Capítulo 2 — Fundamentação teórico-empírica
2.1. Construção do conhecimento
2.2.2. Modelo conceitual de sistema de gestão do conhecimento
Este tópico apresenta um modelo conceitual de sistema de gestão do conhecimento desenvolvido com base na literatura sobre o tema e levando em conta os objetivos do estudo.É importante ressaltar que esse modelo conceitual trata-se, na realidade, de um modelo de análise, não devendo ser confundido com um modelo para implantação de um sistema de gestão do conhecimento. Desse modo, o trabalho não tem a pretensão de validar o modelo, mas sim de mostrar sua adequação à análise da gestão do conhecimento no setor da construção.Na seqüência, apresentam-se a abordagem adotada, o modelo e a caracterização dos seus componentes.
a) Abordagem adotada
A abordagem adotada é de caráter sistêmico e se fundamenta nos seguintes pressupostos básicos:
• A gestão do conhecimento passa pela compreensão das características e demandas do ambiente competitivo. Nesse sentido, a empresa é vista como um sistema aberto que interage com o ambiente externo. Assim, a dimensão ligada ao ambiente externo é contemplada no modelo, com o propósito de analisar a relação entre o sistema de gestão do conhecimento –SGC e seu ambiente externo.
• A gestão do conhecimento é fortemente voltada para gerenciar, gerar, processar e melhorar o acesso ao conhecimento interno à organização.Em vista disso, a dimensão “ambiente interno” é inserida no modelo, através dos seguintes componentes: estrutura organizacional e cultura organizacional.
• O conhecimento é considerado um importante recurso para as empresas e, como tal, deve ser tratado. Isso significa que o enfoque é gerencial.
• O principal elemento propulsor da gestão do conhecimento é o capital humano. Em decorrência disso, o modelo dá ênfase aos aspectos humanos, tais como: cultura organizacional, política de RH etc.
b) Modelo conceitual
Em conseqüência dos pressupostos apresentados, assume-se nesta pesquisa a abordagem sistêmica. Essa opção exige a explicação dos conceitos de sistema de gestão e sistema de gestão do conhecimento adotados doravante por esta pesquisa.
Na visão de Arantes (1994), um sistema de gestão empresarial é um instrumento utilizado para dar suporte à ação da administração e, por via de conseqüência, para facilitar a consecução dos objetivos da empresa.Nesse sentido, o autor apresenta a seguinte definição:
Sistema de gestão é um conjunto, em qualquer nível de complexidade, de pessoas, recursos, políticas e procedimentos.Esses componentes interagem de um modo organizado para assegurar que uma dada tarefa seja realizada, ou para alcançar ou manter um resultado específico (ARANTES, 1994).
Qualquer sistema possui subsistemas ou componentes. Estes, segundo Souto (1978), são responsáveis pelas atividades necessárias ao funcionamento do sistema. O sistema de gestão empresarial, de acordo com Arantes (1994), tem os seguintes componentes ou subsistemas: subsistema institucional, subsistema humano-comportamental e subsistemas tecnológicos (Figura 3).
Subsistemas
tecnológicos
Subsistema
humano-
comportamental
Subsistema
institucional
Ambiente
externo
Subsistemas
tecnológicos
Subsistemas
tecnológicos
Subsistema
humano-
comportamental
Subsistema
humano-
comportamental
Subsistema
institucional
Subsistema
institucional
Ambiente
externo
Figura 3: Componentes do sistema de gestão empresarial Fonte: Adaptado de Arantes (1994)
O subsistema institucional diz respeito aos instrumentos que auxiliam a administração na definição dos rumos da empresa, tais como: missão, propósitos, princípios, valores, objetivos e estratégias. O subsistema humano–comportamental envolve o conjunto de instrumentos que ajudam a administração, no sentido de motivar as pessoas para a realização das tarefas. Esse subsistema se volta à motivação, à ativação e à integração dos funcionários à empresa. Os subsistemas tecnológicos fornecem à administração o suporte necessário para planejar, executar, dirigir e controlar o sistema, de forma permanente. São cinco os subsistemas tecnológicos: gerencial, operacional, organizacional, comunicacional e informativo.
Quanto ao sistema de gestão do conhecimento, adota-se a definição do Gartner Group (1998): “Um processo e uma infra-estrutura que visam a apoiar a geração, coleta, assimilação e utilização ótima do conhecimento”. Essa definição tem duas palavras-chave: processo e infra-estrutura. O processo diz respeito à transformação
do conhecimento, no sentido de produção, codificação, transferência e uso do referido recurso pela organização; a infra-estrutura é composta de tecnologia da informação e de comunicação. Estas, por sua vez, exigem a participação de pessoas capacitadas (CARVALHO; SANTOS, 1999).
Quanto aos objetivos do sistema de gestão de conhecimento – SGC, Davenport e Prusak (1998, p.175) identificam:
• criação de três tipos básicos de repositório do conhecimento (conhecimento externo, conhecimento interno estruturado e conhecimento interno informal);
• melhoria de acesso ao conhecimento;
• melhoria da cultura e ambiente do conhecimento.
Analisando-se os objetivos citados, percebe-se a abrangência da gestão do conhecimento, enfocando-se tanto o ambiente externo do sistema quanto seu ambiente interno.
Com base nas argumentações e definições expostas, o modelo conceitual de SGC adotado por esta pesquisa (Figura 4) abrange a análise do ambiente externo, do ambiente interno e de três subsistemas, conforme justificativa a seguir.
AMBIENTE EXTERNO Estrutura organizacional Cultura Estratégia organizacional Informação e comunicação Recursos humanos
Figura 4: Sistema de gestão do conhecimento
• A análise do ambiente externo volta-se para a compreensão do comportamento das principais variáveis que interferem e influenciam no sistema, buscando identificar a aprendizagem na relação com esse ambiente (clientes, fornecedores e parcerias/consórcios com outras empresas).
• O ambiente interno é composto da estrutura e da cultura organizacional. A análise da estrutura diz respeito aos aspectos ligados à tipologia, diferenciação, integração, dispersão espacial e formalização. A análise desses aspectos conduz ao entendimento da facilidade ou dificuldade de difusão do conhecimento pela organização. A cultura organizacional envolve as crenças e valores da organização, sendo considerada da maior importância para a existência ou não de um ambiente capacitante (VON KROGH et al., 2001).
• O subsistema de informação e comunicação corresponde a um subsistema tecnológico (em um sistema de gestão) e diz respeito ao suporte tecnológico necessário à criação de repositórios, codificação e transferência do conhecimento.
• O subsistema de recursos humanos corresponde ao subsistema humano comportamental e preocupa-se com a gestão de pessoas, no sentido de formação de competências, motivação, recrutamento, carreiras e remuneração.
• O subsistema de estratégia organizacional corresponde ao subsistema institucional e se refere ao envolvimento da alta administração, no sentido de buscar a otimização da utilização do recurso conhecimento. Inclui a análise do ambiente externo; a capacidade organizacional (pontos fortes e fracos); as competências centrais; a definição e comunicação das estratégias.
Em síntese, o modelo conceitual de sistema de gestão do conhecimento adotado pode ser definido através da descrição dos seus elementos:
• objetivos – apoiar a geração, codificação, transferência e utilização do conhecimento;
• entradas do sistema – bens intangíveis, informação, talento, competência;
• processo de transformação do sistema – processamento da informação/conhecimento, através da tecnologia da informação, e compartilhamento (tecnologia e pessoas);
• saídas do sistema – geração de novo conhecimento, transferência e ampliação do conhecimento por toda a organização;
• ambiente interno – cultura organizacional e estrutura organizacional;
• subsistemas – subsistema de informação e comunicação, subsistema de recursos humanos e subsistema de estratégia organizacional.