1 O SURGIMENTO DA FIGURA DE MARIA NOS RELATOS CRISTÃOS
1.3 Análise do Evangelho da Natividade de Maria
1.3.6 Massacre das crianças e Assassinato de Zacarias
Término do relato do evangelho com o massacre das crianças e o assassinato de Zacarias. O que mais nos chama a atenção nesta parte é a alusão a ideia de martírio na fala de Zacarias:
77 BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2001, p. 210.
78 MORALDI, Luigi. Evangelhos apócrifos. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1999,p. 83.
79 ORÍGENES, Contra Celso. 1 ed. São Paulo: Paulus, 1998, p. 20.
Ele respondeu e disse: Sou uma testemunha de Deus. Toma o meu sangue. Mas o meu espírito acolhê-lo-á o meu Soberano, porque derramarás um sangue inocente na entrada do templo do Senhor.81
Percebe-se que o autor procurou nos passar algo que provavelmente já acontecia no período do escrito da obra, pois não há nenhuma alusão a este acontecido com Zacarias nas escrituras canônicas.
Conforme mapeado no texto, buscamos fazer um quadro para maior entendimento dos principais fatos apresentados e de algumas aparições:
Quadro 1 – Principais fatos apresentados
Defesa da virgindade de Maria e da concepção de Jesus por obra de Deus.
Cita-se por dez vezes a pureza ou virgindade de Maria atrelada ou não a escrita sobre a concepção miraculosa.
Defesa da ascendência de Maria (Pertença a casa de Davi).
Por três vezes é citado a ligação de Maria e de sua família com a casa de Israel.
Defesa da importância de Maria
(cuidados destinados a ela pelos anjos e por Deus).
Quatro vezes é citado que Maria era especial para Deus.
Bênçãos proferidas a Maria
(relacionadas a grandeza de seu nome).
Cinco vezes são proferidas bênçãos que antecipam a importância de Maria na história do povo.
Trabalho com a púrpura. Por três vezes é citado o contato de Maria com a púrpura.
Passagens que relacionam se com o Antigo ou Novo Testamento
20 passagens.
Aparição de anjos no texto. 9 vezes.
Segundo o levantamento que fizemos e conforme nosso entendimento, a questão principal do texto é a predestinação e a importância de Maria na história do povo de Deus. A obra foi planejada e escrita para demonstrar como a mãe de Jesus, filha de Joaquim e da estéril Ana, educada no templo desde a mais tenra idade, confiada pelos sacerdotes ao viúvo e ancião José, que permaneceu virgem antes e depois do nascimento de Jesus, sempre foi a escolhida para realização dos planos de Deus.
No texto percebe-se a defesa de sua pureza e de sua importância para Deus, fatos estes atestados na fala de vários personagens e nas aparições dos anjos sempre relacionados a defesa e aos cuidados de Maria.
Apesar de percebermos a intenção do autor de demonstrar a origem divina de Jesus através da fala dos anjos e de José, da pertença a casa de Davi e da virgindade de Maria, estes acontecimentos serviram no texto não só para a defesa das virtudes
de Maria, mas ao nosso entendimento para enfatizar a importância e a santificação da Mãe de Jesus.
Em nossa concepção, o texto possui inúmeras passagens que podemos considerar próprias de uma literatura apologética, mas principalmente foi escrito como uma hagiografia do ponto de vista histórico, pois os acontecimentos que se sucederam na vida de Maria não são objetos de uma escolha da personagem, mas foram simplesmente destinados à acontecer na sua vida.
Desta forma, pontuamos o evangelho da natividade de Maria como um texto apócrifo do ponto de vista teológico, mas historicamente como um gênero híbrido dotado de uma literatura apologética e hagiográfica.
Apologia contêm o significado de um discurso oral ou escrito em defesa de alguma coisa ou alguém82. Dentro da religião cristã, definimos a literatura apologética como um conjunto de escritos, em língua grega e latina, que foram em sua grande maioria escritos do século II ao século V, escritos em defesa da religião cristã e para refutação da religião pagã83.
Porém no caso do apócrifo da Natividade de Maria, o texto em sua função apologética serviu como instrumento de defesa de uma série de questionamentos levantados por grupos judeus, pagãos e gnósticos, questionamentos estes não somente sobre a vida de Maria, mas principalmente sobre Jesus.
Em relação a estrutura apologética do texto, observamos sua existência em algumas passagens do texto, como a defesa da virgindade de Maria, sua pertença à casa de Davi e sua maternidade divina.
No que concerne a estrutura hagiográfica do texto para entendermos como se caracteriza, trabalhamos com o “Dicionário de Literatura Patrística” e “A escrita da história” de Michel de Certeau.
No Dicionário de Literatura Patrística encontramos a seguinte definição “A Literatura hagiográfica entende-se como um gênero literário destinado à conservação
82 VAUCHEZ, André. Cristianismo: Dicionário dos tempos, dos lugares e das figuras. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013, p. 29.
83 O termo pagão aqui utilizado refere-se a uma evolução do termo que se produziu com a
cristianização do Império Romano. Os pagãos eram considerados pelos cristãos como os adeptos do politeísmo tradicional, os idólatras. Durante a antiguidade tardia, o termo pagani de onde derivou pagão, substituiu pouco a pouco todas as palavras que eram referentes as diferentes religiões. apud VAUCHEZ, 2013, p. 315.
da memória histórico-biográfica dos santos, frequentemente com objetivo explicitamente edificante e exemplar”84.
Segundo Michel de Certeau “a combinação dos atos, dos lugares e dos temas indica uma estrutura própria que se refere não essencialmente “àquilo que se passou”, como faz a história, “mas aquilo que é exemplar”85.
Certeau nos diz em seu livro que enquanto na biografia observamos uma evolução na vida do santo, na hagiografia temos uma “vocação” uma “eleição” deste santo desde a origem. Na fase adulta do santo remonta-se à infância, o eleito é aquele que não perdeu nada do que recebeu. Segundo o autor, a hagiografia é um discurso
de virtudes, mas nem sempre relacionadas a questão moral, “uma teologia está
sempre investida no discurso hagiográfico”86.
A vida do santo desta forma não se apresenta e não faz parte de um tempo cronológico, mas de um quadro litúrgico, de uma outra ordem no cosmos.
Percebemos que a narração hagiográfica é destinada a incidir persistentemente na vida espiritual, eclesiástica e cultual dos indivíduos e das comunidades. A partir do segundo século da era cristã este gênero literário alcançou grande desenvolvimento acompanhando a história da santidade cristã e da memória dos mártires.
Podemos dizer que o Evangelho da Natividade de Maria registra tradições orais e escritas que se formaram em torno da infância de Jesus, visando completar as escassas informações dos evangelhos canônicos, transmitindo assim posições teológicas locais que de outra forma seriam inaceitáveis. Neste documento, percebe-se que desde sua origem, há a reprepercebe-sentação de uma expressão popular de fé, sintonizada com algumas posições da teologia oficial do cristianismo.
Havia muitas coisas que aguçavam a curiosidade dos ouvintes pagãos e dos fiéis. Desejosos de saber ditos e fatos da vida de Jesus, além de relatos sobre a família, educação de Maria, sua virgindade e sua vida. Estes escritos buscavam preencher as lacunas que foram deixadas sobre a vida de Maria e buscavam consequentemente atestar a humanidade e a infância de Jesus.
84 DI BERARDINO, Angelo. Dicionário de literatura patrística. 2. ed. São Paulo: Editora Ave-maria, 2010, p. 904.
85 CERTEAU, Michel. A Escrita da História. 3 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 295.
Na narrativa do evangelho estudado observamos que decorrem ideias teológicas fundamentais, embora nem sempre enunciadas de forma explícita, refletindo assim convicções vigentes naquela época com elementos da fé cristã.
O evangelho da natividade de Maria transmitiu pormenores apreciáveis, que se perpetuaram na liturgia e na arte. Como os nomes dos pais de Maria, a apresentação de Maria no templo, o nascimento de Jesus numa gruta, entre outros acontecimentos.