CAPÍTULO 2 – MODELOS E CLASSIFICAÇÕES DA E-DEMOCRACIA
2.3 Modelos, vetores e valores dentro do sistema
Para Van Dijk (1996), um dos primeiros a aplicar modelos de democracia na discussão sobre e-democracia, estes devem ser classificados de acordo com sua ênfase na formação de opinião e na tomada de decisão. Já Hagen (1997) acredita que o foco esteja na dimensão da participação política que é enfatizada e a agenda política desejada (aqui estando os modelos). De modo similar, ao realizarem sua classificação, Päivärinta e Sæbø (2006) separam os modelos de e-democracia entre aqueles que o governo controla a agenda de decisões políticas e aqueles que são os cidadãos a fazê-lo. Finalmente, ao reavaliar o campo, Van Dijk (2012) acredita que os modelos de
democracia podem ser divididos entre aqueles que se centram no governo e aqueles que se centram nos cidadãos.
Parece-me razoável, por exemplo, supor que, geralmente, a perspectiva do governo eletrônico seja de uma vertente institucional ou top-down e que as reflexões do modelo de contrapúblico sejam geralmente bottom-up. Contudo, a classificação dos modelos feita exclusivamente através das vertentes parece-me restringir excessivamente o campo e mesmo tornar certas visões estáticas. Por exemplo, no modelo deliberativo, podemos ter tanto minipúblicos desenhados por governos que buscam abarcar a deliberação qualificada de cidadãos para orientar decisões políticas (e.g. SMITH, 2009) quanto pensar em deliberações ampliadas na sociedade, que busquem direcionar e influenciar a decisão política através da esfera pública (HABERMAS, 1997) e não ignorando a importância dos meios digitais para tanto (PARKINSON, 2012).
Stephen Coleman, neste sentido, tem defendido em vários textos a possibilidade de os governantes irem aos locais onde essas discussões fluem normalmente e utilizar essa informação para guiar a ação estatal (COLEMAN, BLUMLER, 2009; COLEMAN, MOSS, 2012), sendo uma das possibilidades para tanto o uso do Big Data57 (MOSS, COLEMAN, 2013). Da mesma maneira, governos podem oferecer plataformas digitais que permitam a participação, a formação de comunidades on-line ou, alternativamente, estas iniciativas podem nascer por meio de grupos e indivíduos da esfera civil.
Enraizar que determinado modelo é necessariamente top-down ou bottom-up soa como pouco profícuo para a análise do campo. Parece-me mais válido justamente o cruzamento das diferentes perspectivas. Há valores ou fins democráticos a serem alcançados através das iniciativas de e-democracia e essas agendas podem surgir tanto do Estado quanto da sociedade. Normalmente, esse movimento será difuso e, em certas ocasiões, de mão dupla. A título de ilustração, este trabalho enfatizou os três grandes axiomas destacados na e-democracia: informação, discussão e participação; mas reconhece que os três podem ser alcançados por iniciativas estatais e por iniciativas civis. Aqui, o importante é destacar que os movimentos podem ser duplos e
complementares. Ou, como descreve Gomes (2005), ao tratar da interatividade entre
57 Big data é o termo para uma coleção de conjuntos de dados tão grande e complexo que se torna difícil para processar usando na mão ferramentas de gerenciamento de banco de dados ou aplicações de processamento de dados tradicionais. Os desafios incluem a captura, curadoria, armazenamento, busca, compartilhamento, a transferência, a análise e a visualização. A tendência para os conjuntos de dados maiores é devido à informação adicional produzida a partir de análise de um único grande conjunto de dados relacionados, em comparação com conjuntos distintos de menores, com a mesma quantidade total de dados, permitindo correlações destes dados, que talvez não existam em conjuntos de dados menores. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Big_data. Acesso em 29 jan. 2014.
cidadãos e governantes, referindo-se “a uma comunicação contínua e de iniciativa recíproca entre esfera civil e agentes políticos, uma comunicação que deve servir para um recíproco feedback entre cidadania e sociedade política” (p. 68).
No Brasil, há algumas dessas iniciativas em operação. Um exemplo é o Porto Alegre.cc58, um projeto que foi criado dentro da universidade (com apoio de organizações da sociedade civil) para servir como uma plataforma para os cidadãos relatarem problemas e sugerirem sugestões para a capital gaúcha59. O projeto foi bem aceito pela prefeitura, que o tornou um método oficial para os cidadãos mandarem reclamações e sugestões para cidade e foi englobado no projeto “Porto Alegre: eu curto, eu cuido”, que visava, justamente, conscientizar os habitantes da importância de se cuidar da cidade.
Outro exemplo é o Cidade Democrática60, uma plataforma discursiva organizada por fóruns online de discussão que tem o objetivo principal de fomentar debates sobre melhorias em cidades brasileiras. É um projeto basicamente criado e mantido pela sociedade civil, mas estudos já evidenciaram que os casos mais bem sucedidos são exatamente aqueles nos quais há participação de atores políticos (e.g. vereadores) nas discussões (ALMADA, 2013; CARREIRO, 2012).
Nos exemplos de governo aberto, também estes movimentos duplos ficam mais claros. Diversas vezes, são os governos que começam os projetos convidando hackers e programadores interessados em trabalhar em dados abertos pela instituição. Porém, no segundo momento, são estes grupos os responsáveis por criarem os aplicativos, que podem, posteriormente, ser administrados de modo mais independente dos governos (ROBINSON et al., 2009). Ou, em outros casos, os aplicativos e plataformas voltam para o interior do governo, que passam a utilizá-los para a gestão de uma determinada política pública ou decisão política (MERGEL, 2012).
Portanto, podemos razoavelmente pensar em iniciativas de participação desenhadas pelo governo que sejam destinadas a indivíduos e que tenham pouca necessidade (ou mesmo espaço) para grupos da sociedade civil. Por um lado, é plausível dizer que estas iniciativas poderão ser mais divulgadas e melhor aceitas se houver mobilização e engajamento de tais grupos cívicos. Por outro, é plausível pensar em iniciativas de Estado em prol da participação que não possuam forte ênfase em tais
58http://portoalegre.cc/. Acesso em 10 Jul. 2013. 59
http://pt.wikipedia.org/wiki/PortoAlegre.cc. Acesso em 10 Jul. 2013. 60http://www.cidadedemocratica.org.br/. Acesso em 10 Jul. 2013.
grupos (cf. GOMES, 2011). Neste momento, pode ocorrer uma perda de intensidade, ou seja, talvez uma quantidade menor de indivíduos venha a participar, mas o valor democrático ainda pode ser fomentado.
Não obstante, em outros casos a complementaridade é vital. No que tange à e- transparência, isso se torna mais claro. Pode-se considerar este processo iniciado e mantido por agentes governamentais através de regulamentos, leis e práticas que fomentem a publicação de informações e que tornem as contas e ações públicas menos opacas aos cidadãos. Entretanto, como já definido anteriormente, em muitos casos será necessária a ação de indivíduos, grupos e empresas da sociedade civil para interpretar e simplificar tais dados para os indivíduos (ALMADA, 2013; SILVA, 2014). Em outras palavras, o Estado efetivamente está realizando inúmeras ações de transparência, mas esta talvez só se realize em um grau suficientemente aceitável quando tais iniciativas (ou ações) civis complementarem o passo inicial dado pelos governos.
Numa última ilustração, este trabalho estuda orçamentos participativos. Originalmente, trata-se de iniciativas geralmente inauguradas e mantidas por governos, mesmo reconhecendo que um dos fatores de sucesso para os orçamentos participativos seja o nível de associativismo nos seus locais de implementação. Avritzer (2008) define que a vontade política é vital para implementar e manter os OPs. Não obstante, no Reino Unido e também nos Estados Unidos há iniciativas de orçamento participativo que são totalmente mantidas e organizadas por grupos cívicos, nas quais apenas consta apoio (financeiro e de outras naturezas) dos governos (SINTOMER, HERZBERG, ALLEGRETTI, 2012), logo, sendo de caráter bottom-up. Da mesma maneira, os diferentes valores defendidos nos modelos supracitados podem aparecer em maior ou em menor medida nos diferentes desenhos de orçamento participativo existentes. Alguns são mais deliberativos, outros valorizam comunidades locais e outros, ainda, estão ligados à modernização (e outras agendas) do Estado (SINTOMER, HERZBERG, ALLEGRETTI, 2012). Portanto, seria pouco profícuo (e mesmo equivocado) dizer que o OP é necessariamente top-down com ênfases deliberativas e comunitaristas. Essas nuances e diferenças também poderão ser vistas nos diferentes modelos on-line de OP.
Isso quer dizer que precisamos pensar na agenda geral proposta por Gomes (2007) e Coleman e Blumler (2009) sobre as vantagens de adotarmos movimentos paralelos e complementares. Por exemplo, governos oferecem iniciativas, canais e oportunidades institucionais para receber insumos e contribuições dos cidadãos e também consideram as iniciativas (e redes de discussão) iniciadas pela esfera civil. Esta,
por sua vez, aceita participar das iniciativas institucionais, porém, simultaneamente, está envolvida em outras redes de ação e iniciativas informais que também podem ter (ou buscar ter) influência sobre o Estado. Os modelos encontram uma melhor compreensão dos valores e objetivos a serem incrementados dentro de cada vertente, quando se reconhece que podem ser fomentados ora por ação originada do Estado ora por ação original da sociedade civil. Contudo, também deve-se reconhecer que, geralmente, tais bens democráticos só serão fomentados quando ambas as instâncias estiverem envolvidas.
Por fim, como uma importante ressalva, também precisamos admitir que em
inúmeras situações os movimentos são contraditórios e adversários. Muitas vezes,
iniciativas top-down e bottom-up não apenas deixarão de colaborar como também entrarão em conflito. Em especial, as iniciativas civis podem ser criadas como respostas a ações ou iniciativas institucionais. Então, nestes casos, o objetivo não é cooperar, mas, literalmente, desafiar o poder vigente (na forma de instituições ou mesmo figuras políticas). No Brasil, um exemplo disso foi a criação do blog do Planalto pela Presidência da República, em 2009, que foi lançado sem a possibilidade de gerar comentários. No dia seguinte, foi criado um blog “clone”, que postava exatamente as mesmas matérias do blog original, mas com a opção de comentários habilitada61. Ainsworth, Hardy, Harley (2005) também retratam uma consulta pública online lançada pelo Banco Mundial em um fórum online, que foi vista como inadequada por vários grupos civis participantes (e.g. pela moderação ali realizada), que optaram por criar um fórum digital em paralelo para discutir o tema da consulta pública.
Além disso, enquanto, normativamente, tentamos refletir e sugerir práticas que podem fomentar diversos valores democráticos simultaneamente, também devemos ponderar o fato de isto nem sempre ocorrer. Welch (2012) relata como participação e transparência nem sempre caminham juntas (i.e. em sua pesquisa, ele evidenciou que maior transparência não implica em mais participação) e como podem ser utilizadas estrategicamente por governos para fins bem distintos entre si. Nesta direção, Meijer, Curtin, Hillebrandt (2012), ao analisar a literatura de governo aberto, verificaram que nem sempre participação e deliberação apresentam efeitos de reforços, podendo um ter impacto negativo sobre o outro, como participantes que se sentem restritos em suas possibilidades de fala por estas serem transparentes a atores externos (p. 15). Em outro
exemplo, envolvendo outros valores, é notório que a participação nos OPs foi mal avaliada por vereadores em inúmeras cidades do Brasil, uma vez que se acreditava que esta era uma participação engendrada pelo Executivo para minar o poder do Legislativo de controlar o orçamento municipal (NYLEN, 2003; WAMPLER, 2007). Situação que pode se repetir com algum e-OP.
Portanto, crê-se que possamos lidar com a questão de maneira mais sistêmica. Por exemplo, ao tratar do sistema deliberativo62, Mansbridge e colegas (2012) reconhecem que dificilmente teremos deliberação em todas as instâncias participativas e em todas as instituições do Estado sem exceção. Todavia, defende-se que um amplo sistema deliberativo deve garantir que ocorra a deliberação em momentos chave, com o objetivo de poder corrigir imperfeições daqueles momentos não deliberativos.
A isso, proponho adicionarmos a ideia de tarefas defendida por Graham Smith (2009)63, em relação a bens democráticos, e também por Coleman e Blumler (2009), em termos de projetos de democracia digital. Para os autores, dificilmente uma instituição inovadora (e.g. um programa participativo ou deliberativo, como um minipúblico ou um orçamento participativo), seja presencial ou on-line, será capaz de fornecer todos os valores democráticos simultaneamente. Ela poderá incrementar e fomentar tais bens de diferentes maneiras e em diferentes combinações. Isso significa reconhecer que diferentes iniciativas podem ter “tarefas” ou objetivos distintos. A agenda institucional será capaz de promover alguns objetivos (e.g. provisão de informações) de maneira mais qualificada, outras tarefas serão mais bem desenvolvidas no cerne social (e.g. discussões públicas), enquanto que determinadas empreitadas só acontecerão pela ação dupla e conjunta de Estado e cidadãos (e.g. transparência e controle cognitivo do Estado).
Nesta linha, isso quer dizer que cada iniciativa de democracia digital precisa ser avaliada dentro do contexto do qual faz parte. Por si, a iniciativa pode ter reduzida a sua capacidade de fomentar alguns bens democráticos. Porém, pode possuir uma grande
62 Conforme Mansbridge e pesquisadores (2012), o sistema deliberativo é aquele baseado nas conversações para lidar com os conflitos políticos e a resolução de problemas através de arguições, demonstrações, expressões e persuasão. Ele “é composto por discursos formais, bem como falas informais e cotidianas entre atores comuns e políticos, tais como representados e representantes eleitos e não eleitos, ativistas e não ativistas e os mídia. Sua função é permitir que os atores compreendam melhor o que querem e necessitam, tanto individual quanto coletivamente. O objetivo da deliberação passa a ser, portanto, clarear o conflito e tentar conformá-lo” (FARIA, SILVA, LINS 2012, p. 253). Para mais sobre a ideia de sistema deliberativo, ver Faria, Silva, Lins (2012), Maia (2012), Miola (2012).
63 O conceito de sistema deliberativo também trabalha com a ideia de tarefas. Neste caso específico, entretanto, a preocupação está nas diferentes momentos de um processo deliberativo, que pode apresentar papeis distintos para as instituições e atores políticos participantes (MAIA, 2012).
importância dentro do sistema por ser a única a promover este tipo específico de valor (cf. MACINTOSH et al., 2012). A título de exemplo, se estamos lidando com contextos com governos notoriamente corruptos, pode-se necessitar de mais iniciativas de transparência e controle cognitivo que iniciativas de participação.
Além disso, é preciso cuidado para não avaliar todas as iniciativas através de um único modelo ou valor democrático. Se, por exemplo, temos a agenda participativa tão desejada pelos propositores da e-democracia, pode parecer contraproducente a criação de novas iniciativas que promovam a promulgação de informação estatal – que está muito mais disponível que a desejada participação civil. Entretanto, como sabemos, nenhuma participação qualificada ocorre sem estoques suficientes de informação aos participantes, o mesmo valendo para participações deliberativas (LEVINE, FUNG, GASTIL, 2005). Assim, pode-se incorrer no erro apontado por Norris (2001) de demandar participação em todas as iniciativas e projetos de e-democracia (ignorando outros importantes valores democráticos) e avaliar negativamente as iniciativas que não nos entregam a esperada participação.
Em resumo, a avaliação individual e isolada de uma iniciativa pode subestimar a sua importância (ou mesmo superestimar a sua falha) dentro dos complexos sistemas democráticos. Nesse sentido, é preciso entender que diferentes iniciativas podem realizar tarefas distintas. Não se trata de exigir que todas realizem tudo ou que todas fomentem o seu valor democrático “favorito”, mas de enfatizar a complementaridade entre esses projetos. De outra forma, pode-se estar fadado a uma eterna agenda de frustração. Ademais, sugere-se a verificação dos movimentos existentes entre os valores envolvidos em cada iniciativa e no sistema avaliado, uma vez que se esperam movimentos duplos (socidade-Estado e vice-versa) e complementares.