• Nenhum resultado encontrado

Ao se reconhecer um debate existente sobre o tema poder em uma contribuição específica no campo da teoria das organizações, precisa reconhecer que existe um diálogo entre as teorias. Dentre as contribuições analisadas, buscaram-se alguns dos principais autores – Foucault, Weber, Parsons e Arendt – para criar um guia conceitual, mesmo que sem a pretensão de contemplar todas as teorias existentes sobre o poder.

Poder segundo Lebrun (1984), pode ser uma potência que ocorre por força específica determinada por uma ordem, evidenciando a relação de dominação. Este poder é tecnicista, sofisticado e burocratizado, sua origem decorre das necessidades de conflito em resposta às forças coercitivas. Este conceito é hobbesiniano, pois segue uma relação ao estado de soberania, e que o poder dentro da lógica dominação-submissão em que ter poder para um significa o não ter poder para o outro. Lebrum (1984) ainda destaca que elemento principal é o medo, e a certeza todos temem o mesmo elemento, o medo que busca superar-se.

Em contraposição a este conceito como soberania, criticando a noção que vem de um sujeito originário cuja vontade é poder, Foucault (2000) considera poder como um conjunto de relações dentro de estruturas sociais, em que não se encontra na díade submissão-dominação. Portanto, para Foucault (2000, p. 51), “há de se tomar o tríplice ponto de vista das técnicas, sua heterogeneidade e seus efeitos de submetimento, que fazem os procedimentos de dominação a trama efetiva das relações de poder e dos grandes aparatos de poder”. Para Moreira e Cecílio (2002) os dois conceitos apresentados não são excludentes, pois estão alocados em duas dimensões distintas, nas micros e macros relações, de formas explícitas e implícitas onde utilizam de dispositivos diferentes.

Foucault (1996) em sua proposta de estudo do poder, sugere campos específicos da realidade social, analisando as racionalidades, especialmente estratégias de resistências, contra as formas de dominação, submissão e exploração. Buscando, desta forma, além das relações com o socioeconômico, a subjetividade do indivíduo e sua consciência. Ainda existem as relações de

poder de formas intersubjetivas, de individuo para individuo, onde a construção de significados por meio de comunicação massificada, no simbolismo, ou na objetividade de formas da realidade social (FOUCAULT, 1996). Essas relações de poder não agem sobre suas ações, dependendo da relação dos graus de violência com graus de consentimento, havendo relação na díade entre poder e liberdade, sem a qual ele não pode se manter (MOREIRA e CECÍLIO, 2002). Com isso Foucault (1996, p. 246) sugere que as instituições devem ser estudadas sob as categorias de ‘sistemas de diferenciação’, ‘os objetivos’, ‘modalidades instrumentais’, ‘formas de institucionalização’, e os ‘graus de racionalização’.

Para Moreira e Cecílio (2002) o poder segundo Foucault permite que se estruture outras estratégias antagônicas, em que sua síntese define-se como:

[...] como processo dinâmico relacional microcontextualizado que se organiza através de redes multivariadas e instáveis de indivíduos ou grupos que, de suas posições, tanto se subordinam ao poder quanto o exercem por meio de sua atividade organizacional cotidiana. Este processo é garantido pela ação disciplinar coercitiva que, ao mesmo tempo que se impõe, permite a organização de estratégias de resistência e oposição. Com isto, o papel político do poder disciplinar, que é minimizar a força humana na sua capacidade de resistência, de contestação e de revolta [...] (MOREIRA e CECÍLIO, 2002, p. 589).

Em uma lógica mais determinística por meio da ‘ordem legítima’ Weber, (1991) defende que o cumprimento da ordem vem da legitimidade, por meio de uma ‘atitude interna’ – na tradição, no afeto, na racionalidade, no estatuto legal ou em princípios religiosos’. Para Weber (1991) a relação díade que manifesta o poder está em imposição-submissão, na qual, a obediência ocorre mais que o conflito. Portanto, para Weber (1991, p. 33) o poder nas relações sociais é distribuído pela “probabilidade de se impor a própria vontade”, onde a disciplina existe em uma estrutura que a obediência é fortemente ligada à estrutura, independente das estratégias e instrumentos de dominação. Considera-se desta forma, a disciplina fundamental para o poder burocrático, por meio das normas e regras, pois depende disso o grau de internalização das ordens.

Foucault e Weber se aproximam no ponto que considera a disciplina uma estratégia fundamental do funcionamento burocrático (MOTTA, 1986). Tanto para Motta (1986) quanto para Burrell (1997) as proposições de Foucault e Weber caminham em uma mesma medida para a dominação ‘burocrática’, do mesmo modo a dominação ‘disciplinar’, sendo que Foucault radicaliza o conceito ‘gaiola de ferro’ que Weber expressa em uma visão pessimista do futuro das organizações sociais (MOREIRA e CECÍLIO, 2002).

Para Hannah Arendt o poder é o resultado da capacidade de agir em conjunto, em que, requer consenso da maioria há um objetivo comum (ARENDT, 1994). Essa possibilidade conceitual, para Moreira e Cecílio (2002) retorna ao conceito em relação à soberania, ou seja, que segue a díade dominação-subordinação, porém, derivada de uma perspectiva histórica de Estados absolutistas e totalitários. Também, rompe com a relação de ‘obediência’ introduzindo a possibilidade de ‘consentimento’. Deste modo, o poder é o pressuposto que as decisões e ações que resultam do grupo na medida em que este permanece unido, para (ARENDT, 1994, p. 41) é a “própria condição que capacita este grupo a pensar e agir em termos de meios e fins”. Na concepção arendtiana a comunicação torna-se essencial, pois possibilita o debate, e a ação em conjunto com uma esfera pública.

A palavra identifica o sujeito e não somente a ação. É o ‘quem’ em detrimento do ‘que’, e isto se torna mais claro quando os sujeitos estão reunidos acontecendo à transparência e revelações evidenciadas na espera ou esfera? pública como veem:

[...]o poder corresponde à capacidade humana de não só agir, porém de agir em conjunto. O poder nunca é propriamente de um indivíduo, pertence a um grupo e permanece em existência apenas enquanto o grupo prossegue unido [...] No momento em que desaparece o grupo, do qual o poder se originou a princípio (potestas in populo), sem um povo ou grupo, não há poder [...] O poder só existe enquanto palavra e ato não se divorciam [...], quando as palavras não são usadas para velar intenções, mas para revelar realidades, e os atos, não são usados para violar e destruir, mas para criar relações e novas realidades (Arendt, 1987, p. 36, 212).

Corroborando com Arendt, Parsons distancia seu conceito do conflito, coerção e força. Para Parsons o poder está ligado à autoridade e à busca de consenso e metas. Ou seja, o poder é a capacidade de assegurar o desempenho por parte de unidades em um sistema de organização coletiva, em que casos de desobediência são tratados com imposição de sansões (LUKES, 1980). Segundo Moreira e Cecílio (2002, p. 596) a definição parsoniana de poder “serve para reforçar sua teoria de integração social, por outro é necessário reconhecer o quanto tal concepção acaba tendo muita força explicativa nos estudos sobre as organizações”.

Para este estudo, considerando a necessidade de ter certa diversidade conceitual para análise do objeto, corroborando com Moreira e Cecílio (2002), contempla-se em um guia conceitual sobre o tema poder, “já que em certos momentos enfatizam-se a legitimidade e a obediência (como em Weber), e em outros a disciplina (como em Foucault) ou o poder que enunciam os coletivos (como em Arendt) ou, ainda, pode-se encontrar associações destas concepções, tal como expresso na figura” (MOREIRA e CECÍLIO, p. 596).

Fonte: (MOREIRA e CECÍLIO, p. 596).

O conceito de poder, em si mesmo é ‘intangível’. Por outro lado, o poder por si só é “intangível”, poderíamos dizer. Os conceitos não são suficientes para completar seu significado, abrangência e profundidade como instrumento de pesquisa de uma realidade. Portanto, no próximo item pretende-se instrumentalizar construtos para identificação e mensuração das relações de poder e a influência na formulação e implementação da estratégia.

Documentos relacionados