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“[…] Açores, território e realidade singular no espaço de raiz e invenção portuguesas a que os séculos, a distância e os homens imprimem uma identidade particular […]”

(Eduardo Lourenço)

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The Whaling Industry Museum, the Whalers Museum and the Wine Museum are the three branches held by Pico Museum. Their goals are to revisit and interpret the main activities of this community, preserving its memory and enhancing its singularity.

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Na ilha do Pico, no Arquipélago dos Açores, em pleno Atlântico Norte, moram três museus especiais, e absolutamente singulares.

Nesta ilha em que a ambivalência terra-mar tem a sua maior expressão, dois deles – o Museu dos Baleeiros, na vila das Lajes, e o Museu da Indústria Baleeira, na vila de São Roque – ocupam-se da pesca da baleia e da indústria baleeira insular. O Museu do Vinho, na vila da Madalena, dedica-se à história da vinha e do vinho do Pico, com particular incidência para a história do Vinho Verdelho.

Plantados no chão da ilha, e sentados sobre os vulcões, estes museus condensam e reproduzem a dimensão magnética, telúrica, estética e poética da paisagem natural e cultural. Esse poder mágico e feiticeiro dos lugares, e essa espécie de quebranto, conferem-lhes uma fisionomia, uma personalidade, e uma alma muito próprias. Aqui, os museus transformam-se em caixas de ressonância de uma certa essência insubornável da ilha e do Arquipélago. Celebram a açorianidade, a portugalidade, o europeísmo e a atlanticidade que nos cabem por inteiro. Na bigorna do grande mar, convocam o perto e o longe, o dentro e o fora, o local e o mundo, o universalismo que nos corre nas veias.

Os museus, hoje, amanhã, e sempre, não podem, nunca, recusar a humanidade que lhes está na massa do sangue. Em permanente necessidade de recuperação, de readaptação, e de reimaginação, não devem transformar-se em coisas artificiais, em meras construções cénicas ao serviço da indústria turística e do entretenimento global.

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Precisam de ser sempre búzios, amplificadores das histórias, das memórias, das atmosferas, dos universos, dos imaginários, das iconografias, e das mitografias dos lugares e das gentes que interpretam, explicam e dão a conhecer. Como verdadeiros guardadores do tempo, devem empenhar-se na decifração e na compreensão da memória coletiva. É esse o seu conduto essencial.

Memória que recusa todas as formas elitistas e classistas de exclusão social e cultural. Memória que, sendo conhecimento, não pode ser uma forma de poder ou de sujeição. Antes, uma ferramenta inclusiva, ao serviço da liberdade e da aproximação entre povos, culturas e gentes. Precisamos muito, neste tempo, e num mundo que parece já não ser deste mundo, de museus que prossigam afincadamente esta humanização e democratização da memória.

Devem os museus, em permanente tensão dialética, repensar-se, por fora e por dentro, sem recusar a mudança que os tempos novos sempre trazem. Combatendo, com lucidez, espírito crítico, criatividade e imaginação, a fossilização e a estagnação. Precisam de estar vivos e vigilantes.

Em democracia, em liberdade, num Estado de Direito, os museus não podem ser escravos de uma visão capitalista, global e totalitária da memória. Devem ajudar a interpretar os territórios e as comunidades onde estão inseridos. Incorporando o contributo, livre e crítico, dos cidadãos.

Projetando a comunidade e permitindo que esta se possa rever nos seus museus.

Figura 1. Museu da Indústria Baleeira

Mas é igualmente necessário que os museus nos ajudem a interpretar e a compreender o mundo.

Que promovam o conhecimento e a imaginação que fascina, comove e apaixona. Que sejam sítios e espaços de enamoramento e de sedução. Lugares onde possamos sentir, convocar, celebrar e experimentar o magnetismo mágico-simbólico das vivências, da produção e da criação humanas.

Lugares de culto, de passagem obrigatória, de liturgia da nossa relação espiritual com a história e a memória. Locais que estimulem e aprofundem a humanização da vida. Santuários de liberdade, de igualdade, de justiça e de fraternidade. Panteões sagrados da alma do Povo.

No Museu do Pico percebemos, desde sempre, que precisávamos de trabalhar com todos.

Promovemos um diálogo estratégico com os vários serviços governamentais e com os municípios da ilha. Aproximámo-nos dos agentes turísticos. Em permanente diálogo, ajustámos mecanismos e procedimentos de procura e de funcionamento. Associámo-nos, em regime de parceria, apoio e colaboração, a várias entidades sociais e culturais: núcleos museológicos, espaços de memória, centros de interpretação, coletividades, agremiações e sociedades (casas do povo, filarmónicas, grupos corais, grupos de cantares, grupos folclóricos, grupos de teatro). Reforçámos a nossa ligação às escolas, às paróquias, às Santas Casas da Misericórdia. Colaborámos ativamente, e de

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forma absolutamente estratégica, na gestão e coordenação do projeto de recuperação e reutilização do património baleeiro móvel (42 botes baleeiros e 11 lanchas de reboque), levado a cabo nos Açores nos últimos anos. Um programa de patrimonialização que, pela sua dimensão, natureza e abrangência, deve ser visto como uma referência de sucesso e uma imagem de marca dos Açores, em Portugal e no Mundo. Fizemo-lo e fazêmo-lo, trabalhando em regime de proximidade.

Estimulámos e acompanhámos inúmeros projetos de investigação científica em torno da cultura da baleação e da cultura da vinha e do vinho. Regionais, nacionais e estrangeiros. Desenvolvemos, a partir do território, da comunidade e das nossas coleções, ações de identificação, estudo, preservação e divulgação do património imaterial dos Açores. Aproximámo-nos das populações. Resgatámos ofícios, profissões, saberes, experiências e técnicas tradicionais. Levantámos e contámos histórias de vida. Produzimos centenas de atividades culturais, muitas delas em colaboração estreita com os agentes culturais locais. Estabelecemos parcerias com os artesãos e as empresas de artesanato.

Acolhemos e apoiámos jornais, revistas, programas radiofónicos e televisivos, projetos fílmicos, iniciativas de investigação, de todo o mundo. Mantivemos e reforçámos a nossa relação com outros museus, nacionais e internacionais, trocando saberes, experiências e produtos culturais. A partir do que temos e do que somos, empenhámo-nos na afirmação da nossa imagem internacional e do papel que exercemos na história global da baleação e da vitivinicultura.

Figura 2. Museu do Vinho

Fomos capazes de, a partir de nós, com limitações e defeitos, construir um conceito de museu que se transformou numa imagem de marca no panorama museal e turístico da Região. Nenhum outro museu, como o Museu do Pico, ao longo dos anos, nos Açores, foi capaz de estabelecer uma relação medular, eficaz e proveitosa, entre a dimensão patrimonial e a dimensão turística. Poder-se-á mesmo falar de como, um pequeno museu, proveniente de um contexto profundamente rural, foi capaz de se assumir como uma ignição e uma força motriz das dinâmicas turísticas fundacionais da ilha do Pico.

Desde sempre liderámos a procura turística nos Açores. Em 2015 tivemos 40 118 visitantes. Em 2016 atingimos os 52 807. Crescemos, de novo, em 2017, de forma muito significativa, trazendo aos nossos museus 64 407 pessoas. Durante o ano de 2018 chegámos aos 65 103 visitantes. Em estado pandémico e num contexto fortemente restritivo, do ponto de vista da procura e da nossa relação intrínseca com o território e a comunidade, continuámos a dominar a procura museológica açoriana, atingindo, no ano de 2020, 16 165 visitantes, o que corresponde a cerca de 40% do todo regional. Longe, obviamente, dos surpreendentes 64 905 visitantes do ano de 2019.

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Figura 3. Museu dos Baleeiros

Nos museus do Pico convocamos e evocamos, no terreiro e no grande palco do mar, a voz, nua e crua, das mulheres e dos homens da ilha: os seus contrabandos originais, as suas fomes e medos ancestrais, as suas epopeias de sobrevivência, a sua vontade sísmica, a sua resiliência vulcânica, a sua necessária, indesejada e mítica heroicidade.

É aqui que mora o singular, o que é único. O que tem carácter e forte personalidade. É essa diferença, essa especificidade, sem redundâncias e mimetismos, que constitui, e há de sempre constituir, a nossa força e a nossa atratividade. Estamos vivos. Inquietos, por dentro e por fora. Lucidamente conscientes do papel que representamos na construção e na decifração da identidade cultural dos Açores. Preparados para todas as batalhas que hão de vir. Convictos de que a nossa voz é a Voz do Povo. A Voz da memória secular e coletiva que lhe está medularmente associada.

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