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MARCADORES DE OVERTRAINING

No documento SÍNDROME DO OVERTRAINING (páginas 31-42)

Antes de citar os principais marcadores do overtraining, vale a pena falar sobre a diferença entre carga interna e carga externa de treinamento. O controle da carga interna de treinamento pode ajudar na prevenção da síndrome do overtraining.

Moreira et al. (2010, p. 288) define a carga interna como as principais alterações fisiológicas e bioquímicas decorrentes do treinamento físico sistematizado. Já a carga externa seriam os principais ganhos no desempenho do atleta como, por exemplo, a melhora no tempo em uma corrida ou na quantidade de saltos realizados após o treinamento. Historicamente, a avaliação na melhora do desempenho do atleta é feita tão somente levando-se em consideração a carga externa. A carga interna, porém não pode ser deixada de lado, pois pode indicar, além de ganhos em termos metabólicos, alterações metabólicas compatíveis com a síndrome do overtraining.

De acordo com Nakamura, Moreira, Aoki (2010, p.2) o sucesso do processo de treinamento depende do monitoramento preciso da carga interna. Para isso, diversos parâmetros podem ser utilizados para avaliá-la como, por exemplo, a relação Testosterona/Cortisol, a concentração de metabólitos (lactato e amônia), o comportamento da FC e a percepção subjetiva do esforço (PSE).

Como já foi citado anteriormente, treinamentos bem planejados buscam a supercompensação, que nada mais é que o momento, após uma queda planejada de desempenho, onde este desempenho aparece superior ao nível inicial. Nakamura et al. (2010, p. 2) afirmam que o mecanismo de supercompensação é dependente do controle preciso do nível de estresse aplicado (carga interna de treinamento). Portanto, segundo o autor, torna-se inquestionável a importância do acompanhamento das respostas bioquímicas, fisiológicas e/ou perceptuais (carga interna) durante o treinamento.

Nakamoto (2005, p. 1) diz que “a síndrome do overtraining é uma condição complexa, caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas em resposta a um planejamento inadequado do treinamento desportivo”.

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Como já foi citado anteriormente, o overtraining aparece com uma série de sintomas característicos, mas o sintoma mais comum da síndrome do overtraining é a queda persistente do desempenho. Cunha, Ribeiro, Oliveira. (2006, p.298) confirmam que “a avaliação da diminuição do desempenho específico ainda representa o padrão-ouro no diagnóstico do overtraining”, ou seja, a queda do desempenho ainda seria a melhor forma de diagnosticar a síndrome.

Existe uma busca concentrada em desenvolver um método ou descobrir um marcador que seja absolutamente fidedigno e que possa diagnosticar o overtraining com precisão. “Apesar de bem descritos e estabelecidos os sinais e sintomas do overtraining ainda não são suficientes para o estabelecimento de um diagnóstico padrão para a detecção da síndrome”. (NAKAMOTO, 2005)

A maioria dos autores que estudam o overtraining sugerem alguns tipos principais de marcadores para esta síndrome. Dentre eles, marcadores hormonais, imunológicos, fisiológicos, hematológicos, psicológicos e bioquímicos. Neste capítulo serão tratados alguns destes marcadores.

1 Relação Testosterona/Cortisol (T/C)

Dentre os marcadores hormonais, o mais utilizado é a relação testosterona/cortisol. A lógica da utilização deste marcador está no fato de a testosterona ser um hormônio anabólico, enquanto o cortisol um hormônio catabólico. Se a razão entre eles sugerir maior concentração de cortisol que de testosterona, pode-se considerar um possível quadro de overtraining.

Uchida et al. (2004, p.167) afirma que “a redução na concentração de testosterona, em conjunto com o aumento na concentração de cortisol, ocorre em períodos de treinamento extenuante”.

A testosterona e o cortisol são dois hormônios com funções antagônicas. “No músculo esquelético, a testosterona atua como hormônio anabólico aumentando a síntese protéica [...] já o cortisol apresenta uma ação catabólica, prevenindo a reesterificação (oxidação) de ácidos graxos e induzindo a lipólise” (ARAÚJO et al, 2008, p. 279).

Em fases de treinamento onde todas as variáveis (volume, intensidade, descanso, alimentação, entre outros) estiverem controladas, espera-se

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encontrar alta atividade da testosterona. Flynn et al (apud ARAÚJO et al., 2008, p. 279) observaram um decréscimo nas concentrações deste hormônio num período onde houve queda na performance dos atletas, ou seja, em período de overtraining.

Por outro lado, de acordo com Araújo et al. (2008, p. 279), o cortisol não permite a formação de ácidos graxos e ainda induz a lipólise (quebra da gordura). Hoffman et al. (apud SIMÕES et al., 2004, p. 32) reforçam que o “aumento do cortisol está relacionado com o catabolismo dos tecidos muscular, esquelético e adiposo”.

O cortisol é comumente conhecido como o hormônio do estresse, portanto, é muito comum encontrar indivíduos com possível quadro de overtraining com níveis sanguíneos de cortisol muito aumentados.

Simões et al. (2004, p.41) relatam que

em situações de estresse (exercício físico intenso e prolongado, dor, calor entre outros) ocorre um aumento nos níveis cerebrais de dopamina e noroepinefrina, desencadeando um aumento na secreção hipotalâmica de fatores de liberação hormonal. Esses fatores promovem por sua vez um aumento na secreção de hormônios como o ACTH (adenocorticotropina), resultando em maior secreção de cortisol pelo córtex das glândulas adrenais.

A literatura cita algumas funções específicas do cortisol como, por exemplo, estimular o fracionamento das proteínas em aminoácidos (AA) em todas as células do corpo, exceto o fígado (onde estes AA são sintetizados em glicose); facilita a ação do glucagon e GH, no processo de gliconeogênese (formação da glicose); funciona como antagonista da insulina, por inibir a captação e oxidação da glicose (McARDLE; KATCH; KATCH, 1998, p. 350)

Estes autores relatam que “altas concentrações séricas de cortisol, por períodos prolongados, acabam resultando em fracionamento excessivo das proteínas, desgaste tecidual e um balanço nitrogenado negativo”. (McARDLE;KATCH; KATCH, 1998, p. 350)

Como a secreção de cortisol estimula a mobilização das gorduras para a obtenção de energia, o fígado fraciona essas gorduras em seus componentes cetoácidos mais simples. As concentrações de cetoácidos muito elevadas podem levar o indivíduo a uma condição de acidose, conhecida como Cetose,

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que é “comum em indivíduos que consomem dietas pobres em carboidratos e calorias.” (McARDLE; KATCH; KATCH, 1998, p. 350)

A relação Testosterona/Cortisol (T/C) tem sido muito empregada no controle do treinamento físico/desportivo.

Quando a razão T/C é aumentada, ou seja, a concentração de testosterona é maior que a concentração de cortisol, isso indica um resultado positivo em relação ao treinamento; já o decréscimo sugere que o método de treinamento utilizado representa um estímulo estressor intenso para o organismo” (ARAÚJO et al., 2008, p.270).

Para atletas com overtraining, estes autores sugerem que “um decréscimo na razão T/C de aproximadamente 30% é considerado relevante como indicativo de uma resposta estressante ao treinamento” (p.270).

2 Glutamina

Araújo et al. (2008, p. 282) conferem à glutamina o status de

principal substrato energético para as células do sistema imunológico, principalmente para os linfócitos e macrófagos, exercendo importantes funções na manutenção do sistema imunológico, na regulação da síntese e degradação de proteínas, no controle do volume celular, na desintoxicação corporal do nitrogênio e da amônia.

De acordo com eles, a falta ou deficiência de glutamina deprime o sistema imunológico, expondo o atleta a frequentes infecções, principalmente do trato respiratório superior.

Rogero; Mendes; Tirapegui (2005, p. 363) defendem a teoria de Eric Newsholme que diz que “a reduzida concentração plasmática de glutamina observada em atividades físicas prolongadas seria responsável pela supressão da resposta imune associada ao aumento da taxa de infecções observadas na síndrome do overtraining”

Em condições fisiológicas normais, a glutamina é distribuída a vários tecidos, principalmente, às células do sistema imune (os eritrócitos). Porém, durante os exercícios intensos e prolongados, pode haver uma redistribuição da glutamina, sendo ela direcionada às células dos rins e fígado. De acordo com Rogero; Mendes; Tirapegui (2005, p. 363) nestes órgãos a glutamina desempenha funções vitais ao exercício “como a síntese de glicose através da

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neoglicogênese (fígado) e regulação da acidose instalada (rins)”. Sendo assim, a pequena disponibilidade de glutamina para as células do sistema imunológico, aumenta a chance dos atletas desenvolverem infecções, principalmente do trato respiratório superior.

3 Depleção de glicogênio

“O glicogênio é um nutriente que participa ativamente do processo de geração de energia, tanto em condições aeróbias quanto anaeróbias” (ROGERO; MENDES; TIRAPEGUI, 2005, p. 363). A diminuição dos estoques de glicogênio pode desencadear quadros de fadiga periférica em atletas de alto rendimento. E a diminuição dos estoques de glicogênio muscular e hepático pode estar relacionada ao alto volume de treinamento imposto ao atleta.

Kreider (apud ROGERO; MENDES; TIRAPEGUI, 2005, p. 363) diz que:

“a redução do conteúdo de glicogênio muscular, e conseqüente depleção dos estoques de energia pode estimular a oxidação intramuscular de aminoácidos de cadeia ramificada, também conhecidos como BCAA (leucina, isoleucina e valina).

Ocorrendo a diminuição plasmática desses aminoácidos facilitaria a captação hipotalâmica de triptofano livre e, consequentemente, “promoveria uma maior síntese de serotonina a partir do triptofano, desencadeando a fadiga central e, possivelmente, a síndrome do overtraining”.

4 Creatina quinase (ck)

“A Creatina Quinase (CK) é o indicador bioquímico mais utilizado na literatura como indicador da ocorrência de lesão muscular” (BARBOSA et al., 2003, p.8).

As concentrações sanguíneas de CK tendem a se alterar na medida em que se manipulam o volume e/ou a intensidade dos treinamentos. De acordo com Katirji & Jaberi e Gleeson (apud FREITAS; MIRANDA; BARA, 2008, p. 462) o exercício físico prolongado e extenuante aumentam os níveis de CK, sendo que a magnitude desta elevação está diretamente relacionada à intensidade e duração da atividade.

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Barbosa et al. (2003, p.8) preconizam que “a sua presença acentuada no plasma sugere a existência de uma elevada agressão sobre as fibras musculares com lesão nos miofilamentos e, também, do sarcolema”.

A CK é utilizada como marcador de dano no tecido muscular esquelético devido ao fato de, juntamente com outras enzimas, ser citoplasmática e, assim, impermeável na membrana plasmática. Dessa forma, o aumento nos níveis dessa enzima no líquido extracelular “pode indicar uma alteração na permeabilidade da membrana ou o rompimento da mesma” (FREITAS; MIRANDA; BARA, 2009, p.462)

Araújo et al. (2008, p. 278) afirmam que a elevação nos níveis sanguíneos da CK pode refletir dano tecidual, “podendo resultar em aumento da permeabilidade da membrana celular, devido à perioxidação lipídica”.

“O efeito de várias sessões sucessivas de exercício prolongado pode desencadear mecanismos que induzem o extravasamento da CK na corrente sanguínea” (FREITAS; MIRANDA; BARA, 2009, p.462). Talvez por este motivo encontram-se níveis elevados de CK em atletas com overtraining. Além disso, os níveis plasmáticos de CK aumentam após uma lesão esquelética e/ou lesões cerebrais.

Segundo Freitas; Miranda; Bara (2009, p. 462) a “CK tem um papel chave na formação de energia nas células musculares, visto que é uma enzima intramuscular responsável por manter níveis adequados de ATP durante a contração muscular”.

A função da CK é “quebrar” ou hidrolisar a molécula de creatina fosfato ou fosfato de creatina (CP). A energia liberada da quebra da CP é utilizada para a ressíntese de ATP. A quebra da CP é um meio rápido e eficaz para fornecer energia para a ressíntese de ATP sem a presença de oxigênio. (McARDLE; KATCH; KATCH, 1998, p.99)

Segundo Araújo et al. (2008, p. 278) “a creatina quinase é um metabólito produzido constantemente em repouso por diversos tecidos do corpo como intestinos, fígado, hemácias e músculos”. Além disso, é uma enzima amplamente utilizada como biomarcador de estresse e alteração na atividade muscular.

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De acordo com Araújo et al. (2008, p.282) “ as citocinas são pequenas proteínas ou peptídeos que compreendem um grupo muito extenso de moléculas envolvidas na emissão de sinais entre as células, através de um processo análogo ao dos hormônios, durante o desencadeamento das respostas imunes”.

As citocinas IL-6 (interleucina 6) e TNFα (fator de necrose tumoral α) são

as que estão diretamente relacionadas ao exercício físico e a processos inflamatórios decorrentes do exercício.

Smith citado por Araújo et al. (2008, p. 283) explica que o TNFα “está

envolvido em inflamações orgânicas e durante o overtraining tem sua resposta inflamatória a uma lesão muscular e supressão do sistema imunológico aumentadas”.

As microlesões musculares causadas pelo treinamento com alto volume e intensidade, associado a períodos de descanso insuficientes, podem gerar respostas inflamatórias e consequente aumento na produção de citocinas.

Rogero; Mendes; Tirapegui (2005, p. 361) ressaltam que os microtraumas provocados por treinamentos intensos “resultam em uma resposta inflamatória moderada, que tem como finalidade o processo de cicatrização, com conseqüente adaptação muscular e/ou óssea e/ou do tecido conectivo”.

Na maioria dos casos esses microtraumas são facilmente recuperados, mas em atletas com overtraining ou que estejam realizando treinamentos com alto volume e/ou intensidade, os microtraumas podem evoluir para uma inflamação aguda e local, podendo evoluir para uma inflamação crônica seguida de inflamação sistêmica. Neste quadro surgem altas concentrações de citocinas pró-inflamatórias. (ROGERO; MENDES; TIRAPEGUI, 2005, p.361)

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CONCLUSÃO

O esporte de alto rendimento além de estar cada vez mais competitivo, também se rende cada vez mais à tecnologia. Grandes equipes estão apoiadas por equipamentos capazes de mapear o corpo dos atletas, permitindo informações precisas e rápidas sobre sua saúde. São informações sobre desenvolvimento da massa magra, percentual de gordura, massa óssea e até mesmo sobre qualquer desequilíbrio muscular resultante do treinamento físico.

Mas mesmo com tanta tecnologia a favor do esporte, ainda são registrados casos de queda de desempenho decorrente de treinamentos excessivos ou mal conduzidos.

Para evitar a síndrome do overtraining é importante que os treinadores ou preparadores físicos conheçam profundamente os princípios que regem o treinamento esportivo e que estejam atentos aos sinais de desgaste que os atletas apresentam durante a preparação física ou, até mesmo, durante a competição.

A síndrome do overtraining pode incidir com mais freqüência em atletas com treinamentos mal planejados, que não respeitam principalmente, os períodos de recuperação indispensáveis ao bom desempenho do atleta.

O trabalho de uma equipe multidisciplinar junto aos atletas também pode ajudar a evitar a síndrome do overtraining. As informações passadas por médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos podem ajudar muito em uma possível reestruturação no treinamento a fim de evitar quaisquer problemas decorrentes de desequilíbrios nutricionais, emocionais ou físicos.

A verdade é que os sinais da síndrome do overtraining podem ser previstos pela tecnologia, mas a sensibilidade dos treinadores e preparadores físicos também é significativa nesse sentido. Como já foi dito anteriormente, eles precisam estar atentos a qualquer sinal de cansaço extremo e às quedas prolongadas no desempenho do atleta.

A detecção da síndrome do overtraining não é fácil. Para grandes equipes investir em exames clínicos e equipamentos cada vez mais detalhados e sofisticados e em equipes multidisciplinares à disposição dos atletas não é nenhum problema. Mas para equipes menores e com pouco dinheiro para

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investir, a competência e a sensibilidade dos treinadores pode ser a ferramenta mais importante para a prevenção e tratamento dos sintomas da síndrome do overtraining.

A busca permanente por resultados mais expressivos e records quase sobre-humanos pode expor os atletas, com mais freqüência, à síndrome do overtraining. Respeitar os limites individuais e cuidar do planejamento do treinamento para a obtenção desses resultados pode fazer toda a diferença para a saúde do atleta e garantir o sucesso de toda equipe.

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