4 O CONFLITO ENTRE A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O DISCURSO DE
4.1 PROJETOS DE LEI ACERCA DO TEMA
4.1.1 Marco Civil da internet (lei n 12.965/2014)
Por muito tempo, a Internet foi vista como um espaço sem legislação para resolver todas as suas características. Portanto, o mundo virtual abandonou quaisquer leis e regulamentos específicos e ainda está em um vácuo legislativo. A Lei nº 12.965/14 denominada Marco Civil da Internet preenche essa lacuna, possibilita o relacionamento virtual e cria direitos e obrigações para usuários e provedores. A lei também prevê a proteção das pessoas, que é o centro da legislação.
São três os pilares sobre os quais se fundamenta a Lei do Marco Civil da Internet, a saber: a) a neutralidade da rede; b) a liberdade de expressão; e c) a privacidade dos usuários. Tal opção legislativa encontra-se em consonância com o que preconizado pela doutrina especializada (apud MASSO; ABRUSIO; FLORÊNCIO FILHO., 2014)
Portanto, o direito da personalidade é um direito humano básico, que está em toda parte e é protegido pela lei. É necessário entender como esses direitos são dispostos e protegidos nesta lei específica. Também discute a proteção dos direitos de privacidade em caso de vazamento irregular de dados, liberdade de expressão e direitos de imagem na Internet, mostrando as limitações entre os dois e como os provedores podem assumir a responsabilidade. Visa compreender como ocorre a proteção ao direito da personalidade pela Lei nº 12.965/14 e como ela se aplica principalmente ao mundo fático. (ROCHA, 2014)
Em 1999 foi submetido ao Senado o Projeto de Lei 84/99, elaborado pelos ex- deputado Luiz Piauhylino e Eduardo Azeredo relator da área de tecnologia o qual dipunha dos crimes envolvendo tecnologia da informação e suas punições. O projeto foi aceito, mas foi amplamente criticado por causa de seu potencial "vigilante", levando as pessoas a usar métodos computadorizados para expor e punir esses "criminosos" virtuais.
De todas as respostas a esta proposta, a mais correta é que seria necessário elaborar uma lei civil para se opor à lei penal em discussão.
Para ser mais preciso, o Marco Civil substituiu a chamada "Lei Azeredo", que introduzia uma proposta de estabelecimento de uma lei penal ampla para a Internet, e para isso recorreu ao seu relator e o deputado Eduardo Azevedo (PSDB-MG). A ampla percepção da sociedade brasileira é que se a lei Azeredo for aprovada, iria causar grandes retrocessos no ambiente regulatório da Internet do país. (LEMOS, 2004, p. 04)
O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em 25 de março de 2014, e no Senado em 22 de abril do mesmo ano. Por fim, a Lei nº 12.965 / 2014, de 23 de abril de 2014, do Marco Civil Internet foi sancionado pela Presidenta Dilma na Conferência NETMundial que ocorreu em São Paulo e foi publicada no Diário Oficial no dia seguinte.
Portanto, como já foi dito, o Marco Civil da Internet foi criado pelo Poder Executivo e é considerado a primeira lei formulada de forma colaborativa entre a sociedade e o governo usando a Internet como meio de debate.
A lei visa regulamentar as relações virtuais e as leis digitais e, por lacunas jurídicas, essas leis já utilizavam leis em vigor, como a Civil, mas não regulamentavam o mundo virtual em suas leis. O Marco Civil da Internet impõe um conjunto de direitos e obrigações aos usuários e prestadores de serviços, sendo também uma lei criticada e reconhecida pela sociedade. (BASTOS, 2019)
Nesse sentido, soube que o Marco Civil da Internet foi criado para legislar sobre problemas que antes não podiam resolver todas as situações. O mundo virtual proporciona às pessoas um tipo de relacionamento interpessoal, econômico e outros que nunca antes havia sido considerado.
É necessário estabelecer uma conexão com quem está um "clique" de distância e cada vez mais usando a Internet, e importante uma Legislação que trata de todas ou pelo menos parte das novas peculiaridades existentes. Para entender melhor qualquer regulamento, você deve primeiro entender seus princípios, bases e objetivos.
Explica Júdice (2007) que o princípio básico é o pilar previsível sobre o qual se baseia a legislação e apoia a aplicação da lei. O princípio é o mandamento de otimizar o sistema. E finalmente, o objetivo são os fins que são almejados com determinada lei. Ao entender esses três aspectos, será possível entender qualquer lei.
Os artigos 18 e 19 do “Marco Civil da Internet” estipulam a responsabilidade dos provedores de conexão e aplicativos de Internet por danos causados por conteúdo gerado por terceiros, e as disposições são as seguintes:
Art. 18. O provedor de conexão à internet não será responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros.
Art. 19. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário.
§ 1º A ordem judicial de que trata o caput deverá conter, sob pena de nulidade, identificação clara e específica do conteúdo apontado como infringente, que permita a localização inequívoca do material.
§ 2º A aplicação do disposto neste artigo para infrações a direitos de autor ou a direitos conexos depende de previsão legal específica, que deverá respeitar a liberdade de expressão e demais garantias previstas no art. 5º da Constituição Federal.
§ 3º As causas que versem sobre ressarcimento por danos decorrentes de conteúdos disponibilizados na internet relacionados à honra, à reputação ou a direitos de personalidade, bem como sobre a indisponibilização desses conteúdos por provedores de aplicações de internet, poderão ser apresentadas perante os juizados especiais.
§ 4º O juiz, inclusive no procedimento previsto no § 3º , poderá antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela pretendida no pedido inicial, existindo prova inequívoca do fato e considerado o interesse da coletividade na disponibilização do conteúdo na internet, desde que presentes os requisitos de verossimilhança da alegação do autor e de fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação. (L12965, 2014)
Como se depreende da leitura dos dois dispositivos transcritos acima, o Marco Civil da Internet parece prever que o provedor de conexão não se responsabilizará pelo conteúdo gerado por terceiros (artigo 18). Por outro lado, os provedores de aplicativos de Internet só devem ser responsabilizados civilmente por danos causados por conteúdo de terceiros se o terceiro não tiver tomado medidas para tornar o conteúdo considerado infrator indisponível por ordem judicial específica (Artigo 19). A única exceção a esta regra é o Artigo 2112.
12 Art. 21. O provedor de aplicações de internet que disponibilize conteúdo gerado por terceiros será
responsabilizado subsidiariamente pela violação da intimidade decorrente da divulgação, sem autorização de seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de
O Supremo Tribunal Federal reconheceu que há ampla repercussão sobre o assunto e atualmente discute no âmbito do Recurso Extraordinário 1.037.396 interpostos pelo Facebook Brasil. O recurso agrediu decisão da 2ª Turma de Recurso Cível de Piracicaba, que determinou a exclusão das informações falsas das redes sociais e forneceu o IP que gerou as informações falsas. Em particular, o Relator, Ministro Dias Toffoli, disse ao expressar a resposta geral:
[...] De qualquer forma, transcendência e relevância não são ambíguas, pois considerando a importância e a influência das redes sociais e dos provedores de aplicativos de Internet da atualidade, os temas discutidos interessam a toda a sociedade brasileira. Se isso não bastasse, o debate sobre a responsabilidade e responsabilidade legal dos provedores de aplicativos de Internet por atos ilícitos contra terceiros pela Lei nº 12.965 / 2014 pode apoiar milhares de ações propostas em todo o país. Para além do impacto no judiciário, deve ser considerado o impacto financeiro nas empresas que disponibilizam aplicações de Internet, o que pode, em última análise, repercutir-se na atividade económica. Além disso, a discussão da agenda girou em torno de uma série de princípios protegidos pela Constituição: ao contrário da dignidade humana e da liberdade de proteger a personalidade, eles têm direito à liberdade de expressão e de pensamento, ao livre acesso à informação e à retenção da jurisdição. Dada a enorme quantidade de dinheiro envolvida, é vital que o Supremo Tribunal se posicione sobre esta questão após conduzir as devidas deliberações. Por fim, é importante destacar que, teoricamente, o conteúdo apurado no ARE 660.861 só é aplicável para casos ocorridos antes da entrada em vigor do Marco Civil da Internet. Tendo sido revelada a relevância desta questão, e a lei 12.965/2014 introduziu alterações no ordenamento jurídico, desta vez o tribunal deve voltar a pronunciar-se sobre a matéria na perspectiva da norma que entrou em vigor em 23 de junho de 2014. Destarte, manifesto-me pela existência de questão constitucional e pela repercussão geral da matéria. (STF, 2018)
O presente recurso discute a constitucionalidade do artigo 19 do “Marco Civil da Internet”. Isso porque, neste caso, a ação se baseia no fato de que pessoas que nunca se cadastraram no Facebook são detentoras de informações falsas e já ofenderam diferentes pessoas no passado. O Facebook foi originalmente solicitado a condenar a obrigação de excluir dados pessoais e reparar os danos mentais causados por eles. (NORTHFLEET, 2020)
Desta forma, o autor do ato ilícito arcará com a responsabilidade civil pelos danos causados, cabendo ao lesado o ônus da prova da violação das regras (atos ilícitos), dano e causalidade.
caráter privado quando, após o recebimento de notificação pelo participante ou seu representante legal, deixar de promover, de forma diligente, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço, a indisponibilização desse conteúdo.
Parágrafo único. A notificação prevista no caput deverá conter, sob pena de nulidade, elementos que permitam a identificação específica do material apontado como violador da intimidade do participante e a verificação da legitimidade para apresentação do pedido. (“L12965,” 2014)
O Código Civil Brasileiro utiliza o conceito de ilícito como base da responsabilidade contratual e extracontratual, o que corresponde à polêmica formulação do artigo 1.382 do Código Civil francês, expressão que deve ser entendida de forma errada ou traduzida no sentido literal, de "Falta", não culpa, este é o estado moral das pessoas que se envolvem em comportamento ilegal. (STOCO, 2011, p. 902)
A responsabilidade civil dos provedores de aplicativos de Internet por conteúdos gerados e compartilhados por seus usuários é objeto de dois temas que o Supremo Tribunal Federal determinou ter influência universal. A primeira é a matéria 533, que trata da responsabilidade perante o Marco Civil da Internet entra em vigor em 2014. Veja-se: “Tema 533 - É responsabilidade da empresa de hospedagem verificar o conteúdo publicado e excluí- lo. É considerado ofensivo e pode ser veiculado do ar sem intervenção judicial.” (Luiz Fux, RE 1.057.258)
O segundo caso é objeto do artigo 987 supra, que ainda não foi decidido:
Tema 987 - Discussão sobre a constitucionalidade do artigo 19 da Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet), que previa a necessidade de medidas judiciais prévias específicas para exclusão de provedores de serviços de Internet cíveis e gerentes responsáveis de conteúdo e aplicativos de redes sociais para lidar com danos causados por ações ilegais de terceiros. (Dias Toffoli, RE 1.037.396)
Em 2010, a Desembargadora Letícia de Faria Sardas foi a primeira a utilizar os princípios básicos e o entendimento do Marco Civil da Internet para apoiá-lo. Ela escreveu, acerca o tema, no julgamento do Agravo de Instrumento 0013822-08.2010.8.19.0000:
4. O Marco Civil da Internet no Brasil, submetido à segunda consulta pública, estabelece os direitos dos cidadãos brasileiros na internet.
5. Um aspecto muito importante e positivo do Marco Civil é que ele propõe uma forma de regulamentar os direitos e obrigações relacionados aos diversos dados gerados pelos usuários durante a navegação.
6. Os registros relacionados à conexão (data e hora de início e término, duração e endereço IP do terminal vinculado ao recebimento do pacote) devem ser armazenados pelo provedor de acesso à Internet.
7. Em relação ao registro de acesso aos serviços de internet (emails, blogs, perfil nas redes sociais etc.), o provedor não tem obrigação de armazenar os dados. Mas fizer, terá que informar o usuário, discriminando o tempo de armazenamento.
8. Assim, resta claro que a simples alegação de impossibilidade técnica de cumprimento à decisão, tendo em vista não mais possuir armazenados os logs de acesso com as informações das operações realizadas no mês de setembro de 2009 não tem o condão de afastar a determinação judicial concedida nos autos da Medida Cautelar. (
9. Além disso, esta medida não causará nenhum dano ao Agente Agravado, pois ele apenas fornecerá os dados necessários para identificar a pessoa que pode violar a conta de e-mail do reclamante.
10. Por outro lado, no caso de ação para expor o processo, S. 372. O STJ se aplica a esta situação. (TJ-RJ - AGRAVO DE INSTRUMENTO: AI 0039696- 92.2010.8.19.0000 RIO DE JANEIRO CAPITAL 40 VARA CIVEL)
O artigo 5º da Constituição estipula alguns direitos e garantias básicas, que constituem a base da legislação dos direitos da personalidade. O inciso X13 estabelece a inviolabilidade da intimidade, da privacidade, da honra e da imagem humana, e garante a indenização pelos danos morais ou materiais em caso de infração.
No mesmo sentido, o inciso XII14 do mesmo artigo estipula que é inviolável para comunicações, correspondências e dados.
O Marco Civil da Internet legisla da mesma forma no Artigo 7º e 8º:
Art. 7º O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os seguintes direitos:
I - Inviolabilidade da intimidade e da vida privada, sua proteção e indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
II - Inviolabilidade e sigilo do fluxo de suas comunicações pela internet, salvo por ordem judicial, na forma da lei;
III - inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial;
IV - Não suspensão da conexão à internet, salvo por débito diretamente decorrente de sua utilização;
V - Manutenção da qualidade contratada da conexão à internet;
VI - Informações claras e completas constantes dos contratos de prestação de serviços, com detalhamento sobre o regime de proteção aos registros de conexão e aos registros de acesso a aplicações de internet, bem como sobre práticas de gerenciamento da rede que possam afetar sua qualidade;
VII - Não fornecimento a terceiros de seus dados pessoais, inclusive registros de conexão, e de acesso a aplicações de internet, salvo mediante consentimento livre, expresso e informado ou nas hipóteses previstas em lei;
VIII - Informações claras e completas sobre coleta, uso, armazenamento, tratamento e proteção de seus dados pessoais, que somente poderão ser utilizados para finalidades que: a) justifiquem sua coleta; b) não sejam vedadas pela legislação; e c) estejam especificadas nos contratos de prestação de serviços ou em termos de uso de aplicações de internet;
IX - Consentimento expresso sobre coleta, uso, armazenamento e tratamento de dados pessoais, que deverá ocorrer de forma destacada das demais cláusulas contratuais;
X - Exclusão definitiva dos dados pessoais que tiver fornecido a determinada aplicação de internet, a seu requerimento, ao término da relação entre as partes, ressalvadas as hipóteses de guarda obrigatória de registros previstas nesta Lei; XI -
13 X - São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a
indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
14 XII – É inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações
telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; (Vide Lei nº 9.296, de 1996)
publicidade e clareza de eventuais políticas de uso dos provedores de conexão à internet e de aplicações de internet;
XII - acessibilidade, consideradas as características físico-motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais do usuário, nos termos da lei;
e XIII - aplicação das normas de proteção e defesa do consumidor nas relações de consumo realizadas na internet.
Art. 8º A garantia do direito à privacidade e à liberdade de expressão nas comunicações é condição para o pleno exercício do direito de acesso à internet. Parágrafo único. São nulas de pleno direito as cláusulas contratuais que violem o disposto no caput, tais como aquelas que:
I - Impliquem ofensa à inviolabilidade e ao sigilo das comunicações privadas, pela internet; ou
II - Em contrato de adesão, não ofereçam como alternativa ao contratante a adoção do foro brasileiro para solução de controvérsias decorrentes de serviços prestados no Brasil. (“L12965,” 2014)
Depois de casos envolvendo espionagem, a necessidade de proteger a privacidade dos usuários da Internet se tornou uma necessidade. O caso mais famoso é o do ex-agente Edward Snowden, que vazou informações de segurança dos Estados Unidos, divulgando o uso anterior de servidores equipados com Google, Facebook e outros servidores para monitorar a população dos EUA e programas de vigilância de outros países.
Nesse sentido, pode-se entender que o objetivo da Lei nº 12.965/14 é proteger a privacidade dos usuários e sua liberdade de expressão, além do mecanismo de proteção de dados dos usuários.