CAPÍTULO 2: MARCUSE E A AMBIVALÊNCIA DA TÉCNICA
2.1. Influências do pensamento marcuseano
2.1.2. Marx
Tendo por base o materialismo histórico, Marx defende a tese de que todas as relações humanas de uma dada época histórica são determinadas pela especificidade materialista da ordem social vigente.
A sua filosofia tem, no seu fundamento, conceitos que resultam de uma análise crítica ao pensamento hegeliano, como é o caso da totalidade negativa que, segundo ambos os filósofos, é condição para se chegar à verdade, positiva, realizada. Se bem que, note-se, em Hegel a totalidade prende-se com a razão (abordagem ontológica, mas também epistemológica e lógica); em Marx a totalidade é uma condição social manifesta na sociedade de classes e a negatividade encontra-se nas relações entre classes.
Hegel entendia que o todo da verdade tem de estar contido em todas as partes, e se uma das partes não estiver ajustada à razão então a verdade do todo fica comprometida. Marx considera que esta parte em desajuste é o proletariado. O proletariado não é a concretização das potencialidades do homem ou da liberdade, pois ao trabalhador sequer lhe sobra tempo para se dedicar à essência humana; o proletariado é a negação da razão, e o trabalho que produz é caracterizado pela alienação: “o objeto (Gegenstand) que o trabalhador produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser
estranho, como um poder independente do produtor” (Marx, 2004, p. 80). Segundo o
filósofo, esta alienação do trabalho dá-se a dois níveis, a saber, na relação do trabalhador com o produto do seu trabalho e na relação do trabalhador com a sua actividade: “Se, portanto, o produto do trabalho é a exteriorização, então a produção mesma tem de ser a exteriorização ativa, a exteriorização da atividade, a atividade da exteriorização” (Marx, 2004, p. 82). Observa que o operário trabalha em troca de um salário e é o capitalista que fica com o produto do seu trabalho, porquanto se apropria da mais-valia dos bens produzidos e da força produtiva do trabalhador; o trabalhador, como produz mais do que ganha, não tem dinheiro para usufruir dos produtos produzidos, além disso, vê-se alienado do processo humano, natural de produção, por causa da divisão do trabalho. Assim, quanto mais o trabalhador produzir mais aumenta o poder do capitalista e mais difícil é para o trabalhador apropriar-se do produto do seu trabalho. Marx nota ainda que o obreiro se sente consigo mesmo quando não está a trabalhar e longe de si enquanto trabalha, sendo livre apenas nas suas funções básicas,
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animais, como comer, dormir ou beber. Sustenta que a alienação se estende igualmente àquele que compra o produto do trabalho e conclui que no sistema capitalista todas as dimensões humanas estão imersas nos imperativos do capital: produção, dinheiro e consumo (determinam quais os bens que são produzidos, o seu valor monetário e o que se deve consumir). Apesar desta falta notória de liberdade, Marx faz a ressalva de que no sistema capitalista o indivíduo é considerado livre para vender a sua força de trabalho. É evidente que esta é uma liberdade falsa, visto que torna o indivíduo escravo e perpetua o sistema de exploração; é a negação da própria liberdade. Ademais, quanto mais se desenvolvem as forças produtivas, acusa, maior é a miséria.
Na leitura marxista, o sistema capitalista é conotado por uma universalidade negativa e impõe-se a necessidade de uma revolução universal que modifique as condições existentes e coloque no lugar destas uma nova ordem social. Esta revolução passaria pela abolição da propriedade privada e da divisão do trabalho nos moldes em que se organizam no sistema capitalista. Marx imagina uma redução enorme do tempo gasto na luta pela existência e o consequente aumento do tempo livre, apesar do trabalho continuar a existir, ainda que de forma residual; a distribuição não seria feita tendo em conta o trabalho de cada um, mas as suas necessidades, assegurando as condições materiais dos indivíduos que poderiam, assim, desenvolver as suas capacidades individuais, realizar a sua natureza na plenitude das suas funções e ser felizes. Como se pode verificar, Marx não coloca a razão no centro da sua teoria, como fizera Hegel, mas a liberdade.
Marcuse repara que na sociedade moderna, o homem conseguiu já um certo ganho no aumento do tempo livre. Não obstante, a criatividade fora do processo produtivo não parece traduzir-se no desenvolvimento das capacidades humanas, antes é direcionada para o ‘faça você mesmo’ (bricolage) e para o entretenimento embrutecedor, ou seja, o tempo livre é ocupado e administrado por interesses sociais económicos inerentes ao sistema, visto que o indivíduo carrega em si os valores, os objetivos e os comportamentos correspondentes à sociedade capitalista. Por conseguinte, o tempo livre é tão-somente a extensão do tempo de trabalho e é organizado pelo sistema. O indivíduo não é o dono nem do tempo de trabalho nem do tempo livre. Para Marcuse, uma sociedade em que o trabalho e o tempo livre fossem qualitativamente diferentes, não repressivos, teria de ser edificada por um homem
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biologicamente22 diferente, com outras necessidades, valores e desejos. Essa
transformação seria integrada no próprio processo produtivo que passaria a ser realmente criativo e não mais penoso.
Marx havia determinado que o proletariado seria o agente da revolução, uma vez que essa classe se encontrava livre das necessidades falsas, agressivas e competitivas da sociedade capitalista. Marcuse (1977), por sua vez, defende que: “As forças revolucionárias emergem do próprio processo de transformação” (p. 107), e acrescenta que insistir num agente da revolução (como preconiza o marxismo) não faz mais sentido no quadro das sociedades industriais avançadas, porquanto o proletariado tornou-se uma minoria dentro da classe trabalhadora e a classe trabalhadora aburguesou-se, quer na
praxis quer na consciência, tendo-se integrado totalmente na sociedade capitalista.
Marcuse refere ainda que Marx não contou (nem poderia contar) com determinados grupos que adquirem agora outra importância, a saber: os estudantes, as mulheres, minorias raciais e nacionais, grupos de cidadãos, etc. Estes grupos não constituem para Marcuse o «agente da revolução», contudo vê-os como catalisadores, antecipadores da revolução. Marcuse sabe que a teoria marxista não permite o desvio da oposição para estes grupos e que tampouco considera a modificação das necessidades biológicas do homem como um elemento central para uma viragem política. Não obstante, entende que esta nova abordagem teórica surge da própria transformação interna da sociedade e coloca a hipótese de se estruturar uma base diferente para a revolução, com condições díspares daquelas antecipadas por Marx. O seu intuito é reformular e atualizar a teoria marxista à luz da nova realidade política, social e tecnológica.