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Millôr Fernandes

No documento alter da Rosa Borges (páginas 194-200)

(Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012)

VRB – Quem é Millôr Fernandes?

Millôr – Millôr Fernandes é jornalista amador, só recebe por fora, e não agride a camada de ozônio.

Millôr Fernandes é jornalista sem fins lucrativos.

VRB – O que é o acaso? Se Deus existe, por que há coisas que acontecem por acaso?

Millôr – O acaso é uma besteira de Deus.

É evidente que o Universo foi feito por acaso – como a re-presa de Assuã, a Crítica da Razão Pura e a Capela Sistina.

VRB – Então, Deus existe?

Millôr – Se Deus me der força e saúde, hei de provar que ele não existe.

VRB – O ateísta concordaria com você.

Millôr – O ateísmo é uma espécie de religião que ninguém acredita.

No longo prazo, um ateu não tem futuro.

O cara só é verdadeiramente ateu quando está muito bem de saúde.

Milton Viola Fernandes, mais conhecido como Millôr Fernan-des, foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradu-tor e jornalista brasileiro.

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VRB – Que tal esse Deus antropomórfico, denunciado na Grécia clássica por Anaxágoras?

Millôr – Como dá trabalho acreditar em Deus!

Há padres que falam em Deus com tal convicção que a gen-te se convence de que Deus não exisgen-te.

VRB – A crença em Deus não melhorou o mundo.

Millôr – Com esse mundo desgraçado, e cada vez mais, em que fomos condenados a viver, uma coisa é certa: Deus não mere-ce existir.

Tá bem, digamos que Deus existe. Mas é evidente que fez tudo isso aqui sem a menor atenção e foi tratar de outra coisa.

VRB – No meu livro Deus: Realidade ou Mito, o cético, um dos seus seis personagens, argumentou: “Deus fez esse mundo tão mal feito, tão cheio de sofrimentos que ficou envergonhado e até hoje vive escondido”.

Millôr – O mal do mundo é que Deus e o Diabo envelhece-ram, mas o Diabo fez plástica.

VRB – Talvez seja por isso que ele é tão prestigiado por sei-tas disei-tas satânicas e sempre presente nas práticas exorcissei-tas. Seria essa a mais fácil explicação para o mal?

Millôr – Eu vou acabar acreditando em Deus. Tá difícil acreditar em qualquer outra coisa.

VRB – Por sua vez, a Maçonaria proclama que Deus é o Su-premo Arquiteto do Universo.

Millôr – Deus, como se sabe, pra fazer o mundo não usou régua e compasso, apenas o verbo. Daí a falta de perspectiva.

VRB – Se, por acaso, você se tornasse um místico, fundaria uma religião? Seria um guru?

Millôr – Já pensei em fundar uma religião, mas tenho medo de que me sigam.

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VRB – A religião, numa estratégia de marketing, inventou o pecado para oferecer salvação a sua clientela de crentes.

Millôr – Que pena! Quando eu nasci já não havia mais ne-nhum pecado original.

Um cara que só confessa as coisas pros amigo é um ateu e faz concorrência à Igreja, porque o padre está aí para isso.

VRB – A religião também inventou que cada pessoa carrega sua cruz, promovendo o seu produto: o sofrimento.

Millôr – Ainda bem que não sou religioso. Deve ter alguém por aí carregando duas.

VRB – “Bem-aventurados os pobres porque herdarão o rei-no dos céus”. Compensação ou alienação? Os ricos estão conde-nados?

Millôr – Bem-aventurados os filhos dos ricos, porque eles herdarão o reino dos seus.

Pensando nisso, por que pobre não faz voto de riqueza?

A verdade é que a riqueza estraga a maior parte das pesso-as – mpesso-as você não gostaria de correr os riscos?

Aos pobres, que acham, com razão, que é difícil ficar rico, é conveniente advertir que, para os ricos, é ainda mais difícil ficar pobre.

A riqueza não traz felicidade. A pobreza muito menos.

VRB – Você defenderia a pena de morte para diminuir a criminalidade?

Millôr – A pena de morte tem um aspecto definitivamente positivo: culpado, o criminoso não volta a cometer o crime; ino-cente, o Estado não poderá repetir o erro.

Quem mata, oficialmente ou não (a lei é omissa), está sujeito à pena de morte. Portanto, se decretarem a pena de morte, o executor da pena deve ser condenado à morte. Quem vai executar o último?

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Por que tanta discussão? Afinal a vida também é uma pena de morte.

Desde que nasci estou jurado de morte.

VRB – Se eu fosse legislador, me posicionaria pela abolição do Direito das Sucessões.

Millôr – Herança é o que os descendentes recebem quando o cara não teve a sabedoria de gastar tudo antes de morrer.

Mistérios econômicos: como é que um pai, pobre, cansado, mal instruído, consegue manter quatro ou cinco filhos, e quatro ou cinco filhos, uma vez criados e educados, não conseguem man-ter um pai?

E como dizem lá os portugueses: quem faz herdeiros cedo, não morre tarde.

VRB – A História é uma ciência? Podemos conhecer melhor o ser humano sob a óptica dos milênios?

Millôr – A História é um troço inventado por historiadores que não concordam com que os outros historiadores inventaram antes.

A história é uma lenda, só que muito mais mentirosa.

VRB – Apesar disso, acredita-se que a História se repete.

Millôr – A história sempre se repetiu. Mas, com a energia nuclear, possivelmente o que vai se repetir é a pré-história.

VRB – Se nos basearmos na História, em todos os séculos, tem-se a forte impressão de que a honestidade, no ser humano, é uma raridade.

Millôr – Basta olhar em volta pra ver que a honestidade não é coisa natural. Toda pessoa honesta tem um ar extremamen-te ressentido.

O honesto é um amador que atrapalha fundamentalmente o trabalho dos canalhas, todos profissionais.

Se a ocasião faz o ladrão, a falta de oportunidade faz a

ho-198 nestidade?

VRB – Mostrar-se cético parece mais exibição do que con-vicção.

Millôr – Cético é um sujeito que nega até Mateus – quer ver para não crer.

VRB - Você se preocupa com a morte?

Millôr – A morte é uma coisa que se deve deixar para depois.

VRB – Nas lides judiciais, mentir parece um direito, porque é amplamente exercido pelos acusados e seus diligentes advogados.

Millôr – A advocacia é a maneira legal de burlar a lei. O ad-vogado é sócio do crime.

A notoriedade do advogado de defesa aumenta na medida em que faz voltar à circulação, com atestado de homens de bem, os piores assassinos, ladrões e contraventores.

VRB – Você acredita que a alma é o que de nós sobrevive após a morte?

Millôr – Não possuo alma. Sou, como todo mundo, uma alucinação holística e holográfica.

VRB – No nosso mundo consumista, o ter satisfaz o ser?

Millôr – Triste é a angústia do pobre, que nunca teve nada.

Mas, e a angústia do rico, que sabe que não adianta ter tudo?

VRB – Os meios de comunicação, apesar de todo alarde, não têm contribuído para melhorar a capacidade intelectual das pessoas.

Millôr – Sempre houve muita besteira no mundo. Mas, no momento em que a tecnologia da comunicação se juntou com o engodo ideológico, as besteiras tornaram-se mais amplas e mais sinistras.

VRB – A tendência do mundo não é apenas a aldeia global, como pensou McLuhan, mas o Big Brother de George Orwel.

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Millôr – Em qualquer regime político tem sempre um Big Brother te vigiando. Felizmente, é incompetente.

VRB – O casamento é uma forma de escravidão consentida?

Millôr – O casamento ainda é a melhor forma de duas pes-soas descobrirem que casamento não dá certo.

VRB – Você já encontrou alguém que sinceramente confes-sou ser vaidoso?

Millôr – Não ter vaidade é a maior de todas.

Ninguém jamais atingiu a satisfação total de sua vaidade.

VRB – Você acredita no Brasil, apesar da política?

Millôr – Este é o país onde há a maior possibilidade de se criar um mundo inteiramente novo. Caos não falta.

Brasil, condenado à esperança.

Brasil, país do futuro. Sempre.

Ser brasileiro me deixa muito subdesenvolvido.

VRB – Atualmente, os políticos brasileiros falam muito em governabilidade.

Millôr – Todos os países são difíceis de governar. Só o Brasil é impossível.

VRB – Alguns filósofos não aceitavam a democracia por considera-la uma farsa.

Millôr – Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim.

Parodiando Santo Agostinho: “Se ninguém me perguntar o que é democracia, eu sei. Mas, se alguém me perguntar, eu não sei.”

O verdadeiro milagre brasileiro: uma democracia comple-tamente isenta de democratas.

Democracia é a crença de que uma multidão de idiotas jun-tos pode resolver problemas melhor do que um cretino sozinho.

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O medo das ditaduras levou-nos à ditadura da democracia.

VRB – Já que você falou em ditadura...

Millôr – A diferença entre uma democracia e um país tota-litário é que numa democracia todo mundo reclama, ninguém vive satisfeito. Mas se você perguntar a qualquer cidadão de uma dita-dura o que acha de seu país, ele responde sem hesitar: “Não posso me queixar.”

VRB – É a ditadura disfarçada em democracia, onde, como você diz, ninguém é tolo de se queixar.

Millôr – Quando você chega num país e toda a imprensa exalta a liberdade – o país é uma ditadura. Se, porém, a imprensa diz que o clima de restrições à liberdade é insuportável – você está numa democracia.

VRB – A economia é uma ciência, ou uma forma prestigiada de adivinhação? O economista é sempre muito respeitado, mesmo quando erra, o que acontece na maioria das vezes.

Millôr – O economista é um ficcionista que venceu na vida.

Pro homem comum, economia é guardar dinheiro. Pro economista, economia é gastar dinheiro do homem comum.

Que seria dos economistas se o que eles pregam desse certo?

VRB – A psicanálise não é uma ciência. Mas, apesar disso, possui alguma eficácia?

Millôr – Os psicanalistas podem não resolver o problema dos neuróticos. Mas os neuróticos resolvem o problema dos psicanalistas.

VRB – As pessoas estão, cada vez mais, preocupadas com a saúde, acreditando na ciência, como meio eficaz de exorcizar as doenças.

Millôr – Por que os cientistas vivem descobrindo novas formas de doenças e não conseguem descobrir uma forma defini-tiva de saúde?

No documento alter da Rosa Borges (páginas 194-200)