4 ANÁLISE DAS TRADUÇÕES
4.2 GÊNERO GRAMATICAL E NEUTRALIDADE
4.2.3 Masculino Universal
Nas tabelas a seguir trago exemplos que funcionam na contramão dos anteriores: buscarei enfatizar os casos em que o texto em inglês possui uma marcação de gênero clara e as traduções optam por traduzi-las num texto mais neutro:
no footfall of man or beast could be heard above it. (p. 427)
I: abafavam o som de qualquer passo de gente ou de animal. (p. 34)
II: abafavam qualquer passo de homem ou de animal. (p. 45)
III: não se podia ouvir o som de qualquer passo, de gente ou animal. (p. 32)
IV: não seria possível ouvir as passadas de nenhuma pessoa ou animal (p. 82)
V: não se conseguia ouvir qualquer som de passo, de homem ou animal. (p. 41)
Esta tabela marca o momento em que Orlando sai à noite para encontrar com Sasha, com quem esperava fugir. Uma das temáticas essenciais em Orlando (e na obra de Woolf de maneira mais geral) é a passagem do tempo; sua longevidade, inclusive, é um dos elementos narrativos que compõem o efeito fantástico do texto. O cenário do excerto acima era o século XVII, e quando Orlando ouve o barulho de passos, supõe que sejam de forasteiros ou de prostitutas, afinal, “mulheres respeitáveis” não costumavam andar na rua tarde da noite. O masculino universal, nesse, caso, funciona bem na caracterização desse mundo masculino, em que são destinadas às mulheres uma infinidade de restrições para poder circular no espaço público.
There was a glory about a man who had written a book [...] (p. 437)
I: a glória do homem que escrevera um livro […] (p. 46) II: havia uma tamanha glória em
torno do homem que [...] (p. 61)
III: havia uma glória no homem que escrevera um livro […] (p. 42) IV: a glória de alguém que havia
escrito [...] (p. 100)
V: um homem que tinha escrito e conseguido fazer imprimir um livro [...] (p. 56)
[…] the mind of a man. The mind of a man […] (p. 444)
I: […] a mente humana […]. A mente humana [...] (p. 55)
II: [...] a mente humana. A mente humana [...] (pp. 71-72)
III: […] a mente humana. A mente humana [...] (p. 49)
IV: […] a mente humana. A mente do homem […]
V: [...] a mente humana. A mente humana […] (p. 66)
No passion is stronger in the breast of man than the desire to make others believe as he believes. Nothing so cuts at the root of his happiness and fills him with rage as the sense that another rates low what he prizes high. (p. 471)
I: Nenhuma paixão é mais forte, no peito humano, que o desejo de impor aos demais a própria crença. Nada também corta tão pela raiz nossa felicidade e nos encoleriza tanto como sabermos que outros menosprezam o que exaltamos. (p. 83)
II: Nenhuma paixão é mais forte no peito do homem do que fazer os outros acreditarem naquilo em que ele acredita. Nada corta tanto a raiz de sua felicidade e o enche de cólera como perceber que outro menospreza aquilo que ele valoriza ao máximo. (p. 107)
III: Não existe paixão mais forte, no peito humano, que o desejo de fazer os outros acreditarem naquilo que se acredita. Nada corta tanto a nossa felicidade pela raiz, ou nos enche mais de raiva, do que o sentimento de que outro desvaloriza o que temos em alta conta. (p. 72)
IV: Nenhuma paixão é mais potente no peito do homem que o desejo de fazer os outros acreditarem no que ele crê. Nada
V: Nenhuma paixão é mais forte, no coração do homem, do que o desejo de obrigar os outros a acreditarem no que ele acredita.
atinge mais duramente a raiz de sua felicidade e o enche de ódio que saber que outrem menospreza aquilo que ele mais valoriza. (p. 150)
Nada perturba tanto a sua felicidade e o deixa tão furioso quanto a ideia de que um outro dá pouco valor àquilo que ele muito valoriza. (pp. 99-100)
Os trechos acima remetem à atividade da escrita, à racionalidade e ao ato de dominação/colonização intelectual. O masculino universal continua funcionando na caracterização do “mundo de homens” no texto em inglês. Acompanhando linearmente as escolhas de cada tradutor/a, pode-se dizer que há uma tendência maior a neutralizar o texto, por parte de Dauster (IV) e Goettems (III). No texto de Meireles (I) encontramos o mesmo número de usos entre palavras masculinas e palavras neutras na tradução de man, suas escolhas se alinham com seu posicionamento em direção à neutralidade, presente em seu prefácio à tradução:
Sucessivamente homem e mulher, Orlando representa a experiência do indivíduo nas diferentes situações em que a natureza o coloca no mundo; a fluidez da vida obriga a essa superação do sexo. [...] quando se diz Orlando – poder-se-ia entender simplesmente – criatura humana. (MEIRELES, [1948] 1978, p. 3)
Talvez as traduções de Alves (II) e Tadeu (V), nesses casos, sejam as que mais se aproximem de uma abordagem sistemática ao uso do masculino genérico utilizado no texto woolfiano, apenas em um caso optando pela tradução de man por humanidade.
Independente da intencionalidade da autora ou d@s tradutoras/es, o importante é notar que as escolhas tradutórias vão aos poucos traçando um perfil para o texto. Esse perfil não necessariamente está vinculado à imagem do texto em língua inglesa, e parte disso diz respeito às particularidades do texto original que foram lidos como importantes ou recorrentes pel@s tradutoras/es. A respeito das marcas de gênero, deve-se reconhecer que em alguns casos não é fácil forçar os limites da língua, principalmente em uma tradução comercial. Mas há situações de Orlando em que as marcações de gênero são bastante possíveis e necessárias. Uma das possíveis justificativas para sua ausência nos textos brasileiros pode estar em não terem sido lidas como
uma tendência da identidade do texto na língua original, e por isso não terem sido traduzidas com sistematicidade.