Friedman e Schustack (2004) sustentam que, embora haja controvérsias, um dos mais notáveis avanços na abordagem do traço de personalidade é a grande concordância sobre um esquema adequado de cinco dimensões, as quais poderiam delinear suficientemente bem a personalidade dos indivíduos.
Tais autores argumentam que um amplo leque de pesquisas, que foi iniciado na década de 1960 e ganhou vigor nos anos de 1980, 1990 e 2000, convergiu na ideia de que a maioria das abordagens de traços comuns da personalidade poderia ser apreendida por meio de cinco dimensões, nomeadas: instabilidade emocional, abertura a experiências, amabilidade, extroversão e consciência.
O modelo dos cinco fatores resultou de amplas investigações sobre os adjetivos usados para descrever a personalidade e de análises fatoriais de vários testes e instrumentos de medida (McCRAE; COSTA, 1985; GOLDBERG, 1990; JOHN, 1990; NORMAN, 1963 apud FRIEDMAN; SCHUSTACK, 2004). De acordo com Pervin e John (2004), evidências para este modelo surgiram da análise fatorial de grandes conjuntos de termos linguísticos relacionados com os traços, de pesquisas interculturais testando a universalidade das dimensões dos traços e da relação entre questionários de traços e outros questionários e avaliações.
Caracterizando o modelo dos cinco fatores (ou Five Factor Model – FFM), Friedman e Schustack (2004) ressaltam que sua abordagem é, em grande parte, dirigida a pesquisas, em vez de basear-se nas teorias. Ou seja, é uma abordagem indutiva, na qual a teoria emerge dos dados.
Embora pesquisas interculturais confirmem a utilidade de mais ou menos cinco traços para descrever a personalidade, é importante observar a influência da cultura de um país sobre determinados traços, ao invés de atribuí-los simplesmente às diferenças pessoais de uma dimensão para outra (FRIEDMAN; SCHUSTACK, 2004). Como
exemplo, os autores citados alegam que a cultura norte-americana estimula a competição, a vitória e o domínio, enquanto a cultura mexicana incentiva a confiança, a cooperação e a ajuda ao próximo. Dessa forma, é importante considerar que a cultura sempre influencia o comportamento, pois as diferenças individuais de traço não se desenvolvem fora de um contexto cultural específico.
Outro aspecto relevante a respeito do modelo dos cinco fatores são as discussões que ainda não conseguiram responder se cinco dimensões são suficientes para resumir traços comuns. Segundo Friedman e Schustack (2004), o motivo é a não existência de teoria convincente e abrangente que explique por que cinco dimensões bastam para apreender o que é preciso saber ao comparar e contrastar os indivíduos. Nesse sentido, vale ressaltar um aspecto interessante da presente pesquisa – a análise dos resultados empíricos do modelo dos cinco fatores e do modelo 3M (que apresenta mais de cinco traços para caracterizar a personalidade) – poderá revelar se existem diferenças significativas de desempenho ao se adicionar mais construtos para explicar a personalidade e os comportamentos desejados.
Buscando caracterizar melhor cada um dos cinco traços de personalidade, apresenta-se no Quadro 3 um resumo das dimensões e respectivos comportamentos resultantes de níveis altos e baixos das mesmas.
QUADRO 3 – Os cinco grandes fatores e escalas ilustrativas
(continua)
Características de quem Características de quem
apresenta um resultado Fator apresenta um resultado
alto baixo
INSTABILIDADE EMOCIONAL
Preocupado, nervoso, Avalia ajustamento versus instabilidade Calmo, descontraído, emotivo, inseguro, emocional, identifica indivíduos propensos não emotivo, forte, inadequado, a perturbações psicológicas, ideias irrealistas, seguro, autossatisfeito hipocondríaco necessidades ou ânsias excessivas e respostas
mal-adaptativas.
ABERTURA A EXPERIÊNCIAS
Curioso, interesses amplos, Avalia a atividade proativa e a apreciação Convencional, sensato, criativo, original, da experiência por si só; tolerância e interesses limitados, imaginativo, não tradicional, exploração do que não é familiar. não artístico, analítico não analítico
AMABILIDADE
Generoso, bondoso, confiante, Avalia a qualidade da orientação Cínico, rude, desconfiado, prestativo, clemente, interpessoal do indivíduo ao longo de não cooperador, vingativo, crédulo, honesto um contínuo da compaixão ao inescrupuloso, irritável,
(conclusão)
Características de quem Características de quem
apresenta um resultado Fator apresenta um resultado
alto baixo
EXTROVERSÃO
Sociável, ativo, falante, Avalia a quantidade e intensidade de Reservado, sóbrio, orientado para as pessoas, interações interpessoais; nível de atividade; contraído, indiferente, otimista, divertido, necessidade de estimulação; e capacidade orientado para tarefas,
afetuoso de alegrar-se. desinteressado, quieto
CONSCIÊNCIA
Organizado, confiável, Avalia o grau de organização, persistência, Sem objetivos, trabalhador, autodisciplinado, e motivação do indivíduo no comportamento não confiável,
pontual, escrupuloso, dirigido para os objetivos. Compara pessoas preguiçoso, asseado, ambicioso, confiáveis e obstinadas com aquelas que são descuidado,
perseverante apáticas e descuidadas. negligente,
relaxado, fraco,
hedonístico
FONTE: Adaptado de Costa e McCrae (1992).
Instabilidade emocional, ou neuroticismo, refere-se a um grupo de traços relacionados a emoções negativas e a suas consequências. Os indivíduos que apresentam alta instabilidade emocional são dados a experimentar preocupação, irritação, melancolia e vergonha; têm crenças irracionais, tais como a noção perfeccionista de que devem fazer tudo corretamente; e têm baixo controle de seus impulsos, pois a frustração de seus desejos os perturba muito. Indivíduos de baixa instabilidade emocional se caracterizam pela ausência dessas características; tendem a ser calmos, racionais e autocontrolados; e enfrentam de forma eficaz o estresse.
Abertura a experiências, por vezes chamada de “intelecto”, “imaginação” ou “cultura”, caracteriza-se por um interesse intrínseco na experiência em uma ampla variedade de áreas. A curiosidade intelectual e o interesse estético são elementos centrais, mas as pessoas abertas também são sensíveis aos sentimentos e dispostas a experimentar novas atividades e liberais em termos de valores políticos e sociais. Segundo Flores-Mendoza e Colom (2006), esse traço tem leve associação com medidas de inteligência, mas é um construto muito diferente. Indivíduos fechados preferem o conhecido e a rotina e prezam os valores tradicionais.
Amabilidade se refere a traços que levam a atitudes e comportamentos pró- sociais. Indivíduos com alta amabilidade são corteses, crédulos e simpáticos. Pessoas de
baixa amabilidade – ou antagônicas – estão preocupadas com seus próprios interesses e são desconfiadas em relação a outras. Pessoas corteses são agradáveis, mas também há um lugar na sociedade para pessoas práticas e competitivas. Em verdade, já se observou que muitos psicólogos da personalidade famosos apresentam baixa amabilidade, com seu ceticismo inato tornando-os excelentes pensadores críticos (COSTA e MCCRAE, 1995b apud FLORES-MENDOZA e COLOM, 2006).
Extroversão é um termo científico que entrou na linguagem popular, utilizado como sinônimo de “sociabilidade”. Os psicólogos há muito debatem a definição adequada do termo (GUILFORD, 1977 apud FLORES-MENDOZA; COLOM, 2006), mas os contemporâneos o utilizam para se referir a um construto amplo, que inclui sociabilidade, domínio social e qualidade de temperamento como alto nível de energia. Os extrovertidos buscam agitação e têm características alegres. Os introvertidos, por sua vez, são sérios e inibidos, e demonstram necessidade de solidão. Não são necessariamente tímidos, podendo até ter boas habilidades sociais e ser livres de ansiedade social. Simplesmente preferem evitar a companhia de outras pessoas.
Por fim, consciência se caracteriza por contenção e sentido prático. Indivíduos de alta consciência são zelosos e disciplinados, enquanto os de baixa consciência são relaxados e sem ambição. Níveis altos demais desse traço podem transformar as pessoas em “viciadas em trabalho” e interferem nos relacionamentos sociais. Os indivíduos de alta consciência também têm mais probabilidade de serem obsessivamente asseados. Porém, na maioria dos aspectos, o alto escore nesse traço confere vantagens sociais e está relacionado a um desempenho profissional superior em quase todas as ocupações (BARRICK; MOUNT, 1991, op. cit.).
Em três estágios de construção e revisão de testes, Costa e McCrae (1985; 1989; 1992 apud Pervin e John, 2004) desenvolveram um questionário, o NEO-Personality Inventory Revised (NEO-PI-R), para medir os cinco grandes fatores da personalidade. Originalmente, eles haviam se concentrado apenas nos fatores do neuroticismo, da extroversão e da abertura. Daí o título NEO-Personality Inventory. Subsequentemente, adicionaram os fatores amabilidade e consciência para se adequarem ao modelo dos cinco fatores. Além disso, diferenciaram cada um dos cinco grandes fatores (ou domínios) em seis facetas mais específicas. Facetas são componentes mais específicos
O Quadro 4 mostra as seis facetas que definem cada uma das cinco grandes dimensões do modelo dos cinco fatores de personalidade.
QUADRO 4 – Os cinco grandes fatores e as seis facetas que os compõem (continua)
Dimensão Facetas
N1: Ansiedade
N2: Raiva/ Hostilidade Instabilidade emocional (N) N3: Depressão
N4: Constrangimento N5: Impulsividade N6: Vulnerabilidade O1: Fantasia
O2: Estética Abertura a experiências (O) O3: Sentimentos
O4: Ações O5: Idéias O6: Valores A1: Confiança A2: Retidão Amabilidade (A) A3: Altruísmo
A4: Complacência A5: Modéstia A6: Sensibilidade E1: Acolhimento E2: Gregarismo Extroversão (E) E3: Assertividade
E4: Atividade
E5: Busca de sensações E6: Emoções positivas C1: Competência C2: Ordem
Consciência (C) C3: Cumprimento do dever C4: Esforço por realizações C5: Autodisciplina
C6: Deliberação