Visitando as escolas locais, conheci o espaço do CIEP. É uma escola grande, localizada mais ao final da “Grande Alegria”, já no bairro Toyota. Como havia conversado primeiro com a Diretora da escola, marquei com seu auxílio, uma entrevista com as orientadoras pedagógicas, a fim de buscar maiores informações sobre a relação escola-família e as impressões daqueles profissionais que estavam em contato direto com as famílias locais.
E foi assim que conheci Joana. Conversando sobre esta temática e descobrindo mais sobre a Educação de Jovens e Adultos (EJA), Joana contou-me que seu marido era também, funcionário da Volkswagen. Solicitei à “Joana orientadora” uma entrevista com “Joana mãe”
(Família 2) juntamente com seu marido e marcamos a data.
No dia marcado, encontrei-a no CIEP e de lá seguimos para sua casa. Joana estava de carro, um Uno Mille, e após seguirmos uma reta, passando três ou quatro quarteirões já estávamos no portão de sua casa. Seu marido, Antônio, trabalhava na VW no turno da noite – com início às 16h18 e término às 01h35 – e portanto, combinamos a entrevista para o horário do almoço. Na entrada da casa, um muro relativamente alto, pois não é possível avistar o interior da casa através dele, o portão da garagem e a porta de entrada. Passamos pelo quintal da frente, onde vemos materiais de construção e uma moto nova; chegamos à sala, um ambiente pequeno e aconchegante com dois sofás, um em frente ao outro, na lateral há um grande móvel com TV e aparelho de som, DVD, e fotos da família, com destaque para as duas filhas. Ali começamos a conversar: Joana, a mãe; seu marido Antônio, o pai; e a filha Bianca, a mais velha então com 17 anos, grávida, com um barrigão de 6 meses. Para completar a família, faltava só a filha mais nova, Ana Clara de 12 anos, ainda estava na escola naquele horário.
No cotidiano, a vida da família começa por volta de 6h30 da manhã. Primeiro Joana, a mãe, acorda e como Ana Clara estuda à tarde, ela costuma chamá-la por volta das 7h30, quando tem louça para lavar ou algo para estudar; caso contrário as duas, Ana Clara e Bianca levantam às 9h. Bianca está no 2º ano do E. Médio e estuda à noite, na mesma escola onde a
mãe trabalha. Joana costuma chegar na escola às 7h30, almoça em casa e volta no turno da tarde; depois, às 17h vai para casa novamente e fica com Bianca até às 18h30, quando mãe e filha vão para a escola – a mãe para trabalhar e a filha para estudar. Joana chega em casa tarde da noite, e só vai encontrar a filha mais nova depois das 22h – é nesse horário que as duas irmãs e a mãe se encontram e conversam até meia noite, mais ou menos. Joana também faz o serviço de casa; a filha mais velha ajuda a manter a casa em ordem, bem como a mais nova e o marido. Antônio trabalha “de turno”, a partir das 16h18 até às 01h35; justamente por isso acorda entre meio dia e 13h; mas quando faz hora-extra e chega em casa em torno de 04h30, dorme até duas e meia, levanta, “toma banho correndo” e pega o ônibus da empresa na porta de casa às 15h. Como possuem horários diferentes, a família se comunica muito através de
“bilhetinhos”. O trabalho de casa é dividido: Joana cuida da alimentação, uma filha lava a louça e a outra guarda; o marido limpa o quintal, e assim vão revezando. Tem ainda o dia da
“faxina coletiva”, num sábado por exemplo, quando acontece o mutirão familiar pela limpeza da casa.
A casa é ampla: quintal na frente e nos fundos da casa, garagem, dois quartos, sala, uma espécie de copa, cozinha grande e banheiro. Ao passarmos pela porta estamos na sala; à direita um pequeno corredor que dá para os quartos e o banheiro; são dois quartos, o primeiro é o das meninas, com janela para o quintal, ao lado está o quarto do casal, em frente ao banheiro. Na outra lateral da casa, à esquerda, há uma espécie de copa, um pequeno corredor onde ao final há uma divisória estilo cozinha americana, com uma mesa com o computador e a mesa de jantar. A cozinha é bem ampla e arejada, com janelas viradas para os fundos – uma espécie de área de serviço. Algumas partes da casa ainda estão em construção, faltando completar o piso ou paredes; mas de uma forma geral, a casa parece fisicamente bem organizada para atender às necessidades da família – pelo menos até a chegada do mais novo membro.
Joana é jovem, professora, com menos de 40 anos. Fez o curso de magistério pois queria ser independente e sair de casa; os pais alcoólatras, que na época bebiam muito, foram a grande motivação para a escolha desse caminho. Sua mãe é nordestina e estudara até a 2ª série primária, hoje “do-lar”; e o pai, mato-grossense, foi cabo da Marinha, e estudara até a 8ª série; hoje os avós dão suporte às filhas (Joana e as irmãs) ajudando no que é necessário e estando sempre por perto. Joana completou o ensino médio profissionalizante na idade
“correta” – por volta dos 18 anos – e começara a trabalhar como professora contratada pelo Estado, durante dois anos, passando no concurso público logo em seguida, também dois anos
depois; possuía no momento da pesquisa, oito anos de funcionalismo público. Dentro da escola, atuou como professora de turma muitos anos, passando a orientadora pedagógica.
Joana e Antônio começaram a namorar ainda adolescentes e são casados há 18 anos.
Antônio também é jovem, com idade em torno de 40 anos e possui o 2º grau completo.
Completara o Ensino Médio há pouco tempo, como aluno da modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA); parou de estudar no 2º ano do 2º grau quando jovem, por conta do casamento. Sua mãe iniciou ensino superior (mas não o completou) e hoje mora no Rio, capital; sua família é natural de São Paulo, mas vieram morar no Rio de Janeiro por conta da passagem da mãe em concurso público, para trabalhar no antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER). Seu pai também alcoólatra, faleceu devido à cirrose e não tinha uma ocupação muito bem definida. Em sua trajetória profissional, Antônio fora trabalhar em Goiânia junto com o cunhado numa oficina mecânica de motores a diesel, ambos eram motoristas. No entanto, a empreitada naquele estado não deu certo, por questões relativas à saúde da esposa, gestante na época, e assim, retornaram para Resende. Trabalhou na Volkswagen, logo quando foi instalada a fábrica, durante quase dois anos; em seguida trabalhou na Concessionária Nova Dutra (a concessionária responsável pela Via Dutra atualmente); retornou à Volkswagen algum tempo depois, passando mais dois anos e meio da empresa, não “por contrato” mas como funcionário do módulo.
Antônio, que tinha parado de estudar aos 22 anos, terminou o 3º ano do 2º grau (E.
Médio) por volta de quinze anos depois, já perto dos 40 anos. E por que voltara a estudar?
“A Volkswagen, na época que eu estava lá, não tinha essas exigências de 2º grau (...) qualquer um que passava na rua ela pegava no laço e puxava para dentro, mas somente na linha de montagem; esses cargos de encarregado e supervisor, eles estavam trazendo o pessoal de São Paulo, eles não estavam aproveitando ninguém, na época não aproveitava ninguém daqui da região pra parte de inspeção, todo pessoal estava vindo de fora; aí quando a Peugeot se instalou eles começaram com alta exigência: 2º grau, 2º grau... Falei assim: pô, vou ter que terminar o meu 2º grau e tentar fazer uma faculdade, senão não vou conseguir melhorar em nada meu padrão de vida, vou sempre continuar nesse degrau pequenininho, não vai adiantar. Aí que me despertou o interesse de terminar o 2º grau e fazer uma faculdade, só que quando eu terminei o 2º grau foi quando a Volkswagen me chamou justamente para trabalhar no 2º turno e eles não abriram espaço para poder fazer faculdade, até quem já estava fazendo faculdade e entrou
comigo no 2º turno, teve praticamente que fechar a matrícula porque o cara não consegue, é muito puxado. Pra quem é solteiro não, para quem é solteiro, você tem até uma certa tranqüilidade, porque você tem as outras pessoas para assumir suas responsabilidades diárias, mas com a família, para quem tem família é bem complicado...”
Algum tempo após a implantação das fábricas, principalmente depois da chegada da Peugeot – na visão de Antônio – começaram as “altas exigências” e os trabalhadores das fábricas e viram diante deste novo elemento na dinâmica do mercado de trabalho: os níveis de escolaridade. Assim, tanto para entrar no mercado, quanto para manter-se nele ou subir de posto, níveis de escolaridade diferentes começaram a ser impostos pelas fábricas. Antônio fala de como é difícil “crescer lá dentro”, e de que forma o trabalho no 2º turno, de 16h18 à 01h35 – nos dias em que os funcionários não fazem horas-extras – atrapalha aquele que deseja estudar e “desenvolver alguma coisa”:
“É o que a gente discute muito lá dentro; até no início, assim que eu tinha terminado o EJA eu conversei com o meu supervisor, a gente foi contratado para trabalhar no 2º turno e dessas pessoas, acho que foram 23 pessoas contratadas, oitos delas foram destinadas para o 1º turno. Então a gente colocou que essa escolha fosse feita em função de quem realmente tem o interesse de dar continuidade aos estudos, para vir para o 1º turno, e quem não tivesse essa intenção, tinham pessoas que já tinham falado lá “pô, não tenho mais a intenção de estudar, quero entrar e ficar aqui até aposentar; mesmo que seja como montador de linha, mas eu quero ficar como montador de linha”; e tinham pessoas como eu que não. Até hoje a gente bate o pé e quer que tenha uma avaliação entre os turnos; porque tem pessoas que já estão com 50 e poucos anos, quase se aposentando que não tem mais o interesse de estudar e estão no 1º turno, e não desenvolvem nada, só trabalham e tem a sua vida familiar, mas não tem interesse profissional em crescer dentro da empresa. E a gente não, apesar de eu estar com 40 anos e coisa e tal, ainda me sinto bem a vontade para batalhar, correr atrás e fazer uma faculdade e tentar melhorar dentro da empresa.”
Neste contexto, a escolaridade passou a ser um elemento de disputa entre os próprios trabalhadores, e também de diferenciação entre eles. Há as acusações de “diploma comprado”
e de “falta de conhecimento” para exercício de algumas funções:
“Mas aí a gente bate naquele toque que a gente fala direto; eu tenho o meu líder que foi líder por indicação porque o cunhado dele é coordenador (...). Ele tem o Ensino Médio com o que a gente fala que é ‘diploma comprado’, porque na realidade ele pagou para ter esse diploma em período curto, para poder provar que tinha o Ensino Médio porque senão a própria Volkswagen não iria aceitar que ele permanecesse na empresa. Então o que acontece, eu tenho meu líder que tem o ensino médio (...) na área teórica ele não tem praticamente conhecimento nenhum, então pra mim que estou querendo crescer e sou subordinado a ele... A gente acaba encontrando [dificuldade]. (...) É bem restrito, bem restrito mesmo, a não ser que você esteja em outra área que eles obriguem a você a ter um conhecimento maior, caso contrário... Você está sempre pisando no calcanhar de alguém.”
Antônio deixa claro como a escolaridade passa a ter peso fundamental para aqueles que querem “crescer”, tornando-se tanto uma “possibilidade” quanto uma “ameaça” na disputa interna entre os próprios trabalhadores; virando de alguma forma “moeda de troca”
entre eles – na medida em que se facilita ou não a troca de turnos ou outras medidas que auxiliem na aquisição de patamares mais elevados de escolaridade. Aponta assim, para um certo “fechamento da empresa”, primeiro no início da montadora, quando eles “só pegavam pessoal de fora, de São Paulo” e também atualmente, uma vez que o ensino superior é um pré-requisito para assumir certos cargos e que é “muito puxado” tal ritmo, logo,
“(...) Mesmo que eles ponham lá [no quadro de avisos] para poder abrir espaço para todo mundo, você acaba se sentindo bloqueado em cima daquilo, porque você não tem como fazer a faculdade e normalmente quando eles põem no nosso quadro que eles precisam de uma mão de obra especializada, tem que ter ensino superior, só que eles não criam esse espaço para você...”
Joana costuma brincar dizendo que “aterrissou a nave da Volkswagen”, quando
competição entre “peões” e “chefes” é recorrente entre eles. Os “volkswaquianos” afirmam que “os encarregados têm medo do peão fazer faculdade e tomar seu lugar, voltando como chefão”, que a VW incentiva mais a conclusão do Ensino Médio do que realização da faculdade e que na fábrica “é um querendo pisar no outro”. Joana critica seu marido e amigos, fala que isso é “visão de peão”; mas quando pergunta a eles se acreditam que é mesmo assim, obtém como resposta que o pensamento está no sentido de “meu encarregado não me deixou estudar” ou então “me deixou e agora fica com o pé atrás”.
A presença do fator “pressão no trabalho” é muito forte na fala de Antônio: há muita
“encheção de saco”, o desgaste e a pressão são grandes:
“O trabalho em si até que não [é desgastante], a pressão e a ‘encheção’ de saco que é bem grande. (...) o negócio deles é só produção, produção; se você tem perda de produção num dia acarreta que você tem que repor a perda todinha no outro, então a pressão é bem grande. (...) E quando chega lá na frente com defeito é mais complicado ainda, gera reclamação, atraso na produção, tem que parar a linha, é feita reunião; é ‘encheção’ de saco, todo mundo falando, a pressão é bem grande.”
E também sobre a estrutura enxuta da fábrica:
“São poucos funcionários e não estão abrindo mais tantas oportunidades, apesar de ter um crescimento muito grande, a Volkswagen no quarto ano consecutivo como líder do mercado, um outro produto lançado que é a nova cabine (...) está tendo uma expansão muito grande. Em termos de crescimento de funcionários está muito restrito, a gente tinha na nossa produção até o ano passado, na minha área eram sete pessoas, hoje são cinco; no setor do lado eram quinze pessoas, diminuíram para nove. Aí eles diminuíram o tempo de produção, porque a gente teve uma queda muito grande em função eleição para presidente e coisa e tal, o mercado acabou encolhendo muito, não expandiu, o dólar também estava... Muito complicado e eles mandaram muitos funcionários embora; e agora eles estão aumentando a velocidade da linha e a gente está sendo obrigado a se adaptar ao número de funcionários que a gente tem porque eles não vão contratar mais ninguém (...) E a pressão aumenta porque você tem que continuar a produzir com a mesma qualidade, que você não pode deixar a qualidade cair.”
Mas mesmo com essas questões, Antônio fala que foi em Resende que a família começou, paulatinamente a se desenvolver e conclui: “até que a gente conseguiu se desenvolver bem, tanto eu quanto a Joana, ela fez concurso público...”
O casal está diante da situação da filha adolescente estar grávida; e no período final de conclusão do Ensino Médio. Conversamos sobre os planos futuros para as filhas, como se organizariam para auxiliar Bianca e o bebê e de que forma percebiam a importância da escolarização no contexto atual. O casal afirma que “o estudo [está] em primeiro lugar” e que continuam incentivando Bianca mesmo que, segundo o pai, ela não tivesse colocado o estudo em primeiro lugar. Afirma que continuam,
“Incentivando, cobrando e até exigindo. Ela está com 17 anos, eu falei para ela, apesar da gravidez, vai vir o neném, mas a gente sabe do esforço que ela está fazendo para terminar o ensino médio. Eu já falei para ela, vai pensando porque no ano que vem você vai estar fazendo a faculdade. Eu até agora infelizmente não pude fazer, mas ela vai se virar e vai fazer uma faculdade, vai ter uma formação superior porque a pior coisa que existe no mundo é mulher que depende do marido. Então você tem que ter o seu dinheiro, a sua responsabilidade, tem que ter o seu desenvolvimento, esquecer que seu marido trabalha (...)”.
Tanto os pais quanto Bianca, definem a irmã mais nova, Ana Clara, como “a estudiosa”. Joana conta que as filhas estudavam em escola particular e que no primeiro desemprego de seu marido, colocou-as em uma escola municipal do bairro, em seguida, transferiu as meninas para aquela que é considerada a melhor escola pública da cidade, mas que como Bianca era muito bagunceira, levou-a para estudar no CIEP, para poder controlá-la de perto. Joana conta que mesmo assim a filha de vez em quando “escapa e mata aula”, que acha que hoje ela faz isso para ficar com o namorado – ambos fazem EJA no turno da noite, no CIEP - mas que ela está melhorando e que “todo mundo está de olho”. O casal conta que houve uma época que Antônio estabeleceu um caderninho de ponto, onde as professoras precisavam assinar “sua filha entrou na aula tantas horas”, e quando havia tempo vago, era a coordenadora que devia fazê-lo, para que tivessem certeza que ela não tinha “matado aula”;
até que optaram pelo “controle mais visual”, feito diretamente pela mãe. As duas filhas fizeram atividades extras, na medida do possível, como informática no SENAC, curso de modelo e manequim, montagem e manutenção de micros na FAETEC, ginástica, natação,
dança, ballet; no entanto, ressaltam que Bianca teve mais oportunidades que a filha mais nova, e que Ana Clara é mais quieta, “na dela”. Com relação aos planos futuros, a família afirma que a única faculdade pública local é a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (uma unidade de ensino de Engenharia da UERJ) e que há também o Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (CEDERJ16) que é uma modalidade a distância, que estaria disponível em breve naquela região. Antônio diz que:
“Antes de acontecer de ela ter ficado grávida, o pensamento dela era terminar o ensino médio e fazer vestibular para Unicamp, lá em Campinas, para São Paulo... Falou que queria ir para aeronáutica, um monte de sonhos que acabaram ficando um pouco para trás, mas não que isso tenha saído da cabeça, até o final do ano ainda tem bastante coisa. O que ela quiser, mesmo que seja uma faculdade particular e tiver que pagar, a gente vai se esforçar pra fazer.”
Pergunto ao casal como fazem o acompanhamento escolar das meninas, cadernos e provas, atividades, reuniões de pais... Joana trabalha o dia todo na escola, nos três turnos; já Antônio, na data da entrevista, estava trabalhando no segundo turno da VW, e pegava o ônibus da empresa para ir ao trabalho por volta das 15h. Por isso, Joana diz:
“Eu cobro e ele ensina, ele tem mais tempo, né? Ele que dá aula de matemática, física e química, vai na Internet pesquisar, mas aí eu chego em casa e olho caderno, até o dela [Bianca] eu olho até hoje, trabalho, nota, reviro a mochila...”
Antônio se mostra bastante preocupado também com os “bilhetes”; é ele que costuma freqüentar as reuniões de pais, “eu chego lá, [tem] um monte de mães e só eu de pai.” E Joana diz que “até em dia das mães já aconteceu dele ir, porque tem a festa das mães aqui [no CIEP onde ela trabalha] também.” Antônio se define como um pai “participativo para
16 O Consórcio CEDERJ - Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro, vinculado a SECT - Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, e as seis universidades públicas do Estado, UENF, UERJ, UFF, UFRJ, UFRRJ e UNIRIO, oferecem um concurso de vestibular para o acesso aos cursos de graduação. O aluno do CEDERJ é um aluno regularmente matriculado em uma das universidades públicas consorciadas, que faz o vestibular e todo o curso de graduação sem sair de sua cidade através de um processo de ensino e aprendizagem semi-presencial, recebendo o mesmo diploma dos alunos dos cursos presenciais das universidades participantes.
caramba” e não se mostra contrário nem ao trabalho da esposa, nem ao auxílio que dá nos afazeres domésticos. Chega a dizer para a filha mais velha que,
“(...) você tem que ter o seu dinheiro, igual acontece com ela [a mãe] muitas vezes eu estou no sufoco mas ela está tranqüila, ela tem o pagamento dela, ela tem o profissional dela, ela não depende de mim. Então às vezes ela acaba fazendo despesas, ela acaba fazendo certas coisas que seriam minha responsabilidade, ela faz porque tem o diferencial dela. Então a gente acaba não ficando um preso em função do outro... Acaba dividindo as responsabilidades. Eu falo para ela [Bianca], você não tem que ficar só dentro de casa, criando filho, pilotando fogão, máquina de lavar e o marido estar na rua trabalhando; não você tem que ser, ter a sua responsabilidade porque a gente não sabe o dia de amanhã, separa e aí, vai fazer o quê da vida? Você tem que ter mesmo, e tem que se virar.”
Pedro, o namorado de Bianca, tem 22 anos e está no 1º ano do 2º grau, na EJA, na mesma escola que a moça. Segundo a própria Bianca ele “quer [terminar os estudos] mas enrola bastante...”. Os pais de Bianca mostram-se preocupados com relação a isto e afirmam que ele “não está nem aí”. Pedro estava desempregado quando Bianca começou a namorá-lo, em seguida arrumou um emprego no Bob’s, trabalhou durante dois meses e o contrato acabou.
O rapaz também mora no bairro, junto com a avó; a mãe mora em São Paulo e eles não têm muito contato. Logo que a notícia da gravidez chegou, houve aquele susto: uma semana de castigo para Bianca, choros e pensamento a mil por hora; mas juntos, os pais, Bianca e Pedro, têm buscado a melhor forma de lidar com essa experiência. E onde iriam morar Bianca, Pedro e o bebê? Estavam, pouco antes do nascimento, ainda sem saber como organizar a vida para a chegada do mais novo membro familiar.
“Até sábado eu e ele, estávamos de mãos e pés atados, porque a gente estava assim, vamos fazer o quê com a Bianca? Esperando ele arrumar um emprego, não arrumou ainda...”
Dentro das possibilidades: os dois morarem juntos na casa dela ou dele, construírem outro cômodo na casa para alojar o casal e o bebê – acreditaram que a melhor mesmo seria adaptar a própria casa para a chegada do bebê mas mantendo Bianca e Pedro, cada um em sua
casa. Assim, os pais de Bianca transformaram o quarto das meninas em um ambiente que comportasse também o bebê, com um triliche, berço e armário maior, com mais divisórias.
Uma outra grande preocupação dos pais de Bianca era com a saúde dela e do bebê. Uma vez que Pedro ainda estava desempregado e Bianca não trabalhava, precisariam colocar também o bebê num convênio médico. Toda a gravidez de Bianca estava sendo amparada pelo convênio médico que Antônio tinha como funcionário da VW, inclusive, segundo Joana, “ele teve uma oportunidade agora de ir para fora [trabalhar], não foi por causa do convênio”. Antônio coloca que,
“O perigo todo é por causa disso... Eu falei para ela, a sua mãe nunca precisou sair daqui para ir para a porta de posto de saúde para ficar pegando senha para vocês poderem ser atendidos, vocês sempre tiveram convênio médico, sempre foram bem atendidas em todos os hospitais do Brasil, vai continuar do mesmo jeito. Se ele não conseguir um emprego, não tiver um convênio, eu vou registrar o neném no meu nome (...) Eu estive lá no RH, conversei com eles e vou registrar o neném no meu nome. (...) Para poder ter direito ao convênio, ter direito ao SESI Clube, até mesmo se acontecer de ter algum problema comigo ele vai ter direito a todos os benefícios, como o restante da família também. Tem que ter, porque hoje não tem condição de você contar com o atendimento dos postos de saúde.(...) No hospital particular, você tem um atendimento bom. (...) Principalmente se você tem o convenio médico, e os nossos convênios aqui que são de indústrias, todos eles são legais. (...) São convênios que você é atendido na hora, então quando é caso de emergência, eles não pensam duas vezes antes de atender. Então, eu falei para ela, se você não tiver um convênio bom aqui na região, você passa um sufoco, porque o hospital público aqui é...”
Esta é também uma das “vantagens” em “ser da indústria”, como trabalhador da VW, por exemplo. Há os planos de saúde, o convênio com as farmácias (pode-se “pegar” produtos e descontar no salário posteriormente), o transporte para o trabalho (o ônibus que passa na porta da casa de Antônio)... Joana relembra as diferenças entre os ambientes de atendimento público e privado, como o ar-condicionado, o horário marcado, a ‘musiquinha’; Bianca também fala das diferenças de tratamento: