2.2 PERSPECTIVAS PSICOLINGUÍSTICAS DO PROCESSAMENTO DA LEITURA MULTILÍNGUE
2.2.3 Modelos de acesso lexical no bilinguismo/multilinguismo
Nos modelos de acesso lexical mais contemporâneos, há especificidades que se rela- cionam não somente à ativação do léxico, mas também à inibição, ao tipo de palavras e aos níveis de ativação. Há vários modelos de acesso lexical; por isso, selecionamos modelos que explicam o processamento do léxico na leitura bilíngue (DIJKSTRA; VAN HEUVEN, 2002; VAN HEUVEN; DIJKSTRA; GRAINGER, 1998) e multilíngue (DIJKSTRA, 2003) e modelos que relacio- nam o processamento bilíngue/multilíngue a aspectos cognitivos (GREEN, 1998; HERDINA; JESSNER, 2002, este já revisado na subseção 2.1.2). Acrescentamos, ainda, um modelo pro- eminente sobre o processamento multilíngue (DE BOT, 2004). Acreditamos que esses são os modelos que têm mais relação com o processamento da leitura investigado pela presente pesquisa. Todos são citados também em estudos empíricos sobre acesso lexical.
O Bilingual Interactive Activation Model – BIA (VAN HEUVEN; DIJKSTRA; GRAINGER, 1998), segundo Lauro e Schwartz (2017), bem como o seu sucessor, são os modelos mais aceitos na pesquisa. Os autores desenvolveram esse modelo de ativação interativa bilíngue com base no modelo interativo de processamento de palavras (RUMELHART; MCCLELLAND, 1981). O modelo BIA, primeiramente desenvolvido para o bilinguismo (Figura 5A) assume um só léxico para as duas línguas, que se estende para a reformulação do modelo, Bilingual
Figura 5 - Representação esquemática do Bilingual Interactive Activation Model – BIA (A) e do Bilingual Interactive Activation Plus Model – BIA+ (B)
Fonte: A – Van Heuven, Dijkstra e Grainger (1998, p. 475) e B – Dijkstra e Van Heuven (2002, p. 182) – Adaptação
O BIA (Figura 5A) visa implementar o processamento não seletivo principalmente as- cendente (bottom-up). Na representação, as setas com flechas indicam conexões excitató- rias; as setas com círculos pretos preenchidos indicam conexões inibitórias. O modelo não é limitado ao reconhecimento de palavras de quatro letras, a figura apenas é uma representa- ção. Quando uma sequência de letras é apresentada, o input visual afeta traços particulares em cada posição (pos), que, subsequentemente, ativa letras que contêm esses traços e, ao mesmo tempo, inibe letras para as quais esses traços estão ausentes. As letras lidas são ca- pazes de ativar paralelamente palavras de ambas as línguas no léxico integrado (por exem- plo, a sequência WO, que pode ativar tanto a palavras Wort, em alemão, quanto as palavras
woord, em holandês, e word), enquanto outras que não têm relação são inibidas. O nó da L1
ou da L2 inibe a atividade de palavras da outra língua e permite a seleção das palavras na língua-alvo. Cada nó linguístico representa também o conhecimento armazenado sobre a língua ao qual a forma lexical pertence.
Segundo Dijkstra (2003), uma extensão do BIA para o multilinguismo não seria neces- sária (Multilingual Interactive Activation Model – MIA). O tamanho do léxico aumenta, há mais vizinhos ortográficos entre as línguas, mas os níveis de competição entre as palavras (inibição lateral) não aumentam significativamente, mesmo com o acréscimo de um subsis- tema. No entanto, essa hipótese precisa ser, ainda, mais bem testada; por isso, inclusive os estudos sobre multilíngues se utilizam do BIA+ (Figura 5B), discutido a seguir.
O BIA e o MIA ilustram o processamento de cognatos, mas têm limitações, como a ausência de conexões entre representações semânticas e fonológicas, a falta da especifica- ção das implicações do contexto para o reconhecimento de palavras (processamento top-
down) e a aplicação a outras tarefas além da decisão lexical. Por esses motivos, Dijkstra e
Van Heuven (2002) desenvolveram o BIA+. Esse modelo (Figura 5B) também assume que bi- língues/multilíngues têm um léxico integrado, cujas palavras competem por ativação. As se- tas indicam fluxos de ativação entre os polos representacionais, e conexões inibitórias foram omitidas. Para o modelo, o contexto não linguístico afeta somente o nível do esquema da tarefa, ou seja, no processamento top-down.
No BIA+, a apresentação visual de uma palavra conduz à coativação das representa- ções ortográficas e fonológicas nas duas línguas, que ativam representações semânticas e, depois, os nós linguísticos. A ativação pode fluir também no sentido contrário: as represen- tações semânticas ativam as diferentes ortografias. Nessa visão, cognatos possuem duas en- tradas ortográficas e/ou fonológicas que compartilham uma mesma representação semânti- ca. Na ativação simultânea dessas entradas ortográficas, a representação semântica, em par- te, envia feedback para o nível ortográfico, que, por sua vez, amplifica a ativação. Em uma das duas línguas, então, a entrada do cognato alcançará o limiar de ativação mais rápido que a entrada de um não cognato. O modelo fornece o melhor quadro teórico para interpretar os efeitos cognatos (cf. VAN ASSCHE; DUYCK; BRYSBAERT, 2013). Contudo, como ressalvam estes autores, quando se quer analisar aspectos morfológicos, que também podem afetar o acesso lexical, o BIA+ não pode ser mais utilizado. Outra crítica ao modelo tem sido feita com relação à natureza das representações semânticas das palavras, concretas ou abstratas, por exemplo (SCHWARTZ; KROLL, 2006), ou, ainda, com relação a traços semânticos que não são compartilhados entre as línguas.
O BIA+ foi influenciado também pelo Inhibitory Control Model – ICM (GREEN, 1998), que especifica o controle que bilíngues possuem sobre o processamento nos seus subsiste-
mas linguísticos. Segundo Dijkstra e Van Heuven (2002), o BIA e o ICM seriam complementa- res, mas o segundo enfoca mais os esquemas da tarefa. O ICM (Figura 6) simula a resolução da competição entre as línguas por meio do controle inibitório. De acordo com esse modelo, a língua que é menos relevante em determinada tarefa é menos ativada.
Figura 6 – Representação do Modelo de Controle Inibitório
Fonte: Green (1998, p. 69) – Adaptação
No ICM, um conceitualizador formula representações, baseando-se na informação da memória de longo prazo, na qual estão localizados os lexemas relevantes especificados em termos de rótulos linguísticos, um para a L1, outro para a L2. O conceitualizador é guiado por um objetivo para alcançar algum efeito através da língua. Essa intenção de comunicação e planejamento é mediada pelo Sistema Atencional Supervisor – SAS (NORMAN; SHALLICE, 1986), juntamente com componentes do sistema linguístico: o sistema léxico-semântico e um conjunto de esquemas de tarefas linguísticas. Os esquemas, que são scripts de tarefas (por exemplo, esquemas de tradução) competem para controlar o output do sistema léxico- semântico, o que depende dos objetivos do falante. Cada esquema regula os outputs do sis- tema léxico-semântico, alterando os níveis de ativação das representações e inibindo os de- mais outputs do sistema. A inibição ocorre para palavras da língua não alvo, porque elas não contêm os rótulos linguísticos apropriados. O esquema da tarefa linguística permanece ativo até que (1) o seu objetivo é atingido; (2) ele é ativamente inibido por outro esquema; ou (3) o SAS muda o objetivo. De acordo com Green (1998), os processos de regulação/controle
Objetivo Conceitualizador SAS
Input Sistema léxico- semântico bilíngue Esquemas de tarefas lin- guísticas Output
das línguas e o controle da ação têm pontos em comum: língua é uma forma de ação comu- nicativa. Desse modo, no modelo de CI, o SAS, além de controlar vários processos cognitivos, como a memória de trabalho e as funções executivas, auxiliaria a controlar também a língua que não é relevante na tarefa.
Esse modelo enfatiza a conexão entre o processamento léxico-semântico e os siste- mas cognitivos, especificamente o SAS, pois a língua é selecionada por meio da supressão de lemas da outra língua. Segundo Tokowicz (2015), o modelo figura como um dos principais para explicar o processamento lexical e tem sido explicado e corroborado com base em es- tudos que examinam os custos de alternar entre as línguas, porque a coativação das línguas precisa ser controlada de alguma maneira, sendo que a L1 necessita ser inibida mais exausti- vamente do que a L2. Como consequência dessa ativação conjunta das línguas, as alternati- vas lexicais de cada língua permanecem disponíveis, e os bilíngues podem enfrentar graus mais altos de competição linguística se comparados com monolíngues (LINCK; HOSHINO; KROLL, 2008; RODRIGUEZ-FORNELLS et al., 2002). Essa ativação conjunta tem explicado a vantagem dos bilíngues nas funções executivas, ou seja, capacidades de flexibilidade cogniti- va, atualização e o monitoramento do conteúdo na memória e inibição de distratores (MIYAKE et al., 2000). O recrutamento mais frequente do controle pode se generalizar do processamento linguístico para outros aspectos do funcionamento cognitivo (BIALYSTOK, 2001; BIALYSTOK et al., 2009).
Por fim, outro modelo que merece ser discutido é o Multilingual Processing Model (DE BOT, 2004). O intuito do autor foi relacionar proficiência e níveis de ativação ao proces- samento online das línguas. As principais configurações do modelo são os níveis de ativação, que dependem da qualidade de contato com a língua e de uso, o nível de proficiência, o mé- todo de instrução e a idade de aquisição. A L1, se mais frequentemente usada, teria níveis de ativação mais elevados, e usar uma língua significa elevar ainda mais os níveis de ativa- ção. Em todos os modelos que lidam com esse aspecto, ativação e inibição nunca podem ser “(des)ligadas” (DE BOT, 2004, p. 10). Desse modo, a completa supressão de uma língua seria impossível.
O Multilingual Processing Model pressupõe, fundamentalmente, que há três sistemas de armazenamento de informação: traços conceituais, procedimentos sintáticos e as formas (sons, sílabas ou gestos). Em cada um dos sistemas, há subsistemas específicos para cada língua, que apresentam sobreposições entre as línguas. Os nós linguísticos controlam os
componentes do processamento da língua que está sendo usada, ou seja, aumentam-se os níveis de ativação no nível do lema e, consequentemente, no nível sintático do subsistema daquela língua. A coativação é modulada pela quantidade de uso das línguas, do nível de proficiência, da idade de aquisição e de outras variáveis. Desse modo, o acesso lexical tam- bém é considerado como não seletivo por esse modelo.
Enfim, como discutimos nessa revisão, diferentes modelos simulam diferentes aspec- tos do processamento bilíngue/multilíngue. Cada modelo possui limitações; por isso, às ve- zes, é necessário utilizar mais de um modelo para explicar os resultados. A seguir, podemos verificar a interação desses modelos com estudos comportamentais sobre acesso lexical.