1.3 DESTAQUES À TRADIÇÃO EDUCACIONAL REPUBLICANA DA
1.3.4 Matriz educacional republicana em Condorcet
A quarta - e última – abordagem da tradição educacional republicana da modernidade é fundamentada em Condorcet. Trata-se de um autor que vai discutir uma proposta de educação no momento de transição da monarquia para a república. É um momento significativo, pois, a França começa instalar um governo republicano de origem revolucionária; portanto, compromissado com a democracia, e os ideais da sua Revolução de 1789. A sua obra “Cinco memórias sobre a instrução pública”, serve de base para a construção do seu projeto de decreto sobre a instrução pública a ser desenvolvida na França. Contudo, este projeto de educação republicana não foi aprovado pelo Parlamento Francês. Mesmo assim, a proposta, que é debatida universalmente, será levada em consideração para a realização do presente estudo.
Na sua primeira memória, são discutidos a natureza e objeto da instrução pública. Constitui-se nas diretrizes gerais da instrução pública, que deveria fundamentar a proposta educacional dos governos republicanos que o povo francês escolher doravante. Na construção deste texto, a preocupação maior será com vistas a essa primeira memória, por constituir-se nas diretrizes gerais da instrução pública, segundo a proposta de Condorcet.
No ano de 1792, quando na condição de deputado do Departamento de Paris e membro integrante do Comitê de Instrução Pública da França em sessão solene, apresenta à Assembleia Nacional, “[...] o texto intitulado Relatório e projeto de decreto sobre a organização geral da instrução pública, propõe aos deputados um
plano completo de organização da instrução nacional, desde o ensino primário até o ensino superior” (Grifos do autor) (CONDORCET, 2008, p. 7)49
.
Essa proposta de decreto teve como fundamento teórico e ideológico a obra “Cinco memórias sobre a instrução pública”. A apresentação dessa proposta aconteceu num momento em que a França ainda não era uma república, mas que, logo em seguida, viria a ser. Mesmo à sociedade francesa, saída de uma revolução que difundiu os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, sua proposta de instrução nacional causou grandes repercussões por se tratar de uma escola universal para todos, igualitária, gratuita e independente no seu processo de ensinar (CONDORCET, 2008, pp. 7-8-9)50. Neste aspecto, Condorcet não apresenta um modelo de escola ideal, como se fosse uma imposição a partir do exterior e que iria produzir uma modelagem para a nova fase que a sociedade francesa estava assumindo. Para ele a educação é para a emancipação51 do indivíduo.
O autor (2008) entende que a escola pública deve ser igual para todos e gratuita, pelo menos a quem não tem condições de assumir os custos da escola privada ou confessional e independente da forma de atuação do professor. Vai promover superioridade a quem passar pela instrução pública, mas que essa superioridade não seja uma forma de estabelecer domínios sobre os outros. Por esse motivo, segundo Condorcet (2008, p. 18), “[...] a superioridade de alguns homens, longe de ser um mal para aqueles que não receberam as mesmas vantagens, contribuirá para o bem de todos e os talentos, bem como as luzes, tornar-se-ão patrimônio comum da sociedade”.
Sua preocupação com a instrução pública é de que, a partir dela, o Estado social pudesse se desenvolver, diminuindo a desigualdade através da promoção do bem comum. De igual sorte, o crescimento humano seria inevitável, com a instrução
49A citação é extraída do Texto de apresentação a obra “Cinco Memórias Sobre a Instrução Pública”
produzido por Maria das graças de Souza.
50A citação é extraída do Texto de apresentação da obra “Cinco Memórias Sobre a Instrução Pública”,
que foi produzido por Maria das Graças de Souza.
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A respeito da educação para a emancipação, se faz necessário levar em consideração o pensamento de Adorno. O autor se manifesta, afirmando que, [...] gostaria de apresentar minha concepção inicial de educação. Evidentemente não a assim chamada modelagem de pessoas., porque não temos o direito de modelar pessoas a partir do seu exterior; mas também, não a mera transmissão de conhecimentos, cuja característica de coisa morta que já foi mais do que descartada, mas a produção de uma consciência verdadeira. Isso seria inclusive da maior importância política; sua ideia, se for permitido dizer assim, é uma exigência política, isto é: uma democracia com o dever de não apenas funcionar, mas operar conforme seu conceito, demanda de pessoas emancipadas. Uma democracia efetiva só pode ser imaginada como uma sociedade de quem é emancipado [...]” (ADORNO, 2012, pp. 141-142).
pública extensiva a todos. O autor alerta para que o conhecimento adquirido por aqueles que tivessem oportunidade de frequentar a escola, constituindo-se em talentos, fossem as luzes para promoção do bem comum a todos e não uma forma de exploração sobre aqueles que não tiveram a mesma sorte. Na sua visão, a educação seria estruturada em três partes, quais sejam:
Em primeiro lugar, uma instrução comum, na qual se deve propor: 1) ensinar a cada um, segundo o grau de sua capacidade e a duração do tempo do qual pode dispor, o que é bom para todos, quaisquer que sejam, suas profissões e seus gostos; 2) assegurar um meio de conhecer as disposições particulares de cada indivíduo, a fim de que se possa tirar proveito dessas disposições para o benefício geral; 3) preparar os alunos para os conhecimentos exigidos pela profissão à qual se destinam”. A segunda espécie de instrução deve ter como objeto estudos relativos às diversas profissões cujo aperfeiçoamento seja útil tanto para o benefício comum quanto para o bem-estar particular daqueles que a elas se dedicam. A terceira, enfim, puramente científica, deve formar aqueles que a natureza destina ao aperfeiçoamento da espécie humana, e, dessa maneira, facilitar as descobertas, acelerá-las e multiplicá-las (CONDORCET, 2008, p. 32).
Ao defender sua proposta educacional, ele o faz sob os argumentos de três grandes motivos. O primeiro deles é que a instrução pública capacite os cidadãos a cumprir com as funções públicas, a fim de que essas funções não se tornem uma profissão, mas a forma de tornar vivo o Estado no seu papel de promover o bem comum. O segundo motivo é de que a divisão dos ofícios e das profissões não conduzam os povos à estupidez. O terceiro motivo preconiza que a instrução deve servir para diminuir, por meio de uma instrução geral, a vaidade e a ambição. (CONDORCET, 2008).
Tais motivos são fatores que justificam uma instrução pública para a França pós-revolucionária, que Condorcet pensa ser necessária uma formação de cidadãos virtuosos, fator primordial para que o indivíduo possa assumir a vida republicana e prosperar na promoção do bem comum. Por sua vez, Adorno contribui para a interpretação do pensamento de Condorcet, afirmando que:
A educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo da adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo. Porém, ela seria igualmente questionável se ficasse nisto, produzindo nada além de well adjusted people, pessoas bem ajustadas, em consequência que a situação existente se impõe precisamente no que tem de pior (ADORNO, 2012, p. 143).
A instrução a ser desenvolvida pela França pós-revolucionária será com base na verdade, e a escola pública deve apenas mostrar o caminho para as luzes. Neste sentido, um dos fins da educação apontado por Condorcet, é o de mostrar aos seus educandos que:
[...] somente a verdade pode ser a base da prosperidade durável, e que as luzes, crescendo sem cessar, não permitem mais que o erro se vanglorie de ter um império eterno; o fim da educação não pode ser mais o de consagrar as opiniões estabelecidas, mas, ao contrário, o de submetê-las ao exame livre de gerações sucessivas, cada vez mais esclarecidas (CONDORCET, 2008, p. 46).
Cabe, portanto, ao poder público o papel de promover a instrução pública laica. Não promover a educação religiosa, como sendo uma religião do Estado. Se o fizer, estaria retirando o direito de escolha, que é legítimo de cada pessoa ou de cada família. Se isso acontecer, a proposta de instrução pública estaria centrada num pensamento já definido, subtraindo a liberdade de exercício educacional do professor, que é de submeter as opiniões e ao exame livre da atual geração. Por conseguinte, se a religião é um fator importante à moral e à felicidade para outra vida, cabe aos pais realizarem suas escolhas e promovê-la no âmbito da família, como sendo uma educação doméstica. Assim,
Em suma, é igualmente impossível rejeitar ou admitir a instrução religiosa numa educação pública que excluísse a educação doméstica sem ferir a consciência dos pais, se estes considerarem a religião exclusiva necessária ou mesmo útil à moral e à felicidade numa outra vida. É preciso, portanto, que o poder público se limite a regular a instrução pública, deixando às famílias o resto da educação (CONDORCET, 2008, p. 47).
Condorcet, no seu discurso de 1792, tem uma certeza; a revolução é uma herdeira do iluminismo. Quando apresenta seu relatório à Assembleia Francesa, promove distinção entre a educação nacional e a instrução pública. A primeira tem como objetivo fornecer as luzes da ciência. Por sua vez, a segunda deve fundamentar-se nas virtudes republicanas. Para implantar a educação nacional, é necessário construir escolas, liceus, adquirir livros e prover as escolas de professores. A instrução pública proporciona as festas nacionais, os hinos, as cores, as bandeiras e as armas. A primeira funda-se na razão; a segunda, no sentimento fraterno de pertencimento a um povo e uma nação republicana (BRAYNER, 2008).
Na sua visão, o Estado não poderia impor de forma tácita uma educação que se transformasse numa espécie de doutrinação, cuja finalidade fosse a de formar exclusivamente cidadãos republicanos. Não caberia a ele invadir dessa maneira a consciência das pessoas. Seu pensamento era de que o Estado deveria garantir a independência dos professores para que sua atuação no campo educacional fosse centrada na razão. A educação fundamentada na razão seria uma espécie de contrapoder, segundo Brayner (2008). Um contrapoder sobre os domínios da vontade expressa dos governos, a ser exercido por pessoas que capazes de pensar pelos outros ou por qualquer outra forma de jugo.
Sua proposta de instrução pública nacional inclui a obrigatoriedade do estudo da Constituição como sendo a norma irradiadora de toda a legislação que for criada pelo Estado a partir do seu advento. O estudo da Constituição não se restringe apenas em saber que é uma norma criada pelo Estado e, portanto, todos devem seguir como doutrina universal, mas que a instrução pública proporcione capacidade de julgá-la. Logo,
O fim da instrução não é fazer que os homens admirem uma legislação pronta, mas torná-los capazes de avaliá-la e corrigi-la. Não se trata de submeter cada geração às opiniões bem como às vontades daquela que a precede, porém de esclarecê-la cada vez mais, a fim de que cada uma se torne cada vez mais digna de governar-se por sua própria razão (CONDORCET, 2008, p. 53).
“Sem dúvida, aqueles que exercem o poder público devem esclarecer os cidadãos sobre os motivos das leis a que se submetem” (CONDORCET, 2008, p. 55). Essa relação do governo com o povo será própria de governos republicanos, que já elaboraram a lei com a participação da sociedade, e na sua execução o fazem como sendo uma vontade manifestada pela própria sociedade, por ocasião da sua elaboração. Do contrário, tem-se a presunção de que a norma não representa uma vontade geral nem vai criar as condições para a promoção do bem comum.
Sua defesa foi de que a instrução pública fosse igual para todos, independentemente da condição humana, tornando presente o princípio da igualdade, fator necessário para o fortalecimento de uma república. Ensina argumentando que:
Provamos que a educação pública deveria limitar-se à instrução; mostramos ser necessário estabelecê-la em diversos graus. Nesse sentido, nada pode
impedir que ela seja a mesma para mulheres e homens. Com efeito, como toda instrução se limita a expor as verdades, a desenvolver suas provas, não se vê como a diferença dos sexos exigiria uma diferença na escolha das verdades ou na maneira de prová-las (CONDORCET, 2008, p. 57).
“As mulheres não devem ser excluídas da instrução que é relativa às ciências, porque elas podem tornar-se úteis aos seus progressos, seja fazendo observações, seja compondo livros elementares” (CONDORCET, 2008, p. 57). Não se trata de oportunizar espaços às mulheres numa visão utilitarista e produtivista. Mas, que elas tenham a mesma oportunidade dada aos homens de se tornarem agentes do progresso humano e da própria república, que agora se encontra em construção. De outra forma, tornar aplicável o princípio da igualdade preconizado pela revolução e agora positivado no texto Constitucional da França. Sua proposta lança as bases da igualdade de direitos e obrigações entre homens e mulheres, não só para a República Francesa, mas para as constituições democráticas promulgadas por muitos povos a partir desse advento.
No contexto geral da sua proposta de instrução pública, a segunda memória trata da instrução comum a todas as crianças, considerada como de primeiro grau de instrução comum. Leciona que:
O primeiro grau de instrução comum tem a finalidade de colocar todos os habitantes de um país em condições de conhecer seus direitos e seus deveres, a fim de poder exercer uns e cumprir outros, sem serem obrigados a recorrerem a uma razão alheia. Além do mais, é preciso que esse primeiro grau seja suficiente para torná-los capazes de exercer funções públicas às quais é útil que todos os cidadãos possam ser chamados, e que devem ser exercidas até nos extremos do território (CONDORCET, 2008, p. 71).
Sendo assim, as diretrizes do ensino de primeiro grau seriam pautadas na universalidade de acesso e permanência na escola. Sua frequência seria obrigatória e, portanto, garantida financeiramente pelo Estado, para que todos, independentemente da condição financeira familiar, pudessem frequentá-la. Tem como pressuposto o conhecimento dos direitos e deveres preconizados na Constituição Nacional e o exercício da liberdade e autodeterminação pautado pela razão. A proposta educacional deve apresentar como base a formação da cidadania crítica, com habilitação para o exercício de funções públicas.
O Estado deve universalizar a instrução pública em todo o território, mediante a construção de escolas em todos os povoados, para que todos tenham
oportunidade de acesso e permanência, independente da distância que a família se encontrar. Esse período escolar seria de quatro anos, com conteúdos elementares e direcionados a cada série que o aluno frequente. Por sua vez, no segundo grau, com duração de quatro anos, o ensino será separado em duas partes. A primeira, constituída por ensino regular de instrução geral, dando continuidade ao ensino de primeiro grau; a segunda, em que o ensino será voltado a detalhes e maior extensão das ciências particulares, com duração de aproximadamente dois anos (CONDORCET, 2008).
Na sequência da instrução pública, ele propõe que a escolaridade atinja um terceiro grau de instrução. Assim:
Passo agora ao terceiro grau de instrução. A geral seria dada na capital de cada departamento, por quatro professores que seguiriam cada curso de quatro anos e consistiriam em ensinar os mesmos conhecimentos, dando- lhes um maior desenvolvimento e extensão. Fixar-se-iam, como no segundo grau de instrução, os limites de cada estudo de acordo com o duplo princípio de deter-se naquilo que é de utilidade imediata para os cidadãos que só querem se preparar dignamente para as funções públicas, e de respeitar, sem exceder, os limites daquilo que uma inteligência mediana possa entender, reter e conservar (CONDORCET, 2008, p. 112).
Quanto às ciências, entende ser necessário ensiná-las separadamente, sendo uma para cada professor, com conhecimento específico da área. Um, seria encarregado de ministrar a metafísica, a moral e os princípios gerais das constituições políticas; Outro ministraria a legislação e a economia política. O terceiro seria encarregado de ensinar a matemática e suas implicações às ciências físicas e políticas. Um quarto professor ensinaria suas implicações às ciências morais e políticas. O ensino da física, da química e da mineralogia seria responsabilidade de um quinto professor. O ensino da anatomia e outras partes da história natural relacionada com a economia rural seria uma atribuição do sexto professor. Por sua vez, o sétimo se ocuparia em ministrar o ensino da geografia e da história. E, finalmente, o oitavo professor assumiria a responsabilidade de ministrar a gramática e a arte de escrever, como disciplinas integrantes da instrução pública (CONDORCET, 2008).
No entanto, como já mencionado, Condorcet (2008, p. 11) rejeita a ideia de que a escola pública seja um templo sagrado onde se ensine uma espécie de “[...] catecismo republicano, cujos efeitos não seriam em alguns aspectos muito
diferentes dos de um catecismo religioso, ou seja, o de obscurecer a razão, mesmo que se trate de um obscurantismo virtuoso”52
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Por outro lado, a educação em Condorcet assume um compromisso de lutar contra a barbárie e proporcionar a igualdade de acesso e permanência na escola para todos independentemente da condição que se encontre. Em relação à barbárie, Adorno (2012, p. 155) entende como sendo algo bem fácil de compreender, pois o indivíduo, encontrando-se “[...] na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, se encontre atrasado de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização - e não apenas ter em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização [...]”.
A educação em Condorcet não está centrada na ideia do catecismo republicano, pois se assim fosse, ela seria de igual forma, um instrumento de repressão em nome da transformação. É nesse sentido que Adorno (2012, p. 185) alerta e propõe cuidados “[...] quando é grande a ânsia de transformar, a repressão se torna fácil; que as tentativas de transformar efetivamente nosso mundo em um aspecto específico qualquer, imediatamente são submetidas à potência avassaladora do existente e parecem condenadas à impotência”.
Na proposta de instrução pública, Condorcet vai muito além do ensino ministrado nas escolas do governo. Ela precisa estar ao alcance de todos que porventura tiveram a oportunidade de receber somente a primeira instrução, ou, aqueles que ainda não completaram os estudos relacionados neste projeto, pela razão de terem iniciado sua escolaridade antes da revolução. Neste aspecto:
Poder-se-ia, pois, estabelecer que o professor encarregado desta primeira instrução seria ao mesmo tempo encarregado de dar, a cada domingo, uma aula para a qual seriam admitidas as crianças que saíram da escola, os jovens dos dois sexos, os pais e as mães de família (CONDORCET, 2008, p. 172).
Para ambas as classes de profissões, o indivíduo necessita de uma instrução básica, e a de maior profundidade será aquela voltada às atividades públicas. Uma “[...] instrução extensa é sua primeira base, uma condição que a sociedade ou
52A citação é extraída do Texto de apresentação da obra “Cinco Memórias Sobre a Instrução Pública”,
aqueles que os empregam têm o direito de exigir deles, antes de encarregá-los dos serviços públicos aos quais são chamados” (CONDORCET, 2008, p. 210).
Por último, seu projeto de instrução pública, propõe uma instrução voltada às ciências, como sendo a última parte do ensino público. Assim:
Só me resta mais falar da instrução relativa às ciências. Esta última parte do ensino público é destinada aos que são chamados a aumentar a massa de verdades por meio de observações ou descobertas, a preparar de longe a felicidade das gerações futuras. Ela é necessária ainda para formar mestres, que deverão estar nos estabelecimentos onde se completa a instrução comum, em que se prepara para as profissões que exigem luzes mais extensas. Basta uma instrução sabiamente organizada na capital (CONDORCET, 2008, p. 240).
Essa instrução tomará os jovens no nível em que a instrução geral os deixou; naquele ponto em que não adquiriram mais do que noções elementares e o hábito de refletir. Eles serão oportunizados a mergulhar nas ciências até o ponto em que elas chegaram. Por essa razão, a cada passo dado além do nível da ciência, será uma descoberta que trará benefícios e felicidade a toda a sociedade, ou, até mesmo à humanidade. Nesse nível de instrução pública o aluno será levado a sentir o espírito e a dimensão dos meios que levaram a produzir novas verdades, mostrando a diferença entre o que foi obra do trabalho realizado e a obra do verdadeiro gênio (CONDORCET, 2008).
O estudo que ora foi realizado a respeito da tradição educacional republicana na modernidade propõe uma síntese das propostas educacionais defendidas pelos autores clássicos estudados neste trabalho, como John Locke, Montesquieu, Rousseau e Condorcet, e as suas contribuições trazidas para a educação a ser desenvolvida numa sociedade de governo republicano, nesta Tese a educação