Maria Madalena Oliveira, ou Yoshiwara, ou Maria Maravilha ou

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 153-157)

5. CIRCLE K CYCLES: O SUJEITO DIASPÓRICO NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

5.4 Mulheres e seus peculiares ofícios diaspóricos

5.4.1 Maria Madalena Oliveira, ou Yoshiwara, ou Maria Maravilha ou

Maria Madalena é uma personagem que carrega as marcas da incerteza, da contradição e da trapaça, características apresentadas por meio de diferentes estratégias. A primeira é seu próprio nome, que, além de fazer referência à prostituta, personagem bíblica do Novo Testamento, varia conforme a situação, podendo ser Maria Madalena Oliveira, Maria Madalena Yoshiwara ou Maria Maravilha. Às vezes, vem grafado Maria Magdalena. Tantos nomes são indícios da improbidade que caracteriza a personagem e se confirma na narrativa,

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“Her energy and exuberance filled their lives. Plain Rice was exchanged for the Brazilian taste of garlic, salt, and olive oil with a ladle of beans. The dark cloud of his wife’s disappearance lifted.”

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“…a walking social service: she’ll give the information about health insurance, your visa, your driver’s license.”

mas também sugerem as várias faces de um mesmo sujeito, que se posiciona de forma diferente em cada situação da vida.

Yamashita a menciona primeiramente no começo do livro, na Seção “April”, capítulo “Three Marias”. Nessa narrativa, Maria Madalena está na cadeia por ser dona da agência de empregos para decasséguis “Tudo Daijóbi”, negócio para o qual não possui licença. Depois de ser notícia nos jornais, ela é libertada por Zé Maria, que agora pertence à organização de Maria da Conceição, o único decasségui a se tornar um ativista na luta pelos direitos dos brasileiros no Japão. Já na saída da prisão, o leitor conhece o “talento” de Maria Madalena para representar papéis: “Maria Madalena olhou bem toda a cobertura da imprensa, molhou os lábios, umedeceu os olhos e sorriu para as câmeras, ao sair da prisão. Era o triunfo da justiça. E a desgraça de Zé Maria” (YAMASHITA, 2001, p. 38).343

Fora da prisão, Maria Madalena seduz Zé Maria e retoma o negócio ilegal, convencendo-o a ser o presidente da agência. Meses depois, ela desaparece com o fundo de benefícios de cem trabalhadores associados: “As únicas coisas que deixou foram algumas fotos de seu corpo nu, debaixo de uma pilha de calcinhas. Meu Deus, que escândalo!” (YAMASHITA, 2001, p. 40).344 Ao fugir, deixando Zé Maria em maus lençóis, Maria Madalena revela-se, de fato, uma golpista e, a julgar pelas fotos encontradas, também envolvida em prostituição.

Maria Madalena reaparece na seção seguinte de Circle K Cycles, em “Zero Zero Hum...aravilha/Zero Zero Onde...derful”, mas agora não está mais ligada à agência ilegal de empregos. Nesse capítulo, a escritora expõe, de forma cômica, outras faces de Maria Madalena, dando maior complexidade à personagem. O capítulo se organiza como um instrumento que veicula a mutabilidade da personagem, sua performatividade e a confusão de sua própria vida. Para produzir esses efeitos, Yamashita o apresenta em duas versões, português e inglês, ilustrando-o com algumas frases em japonês e entremeando-o por explicações de termos da língua japonesa aportuguesados pelos decasséguis, como, por exemplo: “Falar de keitai/ falar no celular” (YAMASHITA, 2001, p. 62) e “Tsukaretar/ Ficar cansado(a)” (YAMASHITA, 2001, p. 63). Posicionado exatamente nas páginas centrais de

Circle K Cycles, “Zero Zero Hum...aravilha/Zero Zero Onde...derful” é um capítulo que se

destaca dos demais também em termos gráficos: suas páginas são totalmente negras e funcionam, possivelmente, como uma estratégia que acompanha uma mudança de tema e de

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“Maria Madalena looked over all the press coverage, wet her lips, watered her eyes, and smiled for the cameras as she emerged from prison. It was the triumph of justice. It was Zé Maria’s downfall”

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ritmo da narrativa, suspendendo a atmosfera de temas sérios e de denúncias, abundantes na primeira metade do livro. Assim também é o texto, composto de fragmentos de passagens engraçadas, dando oportunidade ao leitor de conhecer a veia humorística de Yamashita.345

Junto ao texto, há ilustrações de garotas em poses sensuais, em anúncios com números de telefone em destaque e propagandas em português de serviços telefônicos internacionais. Há ainda sete fotos de aparelhos telefônicos, alguns com pessoas e bonecos telefonando. De modo geral, pode-se associar tais fotos à importância da comunicação via telefone na vida do decasségui. Especificamente, podem ser relacionadas a Maria Madalena, que faz uso profissional do aparelho telefônico e ao fato de que o texto principal desse capítulo traz a voz de Maria Madalena em três conversas telefônicas simultâneas. Intercalados aos telefonemas, há trechos de notícias de jornais sobre o escândalo do extravio do dinheiro dos decasséguis, mencionado no capítulo “Three Marias”. Os jornais divulgam informações contraditórias sobre Maria Madalena e seu paradeiro. Dizem que ela é de Curitiba, Rio, Tóquio ou São Paulo, e sua idade 28 ou 32 anos. Suas possíveis profissões são dançarina artística, ex-atriz, hostess e prostituta. O paradeiro de Maria Madalena varia: Bahamas, Bahia, Belém ou Bali. As notícias também divergem sobre onde a trapaceira escondeu o dinheiro roubado: Singapura, Bangkok, Vancouver ou Porto Príncipe.

O leitor conhece – ou desconhece – um pouco mais sobre Maria Madalena pelo conteúdo das conversas, organizados propositalmente em um texto fragmentado. Em um dos telefones, ela atende a clientela do serviço de “telesexo” direcionado para decasséguis:

Alô, Maria Maravilha às suas ordens. Pois não, eu estou reconhecendo a sua voz. Quem? Pois é claro. Eu sempre me lembro da voz de um homem bonitão. Tudo bem se você nunca ligou antes. Sempre tem uma primeira vez, não é mesmo? Para falar a verdade, tudo não passa de um fingimento. Não dá em nada se você não tiver uma boa imaginação. (YAMASHITA, 2001, p. 55) 346

Maria Maravilha é a personagem que inventa para explorar economicamente a solidão e o desejo sexual de homens que trabalham longas horas, sem direito a lazer e longe de suas esposas e namoradas. As estratégias de persuasão de Maria Madalena são desmascaradas por meio de situações engraçadas, como no trecho citado. O discurso enganoso não convence, mas, mesmo assim, muitos clientes continuam na linha, aceitando o jogo do fingimento e da imaginação proposto por Maria Maravilha, como forma de aliviar a carência afetiva e solidão. Como os clientes do “telesexo” pagam por minuto, Maria

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Os leitores que leram o primeiro romance de Karen Yamashita, Through the Arc of the Rain Forest (1990) já experimentaram o viés humorístico de sua literatura.

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Essa citação, assim como as outras do capítulo bilíngue “Zero Zero Hum...aravilha/Zero Zero Onde...derful”, são retiradas da versão em português.

Madalena os deixa esperando de propósito, enquanto conversa, simultaneamente, com Alice e com os clientes do periódico “Páginas Verde-Amarelas”.

Nessa terceira linha telefônica, Maria Madalena vende anúncios com promessa de publicá-los nas “Páginas Verde-Amarelas”, um misto de jornal e lista telefônica voltado para a comunidade nipo-brasileira. A publicação tem pequena tiragem e não há garantias de que seja de fato lida pelos decasséguis, mas a “empresária” fala animadamente sobre o grande sucesso e a penetração do jornal na comunidade: “As Páginas vão triplicar de tamanho. Se deixarmos só 100 cópias da (sic) Páginas em cada loja, já temos 30 mil Páginas para fornecer. Pense nisso!” (YAMASHITA, 2001, p. 62-63). Ela convence os anunciantes a comprarem anúncios de um quarto de página, meia página ou página inteira, criando falsas histórias sobre concorrentes que já adquiriram espaços maiores e “ensinando” que investir um pouco mais pode ser vantajoso para os negócios (YAMASHITA, 2001, p. 60).

A conversa mais duradoura é mantida com a amiga Alice. Em meio a assuntos triviais, o diálogo dá a entender que ali Maria Madalena se despe das personagens de prostituta e empresária, dando voz a uma mulher que, mesmo sem estudos, possui perspicácia para avaliar o mundo a sua volta. Por meio de brincadeiras, Maria Madalena expressa uma opinião própria sobre os brasileiros, os japoneses, sobre Tóquio e, sobretudo, sobre como se aprende a viver do jeito japonês “neste submundo” (YAMASHITA, 2001, p. 63). Entretanto, a continuação da conversa revela que as histórias contadas por Maria Madalena instigam, no mínimo, a desconfiança do leitor. O caso do sonho, ao mesmo tempo bizarro e cômico, tem início no Brasil, em uma “linda noite de maio”, quando Maria Madalena cai em um buraco na praia, passando pelo centro da terra:

Foi assim que cheguei ao Japão. Um acidente completo, sem documentos, nem mesmo um trapo para me cobrir [...]. Talvez haja outros que chegaram como eu mas não conheço ninguém. Você e os outros chegaram normalmente pela Varig, Vasp, KAL e JAL. Mesmo assim, vocês todos chegam nus também. Nus metaforicamente, pois é claro. (YAMASHITA, 2001, p. 60)

O fantástico sonho de Maria Madalena provoca risos no leitor, mas vai além do humor ao simbolizar o acaso da aventura decasségui no Japão, a força da experiência de ruptura e displaçamento por que passam sem ter ideia do que realmente significa. Com o passar da conversa, entretanto, a apreciação de mundo feita com certa coerência vai se desfazendo. O assunto muda e a Maria Madalena trapaceira, já conhecida do leitor, ressurge, comentando com a amiga o que a imprensa tem noticiado sobre ela:

Alice, eu estou te contando isso confidencialmente para deixar com você a verdadeira história da minha vida. Os jornais só fazem fofoca. Tudo vira um escândalo sem nenhuma prova. Eles já estão falando tanta besteira sobre mim; as mentiras não são nem um pingo interessantes. [...] Minha vida parece uma mentira. Quem quer ouvir a verdade? Ai, o telefone de novo... (YAMASHITA, 2001, p. 66)

No exato momento em que Maria Madalena tem a oportunidade de contar “a verdadeira história de sua vida”, ela é salva por outra linha telefônica que toca. Nesta, Maria Maravilha assume o comando mais uma vez, tentando realizar as fantasias sexuais de outro decasségui solitário. Ao retomar a conversa com Alice, Maria Madalena já não mais se lembra de contar a “verdade de sua vida”. O capítulo então se encerra deixando a certeza de que não há verdade para contar quando o assunto é a vida de Maria Madalena, assim como também não há verdades absolutas sobre nenhum sujeito diaspórico.

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 153-157)