2 DESLIZAMENTOS METAFÓRICOS ENTRE “CORTE” E “MORTE” EM DUAS
2.1 APONTAMENTOS PRELIMINARES SOBRE A CHARGE
2.1.2 MEMÓRIA, IMAGEM E SEUS TRAJETOS DE LEITURA
A tratar da “leitura’ imagética, Davallon (2010, p. 28) diz que “aquele que observa uma imagem desenvolve uma atividade de produção de significação; esta não lhe é transmitida ou entregue pronta”. Ela traz em seu significado: informações; representação de objetos do mundo; expressão cultural com eficácia simbólica; representa a história com suas lembranças, em forma de memória. Devemos estar atentos à sua observação, pois através dela, podemos depreender que tanto a charge quanto a caricatura estão entrelaçadas ao binômio história-memória.
Davallon (2010) alega que a memória social apresenta uma dimensão dupla, pois além de possuir sua eficácia simbólica, ela seria também um fato social que comporta essa eficácia das imagens fundamentadas em algumas características: uma delas é o fato de a compreensão semântica da imagem independer dos pormenores da compreensão das unidades de sua significação. Em relação ao discurso, a imagem envolve um processo de formulação e um processo de constituição, isto é, os traços, formas e cores são igualmente atravessados, constitutivamente, pela memória. Desse modo, a imagem contemporânea, longe de ser a memória social, funciona como operadora de memória, especialmente porque ela dispõe de uma eficácia simbólica. Logo, quem a analisa desempenha uma atividade de produção de significação. Entretanto, tal ação não se caracteriza como uma apreensão de algo pronto e estável, ela é propícia à interpretação, à deriva, e tem para tanto uma variedade interna.
Porém, sob outra perspectiva, Davallon alerta-nos que a imagem não se constitui como pura liberdade, ela também comporta um “programa de decodificação”, ou seja, marca/regula determinados lugares, certos sentidos e possíveis leituras.
Neste propósito, Davallon (2010), propõe o funcionamento da imagem como um operador da memória social que, ao retratar a realidade, pode também conservar a força das relações sociais. Além disso, a imagem estabelece o lugar do observador e as habilidades necessárias à sua leitura. “A imagem pode operar de acordo com olhares, assim, apresentaria a capacidade de conferir ao quadro da história a força da lembrança. Ela seria, nesse momento, o registro da relação intersubjetiva e social” (DAVALLON, 2010, p. 31).
Há um reconhecimento, por Pêcheux (2010), em sua obra, da presença da eficácia simbólica da imagem, no entanto atrelada à memória discursiva. De acordo com ele, a
combinação entre o embate de um acontecimento histórico indeterminado e o dispositivo complexo de uma memória poderia direcionar uma passagem daquilo que é visível ao nomeado, onde a imagem, enquanto dispositivo, compreenderia um percurso discursivo produzido em outro lugar. Consoante o autor, é no efeito da repetição, e também da regularização, que se caracteriza o ponto de encontro da memória como estruturação de materialidade discursiva complexa. Como já depreendida pela leitura do capítulo teórico, “A memória discursiva seria aquilo que, diante de um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os ‘implícitos’” (2010, p. 52), ou seja, os pré-construídos, os discursos-transversos, os elementos citados e relatados e etc.
Apesar de ser a charge um discurso opinativo inerente ao dizer jornalístico no contexto de um determinado grupo social, a leitura que o sujeito faz dela está ancorada em uma memória social, que é acionada no momento do gesto de leitura, o que permite elaborar os possíveis efeitos de sentido constitutivos de seu processo discursivo (PÊCHEUX, 2010).
Isso quer dizer que o sentido tem uma matéria própria, já que precisa de sua especificidade para significar; ele não significa de qualquer maneira. Para que isso ocorra, deve haver, em qualquer discurso, determinadas condições de produção: a determinação da própria matéria simbólica: o signo verbal, o traço, a imagem e sua consistência significativa (ORLANDI, 1995, p. 39). Compreende-se então, que as condições de produção não se limitam à linguagem verbal, apesar de serem permutáveis em determinadas condições.
Assim a charge, enquanto uma materialidade significante, aponta em sua superfície para a possibilidade de leitura/entendimento dos elementos visuais como operadores discursivos não verbais capazes de atualização de memória(s). Logo, compreendemos que a imagem não pode ser limitada ao segundo plano para o funcionamento da linguagem verbal. “Ao contrário, há possibilidades de interpretação dos efeitos de sentidos produzidos pela imagem social e historicamente determinada, como também pela imbricação do verbal e do não-verbal” (SOUZA, 2001, apud CAVALCANTI; AZEVEDO, 2018, p. 241-242). A partir dessa correlação entre memória e imagem, Souza declara que:
Não são discursos apenas os textos verbais e orais; também a cestaria, a cerâmica, a pintura corporal, a dança, o traçado organizador da aldeia, a sonoridade das palavras, da música, são formas de discursividade que, quando analisadas em sua relação com a instituição, favorecem compreender como o trabalho da memória histórica gera a memória discursiva nessas sociedades(SOUZA, 1996 e 1998). É possível verificar, então, que o processo de perpetuação da história é bem mais complexo do que uma simples cadeia de comunicação oral e que a imagem – dentre outras formas de expressão não-verbal – é também discurso. (SOUZA, 2001, p. 81-82).
A imagem tem uma significação importante, pois representa a realidade, mas ela pode também “conservar a força das relações sociais (e fará então impressão sobre o espectador)”, segundo Davallon (2010, p. 27). Assim, teríamos a compreensão de um “sentido global antes de reconhecer a significação dos elementos” (ibidem, p. 30).
Da mesma forma que o discurso, em sua materialidade verbal, não é transparente, a imagem na AD também não é, ou seja, ela é opaca e reconhecida como um objeto a ser lido e sujeito às mesmas condições sócio-históricas próprias, compreendida por relações interdiscursivas. Diante disso, a imagem pode ser concebida como uma manifestação de uma forma-sujeito do discurso, não podendo ser presumida como neutra (CAVALCANTI;
AZEVEDO, 2018, p. 243).
Com esta visão de imagem, é que se pode, também, associá-la ao interdiscurso, enfatizando a relação entre ela e a memória social. Mediando este entendimento, Gregolin diz que:
O poder da imagem é o de possibilitar o retorno de temas e figuras do passado, colocá-lo insistentemente na atualidade, provocar sua emergência na memória presente. A imagem traz discursos que estão em outros lugares e que voltam sob a forma de remissões, retomadas e de efeitos de paráfrases. Por estarem sujeitas aos diálogos interdiscursivos, elas não são transparentemente legíveis, são atravessadas por falas que vêm do seu exterior – a sua colocação em discurso vem clivada de pegadas de outros discursos (GREGOLIN, 2000, p. 22).
Logo, percebe-se que a memória discursiva aparece como elemento de grande relevância para os efeitos de sentido produzidos por uma imagem. Desta maneira, é notório também enfatizar que a imagem (ou elemento imagético) opera discursos outros, pronunciados indefinidamente em outros lugares, fazendo retornos e retomadas de um discurso já pronunciado. Portanto, para a imagem não existe um sentido a priori, nem se pode inscrevê-la em um estatuto de neutralidade para os elementos visuais. Tais componentes
“refletem as condições próprias de um sujeito que busca significar/interpretar a si e ao mundo a partir de uma materialidade discursiva imagética diferente da materialidade escrita ou verbal com a qual estamos familiarizados, mas igualmente sujeita a deslizes e equívocos”
(CAVALCANTI; AZEVEDO, 2018, p. 243-244).