha Azul, sob o comando do Capitão Horacio Monteiro Machado, encontrou uma coluna de tanques americanos, que abrira uma brecha nas linhas alemãs, entrando fundo no território inimigo. Quando ia iniciar o ataque, identificou-a e imediatamente comunicou o fato ao Centro de Controle de Radar (CCR). Descreveu os tanques como alaranjados com uma estrela americana, detalhando o número de tanques e onde se encontravam. Assim mesmo recebeu ordem para atacá-los, alegando o CCR que ele estava equivocado, pois o que desco-brira era uma coluna inimiga. E veio a ordem: “Atacar!” Horacio retrucou: “Negativo, não vou atacar, porque são americanos.”

Diante da recusa, o CCR o pôs em contato com o próprio Comandante do 350o, que lhe ordenou: “Pode atacar, não há notícia de americanos nessa área. Ataque!”. Ele respondeu: “Negativo, são tanques americanos.”

A essa altura foram consultar Florença, onde se encontrava o General Thomas Darcy, Comandante do XXII Comando Aerotático. O General falou diretamente com Horacio e sem mais preâmbulos disse: “Aí não tem americano. Está aqui comigo o Comandante dos nossos blindados. Quero que ataque os tanques agora.” Horacio respondeu: “Então, o Senhor vai me prender porque eu não vou atacar.” “Está bem, conversaremos mais tarde.” Realmente, pouco tempo depois, os tanques foram iden-tificados como americanos.

Por causa desse incidente, nós passamos, já na fase final da guerra, a ser sempre consultados pelos americanos antes que se modificasse a “Linha de Bombar-deio”, a Bomb Line, a linha que definia a terra de ninguém. Nosso prestígio cresceu entre os companheiros da Força Aérea Aliada no Teatro de Operações do Mediterrâ-neo. Registro aqui que a previsão de perda de pilotos em um Esquadrão de Caça era de três por mês, estatística de guerra americana, que se mostrou bastante real. O piloto tanto podia morrer em combate, como cair prisioneiro, como sofrer um aci-dente, como saltar de pára-quedas e não conseguir, de imediato, retornar às nossas linhas, mantendo-se na situação de fugitivo, além do sério problema causado pela estafa aérea. Foi uma aritmética cruel, a perda média de três pilotos por mês, no 1o

Grupo de Caça. Justamente por não havermos recebido substitutos suficientes, ini-ciamos o mês de abril com 22 pilotos.

Representa, pois, grande distinção para a Força Aérea Brasileira, especialmen-te para o 1o Grupo de Caça, haver recebido essa comenda, quando se sabe que apenas três unidades estrangeiras tiveram o privilégio dessa exceção – o nosso “Senta a Pua” e dois Esquadrões da RAF australiana.

Para encerrar, devo dizer que no processo da proposição da comenda, cons-tante de 48 documentos, destaco o seguinte: Durante o período de 6 a 29 de abril de 1945, o 1o Grupo de Aviação de Caça voou 5% das surtidas executadas pelo XXII Comando Aerotático e, no entanto, dos resultados obtidos por este Comando, foram oficialmente atribuídos aos brasileiros 15% dos veículos motorizados destruídos, 28% das pontes destruídas, 36% dos depósitos de combustíveis danificados e 85% dos depósitos de munições danificados.

O presente texto foi lido pelo representante do Presidente Reagan – Sr. Edward Aldridg Jr – Secretário da Força Aérea dos EUA, durante a cerimônia de 22 de abril de 1986, em que nossa Unidade foi condecorada, na Base Aérea de Santa Cruz. Esperamos 41 anos por esse reconhecimento. Valeu. Em tempo, em 1988, no dia 10 de junho, o Gen Ariel C. Nielsen inaugurou um monumento no Museu da Força Aérea dos EUA, em homenagem aos nossos companheiros do “350o”, onde incluiu o 1st Brazilian Fighter Squadron, citando-o como aliado na conquista da vitória final e destacando, também

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no bronze, aqueles 85% de depósitos de munição creditados aos brasileiros. O Museu citado está localizado em Dayton, Ohio, na terra dos Irmãos Wright, que reivindicam a primazia do primeiro vôo do mais pesado que o ar. Glória a Santos Dumont, este sim, ainda hoje – até quando? – reconhecido como o Pai da Aviação.

Após essas considerações sobre o nosso 1o Grupo de Caça, que oferecem uma primeira idéia do que ele representou e representa para a Força Aérea, vou relatar o meu ingresso nessa Unidade. Quando me formei, em 1942, na Escola de Aeronáutica dos Afonsos, fui designado, como Aspirante, para instrutor de vôo da Escola, mas sempre querendo ir para o Nordeste, porque lá estavam os aviões de guerra – o P-40, o Hudson, B-25 e outros – e também porque para nós aviadores era lá o local mais próximo da guerra.

A motivação para eu ser voluntário a fim de lutar contra o nazi-fascismo nasceu, a partir de 1934, em minha terra, São Luiz, Maranhão, onde existia uma grande quantidade de estudantes e intelectuais integralistas, organização política paramilitar radical; com eles, não tinha conversa, quem fosse contra às suas idéias, “o pau comia”; eles davam pancada e brigavam para valer. Levei muita corrida e também dei muita corrida; a pancadaria comia solta, de lá para cá e daqui para lá. Cheguei ao Rio em fevereiro de 1937 e nessa época o Presidente Vargas im-plantou o Estado Novo no Brasil. Era a ditadura onde se destacaram na repressão o Cel Felinto Müller, o Inspetor Borer e o Comandante Queiroz. Os integralistas tenta-ram depor Getúlio, em 1938. Fotenta-ram vencidos. Seu chefe Plínio Salgado recolheu-se. Nessa ocasião, houve um acirramento de ânimos muito grande, sobretudo no bairro do Flamengo, paraíso dos estudantes, onde havia gente de todas as ideologias. Morei na Rua do Catete, perto da Faculdade de Direito. Não havia dia em que não se constatasse a presença da famigerada Polícia Especial – os bonés vermelhos do Cmt Queiroz – prendendo e dando pancada nos estudantes.

Criei-me no Maranhão sob a orientação de meu pai, que foi Juiz e mais tarde Desembargador, para quem a lei era tudo. Embora não haja tempo para falar dele, creio que ele merecia, aqui, uma citação. Foi Juiz de verdade e, como cida-dão, um defensor intransigente da soberania do Brasil. Lutou pelo monopólio estatal do petróleo anos a fio; sete juízes brasileiros não se omitiram nessa luta. Ele é citado nominalmente no livro O Petróleo é Nosso, da Dra Maria Augusta Tibiriçá, junto com Osni Duarte Pereira, grande jurisconsulto e escritor consagra-do, com dezenas de livros sobre temas brasileiros, e mais cinco juízes, espalhados por nosso País. Foram, portanto, apenas sete juízes que, no Brasil, se engajaram na defesa do monopólio estatal do petróleo. O curioso é que, como Capitão, muitas vezes conversamos sobre a Petrobras, mas nunca soube que sua posição fora tão

destacada nessa luta. Meu pai tinha uma boa formação jurídica e dele recebi uma carta quando ingressei na Escola do Realengo que vou ler para você. Esta carta se tornou o vade-mecum de minha vida militar.

“Caxias, Maranhão, 31 de março de 1931 Rui

És cadete, amanhã, depois, mais tarde... general. Agora deves dobrar os teus esforços, estudar muito... Obediência aos teus superiores, lealdade aos teus compa-nheiros, dignidade no desempenho do que te for confiado, atitudes justas e nunca arbitrárias. Sê um patriota verdadeiro e não te esqueças de que a força somente deve ser empregada ao serviço do Direito. O povo desarmado merece o respeito das Forças Armadas. Estas não devem esquecer que é este povo que deve inspirá-las nos momen-tos graves e decisivos. Nos momenmomen-tos de loucura coletiva deves ser prudente, não atentando contra a vida dos teus concidadãos. O soldado não pode ser covarde e nem fanfarrão. A honra é para ele um imperativo e nunca deve ser mal compreendida. O soldado não conspira contra as instituições pelas quais jurou fidelidade. Se o fizer, trai os seus companheiros e pode desgraçar a nação. O soldado nunca deve ser um delator, se não quando isso importar em salvação da Pátria. Espionar os companhei-ros, denunciá-los, visando interesses próprios, é infâmia, e o soldado deve ser digno. Aí estão meus pontos de vista.

Deus te abençoe Bento Moreira Lima”

Depois dessas palavras sobre meu pai, vou dizer-lhes como ingressei no 1o

Grupo de Aviação de Caça.

Quando estava em trânsito na Base Aérea de Natal, saiu um “zumzumzum” entre os oficiais durante o almoço. “O que é que está havendo aí?” “É Secreto!”, responderam. “Secreto, mas eu estou aqui, e quero saber o que é que há?” “É para dar o nome como voluntário para o Grupo de Caça.” Então, fui ao Comandante da Base de Natal e lhe disse que também era voluntário. Ele, inicialmente, não queria aceitar a minha inscrição, porque eu servia na Bahia. Mas, depois de ouvir meus argumentos, concordou que eu passasse um rádio cifrado para o Major Geraldo Guia de Aquino, meu comandante na Base Aérea de Salvador. Isso aconteceu em 16 de outubro de 1943, ou seja, dez dias antes do meu casamento, que se realizou a 26, no Rio de Janeiro. Aí está como eu fui parar no 1o Grupo de Aviação de Caça.

Nero Moura foi indicado para comandar a Unidade e adotou o critério do voluntariado para recrutar seus subordinados. De posse da relação de voluntários,

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escolheu, entre eles, os seus Comandantes de Esquadrilha, dentre os quais existia um tenente que, somente dois meses depois, foi promovido a capitão – o Lagares, que servia na Base Aérea do Recife. Nunca o tinha visto antes e ele me conhecia por saber que eu fazia acrobacias a baixa altura e outras manobras arriscadas. Como ele fazia o mesmo em Recife, me escolheu para ser o seu ala na guerra.

O Lagares foi um dos 32 homens-chave do Grupo, pertencente à primeira turma que iria para Orlando. Quando ele passou pela Bahia rumo ao exterior, per-guntou ao Major Aquino: “Quem é o Tenente Rui?” “É aquele cara ali.” “Vem cá rapaz, você está na minha Esquadrilha!” E eu disse: “Que Esquadrilha? Quem é o Senhor?” “Eu sou o Tenente Lagares.” “Quer dizer que vai sair mesmo o Grupo de Caça?” Quatro meses depois nos encontramos na Base Aérea de Aguadulce e inicia-mos nosso treinamento de piloto de caça.

Tivemos a sorte de ter à frente do treinamento o Capitão de West Point Gabriel P. Disosway, comissionado no posto de Coronel, designado para comandar o 30o

Grupo de Caça, Unidade responsável pela instrução do 1o Grupo de Aviação de Caça no Panamá. Disosway era um líder e a ele como Instrutor e a Nero Moura como Comandante o Grupo de Caça muito deve, inclusive o lugar que conseguiu ocupar na Campanha da Itália. Não foi por outro motivo que o designaram para preparar-nos para o combate. Depois do Panamá, acompanhou-nos para a Base Aérea de Suffolk, em Nova York, mantendo sempre a mesma postura. Foi sempre exigente e justo. Até o último dia de instrução não deixou de repetir: “Esta é a última oportunidade de aprender que vocês ainda têm antes de entrar em combate. Aproveitem-na.” Era duro e não aceitava desculpas se alguém errasse em uma manobra crítica, mas, no entanto, era afável e humano no trato, nas horas de lazer. Seus oficiais instrutores, às vezes, exigiam um pouco mais da conta. Certo dia, terminamos exaustos a instru-ção de Alerta no Solo em Aguadulce – operainstru-ção real com os aviões armados e prontos para o combate – após várias decolagens e interceptações de alvos que cruzaram o espaço aéreo da Zona de Defesa do Canal do Panamá – os alvos referidos eram aviões em trânsito, que vinham dos EUA com destino a Natal por exemplo. No final da tarde, como dissemos, todos nós cansados – Lagares, Assis, Meira, eu e o instrutor – este resolveu fazer um treinamento de tiro de pistola 45. Após o exercício em que ele se classificou em último, ordenou – ele não pedia, ordenava – que limpássemos as armas. Ponderamos que as limparíamos na barraca. “Quero agora.” Com isso, pedi ao Lagares que lhe dissesse que a 45 era de minha propriedade e que eu a limparia quando quisesse. Foi o bastante para ele aumentar a voz e levantar o dedo acima de meu nariz. Segurei seu dedo e torci um pouco. Andou uns dias com o dedo enfaixado. O fato gerou uma má vontade entre nós que permaneceu até o fim do curso.

No final do curso, tornei a me indispor com o mesmo instrutor. Em várias ocasiões nós nos desentendemos durante as instruções. Eu dizia abertamente para que ele soubesse que eu não estava interessado em aprender inglês, meu objetivo era aprender a guerrear contra o alemão. Pensamento errado de um jovem tenente mal orientado. Durante o Curso percebi que, se não aprendesse a falar inglês, não poderia ser Comandante de Esquadrilha em combate, pois a língua oficial era o inglês, os controles de comunicação eram em inglês e se não falasse a língua não podia fazer nada. A culpa da minha resistência em aprender a língua eu credito a esse instrutor. No final do Curso, com o Diploma de Piloto de Caça na mão, resolvi brigar com ele. Fui ao Cel Nero Moura e perguntei-lhe: “Coronel Nero, o fulano me perturbou o Curso todo, se eu brigar com ele o que me acontecerá?” “Você vai preso, vou lhe tirar a diária de vôo.” “Mas não vai me mandar para o Brasil?” “Não, você vai ficar conosco.”

Deixei o Coronel Nero, chamei o Torres e pedi: “Avisa ao fulano que eu quero brigar com ele.” Acho que ele pensou que eu não ia brigar, porque na verdade não havia motivo. Era uma imbecilidade de minha parte. Quando ele se levantou para me enfrentar, erguendo os braços à frente do rosto, naquela atitude de lutador, meti-lhe um soco entre os braços, atingindo o seu nariz, que começou a sangrar. Em conseqüência, o Cel Nero determinou: “Recolha-se preso ao seu alojamento.” Nesse instante, chega o Cel Disosway: “O que é que houve?” “O Lima brigou e o Nero está bravo?” “Oh, Nero, americano gosta de brigar, isso é natural, você não conhece esse troço, aqui todo mundo briga. Não, não vai prender o garoto, não.” E, pela sua intervenção, eu não fui preso. Mais tarde, lá em Cannes, depois do dia 8 de maio de 1945, eu e ele nos encontramos, tomamos um porre juntos e fizemos as pazes definitivamente.

Quanto ao relacionamento com o Coronel Nero Moura, devo dizer que, quando ele chegou ao Panamá, era Major e foi logo promovido a Tenente-Coronel. O seu Oficial de Operações, Capitão Pamplona, o número dois dele, tinha vindo da Marinha e havia sido, também, Ajudante-de-ordens de Getúlio Vargas. Ele propôs ao então Maj Nero: “Vamos adotar aqui o sistema da Marinha; você é o Comandante e eu fico sendo seu Imediato, fico com todos os embates, todos as conversas com os subordi-nados, prisões, todas essas providências de natureza administrativa e fica preserva-da a imagem do Comanpreserva-dante.” “Está bem Pamplona, vamos tentar.” Com isso, ele se afastou de nós, ficou num trono, mas não passou uma semana em tais condições. Ele percebeu que algo estava errado com a sua maneira de comandar. Afinal, sua origem era o Colégio Militar, a Escola Militar do Realengo, o Exército e a Força Aérea.