2.2. UTOPIA E MODERNIDADE
2.2.2. MODERNIDADE DISTÓPICA
Como vimos na seção anterior, o estudo da modernidade se caracteriza,
em grande medida, pela análise das transformações histórico-sociais do
período e os imaginários por elas suscitados. A rapidez dessas mudanças e a
heterogeneidade de seus impactos na intelligentsia mundial constituem um
quadro avesso a simplificações e reducionismos. Entretanto, dentro do escopo
do presente trabalho, percebemos um movimento dialético do pensamento
utópico em consonância com o fluxo de alterações sociais, políticas e
econômicas
26.
Diante disso, distinguimos uma série de posicionamentos e escritos que
visavam problematizar criticamente os rumos trilhados pelas sociedades
modernas. Tais pontos de vista, ao mesmo tempo, enfatizavam aspectos
negativos inerentes às metamorfoses sociais e alertavam para as
conseqüências desses processos em âmbito mundial. Independentemente do
grau de fatalismo apreensível nessas perspectivas, um impulso renovador
parecia servir de linha argumentativa central para as teorias e análises desse
grupo de pensadores. Assim, ainda que o conceito não seja definido até o
início do século XX, é possível, dadas as características gerais dessas
produções, agrupá-las nas proximidades da esfera do que se convencionaria
chamar de pensamento antiutópico ou distópico. Ou seja, uma concepção
criticamente incisiva e questionadora do ideal da sociedade perfeita, assim
como dos supostos mitos que a sustentam.
Iniciemos pela recuperação da análise sintética de Marx e Engels sobre
a modernidade, segundo a qual “tudo que é sólido desmancha no ar”.
Percebemos nessa afirmação que a ruptura aparente com certezas perenes e
absolutas, apontada como o signo maior da modernidade, constitui o eixo
propulsor de múltiplas possibilidades e imprevisíveis desdobramentos. O
desnorteamento provocado pela profusão de mudanças causou não somente
26
Nesse contexto, a criação de utopias pode ser interpretada como o resultado de um desejo de atribuir certa ordem a um mundo que se tornava cada vez mais instável e fragmentado, o que Heidegger denomina de “desejo por sistematizar”. Como afirma Saliba, “diante disto, o que restava? Refugiar-se na idéia de progresso, hipostasiando-o? Ou desviar o olhar do tempo presente, refugiando-se na revolta sem esperança, no culto narcisístico da arte? Ou, ainda, à maneira de Balzac, na análise impiedosa e cínica das novas condições sociais? Ou, finalmente, no caminho, provisoriamente também sublimador, da construção de utopias?” (SALIBA, 2003,
otimismo e entusiasmo, mas também frustração e temor. Esses quatro
sentimentos podem ser caracterizados, respectivamente, como as raízes dos
pensamentos utópicos e antiutópicos.
Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com o seu
cotejo de concepções e de idéias secularmente veneráveis; as relações que as
substituem tornam-se antiquadas antes de se consolidarem. Tudo o que era
sólido e estável se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os
homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e
as suas relações com outros homens. (MARX et ENGELS, 2005, p. 43)
A aceleração desse processo de dissolução dos dogmas pré-modernos
assume proporções cada vez maiores ao longo do século XIX e produz
sistemas de significação da realidade que servem de base para a literatura
distópica da primeira metade do século XX. Assim, a recuperação do
pensamento oitocentista por parte de Aldous Huxley na concepção de seus
dois romances utópicos pode ser entendida também como uma análise dos
resultados da modernização. Dessa forma, o estudo do período em questão,
especialmente o Romantismo, nos conduzirá a uma reflexão mais aprofundada
não apenas dos caminhos da modernidade, mas também das críticas e
consternações que rondam o seu trajeto.
Como vimos, a Revolução Francesa, enquanto marco histórico no qual
desembocaram uma série de reflexões sobre o homem e seu meio social,
incitou o imaginário daqueles que passaram a vislumbrar no século XIX a
realização da chamada “primavera dos povos”. Entretanto, para muitos deles,
os desdobramentos da Queda da Bastilha projetariam um futuro muito mais
próximo das sombras do absolutismo do que da luz do idílio democrático.
O período napoleônico (1799-1815) acionou novamente o sismógrafo. Os
filósofos alemães da geração de Hegel, que haviam plantado a “árvore da
liberdade”, aprenderam bem rápido que saudar a revolução de longe era bem
diferente de sentir os seus efeitos concretos: a ocupação dos reinos alemães
pelas tropas napoleônicas mostrou a face real do entusiasmo algo abstrato dos
filósofos e poetas alemães pela revolução. (SALIBA, 2003, p. 22)
Ainda assim, Hegel redirecionou sua perspectiva utópica para a própria
figura do imperador, reconhecido pelo filósofo como um líder capaz de trazer
ordem para toda a Europa. Entretanto, tal posicionamento não foi seguido por
outros pensadores, como Fichte, para quem o general francês traíra os ideais
que serviram de base para a revolução e iniciara um novo tempo de injustiças e
arbitrariedades. Como afirma Falbel, “a ‘idade do absolutismo’ que se estende
de 1660 a 1815, caracteriza-se pelo estabelecimento de governos fortes,
assentados sobre o absolutismo monárquico. É justamente contra o princípio
político absolutista que vão atuar as idéias e os programas políticos dos
revolucionários do século XVIII” (FALBEL in GUINSBURG, 2005, p. 24).
Percebe-se a partir desses posicionamentos antitéticos o surgimento de
uma ruptura entre os conceitos revolucionários e os ideais ainda embrionários
do nacionalismo. Como afirma Saliba,
A vitória dos princípios revolucionários poderia destruir a unidade, ao passo
que a imposição da unidade nacional poderia levar à destruição da liberdade.
Por menos real que fosse, esta polarização ambígua entre questão nacional e
princípios revolucionários ajudou a prolongar a instabilidade nos registros do
sismógrafo, especialmente entre os sábios e artistas alemães. (SALIBA, 2003,
p. 23)
Diante disso, justifica-se a posição da Alemanha como epicentro não
apenas de uma nova forma de pensamento sociopolítico, mas também de uma
nova sensibilidade artística e filosófica que se convencionou designar pelo
termo espantosamente abrangente de Romantismo. Entretanto, segundo o
próprio Saliba, o reconhecimento dessa oposição entre reação nacionalista e
mistificação revolucionária
27não esgota o perfil caracteristicamente
multifacetado do movimento.
Estas duas atitudes gerais, entre as quais oscilou a sensibilidade romântica –
uma retrospectiva, outra prospectiva – não nos serve, contudo, para mapear
autores e obras, pois dificilmente encontraremos uma única atitude numa
corrente de idéias, num autor ou numa obra. Todas as tentativas de definir o
romantismo, identificando-o esquematicamente com a revolução ou com a
reação, redundaram em fracasso, por ignorar a rota caprichosa desse
imaginário. (SALIBA, 2003, p. 16)
Alertados sobre o perigo da simplificação, buscaremos não obstante
delinear mais especificamente nuanças, questionamentos e problematizações
como elementos de influência no discurso crítico de Huxley, o qual também
parece ter concebido suas obras nos limites da retrospecção e da prospecção.
27
A primeira atitude, mais facilmente reconhecível nas classes dominantes e nos grupos ligados à manutenção do poder monárquico, foi mais contemplativa: enveredou por uma busca das autênticas tradições nacionais, imersas num passado remoto e obscuro. Daí o interesse maior pela época medieval, pois nela, supostamente, encontrar-se-iam os traços definidores de um obscuro “espírito nacional” [...] A segunda atitude, reconhecível de forma difusa num largo espectro social, caracterizou-se por enxergar, na quebra com as estruturas do passado, uma
Primeiramente, o idealismo dos românticos já remete a um caráter
essencialmente utópico na concepção de seus pontos de vista, sejam eles
marcados pelo otimismo ou pelo fatalismo. Nesse sentido, a fluidez moderna
possibilita, por meio de suas subseqüentes rupturas, a renovação contínua dos
louvores e temores que cercam o espírito utópico.
Como todas as utopias, mas talvez em maior grau do que todas elas, o
romantismo nutriu-se fervorosamente, ao mesmo tempo, da realidade e da
possibilidade de uma mudança radical na história. Todas as suas correntes,
ideologias e projetos alimentaram-se – como sonho ou pesadelo, como
esperança ou medo – de uma ruptura e de uma quebra sem precedentes com
o passado. (SALIBA, 2003, p. 15)
Percebe-se pela afirmação anterior que a nova visão da História como
algo dinâmico e condicionado pelas ações humanas, visão construída com o
advento da modernidade, encontra no Romantismo seu grande espaço de
realização
28. Em outras palavras, o pensamento romântico reconhece o seu
próprio potencial enquanto agente histórico. Como afirma Guinsburg, “o
Romantismo é um fato histórico e, mais do que isso, é o fato histórico que
assinala, na história da consciência humana, a relevância da consciência
histórica. É, pois, uma forma de pensar que pensou e se pensou
historicamente” (GUINSBURG, 2005, p. 14).
Segundo essa perspectiva, os indivíduos, isoladamente ou inseridos em
seus grupos sociais, poderiam colocar-se diante do processo de construção
histórica e, ao menos idealisticamente, alterar seus rumos. Essa possibilidade
concreta de interferência no fluxo da história impulsiona, de forma aparente, a
sensibilidade romântica em direção à imaginação utópica.
Neste ponto, entretanto, percebemos uma característica dilemática que
viria a marcar não apenas o período em questão, mas toda a reflexão sobre o
potencial utópico da modernidade. Referimo-nos ao aparente descolamento
entre as esferas do individual e do coletivo nas sociedades modernas, o qual já
havia sido apontado por Rousseau. Como vimos, o Romantismo enquanto
realidade histórica se define pelo conflito constante entre essas duas
perspectivas, produzindo uma tensão que problematiza os projetos utópicos.
28
“O discurso histórico sofre mudança revolucionária. Deixa de ser meramente descritivo e repetitivo para se tornar basicamente tanto interpretativo quanto formativo, genético. É a história que produz a civilização” (GUINSBURG, 2005, p. 15).
“Já disse alguém que houve tantos romantismos quantos românticos, o que
seria, por outro lado, a máxima concreção do Romantismo no seu caráter
individualista, essencialização que, por seu turno, implica uma redução sub
specie clássica” (GUINSBURG, 2005, p. 14).
A valorização romântica da individualidade
29, que atinge caráter
metafísico nas obras de autores como Fichte e Schelling, colide com o
desenvolvimento vertiginoso dos meios urbanos e sua tendência à
massificação.
Indubitavelmente, a mitificação nacionalista e suas concepções, às quais
nos referimos anteriormente, exercem um papel fundamental nas relações
entre individualidade e coletividade no século XIX. A noção de indivíduo, em
muitos casos, submerge na aura da herança nacional e se reorganiza como
modelo comportamental e ideológico que apresenta muito menos ligação com
aspectos subjetivos do que com práticas socioculturais.
Procedendo a uma espécie de “onticização” fenomenológica das
características e das expressões grupais, o Romantismo, na sua propensão
historicizante, aglutina as sociedades em mundos, comunidades, nações,
raças, que têm antes culturas do que civilizações, que secretam uma
individualidade peculiar, uma identidade, não de cada indivíduo mas do grupo
específico, diferenciado de quaisquer outros. (GUINSBURG, 2005, p. 15)
Dessa forma, a representação do herói romântico reúne os aspectos
problemáticos e, muitas vezes, contraditórios que passam a caracterizar os
indivíduos nas sociedades modernas. Coletivismo, individualismo, subjetividade
e determinismo correspondem a atributos formadores dessa projeção ao
mesmo tempo humana e social.
Suas fontes propulsoras estão menos na ação isolada do homem abstrato,
singularizado na sua ratio, do que, de um lado, no indivíduo fantasioso,
imprevisível, de alta complexidade psicológica, centrado na sua imaginação e
sensibilidade, gênio intuitivo investido de missão por lance do destino ou
impulso inerente à sua personalidade, que é o herói romântico, encarnação de
uma vontade antes social do que pessoal, apesar da forma caprichosamente
subjetiva de seus motivos e decisões, e, de outro lado, num ser ou organismo
coletivo dotado de corpo e alma, de alma mais do que corpo, cujo espírito é o
29
Possivelmente, tal valorização pode ser vista como elucidativa do comportamento aparentemente ambíguo de Hegel diante da expansão napoleônica. Como ressalta Saliba, “Hegel ainda continuaria a vislumbrar no imperador a personificação da razão e da liberdade: ‘a alma do mundo’, um indivíduo que, concentrado num único ponto, montado num único cavalo,
centro nevrálgico e alimentador de uma existência conjunta. (GUINSBURG,
2005, p. 15)
Como vimos, o conflito entre a afirmação da individualidade e as forças
sociais que direcionam o sujeito para diferentes formas de normalização já fora
apontado por Rousseau como um dos signos da modernidade. Gera-se uma
sensação de estranhamento, cada vez mais evidente com o crescente
processo de urbanização, que vem ocasionar mecanismos compensatórios ao
longo dos dois últimos séculos.
A estrutura social emergente dessas mudanças não oferecerá ao processo de
individualização condutos abertos para a vida coletiva. Tornada menos móvel e
mais estranha, como um mecanismo alheio à consciência, atrofiando a
individualização à falta de reajustamentos internos, a vida coletiva contribuirá
para a alienação, a introjeção, a subjetividade e a introversão das energias
sublimadoras. (NUNES in GUINSBURG, 2005, p. 55)
Para Rousseau, a posição titubeante entre o ser e o parecer, na qual o
indivíduo moderno é permanentemente colocado, equivale ao resultado dessas
forças que, mesmo ainda em florescimento na época do filósofo suíço,
produziam conseqüências aparentes. Assim, o ser humano desvinculado de
sua natureza primária é inserido em um ambiente repleto de discursos e
dispositivos coercitivos que buscam moldar padrões de comportamento e
pensamento. Ainda que esse processo jamais seja tranqüilo e completamente
acabado, é preciso reconhecer na modernidade uma constante tentativa de
homogeneização.
Já não se ousa parecer o que se é; e nessa sujeição perpétua, os homens que
formam esse rebanho que se chama sociedade, colocados nas mesmas
circunstâncias, farão todos as mesmas coisas, se motivos mais poderosos
delas não os desviam. Portanto, jamais se saberá bem com quem se trata [...]
Que cortejo de vícios não acompanhará essa incerteza? Não mais amizades
sinceras; não mais estima real; não mais confiança fundada. As suspeitas, as
desconfianças, os temores, a frieza, a reserva, o ódio, a traição serão
ocultados incessantemente sob esse véu uniforme e pérfido da polidez, sob
essa urbanidade tão louvada que devemos às luzes de nosso século.
(ROUSSEAU apud STAROBINSKI, 1991, p. 17)
É de postulados como esse que o imaginário de muitos românticos se
alimentou, produzindo obras que problematizaram as relações sociais
modernas e utilizaram o herói romântico como uma figura contestadora em sua
sofrimentos do jovem Werther, ambos de autoria de Johann Wolfgang von
Goethe. Não obstante o autor jamais ter participado do movimento romântico,
sua obra foi recebida como tal pelos diferentes Romantismos nacionais no
exterior, justamente por partilhar traços importantes com aqueles seus
contemporâneos.
A primeira obra é amplamente utilizada por Marshall Berman em suas
teorizações
30como um símbolo das transformações modernas e de uma nova
forma de consciência humana.
O Fausto começa num período cujo pensamento e sensibilidade os leitores do
século XX reconhecem imediatamente como modernos, mas cujas condições
materiais e sociais são ainda medievais; a obra termina em meio às conturbações
espirituais e materiais de uma revolução industrial. Ele principia no recolhimento
do quarto de um intelectual, no abstrato e isolado reino do pensamento; e acaba
em meio a um imensurável reino de produção e troca, gerido por gigantescas
corporações e complexas organizações, que o pensamento de Fausto ajuda a criar
e que, por sua vez, lhe permitem criar outras mais. Na versão goethiana do tema
do Fausto, o sujeito e objeto de transformação não é apenas o herói, mas o
mundo inteiro. O Fausto de Goethe expressa e dramatiza o processo pelo
qual, no fim do século XVIII e início do seguinte, um sistema mundial
especificamente moderno vem à luz. (BERMAN, 1986, p. 39-40)
Já no segundo romance citado, a atitude do jovem protagonista de se
retirar da realidade burguesa a que pertence e se refugiar em uma vida
bucólica, contemplativa e cercada pelos clássicos gregos pode ser entendida
como um desejo de introspecção e de reencontro da personagem consigo
mesma, ação aparentemente potencializada pelo afastamento do centro
urbano. Nesse sentido, a solidão e a apreciação do simbolismo natural se
apresentam como caminhos viáveis para a recuperação de uma sensibilidade
que repousa no íntimo do próprio indivíduo e delineia sua identidade.
Minha alma inunda-se de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se
com a das doces manhãs primaveris que procuro fruir com todas as minhas
forças. Estou só e abandono-me à alegria de viver nesta região criada para
as almas iguais à minha. Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modo
mergulhado no tranqüilo sentimento da minha própria existência, que esqueci
a minha arte. Neste momento, ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais
simples; e, no entanto, nunca fui tão grande pintor. (GOETHE, 2002, p.
222-223)
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