Materiais e produção da materialidade da pesquisa

No documento A EDUCAÇÃO DO CAMPO EM CAÇAPAVA DO SUL: EXPERIÊNCIAS QUE SE PRODUZEM NA HISTORICIDADE (páginas 33-40)

3. DOS MATERIAIS E SUSPENSÕES ÀS ENTREVISTAS

3.1 Materiais e produção da materialidade da pesquisa

Foram muitos, apesar da desorganização da documentação, os materiais que encontrei no primeiro movimento da pesquisa. O quadro abaixo mostra os materiais que fui escolhendo. Para essa seleção e para construção da materialidade foi tomada como parâmetro a necessidade de neles conter:

apresentação/mostra de uma situação/historicidades/cotidianos que raramente aparecem nos textos históricos totais; relações que se estabeleciam nas Escolas do Campo com outros setores da sociedade/comunidade; condutas assumidas nas Escolas do Campo que constituíam princípios e valores; desafios, problemas e resistências que emergiam nas Escolas do Campo.

Esses parâmetros de escolha e seleção nos materiais tinham relação com as perguntas menores de pesquisa que geram o problema de investigação, assim

retomo-as: como se produz (ou não) uma historicidade no presente para as Escolas do Campo de Caçapava do Sul? Quem poderia construir essa historicidade, no presente? Quais leituras da historicidade poderiam impactar a constituição das Escolas do Campo de Caçapava do Sul no presente?

Os materiais escolhidos e os fragmentos deles selecionados estão listados a seguir. Destaco que foram organizados conforme o tipo de documento e por

Os membros do conselho de pais e mestres falaram sobre a importância do MOBRAL e da participação dos pais.

Disseram que não haveria problema, que os tratoristas trabalhavam da meia noite ao meio-dia e que à tarde poderiam estudar.

Ficou decidido que as aulas seriam às 8h30min, e que haveria um horário à tarde para os tratoristas. com a nova reforma do ensino), sobre aproveitamento e assiduidade dos alunos a participação dos pais na escola e sobre o financiamento de crédito.

10 A cada escola, coloco a informação Fechada ou Ativa, baseada na data atual.

Doc. 5

Escola ainda denominada Cruzeiro do Sul – reunião em que as mães foram

convocadas para decidirem sobre os uniformes da escola – camisa branca e pantalona azul marinho. Foi falado sobre o MOBRAL, em que todas as pessoas analfabetas eram obrigadas a participar das aulas de alfabetização no próprio estabelecimento de ensino. Aquele aluno que não pudesse comparecer ao posto de alfabetização, outro aluno ficaria

responsável em levar as atividades.

1977 EMEF Gabriel Gomes Lucas (fechada)

Doc. 6

Reunião com o conselho de pais e

mestres. Falar sobre o comportamento dos alunos, frequência dos mesmos e entrega de boletins, e também marcar a data de uma festa beneficente para escola. Foi falado sobre o comportamento dos alunos no caminho de casa. O vice-presidente do conselho ressaltou que os alunos que não se comportarem e forem reincidentes devem ser expulsos da escola. Outro membro do conselho deu a opinião de que o melhor aluno recebesse um diploma e contaria quem eram os maus comportados para a professora. Foi decidido nessa reunião também que a escola trocaria de nome para Gabriel Gomes Lucas, que faleceu e doou o terreno para a escola.

1977 EMEF Gabriel Gomes Lucas (fechada)

Doc. 7

Entrega de boletins e falta de assiduidade dos alunos. Foi falado individualmente com as mães e estas relataram que foi por falta de agasalho.

1979 EMEF Gabriel Gomes Lucas (fechada)

Doc. 8

Entrega de boletins - os alunos terem mais atenção e estudarem em casa. Também foi falado sobre a importância da merenda escolar na aprendizagem do aluno.

1982 EMEF Gabriel Gomes Lucas (fechada)

Doc. 9

Apresentação professora nova, eleição do presidente e vice para o clube de mães, aprendizagem dos alunos, organizar a comunidade para plantio de horta e reforma na casa das professoras, falta dos alunos, preparação para a primeira Sul e as riquezas naturais do município.

2010 SEDUC

Doc. 12

Maneira de avaliar o aluno, devendo observar os direitos de aprendizagem e a forma de escrever o parecer descritivo.

Cuidar as palavras e focar na

aprendizagem, não rotular, classificar a criança e não a comparar com as outras, respeitando as diferenças. Foi comentado sobre a produção textual, sobre fazer o aluno criar, escrever e o professor se autoavaliar depois das aulas.

2013 SEDUC

Doc. 13 Calendário escolar e projetos, além da

importância da formação continuada. 2013 SEDUC

Doc. 14

Ativação das hortas escolares, quando o aluno não comparecer à escola devido ao transporte deve ser enviado trabalho à distância. Foi comentado sobre os

documentos que devem estar na escola, o PPP e o plano de ação. pais sobre os alunos na outra escola (escola-núcleo). Os mesmos perguntaram se haveria a possibilidade de retornar as aulas naquela escola, e a antiga diretora relatou estar desestimulada por tentar melhorar as condições da escola e a comunidade depredar. Foi falado também que um vereador pediu o local para funcionar a Associação dos Produtores do sobre o currículo nas escolas do campo. A diretora falou sobre os problemas

Reunião no salão de atos da Seduc com as escolas do campo e a coordenação da educação especial. Foi pedida a reunião

Doc. 20

Reunião na escola São Judas Tadeu para falar sobre a importância do trabalho em equipe e sistematização de Gestão Democrática na escola.

2014 SEDUC

Doc. 21 Reunião na escola Dona Theodora da

Fonseca com pauta referente ao currículo. 2014 SEDUC Doc. 22 Reunião sobre currículo adaptado e

deficiências nas escolas do campo. 2015 SEDUC

Doc. 23

Reunião realizada na escola Theodora da Fonseca para tratar sobre a água, pois a Seduc recebeu um laudo da Secretaria Municipal da Saúde em que a água está imprópria para consumo. Os pais não aceitam transferir os alunos para outra escola até que o problema seja resolvido.

Os pais sugeriram que as aulas fossem suspensas até solucionar o problema.

Ficou acordado que após um novo laudo da saúde e análise da água seriam feitos novos encanamentos e a Seduc

Quadro 3 Documento Livro Ata (pela autora)

Quadro 4 – Ofícios

da escola a ser entregue na secretaria, eximindo-se de qualquer responsabilidade.

Doc. 26 Cria uma aula municipal na localidade Passo do Feio.

1949 Prefeitura Municipal de Caçapava do Sul Doc. 27 Denomina e legaliza as escolas Padre Fidêncio e

Theodora da Fonseca.

Quadro 6 - Relatórios de encerramento do ano/finais

esse ano, peguei uma classe de alunos de 2ª, 3ª e 4ª série. Os da 2ª deveriam estar na 1ª série atrasada, os da 3ª deveriam estar na 2ª série atrasada. Os da 4ª série deveriam estar na 3ª atrasada. Os dois alunos que passaram começaram em agosto, antes estavam em outra escola.”

1972 EMEF Lino

Azambuja (ativa)

Doc. 31 “Não domina leitura”;

“Aluno não alfabetizado”. 1975 EMEF Lino

Azambuja (ativa) Doc. 33 “aluno fraco em matemática e português”;

“aluna bem aplicada”. 1978 EMEF Lino

Azambuja (ativa) Doc. 34 “Aluno com problemas”;

“Precisa de muita leitura”. 1981 EMEF Padre

Fidêncio (ativa) Doc. 35 “Deficiência na leitura”;

“Não alcançou os objetivos propostos”.

1981 EMEF São Judas Tadeu (ativa)

Doc. 36 “não dominou os conteúdos”;

“dificuldade na leitura”.

Quadro 6 Relatórios de encerramento de ano/finais (pela autora).

Quadro 7 - Manual para Escolas do Campo

Numeração Situações/historicidades/cotidianos;

Quadro 7 Manual para as escolas do campo

Quadro 8 - Dossiê, Imagens, recortes de reportagem, fotografias

Numeração Situações/historicidades/cotidianos;

relações; condutas; desafios, problemas e resistências

Ano Instituição e/ou responsável

Doc. 40 Entrevistas, reportagens, história da escola, protestos e abaixo-assinado referente à EMEF Padre Fidêncio.

2011 EMEF Padre

Fidêncio (ativa) Doc. 41 Texto de uma mãe enviado à Rádio Caçapava. 2011 EMEF Padre

Fidêncio (ativa)

Doc. 42 Depoimento da primeira professora da escola. 2011 EMEF Padre Fidêncio (ativa) Doc.43 Fotos da escola e suas instalações. 2011 EMEF Padre

Fidêncio (ativa) Quadro 8 Dossiê Padre Fidêncio (pela autora).

Ao ler e selecionar trechos de situação/historicidades/cotidianos; relações;

condutas; desafios, problemas e resistências nesses documentos pude notar a investigação tomar contornos, pois percebi nas narrativas, nos recortes de histórias da escola, o que acontecia na época, como as pessoas viviam e se reuniam na escola para discutir variadas situações. A cada leitura de um ou outro trecho das reuniões, dos encontros, dos informes oficiais, das entrevistas, reportagens, enfim, cada olhar atento para as fotografias e imagens, me permitia compor algumas problematizações.

Os trechos de textos, imagens, fotografias (...) selecionados dos documentos, como já anunciei antes, serviram para que pudesse criar suspensões por onde, de modo estriado e emaranhado, foi possível problematizar sobre como algumas dessas situações/historicidades/cotidianos; relações; condutas; desafios, problemas e resistências das Escolas do Campo em Caçapava do Sul podem constituir pistas para entender como a educação do campo se constitui nas escolas multisseriadas de Caçapava do Sul como possibilidade para pensar a educação do campo atualmente.

Foi assim que no projeto de qualificação detalhei cada uma das suspensões e como as problematizei, como foi descrito/compilado no quadro I. O pensar sobre, naqueles momentos de suspensão e descrita sobre situações/historicidades/cotidianos; relações; condutas; desafios, problemas e resistências, me permitiu perceber a potencialidade dessa materialidade. Uma materialidade que mobilizou em mim um pensar e que teria potência para mobilizar outros/as a “historicizar” a Escola do Campo de Caçapava do Sul.

Com parte da materialidade construída a partir dos documentos projetei as entrevistas, o que mostrarei a seguir. Ainda, com essa materialidade e a do registro sistematizado de uma “história/contos” das Escolas do Campo de Caçapava do Sul, trago a ótica de quem vive/viveu e produziu sua própria história atravessados pelas experiências que os constitui como gente no campo.

No documento A EDUCAÇÃO DO CAMPO EM CAÇAPAVA DO SUL: EXPERIÊNCIAS QUE SE PRODUZEM NA HISTORICIDADE (páginas 33-40)