Capítulo II: Fernando Pessoa sociologicamente considerado
II.4. Metodologia
Para analisar a vida e obra de Fernando Pessoa construímos um modelo teórico cruzando sobretudo a sociologia pragmática de Boltanski e Thévenot com a sociologia da singularidade de Nathalie Heinich. Este modelo permite analisar a vida e obra de Fernando Pessoa, não apenas na perspectiva das recorrentes situações de controvérsia na república das letras, mas também do ponto de vista do próprio escritor e da sua complexa personalidade. Desta forma, analisaremos o percurso pessoano na dupla perspectiva das operações críticas da comunidade de críticos, escritores, jornalistas e outros actores sociais, bem como do trabalho que Fernando Pessoa realizou sobre si próprio para se engrandecer como escritor. A república das letras é entendida como um espaço social com as suas exigências de justificação da ordem de grandeza a atribuir a
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pessoas e objectos, os escritores e as suas obras. Neste contexto, utilizamos a grelha de análise de Boltanski e Thévenot para identificar as gramáticas argumentativas utilizadas pelos actores sociais envolvidos nas controvérsias literárias. Procurando explicitar os sistemas de valores e as ordens de grandeza atribuídas, adoptamos a ruptura epistemológica proposta por Nathalie Heinich, a qual permite o distanciamento e a neutralidade axiológica necessários à análise sociológica das controvérsias literárias. Este modelo de análise será completado por outras teorias, particularmente no que se refere à análise sociológica dos principais heterónimos de Fernando Pessoa. A sociologia da singularidade não está apenas presente no modelo analítico, mas sustenta todo o trabalho de investigação, na medida em que adoptamos as cinco posturas epistemológicas propostas por Heinich.
A estratégia da investigação assenta na reflexividade, convocando a imaginação sociológica, a inteligência do social e o pensamento relacional para explicitar as condições, dinâmicas e processos sociais de produção da grandeza literária. Este estudo de caso, cujo objecto é a vida e obra de Fernando Pessoa, remete para a metodologia indutiva, a qual parte do particular para a generalização, num conjunto de cenários ou controvérsias onde o escritor interagiu com outros actores sociais. Neste sentido, a unidade de análise é o indivíduo e o universo, ou população a estudar, são os outros significativos: escritores, artistas, intelectuais, críticos e jornalistas, cidadãos da república das letras com recursos argumentativos mais ou menos elevados que, de alguma forma, participaram nas polémicas literárias. A metodologia será portanto intensiva, com investigação em profundidade de algumas controvérsias literárias em que Pessoa participou. Esta análise minuciosa permite explicitar momentos chave da sua vida e obra, mas também abrir uma janela sobre a república das letras em Portugal durante o período analisado de 30 anos. Este período vai desde 1905, quando o jovem Pessoa regressou definitivamente a Portugal, até 1935, ano em que o escritor faleceu, compreendendo assim toda a sua vida adulta e intervenção na república das letras, bem como a parte mais significativa da sua produção literária. O período analisado decorreu na primeira metade do século XX, época de forte agitação política e recomposição social, destacando-se os 16 anos que durou a República45, de 1910 a 1926.
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O termo República não é aqui usado para designar a República Portuguesa, mas no sentido mais restrito do regime republicano que vigorou em Portugal desde a revolução de 5 de Outubro de 1910, que derrubou a Monarquia, até à revolução de 28 de Maio de 1926, que implantou a Ditadura, convertida depois em Estado Novo com a Constituição de 1933.
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A metodologia adoptada é devedora da sociologia da literatura, mas também da sociologia histórica, tal como praticada, designadamente, por Max Weber ou Norbert Elias, bem como, enquanto estudo de caso, de uma sociologia do indivíduo. Neste sentido, a principal técnica de investigação utilizada é a pesquisa documental de fontes escritas, a qual consiste sobretudo na recolha e análise de materiais produzidos durante a vida de Fernando Pessoa, bem como publicados postumamente nas vastas literaturas primária e secundária do e sobre o escritor. Este terreno de investigação revelou-se particularmente fértil em documentos com elevado interesse para a análise sociológica que pretendemos realizar, designadamente a imprensa periódica, literária ou não, bem como o acervo bibliográfico. Nesta matéria, Pierre de Saint-Georges corrobora as perspectivas metodológicas de autores já citados sobre a importância da literatura como «fonte não negligenciável de informações acerca de um assunto preciso ou de uma determinada época». Na sua perspectiva, os romances, colectâneas de poemas, relatos e obras de ficção, ou de «expressão literária e estética», enquanto fenómeno social, «são também um objecto de pesquisa significativo», exprimindo «toda uma sociedade implícita». Desta forma, a literatura proporcionaria ao sociólogo uma análise «em segundo grau», descrevendo com «enorme precisão» os «fenómenos sociais» (SAINT- GEORGES, 1997: 24-25).
Pierre de Saint-Georges considera que a imprensa ilustra «as opiniões de grupos ou de categorias sociais determinadas e, por isso, desempenha um papel essencial na vida política e social». Contudo, para o sociólogo, «quanto mais rápido é o ritmo de publicação maiores são os riscos de erro, uma vez que «o distanciamento é insuficiente». Por outro lado, devido à sua periodicidade mais lenta, as revistas permitem «a difusão de textos mais elaborados que podem alcançar um certo distanciamento em relação aos acontecimentos» e uma reflexão mais aprofundada. Além disto, «graças à regularidade da sua publicação, a revista também se insere na própria corrente das novas ideias, das tendências recentes, das últimas descobertas, e é muito frequente os pontos de vista, tanto políticos e sociais como científicos, surgirem nela antes de serem expostos em livro» (SAINT-GEORGES, 1997: 23-24). Acresce ainda
que as novas ideias e correntes literárias também se exprimem geralmente nos periódicios e revistas antes de serem publicadas em livro, razão pela qual as revistas literárias assumem particular relevo nas recorrentes controvérsias da república das letras.
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II.4.1. Pesquisa documental e selecção bibliográfica
Segundo Pierre de Saint-Georges, a pesquisa bibliográfica é a parte da investigação empírica que procura documentos escritos, ou seja, fala-se em «pesquisa
bibliográfica quando se trata de descobrir textos (livros, artigos, documentos) sem
omitir uma referência essencial, mas sem se deixar submergir pelo que não tem interesse». Neste sentido, a pertinência dos documentos para o estudo a realizar é o principal factor a ter em conta na pesquisa bibliográfica, ainda que a exaustividade também possa ser considerada em determinadas investigações. Não existe apenas uma maneira de realizar a pesquisa documental, e cada investigador ou equipa de investigação deve lançar mão da forma que for mais conveniente ao seu estudo, conjugando, se necessário, as diversas possibilidades ao seu dispor. Para Pierre de Saint-Georges, uma maneira prática de fazer pesquisa documental é a consulta prévia de um ou mais especialistas da área que pretendemos estudar (SAINT-GEORGES, 1997: 32-33). Foi o que fizemos, realizando entrevistas exploratórias com o Professor Doutor António Feijó, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e o Professor Doutor Fernando Cabral Martins, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que coordenou o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo
Português.
Outra forma de realizar a pesquisa bibliográfica, é a que Pierre de Saint-Georges designa por exaustiva, a qual consiste num «trabalho aprofundado do problema formulado, o que nos permitirá formar uma ideia mais precisa dos domínios que o problema aflora e descobrir um certo número de temas que decompõem o assunto central» (SAINT-GEORGES, 1997: 33). Neste sentido, consultámos várias obras referidas pelos entrevistados, revelando-se fundamental, pelas inúmeras pistas e sugestões de investigação, a Vida e Obra de Fernando Pessoa: história de uma geração, de João Gaspar Simões, crítico literário, amigo e biógrafo do escritor. Apesar da já provecta idade desta obra, cuja primeira edição remonta a 1950, das múltiplas críticas que então suscitou e de alguns erros que lhe são apontados, constitui ainda hoje a matriz informativa sobre a vida e a obra de Fernando Pessoa. Outras obras mais recentes foram também consultadas, designadamente os dois volumes de Pessoa por Conhecer, de Teresa Rita Lopes, publicados em 1990; os dois volumes da Correspondência do escritor, editados por Manuela Parreira da Silva em 1999; Fernando Pessoa: entre
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Pessoa, de Richard Zenith ou o referido Dicionário de Fernando Pessoa e do
Modernismo Português, ambos publicados em 2008.
Todas estas consultas desencadearam um processo de referências bibliográficas, em «bola-de-neve», que permitiu identificar e seleccionar a maior parte dos livros, jornais, revistas literárias e demais documentos necessários à investigação. A selecção de documentos foi assim realizada através de um processo dinâmico e interactivo, guiado pelos objectivos da pesquisa, no qual a própria bibliografia consultada também influiu no objecto sociológico, obrigando a revisões teóricas, epistemológicas e metodológicas, bem como ao reenquadramento e reajustamento do projecto de tese. Além dos livros disponíveis no mercado, a consulta bibliográfica foi realizada em diversas bibliotecas e arquivos, sobretudo na Biblioteca Nacional de Portugal, na Hemeroteca Municipal de Lisboa e na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. A recolha e consulta de documentos digitalizados através da Internet também foi importante, designadamente, nos portais da Casa Fernando Pessoa e da Biblioteca Nacional Digital.
Na operacionalização do modelo teórico, a principal técnica utilizada é a análise de conteúdo, aplicada na sua forma compreensiva à bibliografia seleccionada, uma análise hermenêutica devedora dos métodos da sociologia histórica. Tendo em conta as particularidades do terreno de investigação, foi necessário seleccionar os documentos a analisar respeitando alguns princípios geralmente aceites na delimitação do corpus empírico. O princípio da pertinência, segundo o qual o seu conteúdo deve ser adequado aos objectivos da investigação. O princípio da exaustividade, seleccionando documentos que permitam cobrir o mais amplamente possível as dimensões analíticas. O princípio da representatividade, nos casos em que os documentos são demasiados para serem todos analisados, segundo o qual é necessária uma triagem prévia para seleccionar os mais representativos de cada situação a analisar. Finalmente, o princípio da homogeneidade, ou seja, a selecção dos documentos que apresentam mais informações comparáveis (BARDIN, 2002: 97-98). Desta forma foi possível seleccionar a bibliografia e os documentos analisados na investigação empírica.
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