(Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012)
VRB – Quem é Millôr Fernandes?
Millôr – Millôr Fernandes é jornalista amador, só recebe por fora, e não agride a camada de ozônio.
Millôr Fernandes é jornalista sem fins lucrativos.
VRB – O que é o acaso? Se Deus existe, por que há coisas que acontecem por acaso?
Millôr – O acaso é uma besteira de Deus.
É evidente que o Universo foi feito por acaso – como a re-presa de Assuã, a Crítica da Razão Pura e a Capela Sistina.
VRB – Então, Deus existe?
Millôr – Se Deus me der força e saúde, hei de provar que ele não existe.
VRB – O ateísta concordaria com você.
Millôr – O ateísmo é uma espécie de religião que ninguém acredita.
No longo prazo, um ateu não tem futuro.
O cara só é verdadeiramente ateu quando está muito bem de saúde.
Milton Viola Fernandes, mais conhecido como Millôr Fernan-des, foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradu-tor e jornalista brasileiro.
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VRB – Que tal esse Deus antropomórfico, denunciado na Grécia clássica por Anaxágoras?
Millôr – Como dá trabalho acreditar em Deus!
Há padres que falam em Deus com tal convicção que a gen-te se convence de que Deus não exisgen-te.
VRB – A crença em Deus não melhorou o mundo.
Millôr – Com esse mundo desgraçado, e cada vez mais, em que fomos condenados a viver, uma coisa é certa: Deus não mere-ce existir.
Tá bem, digamos que Deus existe. Mas é evidente que fez tudo isso aqui sem a menor atenção e foi tratar de outra coisa.
VRB – No meu livro Deus: Realidade ou Mito, o cético, um dos seus seis personagens, argumentou: “Deus fez esse mundo tão mal feito, tão cheio de sofrimentos que ficou envergonhado e até hoje vive escondido”.
Millôr – O mal do mundo é que Deus e o Diabo envelhece-ram, mas o Diabo fez plástica.
VRB – Talvez seja por isso que ele é tão prestigiado por sei-tas disei-tas satânicas e sempre presente nas práticas exorcissei-tas. Seria essa a mais fácil explicação para o mal?
Millôr – Eu vou acabar acreditando em Deus. Tá difícil acreditar em qualquer outra coisa.
VRB – Por sua vez, a Maçonaria proclama que Deus é o Su-premo Arquiteto do Universo.
Millôr – Deus, como se sabe, pra fazer o mundo não usou régua e compasso, apenas o verbo. Daí a falta de perspectiva.
VRB – Se, por acaso, você se tornasse um místico, fundaria uma religião? Seria um guru?
Millôr – Já pensei em fundar uma religião, mas tenho medo de que me sigam.
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VRB – A religião, numa estratégia de marketing, inventou o pecado para oferecer salvação a sua clientela de crentes.
Millôr – Que pena! Quando eu nasci já não havia mais ne-nhum pecado original.
Um cara que só confessa as coisas pros amigo é um ateu e faz concorrência à Igreja, porque o padre está aí para isso.
VRB – A religião também inventou que cada pessoa carrega sua cruz, promovendo o seu produto: o sofrimento.
Millôr – Ainda bem que não sou religioso. Deve ter alguém por aí carregando duas.
VRB – “Bem-aventurados os pobres porque herdarão o rei-no dos céus”. Compensação ou alienação? Os ricos estão conde-nados?
Millôr – Bem-aventurados os filhos dos ricos, porque eles herdarão o reino dos seus.
Pensando nisso, por que pobre não faz voto de riqueza?
A verdade é que a riqueza estraga a maior parte das pesso-as – mpesso-as você não gostaria de correr os riscos?
Aos pobres, que acham, com razão, que é difícil ficar rico, é conveniente advertir que, para os ricos, é ainda mais difícil ficar pobre.
A riqueza não traz felicidade. A pobreza muito menos.
VRB – Você defenderia a pena de morte para diminuir a criminalidade?
Millôr – A pena de morte tem um aspecto definitivamente positivo: culpado, o criminoso não volta a cometer o crime; ino-cente, o Estado não poderá repetir o erro.
Quem mata, oficialmente ou não (a lei é omissa), está sujeito à pena de morte. Portanto, se decretarem a pena de morte, o executor da pena deve ser condenado à morte. Quem vai executar o último?
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Por que tanta discussão? Afinal a vida também é uma pena de morte.
Desde que nasci estou jurado de morte.
VRB – Se eu fosse legislador, me posicionaria pela abolição do Direito das Sucessões.
Millôr – Herança é o que os descendentes recebem quando o cara não teve a sabedoria de gastar tudo antes de morrer.
Mistérios econômicos: como é que um pai, pobre, cansado, mal instruído, consegue manter quatro ou cinco filhos, e quatro ou cinco filhos, uma vez criados e educados, não conseguem man-ter um pai?
E como dizem lá os portugueses: quem faz herdeiros cedo, não morre tarde.
VRB – A História é uma ciência? Podemos conhecer melhor o ser humano sob a óptica dos milênios?
Millôr – A História é um troço inventado por historiadores que não concordam com que os outros historiadores inventaram antes.
A história é uma lenda, só que muito mais mentirosa.
VRB – Apesar disso, acredita-se que a História se repete.
Millôr – A história sempre se repetiu. Mas, com a energia nuclear, possivelmente o que vai se repetir é a pré-história.
VRB – Se nos basearmos na História, em todos os séculos, tem-se a forte impressão de que a honestidade, no ser humano, é uma raridade.
Millôr – Basta olhar em volta pra ver que a honestidade não é coisa natural. Toda pessoa honesta tem um ar extremamen-te ressentido.
O honesto é um amador que atrapalha fundamentalmente o trabalho dos canalhas, todos profissionais.
Se a ocasião faz o ladrão, a falta de oportunidade faz a
ho-198 nestidade?
VRB – Mostrar-se cético parece mais exibição do que con-vicção.
Millôr – Cético é um sujeito que nega até Mateus – quer ver para não crer.
VRB - Você se preocupa com a morte?
Millôr – A morte é uma coisa que se deve deixar para depois.
VRB – Nas lides judiciais, mentir parece um direito, porque é amplamente exercido pelos acusados e seus diligentes advogados.
Millôr – A advocacia é a maneira legal de burlar a lei. O ad-vogado é sócio do crime.
A notoriedade do advogado de defesa aumenta na medida em que faz voltar à circulação, com atestado de homens de bem, os piores assassinos, ladrões e contraventores.
VRB – Você acredita que a alma é o que de nós sobrevive após a morte?
Millôr – Não possuo alma. Sou, como todo mundo, uma alucinação holística e holográfica.
VRB – No nosso mundo consumista, o ter satisfaz o ser?
Millôr – Triste é a angústia do pobre, que nunca teve nada.
Mas, e a angústia do rico, que sabe que não adianta ter tudo?
VRB – Os meios de comunicação, apesar de todo alarde, não têm contribuído para melhorar a capacidade intelectual das pessoas.
Millôr – Sempre houve muita besteira no mundo. Mas, no momento em que a tecnologia da comunicação se juntou com o engodo ideológico, as besteiras tornaram-se mais amplas e mais sinistras.
VRB – A tendência do mundo não é apenas a aldeia global, como pensou McLuhan, mas o Big Brother de George Orwel.
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Millôr – Em qualquer regime político tem sempre um Big Brother te vigiando. Felizmente, é incompetente.
VRB – O casamento é uma forma de escravidão consentida?
Millôr – O casamento ainda é a melhor forma de duas pes-soas descobrirem que casamento não dá certo.
VRB – Você já encontrou alguém que sinceramente confes-sou ser vaidoso?
Millôr – Não ter vaidade é a maior de todas.
Ninguém jamais atingiu a satisfação total de sua vaidade.
VRB – Você acredita no Brasil, apesar da política?
Millôr – Este é o país onde há a maior possibilidade de se criar um mundo inteiramente novo. Caos não falta.
Brasil, condenado à esperança.
Brasil, país do futuro. Sempre.
Ser brasileiro me deixa muito subdesenvolvido.
VRB – Atualmente, os políticos brasileiros falam muito em governabilidade.
Millôr – Todos os países são difíceis de governar. Só o Brasil é impossível.
VRB – Alguns filósofos não aceitavam a democracia por considera-la uma farsa.
Millôr – Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim.
Parodiando Santo Agostinho: “Se ninguém me perguntar o que é democracia, eu sei. Mas, se alguém me perguntar, eu não sei.”
O verdadeiro milagre brasileiro: uma democracia comple-tamente isenta de democratas.
Democracia é a crença de que uma multidão de idiotas jun-tos pode resolver problemas melhor do que um cretino sozinho.
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O medo das ditaduras levou-nos à ditadura da democracia.
VRB – Já que você falou em ditadura...
Millôr – A diferença entre uma democracia e um país tota-litário é que numa democracia todo mundo reclama, ninguém vive satisfeito. Mas se você perguntar a qualquer cidadão de uma dita-dura o que acha de seu país, ele responde sem hesitar: “Não posso me queixar.”
VRB – É a ditadura disfarçada em democracia, onde, como você diz, ninguém é tolo de se queixar.
Millôr – Quando você chega num país e toda a imprensa exalta a liberdade – o país é uma ditadura. Se, porém, a imprensa diz que o clima de restrições à liberdade é insuportável – você está numa democracia.
VRB – A economia é uma ciência, ou uma forma prestigiada de adivinhação? O economista é sempre muito respeitado, mesmo quando erra, o que acontece na maioria das vezes.
Millôr – O economista é um ficcionista que venceu na vida.
Pro homem comum, economia é guardar dinheiro. Pro economista, economia é gastar dinheiro do homem comum.
Que seria dos economistas se o que eles pregam desse certo?
VRB – A psicanálise não é uma ciência. Mas, apesar disso, possui alguma eficácia?
Millôr – Os psicanalistas podem não resolver o problema dos neuróticos. Mas os neuróticos resolvem o problema dos psicanalistas.
VRB – As pessoas estão, cada vez mais, preocupadas com a saúde, acreditando na ciência, como meio eficaz de exorcizar as doenças.
Millôr – Por que os cientistas vivem descobrindo novas formas de doenças e não conseguem descobrir uma forma defini-tiva de saúde?