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Parte II – Particularidade latinoamericana e atuação empresarial na educação

6. Dinâmicas de trabalho e as bases operacionais da R EDUCA

6.4. Os ‘novos especialistas’ em educação

6.4.2. Mobilizando diversos tipos de conhecimento

A REDUCA tem apresentados uma ampla gama de atividades e ‘meios’ para

mobilizar conhecimentos, que incluem publicações, divulgação junto à mídia e geração de informações. Como sugerem Viseu e Carvalho (2018), tais atividades ampliam o potencial dos atores que estão ativamente envolvidos na rede, ajudando-os a se tornar alguém com a “pretensão de ouvir” (KINGDON, 2003) e consolidando a imagem de ‘especialistas’ em educação. Este trabalho é fundamental na construção da credibilidade da REDUCA e de seus membros junto à sociedade. É através da ‘mobilização de conhecimentos’ que a rede se legitima como uma “voz autoritária” (BALL, 1993), enquadrando problemas e apresentando soluções políticas de acordo com seus interesses.

O crescente apelo ao conhecimento (e à sua produção, seleção, tradução) tem ganhado considerável importância nos processos de decisão: a recolha, a circulação e a comparação são cada vez mais usadas como recurso para a construção das políticas (CARVALHO; VISEU; GONÇALVES, 2018, p. 32). É precisamente neste espaço, produzindo, organizando e difundindo conhecimentos que os novos atores, como a REDUCA, consolidam seu lugar na ação pública.

A Comunicação on-line

Como uma forma eficaz de mobilizar conhecimentos, a REDUCA assimila e utiliza os novos meios de comunicação, apresentando uma plataforma digital moderna, interativa e atualizada. Como observam McNutt e Marchildon (2009), estes atores utilizam a Internet para divulgar suas ideias, seus produtos de pesquisa e “melhorar sua

reputação como especialistas em políticas” (p. 233).

Concebido em idioma espanhol e português, seu site121 apresenta a estrutura organizacional da rede, seus objetivos e sua ‘narrativa’. Esta plataforma também atualiza as atividades da REDUCA e de seus membros em relação às notícias, à agenda e às opiniões e depoimentos divulgados em outros meios de comunicação, além de se conectar com plataformas individuais dos membros. No site, encontramos uma extensa gama de links que facilitam o acesso às campanhas recentes, ao observatório de indicadores, às experiências ‘exitosas’, videoclipes e outros documentos que podem ser carregados gratuitamente. A REDUCA também está presente no Facebook122, Twitter123, e Vimeo124.

McNutt e Marchildon (2009), apontam que o foco em plataformas digitais e a atenção dada à mídia, são sinais relevantes da importância que estes atores atribuem à disseminação de mensagens aumentando, simultaneamente, sua visibilidade junto à sociedade. Como Jost e Jacob (2004) indicam, ser “aceito pela rede como uma importante

fonte de informação, implica influência” (p. 11), uma vez que estes sites são

acompanhados de perto e consultados com frequência pela mídia, pelos formuladores de políticas e pelo público em geral.

Relação da REDUCA com a mídia

A ‘mobilização do conhecimento’ envolve um trabalho de divulgação e compartilhamento do conhecimento produzido pela REDUCA e seus membros. Ao recorrer

à mídia, a REDUCA pode alcançar o público em geral na defesa de sua agenda, utilizando suas ‘evidências’ no enquadramento dos problemas e na divulgação das soluções.

Como observa McGann (2007), na tarefa de divulgação, os novos atores costumam empregar profissionais com experiência em marketing e relações públicas, fornecendo conhecimentos selecionados para o público em geral, mas também para os formadores de opinião. Os jornalistas buscam a informação condensada destes

121 Cf. https://reduca-al.net/. Acesso 05/2018.

122 Cf. https://www.facebook.com/reducaalnet/ Acesso 05/2018. 123 Cf. https://twitter.com/reduca_al Acesso 05/2018.

‘especialistas’ para “preencher colunas ou slots de programas” (p. 37). Por sua vez, as organizações ampliam o alcance de sua voz, consolidando sua opinião como resultado da exposição direta da mídia. É comum que os diretores dos membros da REDUCA sejam citados como “especialistas” em educação na mídia, concedendo entrevistas e emitindo opiniões em programas de notícias de rádio e televisão. Eles são convidados a opinarem sobre os temas educativos, e, às vezes, são autores em suas próprias colunas de jornal, como é o caso de Priscila Cruz125, diretora do TPE.

Entre os membros locais, a relação com a mídia pode ser ainda mais ampla: Avelar (2018), informa que no Brasil, a interação entre as ‘novas filantropias’ e mídia tem ocorrido através da redação para a imprensa, da formação de jornalistas e da posse de veículos de mídia, como as revistas (p. 94). Há vários anos, diversos ‘relatórios’ dos membros da REDUCA apresentam seu ‘impacto’ na mídia, contabilizando artigos, citações

e entrevistas (FUNDACIÓN EDUCACIÓN 2020, 2010; FUNDACIÓN EMPRESARIOS POR LA EDUCACIÓN (COLOMBIA), 2009; TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2017) e evidenciando as relações entre estes grupos e os meios de comunicação. Concordamos com Avelar (2018), para quem esta atuação junto à mídia beneficia as organizações, como a REDUCA e seus membros, não apenas porque contribui

para a construção da imagem ‘especializada’, mas também para fins de marketing dentro das lógicas do filantrocapitalismo (BISHOP; GREEN, 2010; MCALISTER; FERRELL, 2002).

Publicações: ‘intermediários’ no enquadramento de problemas

O trabalho de “reivindicação de audiência” (KINGDON, 2003), exige investimento na produção de ‘evidências’, convertendo a REDUCA e seus membrosem

editores altamente produtivos. Eles ‘mobilizam conhecimentos’, geram ou financiam publicações tradicionais ou de multimídia, folders informativos126, bem como resumos de políticas com suas análises, comentários e sugestões sobre importantes questões de política educativa. Os textos são utilizados como ‘intermediários’ no processo de enquadramento de problemas e oferta de soluções, que, em muitos casos são provenientes de OI’s como o BID, PREAL ou Banco Mundo, “mas agora são publicadas como

‘propostas da sociedade’ ”(SHIROMA, 2014, p. 335–336).

125 Priscila Cruz, é a autora de uma coluna semanal no UOL Educação, que pertence ao grupo Folha de S. Paulo. 126 À exemplo do folder analítico “PISA 2012: Latinoamérica sigue en los últimos lugares, pero es la región que más

Em parceria com fundações empresariais e institutos conectados a esta rede, a REDUCA e seus membros produzem relatórios e diversos tipos de publicações baseados em ‘evidências’, mobilizando conhecimentos que buscam garantir a legitimidade científica de suas propostas, pautados pelas orientações dos OI’s. Em 2018, por exemplo, a REDUCA em conjunto com a Fundación Sura ⸺ ramo social do conglomerado financeiro Grupo Empresarial Sura ⸺ lançou o documento ‘Aprender es más. Hacer

realidad el derecho a la educación en América Latina’. O documento traz recomendações

para reformas educativas nas áreas do currículo, avaliação, docentes (carreira e formação) e diretores. Além de apresentar os experiências em incidência de cada uma das 15 organizações que compõe a REDUCA, o documento faz um apelo ao fortalecimento do

setor privado na ‘corresponsabilidade’ pela educação (REDUCA; FUNDACIÓN SURA, 2018). Concordamos com Shiroma (2014, p. 341), no sentido de que o know-how dos especialistas, fruto de uma densa trajetória profissional como assessores do governo e de OI’s, assim como suas conexões, fornecem os ingredientes e mecanismos cruciais da rede para influenciar as definições das políticas públicas na América Latina.

Esta tática também pode ser verificada junto aos membros da REDUCA. Por

exemplo, a organização representante da Argentina, Proyecto Educar 2050, encomenda estudos para explicar o desempenho dos estudantes argentinos em testes internacionais padronizados no como o PISA e o TERCE (Tercer estudio regional comparativo y

explicativo) para políticos e para a sociedade em geral. O Proyecto Educar 2050 tem por

objetivo utilizar estas análises para “melhorar a educação”, mas também como instrumento de convencimento e mobilização da sociedade civil: “melhorar a educação

argentina não é apenas uma tarefa das autoridades. Requer liderança e a participação ativa da sociedade civil. Por isso necessitamos do seu compromisso como cidadãoxxix”

(PROYECTO EDUCAR 2050, 2013, p. 6). Entre 2013 e 2014, o Proyecto Educar 2050, publicou quatro estudos desse tipo127: Estas publicações foram elaboradas por um perito em métodos estatísticos128, cuja formação também contempla experiência em fundações

127 Entre 2013 e 2014, o Proyecto Educar 2050 publicou: 1) “No logramos mejorar: Informe sobre el desempeño de

Argentina en el Programa para la Evaluación Internacional de Alumnos (PISA) 2012” (PROYECTO EDUCAR 2050, 2013); 2) “Pistas para mejorar ¿Qué hicieron los países, escuelas y estudiantes con mejor desempeño en el Programa para la Evaluación Internacional de Alumnos (PISA) 2012?” (PROYECTO EDUCAR 2050, 2014c); 3) “El aprendizaje desigual ¿Cómo difiere el desempeño de los alumnos de las regiones argentinas en el Programa para la Evaluación Internacional de Alumnos (PISA) 2012?” (PROYECTO EDUCAR 2050, 2014b); e 4) “Avances y desafíos pendientes: Informe sobre el desempeño de Argentina en el Tercer Estudio Regional Comparativo y Explicativo (TERCE) del 2013” (PROYECTO EDUCAR 2050, 2014d).

128 O autor dos estudos, Alejandro J. Ganimian, é doutor em Análise quantitativa de política educativa pela Escola de

empresariais prol educação e organizações multilaterais. O envolvimento de ‘especialistas’ como este, confere aos estudos um caráter ‘técnico’, neutro e especializado. Assim como Avelar (2018), entendemos que , dessa forma as discussões políticas, posições, debates e diálogos não são considerados nos processos e narrativas, ignorando os aspectos políticos envolvidos na política e governança (p. 94). Carvalho; Viseu e Gonçalves (2018, p. 35), interpretam este tipo de qualificação como uma ‘complementaridade’ expressa, simultaneamente, no nível da ‘expertise’ (métodos estatísticos e educação), quanto no nível ‘acadêmico’ e ‘prático/experiencial’ (membros com ligação aos contextos escolares ou experiência em comunicação). Como sugere Avelar (2018), estes atores reivindicam ‘conhecimentos’ ao associarem seus esforços políticos a “especialistas” reconhecidos, que podem incluir pesquisadores ou educadores e profissionais experientes (p. 93). Ademais, as escolhas políticas são justificadas com a afirmação um “especialista” projetou as soluções políticas e projetos educacionais.

Segundo o Proyecto Educar 2050, os estudos encomendados seguem o formato e a lógica das publicações desenvolvidas pelo PREAL, além de terem se beneficiado dos diálogos com o BID (PROYECTO EDUCAR 2050, 2013, p. 5), expressando assim, um mimetismo entre as publicações destas organizações. Cooper (2014), indica que este trabalho, envolve “esforços intencionais para aumentar o uso de

evidências de pesquisa [...] em políticas e práticas em vários níveis do setor educacional”

(p. 29). Ao produzir estes estudos, as organizações com ideias afins, estruturam os debates sobre políticas, criando as justificativas para suas posições, propostas e atividades. Este trabalho é fundamental na sistematização das “novas” ideias políticas que são apresentadas de modo a serem consideradas ou reivindicadas como “evidências” (AVELAR, 2018, p. 89). Finalmente, Carvalho, Viseu e Gonçalves, avaliam que estas intenções sinalizam um fenômeno novo, pois, não sendo comum o trabalho de transformar intencionalmente os resultados do PISA em conhecimento para a política, o membro da REDUCA mencionado trabalha como um mediador entre o conhecimento gerado pelos testes padronizados, o público e os decisores políticos “uma vez que os seus

membros se veem como habitantes do espaço entre a difícil e complexa linguagem da ciência e a simples linguagem ‘das massas’”. (CARVALHO; VISEU; GONÇALVES,

2018, p. 34).

para o PREAL. Também foi cofundador de ‘Enseñá por Argentina’, programa equivalente ao Tech for All, na Argentina.

PARTE III – A educação como assunto de “todos”: Incidência da