2.1 Gerente nas organizações
2.1.3 Mitos e verdades sobre o trabalho gerencial
Drucker (1990), Tonelli e Alcadipani (2003) e Motta (2004) ressaltam que o trabalho gerencial é atípico. A função gerencial é ambígua e repleta de dualidades, não se parecendo com qualquer outra função, de modo que, por estes motivos, é complexa e difícil sua descrição. Motta (2004, p. 20) destaca que a
[...] maioria dos dirigentes, quando questionada sobre o seu trabalho, informa que encontra sempre uma carga inesperada de tarefas imprevistas, com reuniões, interrupções e trabalhos administrativos intensos, descontínuos e de natureza variável. Esses dirigentes revelam também que gostariam de ser mais racionais, ter mais tempo para pensar sobre o futuro e planejar, mas rendem-se à inevitabilidade da fragmentação e o imediatismo da função gerencial.
Mintzberg (1990) confirma a perspectiva de trabalho gerencial atípico, trazida por Drucker (1990) por meio dos resultados de uma pesquisa que realizou com vários gerentes que trabalhavam nos Estados Unidos, Canadá, Suécia e Inglaterra, os quais atuavam em diferentes funções e níveis hierárquicos. Os resultados desse trabalho trouxeram duas contribuições: a identificação de mitos envolvendo o trabalho do gerente e a descrição dos papéis gerenciais. O quadro 1 ressalta os resultados do estudo
.
MITOS VERDADES
1º. Mito: O gerente é um planejador sistemático e reflexivo.
Um grande número de estudos prova que os gerentes trabalham num ritmo inexorável e que suas atividades se caracterizam pela brevidade, variedade e descontinuidade e que eles estão firmemente orientados para a ação, não
apresentando inclinações para
atividades de reflexão. 2º. Mito: O verdadeiro gerente não
executa atividades de rotina.
Além de se ocupar com exceções, o trabalho administrativo envolve a execução de uma série de deveres rotineiros, incluindo rituais e
cerimônias, negociações e
processamento de pequenas
informações que ligam a organização ao seu meio ambiente.
3º. Mito: Os principais gerentes
necessitam de informações
agregadas, que podem ser melhor obtidas através de um sistema formal de informações gerenciais.
Os gerentes preferem a mídia verbal, principalmente telefonemas e reuniões.
4º. Mito: A administração é, ou pelo menos está se transformando, rapidamente, em ciência e profissão.
Os programas dos gerentes – para
organizar o tempo, processar
informações, tomar decisões e outras coisas mais - permanecem trancados em suas cabeças.
Quadro 1: Mitos envolvendo o trabalho gerencial. Fonte: Mintzberg (1990, p. 164).
Diante das informações destacadas no quadro 1, pode-se reafirmar que as atividades dos gerentes elencadas pela literatura clássica não correspondem à realidade do gerente na organização. Eles lidam com várias atividades que os tornam demasiadamente sobrecarregados e a descontinuidade destas parece ser uma constante.
Além disso, Mintzberg (1990) ressalta que os resultados de seu estudo foram uma surpresa, já que, apesar de os gerentes serem competentes, constatou-se que possuíam atitudes similares às de seus antecessores. Eles ainda buscavam, por exemplo, informações através da comunicação verbal, embora suas decisões estivessem relacionadas às tecnologias de ponta.
Seguindo a mesma linha de Mintzberg (1990), Motta (2004) apresenta mitos e verdades relacionadas às funções do gerente, como demonstrado no quadro 2.
MITOS VERDADES
1. Pessoa com status, autoridade e poder. Tem sala imponente em andar elevado. Toma decisões rápidas, analisa informações e supera obstáculos, confiante e segura no sucesso das decisões (imagens de “super-homem”).
1. Pessoa com status às vezes duvidoso; poder e autoridade dependente de injunções contínuas e de informações obtidas de várias maneiras. Negocia
assuntos diversos, ganhando e
perdendo, tenso, nervoso e incerto quanto ao resultado das suas decisões. 2. Atuação baseada em ações
ordenadas e planejadas, num processo decisório acentuadamente racional e impessoal.
2. Atuação baseada em ações
desordenadas e intermitentes, um processo decisório marcado por decisões intuitivas e influenciadas por lealdades pessoais e comunicações verbais face a face.
3. Preocupação prioritária com
políticas, diretrizes e
desenvolvimento futuro da
organização.
3. Preocupação prioritária com operações atuais e solução de problemas prementes.
4. Trabalho programado, com algumas fases previsíveis e
problemas antecipados, para
enfrentar contingências e superar dificuldades.
4. Trabalho não programado, em grande parte imprevisível. Enfrentamento constante de contingências e problemas desconhecidos.
5. Instrumentos de trabalho: objetivos, planos, programas, metas, resultados e prazos.
5. Instrumentos de trabalho: surpresas, sustos, contingências, problemas.
6. Reúne-se para planejar e resolver problemas.
6. Reúne-se para discutir as dificuldades das rotinas e debater temas, na presunção de que poderá haver problemas.
7. Recebe informações
fundamentais para a decisão através de relatórios de assessores, memorandos internos, impressos de computadores e informações orais em reuniões programadas.
7. Recebe informações fundamentais através de um sucessivo e variado número de contatos pessoais, por comunicação verbal, telefonemas, bate- papos informais e em reuniões de última hora.
8. Comportamento formal e
contemplativo.
8. Comportamento informal e interativo.
9. Trabalha com sistematização, afinco e profundidade em um número reduzido de tarefas e informações mais importantes para a tomada de decisão.
9. Trabalha assistematicamente, de forma superficial e intermitente, em um grande número de tarefas, exercendo funções diferentes no que se refere a cada tarefa.
10. Trabalho prospectivo, de médio e longo prazo, orientado para soluções e integrado com as diversas áreas da empresa.
10. Trabalho restritivo, de curto prazo, orientado a problemas e fragmentado no que se refere às diversas áreas da organização.
Quadro 2: Mitos e verdades mais comuns sobre as funções do gerente. Fonte: Motta (2004, p. 24).
Mintzberg (1990) apresenta mitos e realidades similares aos mitos e verdades trazidos por Motta (2004). Ambos ressaltam que as atividades dos gerentes estão pautadas em desordem, imprevisibilidade e irracionalidade, realidade essa oposta à trazida pelos clássicos da administração.