9. PROPOSTA DE MODELO TEÓRICO PARA O ESTUDO DA
9.2 Modelagem dos processos de decisão com base na regulação do
Em relação à modelagem dos processos de decisão com base na regulação do trabalho, infere-se que o alcance dos objetivos postos pelo Ministério Público e redefinidos pelos seus membros implica em cons- tantes regulações e resoluções de problemas, caracterizando-se por situ- ações típicas de tomada de decisão. Portanto, nessa tese, entende-se que regular comportamentos é uma estratégia de decisão e, ao mesmo tem- po, uma maneira de resolver problemas.
O processo de regulação é intrínseco à maneira que o Promotor gerencia o seu trabalho e as informações disponibilizadas, uma vez que tal gestão permite a apreensão daquilo que ele constrói em termos de representação para a ação e na ação.
A forma como o trabalho está organizado e o contexto em que está inserido determinam as exigências das atividades realizadas pelos
Promotores visando o alcance dos objetivos organizacionais. As exigên- cias, por sua vez, modulam permanentemente os processos de regulação e de decisão desses profissionais. Em outras palavras, as exigências postas no plano físico, cognitivo e psíquico formulam desempenhos que viabilizam a demonstração das competências dos trabalhadores, confor- me ilustrado na figura 11.
Figura 11: Relação entre exigências e desempenho dos Promotores de Justiça em SC
O processo decisório e de regulação do Promotor de Justiça é contingenciado pelas características do Ministério Público, pelas carac- terísticas das demandas e do fluxo de trabalho e pelas variáveis sócio- demográficas que compõem o perfil dos Promotores. Há ainda, a influ- ência da avaliação do “merecimento”, variável monitorada pela Admi- nistração Superior da Instituição e aferida por indicadores internos, cuja relevância se exterioriza, por exemplo, em remoções ou promoções. O conjunto desses elementos resulta nas exigências requeridas em seus diversos níveis e graus no desenrolar da atividade. O ajustamento entre as condições internas e externas dos trabalhadores formula diferentes modos operatórios que são representados na ação - realização das pres- crições do trabalho definidas pela organização e induzidas pelo traba- lhador.
A relação entre as exigências e o desempenho do trabalhador formula a carga de trabalho percebida de maneira singular por cada indivíduo. Os meios para regular a carga de trabalho são oriundos es- sencialmente dos conhecimentos e do saber-fazer dos trabalhadores que, por sua vez, fornecem os recursos cognitivos necessários para comparar as situações atuais com as passadas e, consequentemente, categorizar e solucionar os diferentes problemas enfrentados diuturnamente.
Nesse sentido, em termos de exigências, constatou-se que o tra- balho dos Promotores é complexo, predominando a exigência cognitiva, uma vez que lhe é requerida a gestão de diferenciadas informações, atenção, concentração, solicitação mnemônica de leis, códigos e núme- ros, cálculo mentais de prazos legais, processuais e prescricionais e tempo da pena. É assim, uma atividade que demanda agilidade intelec- tual e velocidade de raciocínio, principalmente quando se tem, como exemplo, o Tribunal de Júri, onde os argumentos e alegações que sus- tentam a tese esposada pelo agente ministerial acontecem no plenário, imediatamente, ou seja, toda a estrutura que dá sustentação à acusação se dá por meio de sua fala e dos argumentos persuasivos levados à apre- ciação do Conselho de Sentença (composto por sete juízes leigos, de- nominados “Jurados”), de maior ou menor sutileza.
O que está posto em termos de exigências é apenas um dos re- quisitos que influenciam a atividade dos Promotores, porque a prescri- ção das tarefas submete o trabalhador a um constante processo de regu- lação interna, não sendo suficiente somente seguir o que lhe é demanda- do, urgindo, por isso, a interpretação, correção, adaptação e, às vezes, a criação de modos operatórios mais eficazes.
Nesse sentido, a atividade do Promotor, além de significar a plena expressão de processos psicológicos básicos a serviço do trabalho,
está inserida num contexto que, em parte, a condiciona, por isso, incita, impõe escolhas e arbitragens individuais e/ou coletivas, requerendo a demonstração de competências e modulando seu modo operatório.
A possibilidade de influenciar as normas e até mesmo modificá- las em função de diferentes decisões e constantes regulações do trabalho depende da capacidade dos trabalhadores produzirem suas próprias re- gras e gerirem seus próprios processos de ação. A autonomia e a discri- cionariedade são elementos imprescindíveis para que seja possível deci- dir e escolher a forma mais apropriada de realização do trabalho, nem que para isso seja necessário adaptar ou mudar as regras prescritas.
Ainda em relação à autonomia e discricionariedade, constatou- se que os Promotores não dependem de portarias, instruções e ordens de órgãos estranhos ao Ministério Público para agir; o limite de suas ações são aqueles estabelecidos pelas leis e pela Constituição Federal. Tal prerrogativa contribui para que as formas de atuação variem de Promo- tor para Promotor. Nesse sentido, eles têm uma significativa liberdade para definir suas prioridades e criar seus métodos de trabalho. No espaço de autonomia e discricionariedade, vários elementos, tais como suas convicções, experiências advindas das diferentes áreas de especialização e escolhas feitas ao longo de sua carreira profissional, atuam para definir prioridades de atuação e configurar os diversos modos operatórios. A presente situação pode ser visualizada a partir da figura 12.
Figura 12: A autonomia e discricionariedade no processo de ações de regulação e decisão da atividade dos Promotores de Justiça em SC Fonte: a autora (2009)
As demandas de trabalho, o sistema de metas de produtividade e a tarefa induzida por cada Promotor ativam processos psicológicos que constroem processos de decisão e regulação, que, em última instância, influenciam na maneira como ele decide em relação ao trabalho em si ou sobre o trabalho.
Em relação aos processos psicológicos que derivam ação de de- cisão e regulação do trabalho, pode-se dizer que a atenção é a base para a memória e processamento de informações. Assim, informações senso- riais relativas ao que o Promotor escuta e lê durante a realização da ati- vidade ajudam a discriminar o que está sendo percebido. O processo perceptivo assume um caráter mais cognitivo quando o processo mne- mônico é ativado para que tais informações comecem a ser tratadas e classificadas, através das analogias e associações requeridas para elabo- rar representações, decidir, agir e, finalmente, regular seu comportamen- to.
Dito de outro modo, entende-se que para que o Promotor opere seu trabalho, é preciso discriminar diferentes estímulos que lhe chegam das mais diferentes fontes como, por exemplo, de queixas apresentadas pela população, informações espalhadas no inquérito policial, argumen- tações proferidas pelo advogado de defesa, relato de testemunhas, posi- cionamento do Juiz, entre outras. Então, com base na sua motivação, no significado de seu trabalho, informações recuperadas na memória de longo prazo e ativadas na memória de trabalho, experiências passadas, plataforma de conhecimento específico e geral, os Promotores elaboram uma representação da situação, produz um entendimento, em maior ou menor grau de consciência e, consequentemente, manifesta ações de decisões e regulações com efeitos imediatos e/ou de médio, longo prazo. O processo de decisão e de regulação do trabalho acontece por meio da elaboração e execução da atividade, ou seja, pela representação elaborada pelo Promotor na sua ação. Em resumo, tais processos estão assentados na capacidade de apropriação, de reinterpretação do prescrito pela organização, nas variabilidades dos trabalhadores e do sistema de trabalho. Compreende-se, assim, que diante desses aspectos, o trabalha- dor busca estruturar o programado ao antecipar as tarefas e executar o planejado ao operacionalizar o prescrito. Entretanto, é o aperfeiçoamen- to de suas competências profissionais e sociais que qualifica os proces- sos de regulação e decisão.
O desenvolvimento das competências está intrinsecamente rela- cionado com a experiência profissional. A experiência modula o desem- penho do Promotor, uma vez que o conduz a refletir sobre as proprieda- des, características e consequências de suas ações, avaliando sua perti- nência e limites.