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Como foi apontado anteriormente, ao longo dos anos 70 e 80 do século XX, as relações locais passaram a desempenhar um papel determinante na competitividade das atividades econômicas. A consideração de fatores locais nas dinâmicas econômicas aparece hoje como uma evidência e uma imperiosa necessidade. Trata-se, em suma, de uma preocupação relativamente recente, que abre caminho na direção da diversificação das políticas econômicas, sociais e culturais.

Realizando uma análise com base nos referenciais de Benko e Pecqueur (2001), devemos considerar que as especificidades territoriais desempenham um papel importante em vários setores econômicos. Nesse caso, as regiões não são mais substituíveis entre elas. Uma diferenciação durável dos territórios, ou seja, não suscetível de ser colocada em cheque pela mobilidade dos fatores, só pode assim resultar de sua especificidade reconhecida.

Valorizando no território o que já é (ativo) e o que pode vir a ser (recurso) um diferencial na competitividade, entendo que é pertinente utilizarmos a seguinte tipologia:

Quadro 2 - Tipologia dos Recursos e Ativos Territoriais e as Vantagens e Desvantagens Concorrenciais

Fatores Genéricos Exemplos Específicos Exemplos

Recursos Fatores de localização potenciais não utilizados, suscetíveis de serem ativados segundo um cálculo de rentabilidade a ser introduzido no mercado 1 – matérias-primas; 2 - equipamentos; 3 – informações de base fora do mercado (conhecimentos codificados) 4 – força de trabalho simples Fatores de localização virtuais e incomensuráveis, intransferíveis, nos quais o valor que os criou depende da organização e das estratégias para resolver problemas inéditos, ancoradas no território (instituições, regras, convenções). 1 – ambiente cultural e industrial (atmosfera); 2 – investimentos em conhecimentos tácitos e pesquisas (aprendizagem) 3 – força de trabalho qualificada não empregada 4 – ambiente institucional favorável

Ativos Fatores de localização existentes em atividade, totalmente transferíveis, discriminados pelos preços e custos de transporte no mercado. 1 – matérias-primas exploradas; 2 – equipamentos em uso; 3 – informações de base ativas no mercado (conhecimentos codificados). 4 – força de trabalho Simples. Fatores existentes comparáveis, parcialmente transferíveis, em que o

valor está ligado a um uso particular (externalidades de quase-mercado). 1-Matéria-prima e recursos naturais . 2- Mão de obra qualificada . 3 – Infraestrutura adequada. 4 – Mobilização institucional e organizacional adequada às estratégias locais.

Fonte: Benko e Pecqueur (2001)

De forma clara e precisa, temos a definição dos componentes da tipologia do quadro acima da seguinte forma:

Entende-se por ativo, os fatores em atividade, enquanto que por recursos, os fatores a revelar, a explorar, ou ainda a organizar. Os recursos, diferentemente dos ativos, constituem assim uma reserva, um potencial latente.

Ativos ou recursos genéricos definem-se pelo fato de que seu valor, ou potencial, é independente da sua participação em determinado processo de produção. Os ativou ou recursos são assim totalmente transferíveis, sendo seu valor um valor de troca.

Já os ativos específicos, segundo a definição que apresentamos, existem como tais, mas seu valor é função das condições de seu uso. No momento em que um ativo genérico é totalmente transferível, um ativo específico implica um custo que não pode ser coberto mais ou menos elevado de transferência.

E os recursos específicos só existem no estado virtual e não podem em nenhum caso serem transferidos. Esses recursos nascem de processos interativos e são engendrados em sua configuração (...) (Benko, p.41 e 42, 2001).

2.1 Delimitação territorial e procedimento de escolha das usinas

Não é em vão que procuramos estudar o etanol paulista. Dentro do setor sucroalcooleiro, que tem raízes seculares no Estado, procuramos verificar, a hipótese levantada no presente estudo. Ao lado deste, outros pontos são favoráveis para a escolha das terras paulistas, dentre os quais: a alta participação do etanol paulista comparado à produção nacional (60%); seu dinamismo industrial e tecnológico histórico (pós-1993); forte expansão para o mercado internacional e a já citada tradição histórica em algumas regiões do Estado.

Entretanto, em função da ampla escala de estudo e das limitações para a presente pesquisa foram selecionadas algumas usinas, em diferentes pontos do território de São Paulo, com o intuito de realizar um quadro comparativo para identificar quais são as regiões do Estado que estão construindo uma duradoura competitividade territorial.

Para isso, foi utilizado o endereço eletrônico www.portaldoexportador.gov.br, especialmente o link portal do exportador, no qual constam quais são as empresas paulistas que exportam álcool. Nesse conjunto, temos 89 empresas, algumas exportando na casa de U$ 1.000.000,00, enquanto outras atingem e até superam a cifra de U$ 50.000.000,00 anuais.

Há também uma diferença, em relação à ordem de exportação. Sendo o etanol um entre vários produtos feitos pelas usinas, nem sempre terá prioridade na ordem de exportação. Em determinadas usinas, ele aparece como segunda ou terceira opção nessa modalidade de comércio.

Com esse panorama delineado, fechamos um grupo, o mais homogêneo possível, respeitando os valores de exportação anual acima de U$ 10.000.000,00, em que o etanol compusesse a primeira ou a segunda posição na pauta de exportação. A produção de

etanol das empresas abordadas neste estudo corresponde a 6,4% do etanol de São Paulo, com uma produção que somado os valores individuais atinge 997.220.000 milhões de litros. Com o propósito de dar ênfase a várias localidades do território paulista, selecionamos estabelecimentos em diferentes Escritórios de Desenvolvimento Rural de São Paulo que são apresentado no quadro a seguir:

Quadro 3 – Empresas selecionadas segundo o parâmetro valor e ordem de exportação

EMPRESAS VALOR DA EXPORTAÇÃO ORDEM DE PREFERÊNCIA NA EXPORTAÇÃO MUNICÍPIO EDR (Escritório de Desenvolvimen to Rural) SANTA CRUZ S.A.

AÇÚCAR E ALCOOL

Acima de U$

50.000.000,00 2ª ordem de exportação Américo Brasiliense Araraquara

USINA AÇUCAREIRA ESTER SA Acima de U$ 50.000.000,00 2a ordem de exportação

Cosmópolis Mogi mirim

USINA COSTA PINTO S/A AÇÚCAR E ÁLCOOL Acima de U$ 50.000.000,00 2a ordem de exportação Piracicaba Piracicaba ANTONIO RUETTE AGROINDUSTRIAL LTDA Acima de U$ 50.000.000,00 2a ordem de exportação Paraíso Catanduva NARDINI AGROINDUSTRIAL Acima de U$ 50.000.000,00 1a ordem de exportação Vista Alegre do Alto Jaboticabal AGRO INDUSTRIAL VISTA ALEGRE LTDA

De U$ 10.000.000,00 até 50.000.000,00

2 a ordem de exportação

Itapetininga Itapetininga

NOVA AMERICA S/A –

AGROENERGIA De U$ 10.000.000,00 até 50.000.000,00 1

a ordem de

exportação Tarumã Assis

DELLA COLETTA - USINA DE AÇÚCAR E ÁLCOOL LTDA De U$ 10.000.000,00 até 50.000.000,00 1 a ordem de exportação Bariri Jaú BIOENERGIA DO

BRASIL S/A De U$ 10.000.000,00 até 50.000.000,00 2

a ordem de

exportação Lucélia Tupã

USINA BAZAN SA Acima de U$

50.000.000,00 2

a ordem de

exportação Ribeirão Preto Ribeirão Preto

UNIALCO S/A ÁLCOOL

E AÇÚCAR Acima de U$ 50.000.000,00 2

a ordem de

exportação Guararapes Araçatuba

2.2 Abordagem da pesquisa

Em consonância com os objetivos traçados e no afã de averiguar a hipótese deste trabalho, o cunho desta pesquisa é qualitativo e sua abordagem será feita considerando múltiplos fatores pertinentes e geradores da competitividade no contexto do setor a ser estudado. A idéia principal é equacionar os atributos principais que promovam uma competitividade territorial sustentável.

Quadro 4 – Atributos investigados no território

A) Governança e Instituições B) Inovação e Tecnologia C) Aspectos Socioambientais D) Infraestrutura territorial

A composição desses atores em ativos e recursos, genéricos ou específicos, constitui a condição competitiva e de desenvolvimento dos territórios abordados neste estudo.

Fonte: José Rubens Guido Junior (Elaboração própria)

2.3 Aplicação da pesquisa

Nessa etapa da pesquisa foram realizadas análises de dados primários e secundários acerca dos atributos apontados no quadro anterior. A seguir, temos uma descrição das fontes utilizadas:

Quadro 5 - Fontes de dados primários e secundários

Fatores Fonte Primária Fonte Secundária Abordagem Governança e Instituições Questionário aplicado às prefeituras e sindicatos.

Unica (União da indústria de cana-de-açúcar).

Formulário aplicado à entidade

Conselhos Regionais de Desenvolvimento Rural (CATI). e Câmaras Setoriais dos Agronegócios do Estado de São Paulo (CATI)

Acesso ao site

_____________________ Formulário aplicado às prefeituras municipais e sindicatos dos trabalhadores rurais.

Inovação e Tecnologia

IAC (Instituto Agronômico de Campinas); – Embrapa (Bionergia); e Centro Tecnológico Canavieiro (CTC)

Universidades Federais e Estaduais de São Paulo

Formulário de pesquisa. Aspecto Socioambiental M.T.E (Ministério do Trabalho e Emprego). Acesso ao site Cetesb (Companhia

Ambiental do Estado de São Paulo)

Acesso ao site do IMESP (DIÁRIO OFICIAL DE SP. Infraestrutura Territorial. Codasp (Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo) Formulário de pesquisa

Bmfbovespa Acesso ao site da instituição Anaeel (Agencia Nacional de

Energia Elétrica)

Acesso ao site – da instituição

Fonte: José Rubens Guido Junior (Elaboração própria).

2.4 Procedimento e análise dos dados

Após a coleta foram confrontados os dados obtidos, considerando quais as conotações adquiridas dos recursos e ativos específicos, a depender das estratégias competitivas mobilizadas nos territórios locais. Com esse diagnóstico, será feita uma comparação das empresas e a elaboração de um quadro, indicando quais são as que apresentam uma vantagem competitiva sustentável para a competição global, estruturada no território.

Ao tentar caracterizar a competitividade atual do etanol paulista com base nas dinâmicas territoriais, ou seja, na intensidade qualitativa dos fatores locais de suporte à competitividade (instituições, universidades, infraestrutura, na situação ambiental, entre outros), reconhece-se também, sob o prisma do território, a criação de algumas formas de regulação e governança do espaço territorial local, a partir de estratégias variadas que envolvem a mobilização e o respeito a mão-de-obra, investimentos em inovação, respeito às regras e aos direitos das instituições, parceiros e colaboradores formais e informais e conservação do patrimônio natural (fauna e flora) presente no território local.

O papel do território como sujeito ativo da competitividade se faz, além dos fatores mencionados, pela definição de coalizões políticas e formas de cooperação e coordenação entre atores econômicos, poder público e sociedade civil, buscando promover o (re)ordenamento por meio da mobilização dos recursos e ativos específicos (materiais e imateriais), com vistas a melhorias da economia local ao lado da qualidade de vida e bem- estar social de sua população.

CAPÍTULO 3 ETANOL: UM NOVO VELHO TRUNFO DO BRASIL

No documento Competitividade territorial do etanol (páginas 45-50)

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