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Modernidade, pós-modernidade e hipermodernidade

O debate que se faz em torno da inauguração de um novo paradigma (o pós- moderno), que não é consenso entre os estudiosos e pesquisadores como Giddens (1991) e Maffesoli (1994), deve ser feito sempre com vistas a um entendimento da realidade que nos cerca, independentemente de posicionamento ideológico.

Para Santos (1995), a construção do paradigma da modernidade ocorre entre o Século XVI e o final do Século XVIII, coincidindo com a instauração do modo de produção capitalista. Seguido deste momento, passa-se do final da década de 1960 até os dias de hoje, quando se tem o capitalismo desorganizado ou financeiro. Para alguns autores, como Castells (2003), o momento atual pode ser concebido como a fase do capitalismo informacional.

O conceito da pós-modernidade se instaurou, de fato, em meados do Século XX. Como o próprio termo sugere, indica um estado temporal posterior à modernidade e implicam transformações nos diversos âmbitos sociais e do pensamento, provenientes da emergência das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) e do ciberespaço. Para Lyon (1998, p.17), são aspectos recorrentes da pós-modernidade “a proeminência das Tecnologias da Informação e da Comunicação, facilitando extensões maiores, como a globalização e o consumerismo, talvez enclipsando a centralidade convencional da produção”.

Para dar conta dessas mudanças, tanto Nicolescu (1999) quanto Morin (2000) apontam que o pensamento complexo e a transdisciplinaridade são os possíveis caminhos nesta nova empreitada. O pensamento complexo é aquele que une e distingue: “apto a unir, contextualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo reconhecer o singular, o individual e o concreto”. (MORIN, 2000, p.36)

Segundo Santos (1994), o conceito pós-moderno foi empregado pela primeira vez pelo historiador Arnold Tonybee, em 1947, e aplicado por sociólogos norte-americanos para explicar as mudanças sociais da época, que denominavam como era da pós- industrialização, mobilizada pelo consumo e pela informação em que a maior parte da força de trabalho estaria manipulando signos nos setores de serviços e técnico-científicos. De acordo com o autor, a aplicação do conceito, em plena modernidade, foi equivocada à época, mas era como se fosse uma previsão de percurso para o ambiente pós-moderno:

Significa basicamente isso: entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação (...) codificar e manipular o conhecimento e a informação na lógica 0/1 é vital para as sociedades pós-industriais, também chamadas sociedades programadas, onde cada serviço tem uma tela e teclado com dígitos para você operar”. (SANTOS, 1994, p. 13; 25)

Para Dreyff (1962 apud Breton, 1991), acertadamente, as TICs modificaram a natureza das instituições do conhecimento, uma vez que modifica a natureza dos produtos de informação e conhecimento – livros, jornais, revistas, fotografias, gravações sonoras etc – diferenciando esses objetos tal como eles foram concebidos e propagados na modernidade. Considero a possibilidade de estender a abordagem dos autores à comunicação organizacional contemporânea, pela emergência de novos produtos internos e externos de organizações que se fazem presentes no ciberespaço. Inclusive porque os grandes norteadores desse debate são também as noções de tempo e espaço. Se na modernidade o tempo era linear e o espaço algo que devia ser explorado (tinha forma, volume, distância etc.), na pós-modernidade impera o imediatismo no tratamento informacional, a compressão do tempo-espaço.

De acordo com Lojkine (1995), o tratamento da informação não é novo. Ele já existia durante a revolução industrial, porém era feito de outra maneira, seguindo outros propósitos. A compartimentalização da informação era um dos tratamentos. A informação passava por estágios de pré-seleção como se atravessasse um funil. Mas, é a partir do momento em que o trabalho passa a ser compartimentado pelas redes de computadores que a arquitetura organizacional é revolucionada, definida agora pelo tratamento

inteligente da informação que vai alterar a antiga e rígida estrutura homem-máquina- produto.

Tal processo ocorre em duas vias: primeira, a máquina não se traduz mais como mero suporte de força, mas sim como um reprodutor da inteligência. Trata-se de algo por meio do qual o indivíduo pode dialogar com base em informações emitidas. Segunda via: o produto da relação é, pois, de natureza imaterial – a informação.

Por fim, as relações sujeito-meio e material-produto são substituídas pela relação sujeito-sujeito. Apesar de todas as alterações e esforços, cabe ressaltar que a estrutura organizacional antiga resiste (e co-existe) durante um bom tempo. As redes informacionais não conseguiram a dupla compartimentalização organizacional proveniente da revolução industrial: setorial e hierárquica.

Ainda para Lojkine (1995), o tratamento inteligente da informação acaba por desenvolver-se e logo os sistemas inteligentes passam a fazer parte do cotidiano das empresas. Os sistemas inteligentes são também chamados sistemas abertos e, diferentemente do sistema autômato do conhecimento, privilegiam o indivíduo. Enquanto o sistema autômato pregava a substituição do cérebro humano pela máquina, o sistema inteligente só é possível mediante um sistema dialógico entre sujeitos, mediado pela máquina.

Nesse contexto, reconhece-se o feedback da cibernética de Wiener (apud LOJKINE, 1995), que permite readequação e auto-organização, considerando que os sistemas inteligentes possibilitam a objetivação de atividades humanas como a capacidade de análise, cálculo, diagnóstico etc.

Um grande fenômeno emergente do ciberespaço na pós-modernidade, segundo Amstel (2007) é a “etiquetagem social”, uma prática realizada em plataformas colaborativas e disponíveis a partir de serviços na Web 2.0. Cada usuário cria uma conta pessoal e somente ele pode editá-la, ou seja, excluir algo existente, incluir novos caminhos, descrever as páginas ou qualquer recurso preferido e atribuir descritores, isto é, etiquetar seus conteúdos para que possa localizá-los futuramente. “Esse tipo de serviço está em rede, de modo que o usuário pode acessar sua conta, suas fotos, seus vídeos ou suas músicas, independentemente do programa de navegação que utilize e de qualquer local de onde tenha acesso à rede”. O fenômeno de “etiquetagem social” também é denominado pelo autor como “Folksonomia”, termo, segundo ele, cunhado por Thomas Vander Wal, em 2004, em uma lista de discussão sobre “Arquitetura da Informação”.

De acordo com Weinberger (2007, p.92), o “Del.icio.us” é site pioneiro nesse tipo de atividade e foi criado em 2003 por Joshua Schachter, que também inovou uma outra idéia, tornou públicas as listas de favoritos dos usuários do serviço. Esse site se caracteriza como comunidade virtual, pois apesar de pessoal, o conteúdo da lista é compartilhado com a comunidade formada pelo total de usuários do serviço e a comunidade também compartilha suas listas com os demais usuários do ciberespaço. A fixação de Schachter por tags7, segundo o autor, surgiu de uma necessidade pessoal, pois para ele o “Del.icio.us” (antes denominado “Muxway”) é um “sistema amplificado para sua memória de sites”. Hoje o site é de propriedade do Yahoo! (site de relacionamento e de mensagens instantâneas).

Alguns autores argumentam, no entanto, que na atualidade ainda estamos vivendo um momento de transição. Santos (2000), por exemplo, considera que esta pós- modernidade que estamos vivenciando é ainda uma transição paradigmática que se apresenta com várias dimensões e que evoluem em ritmos desiguais. O autor distingue duas dimensões principais dentro desta transição: a epistemológica e a societal, e, para ele, cada uma delas nos oferece uma multiplicidade de análises. Já Maffesoli (1987) defende a tese de que estamos entrando em um novo paradigma cultural deixando para trás os traços da chamada modernidade, onde se destacaram a estrutura mecânica, a organização econômica e política, os indivíduos e os grupos contratuais.

A proposta de Maffesoli (2000, p.50) é de que esse novo paradigma venha substituir o paradigma do individualismo na compreensão da sociedade contemporânea, pois ele “está baseado na necessidade de solidariedade e de proteção que caracterizam o conjunto social”. Para o autor, os homens estariam (re) entrando numa nova “fase tribal”, adotando um ponto de vista mais emotivo em relação ao mundo, dando lugar ao prazer e à emoção, resgatando uma sensibilidade diferente entre as novas gerações. Dessa forma, a metáfora da tribo da qual o autor se utiliza permite dar conta do processo de desindividualização e da valorização do papel que cada pessoa (persona) é chamada a representar dentro da tribo. “Essas novas tribos são caracterizadas pela fluidez, pelos ajuntamentos pontuais e pela dispersão”. (MAFFESOLI, 1987).

Independente das posições de Santos (2000) e Maffesoli (1987), a pós-modernidade se revela no cenário da Web 2.0, e o ciberespaço apresenta-se como temporalidade - da informação e conhecimento – distinta da modernidade dada a ruptura de paradigmas

“organização clássica do conhecimento” para “organização virtual do conhecimento no ciberespaço”, ou seja, “a desmaterialização e desterritorialização das obras e dos signos” (FERREIRA, 2004).

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