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6.1 A HERMENÊUTICA COMO CIÊNCIA: UM PERFIL HISTÓRICO

6.1.3 Martin Heidegger e a Hermenêutica Existencial

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) trouxe para o mundo da hermenêutica uma nova dimensão de estrutura a ser aplicada, rompendo, assim, com o pensamento até então exposto para o mundo das ciências por Friedrich Schileiermacher e Wilhelm Dilthey, que se baseavam num objetivismo experimental.

Destes estudiosos em diante, e a partir das ilações científicas destes últimos pensadores, a hermenêutica passou a ter um tratamento referenciado dentro do mundo das ciências humanas.

Porém, para Heidegger a interpretação não poderia se restringir ao mundo objetivo científico. Agora, a experiência hermenêutica debruça-se sobre uma outra vertente, cujo alcance passa a ser fenomenológico. Surge, assim, a perspectiva de se interagir com a própria existência humana, com a análise de que a percepção dos acontecimentos sob os olhos interpretativos não ecoa apenas por ilações subjetivas de compreensão, mas sim, e antes de tudo, sob o viés da própria vida em conexão com a natureza.

É a expressão cunhada por Heidegger que sugere um novo olhar: o Dasein (o ser-aí ou o ser-no-mundo).

214 Ibid., p. 121.

215 Afirma o professor norte americano: “Contudo Dilthey renovou o projecto de uma nova hermenêutica e deu-lhe um impulso significativo. Colocou-a no horizonte da historicidade, adentro do qual sofreu ulteriormente um considerável avanço. Colocou os fundamentos do pensamento de Heidegger na temporalidade da autocompreensão. Pode com razão ser considerado como o pai da

‘problemática hermenêutica contemporânea’.” (Ibid., p. 128).

O perfil ontológico elaborado pelo autor busca ver a hermenêutica a partir da natureza do ser, da sua própria realidade, propondo um pensamento que envolve não apenas o ser como elemento individual, mas também na sua essência comum aos seres em geral.

Assim, essa visualização repousa numa concepção filosófica que a hermenêutica, como experiência de pura existência, não deve ser compreendida em razão da análise do intelecto humano, ou seja, da sua base racional de compreensão por apreensão do experimento e das percepções subjetivas, mas sim em razão de fenômenos naturais.

Com palavras bem apropriadas para a captação do pensamento heideggeriano, Richard Palmer, mais uma vez explora as ideias do filósofo alemão do século XX para o ser-aí:

Com este impulso a hermenêutica, transformou-se em “interpretação do ser do Dasein”. Filosoficamente, coloca as estruturas básicas da possibilidade do Dasein; é uma “análise da existencialidade da Existenz”, isto é, das possibilidades autênticas que o ser tem de existir. A hermenêutica, diz Heidegger, é aquela função anunciadora fundamental pela qual o Dasein torna conhecida para si a natureza do ser. A hermenêutica enquanto metodologia da interpretação dos estudos humanísticos é uma forma derivada que assenta na função ontológica primária da interpretação e a partir dela cresce. É uma ontologia regional que tem que se basear numa ontologia fundamental.216

Partindo da fenomenologia de Edmund Husserl, do qual foi colega de cátedra em Freiburg, Heidegger propõe uma metodologia específica para a percepção da compreensão humana por meio de fenômenos e logos, usando, pois, aquela primeira como investigação.217

A construção presente significa que o pensamento em si percorre a simples noção de existência como elemento marcante, mas que se debruça a partir da sua perspectiva de compreensão dentro do mundo do ser. Com isso, para Heidegger, compreender significa uma apreensão dentro da universalidade das coisas e da

216 Ibid., p. 134.

217 Neste sentido: HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Trad. Márcia de Sá Cavalcante. 3. ed.

Petrópolis: Vozes, 1989. p. 56-70. v. I. Para o autor, o fenômeno deve ser entendido como algo que se mostra em si mesmo, um modo privilegiado de encontro das coisas, ao passo que o logos, para a filosofia proposta, significa um discurso aberto, admitindo noções como razão, juízo, conceito, fundamento, etc., propondo-se, com isso, o chamado “discurso apofântico”, ou seja, um enunciado verbal que pode ser verdadeiro ou falso, haja vista, portanto, a abertura dada à expressão logos.

própria natureza, e não simplesmente a dimensão do intelecto subjetivo baseado no conteúdo da aferição pela capacidade de raciocínio.

Mais uma vez, Richard Palmer expõe com objetividade o alcance de compreensão para o filósofo alemão:

Para Heidegger, a compreensão é o poder de captar as possibilidades que cada um tem de ser, no contexto do mundo vital em que cada um de nós existe. Não é a capacidade ou o dom especial de sentirmos a situação de outra pessoa nem é o poder de captar mais profundamente o significado de

“alguma manifestação de vida”. A compreensão não se concebe como algo que se possua, mas antes como um modo ou elemento do ser-no-mundo.218

Diferentemente de Dilthey, que apresentava a compreensão num contexto histórico, Heidegger foi decisivo para a hermenêutica ao dispor daquela alimentada por um componente temporal, além, claro, de existencial.

É, assim, uma fenomenologia da existência do ser para o mundo das ideias e dos componentes de elaboração da interpretação, não se podendo falar, em consequência, de uma apropriação do homem pelo simples racional, mas sim o constitutivo do Dasein.

Para Wálber Araújo Carneiro, essa compreensão, até agora observada como elemento independente da vontade humana, significa para o pensador alemão como um mecanismo de “antecipação, ou seja, um projeto de todo”.219 Por esse prisma, a compreensão encontra-se apoiada no Dasein, situações necessárias para a projeção do modelo hermenêutico dos círculos, aqui na interação do particular para com o todo e vice-versa. Explica Araújo Carneiro:

Diante da interação de círculos é possível constatar que o fenômeno enquanto aquilo que se mostra só é compreendido porque o Dasein se antecipa na compreensão de seu todo e, partindo da interpretação de elementos particulares que se mostram posteriormente, pode reformular o projeto até o ponto culminante de uma nova compreensão.220

Antecipa-se o compreender por meio do referido círculo hermenêutico, sendo este uma mera consequência dos atos de interpretação e compreensão. São situações temporais, além de intencionais e históricas, mas numa perspectiva

218 PALMER, Richard. Op. cit., p. 135-136.

219 Conforme CARNEIRO, Wálber Araújo. Hermenêutica Jurídica Heterorreflexiva: Uma teoria dialógica do direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2011. p. 70.

220 Ibid., p. 71.

eminentemente existencial e não apenas racional. O homem se define como um ser em si não para si. A proposta hermenêutica, pois, reflete o caráter meramente natural. O estudo ontológico é, dessa forma, um elemento constante na proposta heideggeriana do Dasein.

Para os autores que se debruçam sobre a obra de Martin Heidegger, a sua importância reside exatamente na constituição da hermenêutica como um processo não de intelecção racional do homem, mas sim pela percepção do conhecimento universal que surge na simples expectativa ontológica da vida em si.

Christine Oliveira Peter da Silva expõe resumidamente essa situação ao dar o contorno necessário da reflexão filosófica de Heidegger para a hermenêutica jurídica:

Segundo Heidegger, a interpretação não se resumia a uma sentença teórico-enunciativa, ou seja, à análise da posição do sujeito e do objeto em sua composição, mas, sim, abarcava o conhecimento universal, uma vez que se apresentava como um modo de ser do dever-ser como ser-no-mundo. Nesse contexto, Heidegger descreveu a compreensão e a interpretação de modo a colocá-los anteriormente à dicotomia sujeito-objeto, discutindo aquilo que pode denominar de estrutura ontológica da compreensão.221

Compreender, pois, passa a ser um referencial de existência do ser como em conjugação com as situações vivenciais atribuídas pelos elementos meramente naturais. Tem-se, sem sombra de dúvida, um componente específico de estrutura de efetividade quanto aos resultados pretendidos. Gadamer, por exemplo, viu no pensamento heideggeriano, em se tratando da compreensão, como algo envolvente de “forma originária de realização da pré-sença, que é o ser-no-mundo.”222

221 SILVA, Christine Oliveira Peter da. Hermenêutica de Direitos Fundamentais. Brasília: Brasília Jurídica, 2005. p. 173.

222 GADAMER, Hans Georg. Op. cit., p. 392. Segue a citação na sua totalidade: “Compreender não é um ideal resignado da experiência de vida humana na idade avançada do espírito, como em Dilthey, mas tampouco, como em Husserl, um ideal metódico último da filosofia frente à ingenuidade do ir-vivendo, mas ao contrário, é a forma originária de realização da pré-sença, que é ser-no-mundo.

Antes de toda diferenciação da compreensão nas diversas direções do interesse pragmático ou teórico, a compreensão é o modo de ser da pré-sença, na medida em que é poder-ser e

‘possibilidade’.”