Capítulo III Aprendizagem da Leitura
3. Modelos de Leitura
3.4. Modelos Interativos Compensatórios
No que diz respeito ao reconhecimento de palavras, os modelos interativos compensatórios defendem a existência de duas vias paralelas de reconhecimento de palavras, a via visual de análise e a via auditiva de mediação fonológica, que são ativadas de acordo com a familiaridade das mesmas. O reconhecimento de palavras é o processo através do qual as sequências de letras de uma palavra escrita são transformadas em unidades semânticas possibilitando o acesso ao seu sentido (Adams et al., 2006; Azevedo, 2006; Beard et al., 2010; Capovilla & Capovilla, 2007; Català et al., 2010; Carvalho, 2011; Crepaldi & Duarte, 2003; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009;
McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Sucena & Castro, 2008; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Nestes modelos é considerado que qualquer fase do processo de leitura pode influenciar outra, estabelecendo entre si um papel compensatório. As dificuldades que possam existir em alguns níveis podem ser compensados por outros, isto é, dependendo do contexto e relativamente às características inerentes à leitura, o leitor escolhe a estratégia a que melhor se adapta (Adams et al., 2006; Arana, Cadena & Reina, 2006; Azevedo, 2006; Beard et al., 2010; Capovilla & Capovilla, 2007; Català et al., 2010; Carvalho, 2011; Crepaldi & Duarte, 2003; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Sucena & Castro, 2008; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Um leitor que reconhece com facilidade as palavras, mas tenha pouco conhecimento acerca do tema do texto, pode utilizar estratégias ascendentes, por outro lado, se o leitor reconhece mal as palavras, pode usar as estratégias descendentes, consoante os conhecimentos que tem sobre o tema. De acordo com os modelos interativos compensatórios, quando se lê uma palavra podem ser ativadas duas vias, a visual se a palavra for familiar em termos gráficos, ou a fonológica se a palavra não for familiar e estamos perante um modelo de dupla via (Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2006; Beard et al., 2010; Capovilla & Capovilla, 2007; Català et al., 2010; Carvalho, 2011; Crepaldi & Duarte, 2003; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Sucena & Castro, 2008; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Morton (1964, 1969, citado por Cruz, 2009) criou o Logogen Model, no qual o logogen continha informações (semânticas, lexicais e fonémicas) acerca de um item lexical que está representado na memória. Cada logogen tem um limiar de excitação para ser ativado e permitir o acesso ao significado e pronúncia da palavra. Quanto mais usual for a palavra, menor será esse limiar de ativação, pois à medida que o logogen é ativado o seu limiar diminui (Carvalho, 2011; Cruz, 2007, 2009).
Inspirados neste modelo, Rumelhart e McClelland (1981, 1982, citados por Cruz, 2009), criaram um modelo informatizado de reconhecimento de palavras. Este modelo é formado por um sistema de reconhecimento visual da palavra e um sistema de
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análise visual subdividido em dois níveis, o traço e a letra (Carvalho, 2011; Cruz, 2007, 2009).
Sempre que uma palavra é apresentada ao computador este ao fazer a análise de cada um dos traços (ativação de determinadas unidades de traço) provoca a ativação de determinadas unidades de letras e simultaneamente a inibição dos detetores de letras que não possuem aqueles traços que foram ativados. O mesmo acontecia nas unidades de palavras que à medida que iam sendo ativadas provocavam a inibição de outras. O modelo interativo compensatório mais recente é o proposto por Ellis (1989, citado por Cruz, 2009), realçando a interação existente das ligações de ativação com as de inibição e o efeito em cascata de ativação dos detetores, isto é, simultaneamente os detetores de traços vão ativando os de letras e estes vão ativando os de palavras (Carvalho, 2011; Cruz, 2007, 2009).
Existe um efeito compensatório no nível de unidades de letra em relação ao nível de unidades de palavra, visto que, sempre que uma unidade de letra ativar um conjunto de unidades de palavra, estas por sua vez, provocam a ativação das unidades de letras que as compõem causando um efeito de retorno. Por um lado, trata-se de um modelo compensatório dado que ativação de um nível pode compensar a falha de outro. Por outro, trata-se, de um modelo de ativação interativa, pois os vários níveis, nível traço, nível letra, nível palavra, apesar de diferentes, estão em constante interação (Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2006; Beard et al., 2010; Capovilla & Capovilla, 2007; Català et al., 2010; Carvalho, 2011; Crepaldi & Duarte, 2003; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Sucena & Castro, 2008; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Sempre que um leitor se depara com uma palavra visualmente pouco habitual, pode recorrer ao contexto, no qual, a palavra é apresentada, ou pronunciar a palavra recorrendo a analogias e correspondências grafema-fonema, originando-se uma forma fonémica (traduzida num código acústico) que irá ser analisada pelo sistema de reconhecimento auditivo, permitindo verificar se esses sons têm semelhanças com alguma palavra conhecida (Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2006; Beard et al., 2010; Capovilla & Capovilla, 2007; Català et al., 2010; Carvalho, 2011; Crepaldi & Duarte,
2003; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Sucena & Castro, 2008; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Este modelo não explica de que forma se alcança o sentido das palavras e a sua pronúncia, simulando exclusivamente a forma como as palavras seriam reconhecidas. Ellis (1989) supõe que é ativada uma unidade de produção fonémica que corresponde a uma representação semântica, ativada por sua vez, por uma unidade de reconhecimento visual da palavra. Para que uma sequência de fonemas se possa pronunciar é necessária a existência de uma memória fonémica, para a qual os fonemas transitam desde o momento da sua representação até ao da pronúncia da palavra (Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2000, 2006; Beard et al., 2010; Capovilla & Capovilla, 2007; Català et al., 2010; Carvalho, 2011; Crepaldi & Duarte, 2003; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Sucena & Castro, 2008; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Os mesmos autores referem que quando a leitura apresenta um caráter automático, não existe influência do contexto no reconhecimento das palavras, uma vez que este só intervém quando é necessário confirmar o significado da palavra, depois da sua identificação. Segundo Ellis e Young (1997, citados por Cruz, 2009), o sistema de análise visual apresenta três funções: identificar as letras das palavras; codificar cada letra relativamente à sua posição na palavra e agrupar percetivamente as letras que pertencem à mesma palavra.
Sugerem-nos também que a função do léxico de input visual é a de identificar sequências de letras de palavras escritas familiares, isto é, indica se essa palavra já foi vista anteriormente. Referem também, se existir necessidade da palavra ser compreendida é preciso ativar a sua representação semântica, no sistema semântico representado pela conexão existente entre este sistema e o léxico de input visual. É ativado o léxico de produção de fala quando se pronuncia a palavra de modo correto, representado pela conexão com o léxico fonológico, produção de fala ou com o sistema semântico, dependendo da respetiva ativação. O sistema semântico é onde se encontram representados os significados das palavras, corresponde à memória semântica e pode ser dividido, segundo alguns teóricos, em sistema semântico verbal, significados das palavras e sistema semântico não-verbal, conhecimentos referentes às pessoas e objetos
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(Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2000, 2006; Beard et al., 2010; Capovilla & Capovilla, 2007; Català et al., 2010; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Sucena & Castro, 2008; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Segundo Ellis e Young (1997, citados por Cruz, 2009), no âmbito da leitura ao nível do fonema, onde estão representados os sons particulares e distintos da fala, podem ser ativados por inputs provenientes de diferentes fontes. Por um lado, pode ser ativado pelo input originário do léxico de produção de fala, no decorrer de uma leitura em voz alta. Por outro, pode ser ativado pelo input através da conversão grafema- fonema, quando palavras não familiares, pseudopalavras ou não-palavras são lidas em voz alta (Carvalho, 2011; Cruz, 2007, 2009).
Os mesmos autores mencionam que a conexão bidirecional existente entre o léxico, a produção de fala e o nível do fonema, traduz o estado de ativação mútua e interativa entre as componentes. A presença de uma conexão direta entre o léxico de input visual e o léxico de produção de fala, sem passar pelo sistema semântico é justificada pelo facto de pessoas com lesões cerebrais lerem em voz alta palavras, aparentemente sem entenderem o significado.
Assim, os referidos autores incorporaram no modelo um percurso entre o reconhecimento das letras e a produção da fala, não dependendo as palavras de serem reconhecidas como familiares através léxico de input visual, justificado através da constatação de que leitores sem lesões cerebrais conseguem ler em voz alta palavras não familiares, pseudopalavras ou não palavras, as quais nunca tinham visto. Ellis e Young (1997, citados por Cruz, 2009) referem que as pseudopalavras, as não-palavras e as palavras não familiares podem ser lidas em voz alta por intermédio de um processo de divisão das palavras em letras ou grupos de letras (unidades visuais) e pela sua transformação nas correspondentes sequências.
Esta via, chamada de sublexical, é relativamente pouco usada por leitores competentes, mas extremamente utilizada por leitores pouco aptos ou que possuem poucas palavras representadas no seu léxico de input visual. Estes autores consideram que este modelo tem três vias, estando nele presentes três percursos que estão assinalados no modelo com as letras A, B e C. O percurso A corresponde à via
semântica (via visual ou direta do modelo de dupla via); o percurso B consiste na análise da palavra a nível visual, chegando à representação fonológica da palavra através de um mecanismo global, por isso, embora denominado da mesma forma difere da via direta ou léxica do modelo de dupla via; e o percurso C corresponde à via fonológica (via fonológica ou indireta do modelo de dupla via) (Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2000, 2006; Beard et al., 2010; Català et al., 2010; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
É possível referir dois produtos, aos quais correspondem vários processos, independentemente dos modelos teóricos utilizados para explicar o processo de leitura. Estes produtos podem ser o reconhecimento global de palavras e/ou a correspondência grafema-fonema, que correspondem respetivamente ao acesso direto ou léxico e ao acesso fonológico ou tradução sequencial de letras. Podemos concluir que os mecanismos de leitura podem ocorrer seguindo três vias, a fonológica, a lexical e a semântica e, independentemente do modelo teórico utilizado é possível perceber que o processo de leitura engloba dois tipos de produtos, o reconhecimento global de palavras e a correspondência grafema-fonema (Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2006; Beard et al., 2010; Català et al., 2010; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
Desta forma, os autores acima citados referem que a conceção de leitura interativa parte do pressuposto de que não é uma simples atividade de descodificação de itens linguísticos, mas um processo dinâmico de construção de sentido, fundamentado na integração do conhecimento prévio que o leitor traz consigo e as formas linguísticas presentes no texto. Apesar de a habilidade de descodificar palavras ser importante, não é suficiente para o processo de compreensão leitora, uma vez que, ler é, antes de tudo, interagir e construir um sentido para o texto (Adams et al., 2006; Albuquerque, 2006; Arándiga, 2005; Araújo, 2007; Arena, 2012; Arana et al., 2006; Azevedo, 2000, 2006; Beard et al., 2010; Català et al., 2010; Cruz, 2007, 2009; Ferreira & Fernandes, 2007; Gonçalves, 2008; Leite et al., 2006; Lopes & Costa, 2009; McGuiness, 2006; Sardinha, 2007; Sardinha & Relvas, 2009; Vega, 2010; Viana et al., 2010a, 2010b).
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Dado que, na leitura e na sua aprendizagem estão, portanto, implicados a descodificação e compreensão da informação que interagem entre si, abordaremos a temática, no capítulo seguinte, da compreensão leitora e suas componentes.