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Modelos de representação e o contexto cognitivo

1.3 O feminino na crônica do cotidiano: uma perspectiva

2.1.1 A teoria da memória e os contextos: processamento das informações

2.1.1.1 Modelos de representação e o contexto cognitivo

Partindo do conceito de esquema de Barlett, van Dijk (1996) defende haver uma organização dos conhecimentos na memória de longo prazo, que se agrupam em frames ou scripts – estruturas mentais conceituais e esquemas – estruturas

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esquemáticas tanto textuais quanto discursivas, as quais correspondem a superestruturas, macroatos de fala, cena enunciativa, entre outros.

Segundo van Dijk (1996), no início dos anos 70, há um primeiro passo em direção a um modelo cognitivo de compreensão do discurso devido a uma nova ruptura no paradigma, originária do interesse crescente pela memória semântica, o qual requer o uso de materiais discursivos para análise.

Paralelamente a esse fato, o autor lembra, ainda, que na área da Psicologia da Aprendizagem também se observou que o processo se concretizava com base em textos.

Desse modo, van Dijk (1996) destaca a importância das teorias dos esquemas, as quais foram utilizadas também na área de inteligência artificial, que acabou contribuindo com a mudança de paradigma ao se compararem esta com a inteligência humana.

É nesse sentido que os pressupostos de Barlett ganham relevância e o conceito de esquema foi ampliado para script, frame, cenário, todos eles relacionados às representações de conhecimento de mundo na compreensão do discurso, abrindo perspectivas para um estudo mais amplo e complexo da cognição.

Para van Dijk (1996) os esquemas mentais considerados sociais são os

frames e scripts. Ao primeiro atribui-se esquemas conceituais mais abrangentes,

mais globais e ao segundo, um esquema cronologicamente organizado.

Relacionando as definições a este trabalho, no caso da mulher, poder-se-ia exemplificar com o conceito de casamento, para o qual ativar-se-ia o frame de dois seres formalizando uma união estável perante uma autoridade.

A esse frame associar-se-ia o script, o qual teria em uma de suas sequências, por exemplo, os preparativos para a cerimônia: vestido, alianças, padrinhos, convidados.

Atualmente, para o autor, a esses esquemas, que são considerados sociais, acrescentam-se os modelos individuais, os quais estão relacionados à interpretação do indivíduo sobre situações projetadas pelo discurso no momento da interação.

O autor ressalta a importância desses conceitos, todavia propõe considerar um modelo de processamento que vá além de estruturas, que considere as

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estratégias dos sujeitos na compreensão e/ou produção do texto/discurso. Trata-se, então, conforme postula van Dijk, de um modelo de base processual on-line.

Nesse sentido, ele afirma que

[...] Isso significa que a compreensão ocorre simultaneamente (“on-line”) ao processamento de informações, de forma gradual e não subsequente. (v. DIJK, 1996, p. 15)

Ao tratar de estratégias de compreensão e produção do texto/discurso, o autor, sob um enfoque cognitivo, afirma que é preciso compreender o processo como um complexo de informações que interagem em todos os níveis da linguagem – sintático, semântico, pragmático.

Desse modo, afirma V. Dijk (1996)

A análise estratégica depende não somente das características textuais, como também das características do usuário da língua, tais como seus objetivos ou conhecimento de mundo [...] o leitor de um texto tentará reconstruir não somente o significado intencionado do texto [...] como também um significado que diga mais respeito aos seus interesses e objetivos. (v. DIJK, 1996, p. 15)

Nesse modelo, o autor relaciona o processamento na memória à ativação de modelos de situação, que, para ele, são as representações cognitivas das situações em que o texto está baseado. Tal modelo integra, então, tanto conhecimentos episódicos quanto semânticos, o que implica uma compreensão além da coerência (local e global).

Assim, segundo o próprio autor, é necessário verificar a constituição dos sentidos no movimento entre semântica intensional e semântica extensional, o que pressupõe ultrapassar os limites da superfície do texto.

Van Dijk postula, ainda, nessa investigação, que esse modelo de compreensão e/ou produção pressupõe um sistema de controle geral pelo qual ocorre o processamento do discurso. Para tanto, nessa perspectiva, entende-se que o sistema supervisiona o processamento na memória de curto prazo, ao

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mesmo tempo em que ativa tanto conhecimentos episódicos quanto semânticos mais gerais, estabelecendo, recursivamente, as relações entre eles.

Compreende, então, o autor, que os conhecimentos são estrategicamente articulados, uma vez que eles são monitorados pelo sistema de controle e, além disso, devem ser relacionados também a crenças, atitudes e avaliações individuais.

Durante o processamento da leitura, então, as palavras remetem a significados ativados na memória semântica, assim como ativam-se conhecimentos de estruturas sintáticas, de esquemas textuais.

A partir desses elementos, há um cálculo mental (inferência) pelo qual se expandem e se reduzem informações, constituindo-se as proposições do texto. Na relação entre os segmentos, constrói-se a coerência local. Seguindo esse raciocínio, v. Dijk (1996) acrescenta que há agrupamento das informações processadas para a construção do sentido global, ou seja, da coerência global do texto.

Enfim, as pessoas não representam da mesma forma um fato ocorrido, como um acidente, por exemplo. Cada qual, partindo de um conhecimento geral que pressupõe informações semelhantes no processamento, acrescenta outros conhecimentos resultantes de conhecimentos e experiências individuais. Portanto, tanto informações externas (do contexto social) quanto internas (cognitivas) influem na atividade de interpretação discursiva.

Dessa forma, além desses conhecimentos, outras representações, ligadas a crenças, valores, atitudes, em relação ao acontecimento, são ativados durante o processamento, o que significa ser a representação composta tanto de modelos sociais quanto individuais. Aos primeiros, van Dijk denomina “marcos de cognição social”.

Embora o autor tenha tratado da construção do sentido mais global a partir de sentidos secundários no processamento das informações, relacionando micro e macroestrutura do texto, reconhece que outras estratégias são utilizadas no auxílio da constituição dessas representações semânticas.

Trata-se de estratégias estilísticas, retóricas, não-verbais, conversacionais, as quais são retomadas em sua recente pesquisa, em que passa a discutir a noção de contextos e defende o ponto de vista de que o discurso é controlado por eles.

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Nesta tese, pressupõe-se a estratégia de uso da linguagem poética como forma de argumentar, já que, por meio de construção de figuras, o locutor ativa as representações da mulher na sociedade machista, que se encontram na memória do interlocutor, a fim de constituir um novo ponto de vista. Portanto, o poético não está apenas relacionado a um efeito estético.