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1.2 Política Antitruste

1.2.1 Conceitos da Política Antitruste

1.2.1.2 Mercado relevante

A definição do mercado relevante é etapa essencial nas análises antitruste, pois é nesse espaço econômico delimitado que se pode verificar a possibilidade da atuação anticompetitiva pelos agentes. Nas palavras de Possas (1996, p. 1):

O conceito de mercado relevante é crucial para a análise dos efeitos anticompetitivos potenciais de operações que impliquem concentração de mercado e/ou condutas praticadas por empresas que se supõe detentoras de poder de mercado [...]

De acordo com Horizontal Merger Guidelines do Department of Justice (DOJ) e da

Federal Trade Commission (FTC) dos Estados Unidos (DOJ; FTC, 2010, p. 7), a definição de

mercado desempenha duas funções. Em primeiro lugar, ela ajuda a especificar a abrangência comercial e a parte do país no qual surge a preocupação com a concorrência. Nesse sentido, as agências antitruste normalmente procuram identificar um ou mais mercados relevantes em que a concentração pode diminuir substancialmente a concorrência. Em segundo lugar, essa definição permite que tais agências possam identificar os participantes, as participações e as concentrações do mercado.

Segundo o Guia para Análise Econômica de Atos de Concentração Horizontal da Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE), pertencente ao Ministério da Fazenda, e da Secretaria de Direito Econômico (SDE), do Ministério da Justiça (SEAE; SDE, 2001, p. 9), “[...] o mercado relevante se determinará em termos dos produtos e/ou serviços que o compõem e da área geográfica para qual a venda destes produtos é economicamente viável”. A partir dessa primeira conceituação, percebe-se que o mercado relevante deve ser definido em termos de produtos ou serviços que podem ser oferecidos e em relação à área na qual eles serão ofertados. Ainda no mesmo diploma (SEAE; SDE, 2001, p. 9) é apresentada uma melhor definição:

[...] o mercado relevante é definido como o menor grupo de produtos e a menor área geográfica necessários para que um suposto monopolista esteja em condições de impor um “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preços.

Quando é mencionado um “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preço, se introduz também a ideia da dimensão temporal na delimitação do mercado relevante. Assim, para a delimitação do mercado relevante, devem ser consideradas a

substituibilidade da demanda (produto, geográfica e temporal) e a substituibilidade da oferta. Pelo lado da demanda, para determinação da dimensão do produto, Scherer e Ross (1990) apresentam três métodos. O primeiro é feito através da estimação das elasticidades cruzadas da demanda. Esse método avalia percentualmente qual a variação da quantidade demandada de um produto, em resposta a uma variação de um ponto percentual no preço de outro. A elasticidade pode ser obtida pela expressão:

) / ( ) / ( j j i i ij P P Q Q E    (1)

Na equação, (Qi/Qi) é a variação proporcional da quantidade demandada do produto i e (Pj/Pj) é a variação proporcional do preço do bem j. A partir dos resultados, verifica-se que se o valor obtido for maior que uma unidade, os produtos são bons substitutos e, quanto maior esse valor, maior será a substituibilidade entre eles. Desta forma, esses produtos devem ser incluídos em um mesmo mercado relevante. Por outro lado, se o resultado estiver entre zero e um, significa que eles não são bons substitutos entre si e que não devem ser incluídos em um mesmo mercado.

O segundo método que pode ser usado é o que utiliza a variação dos preços dos produtos ao longo do tempo. Ele é chamado de price correlation over time ou correlação de preços ao longo do tempo e é calculado pela seguinte expressão:

) ( ) , ( ij j i j i p p p p Cov      (2)

onde Cov(pi,pj) é a covariância entre os preços dos bens i e j e (pipj) é a multiplicação dos desvios-padrão dos preços dos bens i e j. Com base nos resultados, verifica-se que, caso o coeficiente apresente um valor elevado, presume-se que os produtos estão incluídos no mesmo mercado relevante.

Por último, o terceiro método é o teste do “monopolista hipotético”. Esse método é o mais utilizado pelas autoridades antitruste e o que recebe maior ênfase no Guia Para Análise Econômica de Atos de Concentração Horizontal da SEAE e da SDE, que também menciona os outros dois métodos, mas apenas em uma nota de rodapé. Segundo o Guia (SEAE; SDE, 2001, p. 9), o teste consiste em considerar, no caso dos produtos, qual seria o resultado final de um “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preços por um suposto monopolista. Caso o resultado não se mostre rentável para o monopolista hipotético, deve-se adicionar o substituto mais próximo do produto em questão. Essa sistemática deve ser repetida até que seja identificado um grupo de produtos, sobre os quais seja economicamente

interessante ao suposto monopolista realizar um “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preços. Esse será o mercado relevante para a dimensão do produto.

O Horizontal Merger Guidelines (DOJ; FTC, 2010, pp. 9-10) ressalva que grupos de produtos podem satisfazer o critério do monopolista hipotético, sem, contudo, incluir toda a gama de substitutos a partir dos quais os clientes podem escolher. O teste do monopolista hipotético pode identificar um grupo de produtos como sendo um mercado relevante, mesmo que os clientes possam, em resposta a um aumento de preços, significativamente optar por outros produtos substitutos fora desse grupo de produtos representativo do mercado. Esse teste garante que os mercados não estão definidos de forma demasiadamente restritiva, mas não leva a um único mercado relevante. Ademais, as agências antitruste buscam analisar uma concentração em qualquer mercado que satisfaça o teste, guiados pelo princípio geral de que os objetivos da definição do mercado e de seus participantes são de iluminar a avaliação dos efeitos concorrenciais.

Na delimitação da dimensão geográfica do mercado relevante, também pode ser utilizado o teste do monopolista hipotético. Da mesma forma como foi feito para os produtos, em relação à área geográfica do mercado, o guia brasileiro para análise de concentrações horizontais supramencionado (SEAE; SDE, 2001, pp. 9-10) questiona, para uma área específica na qual as empresas atuam, qual seria o resultado final de um “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preços por um suposto monopolista. Se o resultado obtido não for economicamente atraente ao monopolista hipotético, deve-se incluir a região mais próxima que possa substituir a produção da empresa em questão. Esse exercício deve ser repetido até que se encontre a menor área possível na qual seja economicamente rentável ao suposto monopolista impor um “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preços.

Ao se tratar da dimensão temporal para a definição de mercado relevante, é importante ter em mente que, quanto maior for o lapso temporal delimitado para se estudar a reação do lado da oferta e do lado da demanda, maior será o mercado relevante. Da mesma forma, quanto menor o espaço de tempo, menor será o mercado delimitado. Para o guia brasileiro (SEAE; SDE, 2001, pp. 9-10), o espaço de tempo ideal para uma análise é não inferior a um ano.

Segundo o Horizontal Merger Guidelines (DOJ; FTC, 2010, p. 10), as autoridades de defesa da concorrência procuram aplicar o “pequeno porém significativo e não transitório” aumento de preços a partir de preços que provavelmente prevaleceriam na ausência da concentração. Se eles não são suscetíveis a alteração, na ausência das concentrações, os

preços de referência podem ser razoavelmente considerados como os que eram praticados antes da operação. Se eles são suscetíveis a alteração, na ausência do ato de concentração, por exemplo, por causa da inovação ou da entrada de novos concorrentes, as agências antitruste podem utilizar os preços futuros como a referência para o teste. Caso ainda os preços possam cair na ausência da concentração, devido à quebra de coordenação pré-operação, as agências podem optar por esses valores mais baixos. Por outro lado, em alguns casos, dependendo das técnicas empregadas pelas autoridades na implementação do teste do monopolista hipotético, se torna desnecessário especificar os preços de referência.

Outro ponto importante destacado pelo guia dos EUA (DOJ; FTC, 2010, p. 10), é que a magnitude do "pequeno porém significativo" aumento de preço, compatível com uma perda significativa da concorrência causada pela concentração, depende da natureza da indústria e das posições das empresas no mercado. Portanto, dependendo da situação, as autoridades podem utilizar variações de preços maiores ou menores que cinco por cento.

Para a complementação da delimitação do mercado relevante, ainda é necessário levar em consideração a substituibilidade da oferta. Conforme o já mencionado guia brasileiro para análise de concentrações horizontais (SEAE; SDE, 2001, p. 10),

[...] poderão ser considerados como participantes do mercado os produtores potenciais de curto prazo, isto é, empresas que não produzem atualmente, mas que podem passar a produzir em resposta a um „pequeno porém significativo e não transitório aumento‟ dos preços, em um período não superior a um ano e sem a necessidade de incorrer em custos significativos de entrada ou de saída.

Desta feita, é preciso identificar e incluir no mercado delimitado os ofertantes potenciais, ou seja, as empresas que podem redirecionar a sua produção para o mercado em questão em um curto espaço de tempo, incorrendo em custos reduzidos.