CAPÍTULO I - CABELO: UM PROBLEMA SOCIAL
1.3 MEU CABELO EXISTE
1.3 MEU CABELO EXISTE.
Há uma forte tendência a ligar a população negra somente à escravidão, sem considerá-la na própria história do país. Para uma criança que está construindo uma identidade, aprender que os seus iguais eram “escravos”, pessoas que somente estavam presentes em um imaginário que as coloca como as sem cultura, próprias apenas para o trabalho, sem contribuição para o desenvolvimento da sociedade, essa criança vê sua identidade negra como negativa, tendo, assim, dificuldade em se definir como tal. (CARVALHO,2015, p.11). Esta criança procurará outra identidade ou fará a negação da sua condição, portanto, é fundamental estabelecer uma relação da história com o indivíduo, é preciso mostrar que esse indivíduo tem história e trazer à tona os valores positivos dessa história, até mesmo para estabelecer uma maneira de trazer orgulho e reconhecimento para esse indivíduo. No ambiente escolar, a mulher negra sofre com os estereótipos discriminatórios de sua imagem quando, na condição de aluna, ela passa por situações de racismo quase que cotidianamente. Para poder fazer parte dos grupos que se formam no seio da escola, a menina negra acaba se submetendo à “ditadura estética” e transforma suas características negroides em
características marcadamente presentes na população branca (CARVALHO,2015, p.
25).
A primeira mudança que a menina negra procura fazer em sua imagem para ter aceitação entre as (os) outras (os) estudantes, é o alisamento capilar, ou seja, o cabelo crespo característico da população negra é rejeitado por essa menina, que alisa seu cabelo como mecanismo para transformar-se em uma pessoa que se pareça com a imagem de mulher idealizada pelos imaginários feminino e masculino. Como a pele negra é marca, não há como negar a cor de sua pele, o cabelo passa a ser elemento norteador para a mudança da imagem. Provocações de cunho racista ligados ao cabelo crespo são constantes no ambiente das escolas brasileiras e isso traz um conflito de imagem da menina negra, que não consegue estabelecer a sua autoafirmação enquanto pessoa, já que a sua imagem está fora dos padrões estabelecidos pela sociedade (CARVALHO, 2015, p 25).
Assumir os cabelos acaba por gerar o despertar para questões a respeito do racismo e de sua afirmação como mulher negra; há o desencadear do autoconhecimento tornando o cabelo um símbolo de caráter público (LEACH,1983, p 3) por partilhar de uma ideia comum a determinado grupo, e de caráter privado por também despertar emoções e alterar o estado do indivíduo. Como afirma Leach:
‘’Todas as simbolizações públicas começam em algum ponto como símbolos privados‘’ (idem, ibidem). Durante a vida, mulheres negras são levadas a acreditar que nasceram da forma errada e ruim, por sempre estarem consumindo narrativas que suscitam tal sentimento, e através da luta do que é ser uma mulher negra, descobre-se para cada uma delas há uma existência de uma coletividade e que há algo que as une, fazendo-as descobrir um pertencimento nunca antes experimentado.
Assim como a democracia racial encobre os conflitos raciais, o estilo de cabelo, o tipo de penteado, de manipulação e o sentido a eles atribuídos pelo sujeito que os adota podem ser usados para camuflar o pertencimento étnico/racial, na tentativa de encobrir dilemas referentes ao processo de construção da identidade negra. Mas tal comportamento pode também representar um processo de reconhecimento das raízes africanas assim como de reação, resistência e denúncia contra o racismo. E ainda pode expressar um estilo de vida. (GOMES, 2012, p. 8)
“Quem não se ajeita, por si mesma se enjeita […]”, Maria da Consolação Lucinda inicia sua dissertação ‘’Subjetividade e Fronteiras: Uma perspectiva etnográfica da manipulação da aparência’’ (2004 p.15) fazendo referência sobre os atravessamentos que essa afirmação dada por uma das mulheres que conhecerá durante seu campo, lhe fizeram refletir, partindo do pressuposto já exposto de que a mulher negra é levada a um constante esforço para alcançar a dita beleza, muito maior do que a mulher branca. Como afirma Almeida, ‘’preto não é apenas a outra face da moeda do branco, preto é a face de baixo com menos valor da moeda‘’ (2004, p.3), assim, essa forma de pensar leva mulheres negras a idas frequentes aos salões de belezas, mil tentativas de processos químicos para alisamento dos fios, frustrações devido à quebra e ao padrão jamais alcançado, cirurgias plásticas em busca de traços mais delicados e outros procedimentos. A identidade negra não é apenas um olhar de dentro do próprio negro, mas também a relação em que ele é exposto ao olhar do outro (GOMES, 2008, p. 2). Em geral, o que o outro pensa a respeito do que se apresenta nessas circunstâncias é mais importante do que o bem estar de si própria de fato ser a provada pelo outro se torna o bem estar, o crescimento de salões especializados na beleza negra é importante para pensar o cabelo e o corpo do negro a partir da cultura negra, cultura que visa o empoderamento dos traços negros, sendo esses espaços, lugares de compartilhamento de vivências e mediadores da tomada de uma consciência racial, pois nenhuma identidade é construída no isolamento, o cabelo como elemento separado não diz tudo por si só mas se constrói das relações sociais e raciais construídas (GOMES,2008, p.3).
Com o crescimento das mulheres adeptas ao cabelo natural, a sociedade começou a se modificar trazendo produtos e referências que remetessem a essas mulheres no comércio e nas mídias sociais, linhas de tratamento capilar direcionadas a diversas texturas ganharam popularidade, o discurso de uma beleza negra demonstrado pela cosmética implica dizer que foi criado um polo irradiador de novas habilidades culturais, as quais são observadas através da sintonia com o que acontece na moda e nas mídias nacionais (SANTOS, 1999, p.9 )
Lucinda (2004, p 39) discorre sobre o tema da identidade e sobre como os movimentos sociais e culturais contribuem para a construção estética do segmento negro, e de como a identidade não se constitui de coisas fixas e sim de nossa
subjetividade e realidade, mostrando como o cabelo passa a ser sinônimo de autoestima, e símbolo forte negro. A autora também faz uma breve comparação com a força política que era observada há anos atrás e que essa mesma força atualmente é mais fraca. Por conta do fortalecimento da imagem negra na mídia, a maioria do contexto foi ligado à moda e a adoção dos estilos “afro” e/ou “étnico”, no contexto da globalização, também não implica engajamento político ou comprometimento com a luta antirracista e sim decorrentes de uma proposta estética que não podem ser ligados a um posicionamento político ou consciência de sua negritude, mas que não há como negar que mesmo por conta de uma ‘’moda’’ essa influência levou a uma grande parcela de negros brasileiros a repensar o conceito de auto imagem. Mesmo havendo a divisão entre mulheres que não veem o assumir o cabelo natural como causa para se engajar no movimento negro, e que mesmo não fazendo parte dessa visão política não deixam de ter consciência racial, fato que costumo observar é que nos atuais movimentos de orgulho negro, não se costuma encontrar mulheres negras de cabelo alisado ter o cabelo natural é umas das características primordiais e marcantes do movimento, quando a mulher negra assume o seu cabelo natural, “o cabelo e a cor da pele podem sair do lugar da inferioridade e ocupar o lugar da beleza negra, assumindo uma significação política”. (GOMES, 2002, p. 49).
Mas não ter o cabelo natural torna uma mulher negra menos negra? São questões que causam grandes conflitos tanto entre os movimentos como nas mídias digitais, causando divisão no meio: o que faz uma mulher negra ser considerada negra? Pergunta que não surpreende dado a fazermos parte de um país miscigenado, cor da pele e cabelo sempre são os pontos mais salientados nas discussões relacionadas ao que chamamos de ‘’colorismo‘’ que é a denominação das divisões entre negros de pele clara e negros de pele escura o que nos traz a clareza sobre as vivências dessas diferenças e consequentemente comparações entre negras de traços mais europeus e cabelos mais ou menos crespos, sendo o cabelo de grande importância na escala classificatória da cor (FIGUEIREDO,2002. p 5).
Recentemente o colorismo foi foco nas mídias quando a atriz Fabiana Cozza renunciou ao papel de Dona Ivone Lara após ser considerada clara demais, após grande pressão de negros de pele retinta, pela representatividade no papel, o que levou novamente a entender que ainda precisa haver muitas discussões a respeito dos lugares de representatividades e a permanência de discursos racistas de nunca
escolher a pessoa negra de pele mais escura a atriz disse em sua renúncia: “Renuncio por ter dormido negra e, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos”. Fala noticiada pela coluna de Marisa Caruso, em 2018.
O processo de identificação com um grupo, o reconhecimento da identidade, é sempre um processo marcado pela diferença, definido pela inclusão e exclusão, pois, quando eu afirmo que eu sou deixo subentendido o que eu não sou. Ao afirmar: Sou negra – me incluo e me identifico com um determinado grupo. Quer dizer que eu não sou branca. A afirmação e a negação caminham juntas, assim como a identidade e a diferença.
(BARBOSA, 2007, pag. 6)
Há brancos que se consideram pardos, mas que a sociedade os percebem brancos, há pardos que se consideram brancos, há pretos que se consideram pardos, como há pardos que se consideram pretos. Essa indistinção identitária do brasileiro traz à tona uma discussão importante para a sociedade, a de como definir raça em um país cuja miscigenação racial é uma realidade irreversível e presente há mais de 500 anos (CARVALHO,2015, p .48).
Ser negro estaria somente ligado ao tom da pele? Carvalho (2015, p.19) discorre sobre o tema citando Valente (1994, p. 46), que traz uma discussão importante para essa reflexão. Ela define que “ser negro é ser identificado como negro e reconhecer-se negro”, porém a autora cria outra discussão acerca das seguintes questões: “E se um negro não quiser ser negro? E se um negro não for reconhecido como negro? E se um mulato não quiser ser negro? E se um branco for reconhecido como negro? Essas questões voltam a discorrer sobre a ideia de identidade e da importância da cor da pele. Nessa classificação a autora afirma que a cor de pele deve ser entendida como uma característica biológica, não como identidade étnica, e de que ser negro (a) está relacionado a uma atitude política e construção de uma consciência de pertencimento partida da ancestralidade, da cultura e identidade com a luta política do povo negro.