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Os monopólios do poder no mercado de periódicos científicos

Anos 30 Iniciativa consorciada de compra de periódicos do Triangle Research

6.4.4. Os monopólios do poder no mercado de periódicos científicos

Um aspecto pouco abordado nos estudos sobre políticas de desenvolvimento de coleções é como as atividades dos agentes distribuidores e grandes editores e suas respectivas metas comerciais, envolvendo controle monopolístico e aumento de mercados relaciona-se com as dificuldades encontradas nas atividades de seleção e compra de periódicos científicos. Poucos são os artigos que abordam diretamente a questão. Uma exceção são os estudos de Schauder (1994) e sobretudo Meyer (1997).

Meyer aprofunda-se em suas pesquisas sobre a questão dos monopólios e busca arrolar algumas das razões para o problema do ponto de vista econômico, atrelado a questão do crescimento de custos para bibliotecas e, indiretamente, atividades consorciadas. Sem dúvida, a inflação é um sério problema pois sua taxa de crescimento excede a habilidade das bibliotecas em lidar com isto. Diversas análises foram feitas buscando solucionar este problema, como os estudos de Lewis (1989); Kingma & Eppard (1992); e Gossen & Irving (1995), os quais apontaram como soluções: “… subsídios federais, reclamações a fornecedores, aumento da taxa de serviços de fotocópias, convencimento de administradores

de universidades e instituições para incremento dos orçamentos de bibliotecas, e mudança do acesso versus a posse”.

Mas será a inflação e os altos custos praticados pelos agentes distribuidores o único componente dessa história de “vilões” ? Tudo indica que não. Conforme aponta Meyer em seu estudo (1997: 327), “infelizmente para bibliotecas, a demanda de usuários para qualquer que seja um dado periódico acadêmico é comumente inelástica”. O autor ainda define inelasticidade como sendo,

um termo econômico que descreve a inclinação da função demanda. Em um gráfico onde o eixo vertical representa o preço e o eixo horizontal representa a quantidade, a demanda declina-se com o acréscimo quantitativo. Funções da demanda muito inelásticas são aproximadamente verticais. Como os preços sobem, a demanda oscila muito pouco. Funções da demanda altamente elásticas são próximas da linha horizontal. Muito baixo cescimento nos preços resulta em uma significante variação da demanda.

O atributo da elasticidade é muito importante então para entendermos as variações da demanda em função da oscilação de preços praticados no mercado de periódicos científicos. Seguindo o raciocínio de Meyer (1997), sobre a inelasticidade da demanda e o jogo exercido pelos detentores dos monopólios no mercado,

novas pesquisas podem confirmar que grandes editores estão hábeis para reter os monopólios do poder com as contrapartes eletrônicas de seus periódicos científicos. Um trabalho usando um modelo alternativo tem examinado a possibilidade de que grandes editores exercitam o monopólio do poder no estabelecimento de preços. A teoria prediz que em um mercado competitivo, sempre quando é caracterizada uma competição como monopolística, o preço oferecido a usuários individuais será elástico. Por substituição da medição do monopólio do poder pelo papel dos preços, tem sido mostrado que grandes editores têm alguma habilidade para influenciar os preços através da discriminação dos mesmos. (…) Havendo um aumento dos preços para indivíduos, alguns ou muitos (grifo meu) deles cancelarão suas assinaturas pagas de próprio bolso em favor do acesso eletrônico pela biblioteca. Isto é, o preço de periódicos para indivíduos é uma determinante da demanda de acesso eletrônico nas bibliotecas (Cf. CHRESSANTHIS & CHRESSANTHIS, 1993) Por outro lado, para analisarmos a questão dos monópolios da indústria de publicações científicas sob um espectro mais amplo – cujos atores são aqui também denominados information players, é oportuna a definição dada por Mello (1999: 173) a partir da definição de Marx (1965: 116) para monopólios :

O movimento de concentração de capital deságua, lógica e historicamente, na centralização de capitais, o que demarca um novo patamar da luta concorrencial entre capitais individuais, agora sempre mais robustos e agigantados: sua nova fase monopolista. Tal é a lei tendencial de evolução do capitalismo. Com o monopólio, redesenha-se o mercado mundial e a geopolítica de todo o sistema global na razão direta da busca, pelo grande capital (industrial / financeiro), de novas fontes de oxigenação… (…) O monopólio é uma nova escalada do processo de concentração e centralização do capital. Por isso, não é fórmula, e sim movimento: “o monopólio produz a concorrênca, a concorrência produz o monopólio. Os monopolistas fazem entre si a concorrência, os concorrentes tornam-se monopolistas. Se os monopolistas restringem a concorrência entre si por meio de associações parciais, a concorrência aumenta entre os operários; e quanto mais a a massa dos proletários cresce em face dos monopolistas de uma nação, mais desenfreada se torna a concorrência entre os monopolistas das diferentes nações. A síntese é tal, que o monopólio apenas pode manter-se passando continuamente pela luta da concorrência”

E há ainda uma outra definição clássica a respeito das holdings operando no mercado, extraída da Encyclopédia Britannica (2002). Nela as holdings são

(…) corporações que possuem ações votantes o suficiente em uma ou mais outras empresas para exercer o controle sobre elas. Uma empresa ou corporação que existe exclusivamente com esta proposta (compra de ações de outras) é chamada de empresa holding pura, enquanto uma que também se engaja em algum ramo de negócios é chamada uma "empresa operando em holding".

Como muito bem expôs Mello (1999: 172), ao contrário do que muitos argumentam,

a concorrência econômica não é [a princípio] o contrário de uma ordem monopolista, como observa corretamente Norbert Elias. Apenas que, pela própria dinâmica contraditória do movimento de acumulação do capital, ‘esta concorrência transcende seus próprios limites e se converte em seu contrário’.13

No texto, o autor deixa evidente como estão cada vez mais pautadas as relações comerciais globalizadas pela formação de grandes conglomerados monopolistas – em todos os segmentos de mercados – e a “falsa” existência de uma concorrência, que somente o é por converter-se em seu contrário e por acirrar a disputa na outra ponta das relações sociais

existentes: a da grande massa de trabalhadores assalariados por empregos, cada vez em menor número.

Buscando explicitar a existência desses oligopólios, os gráficos a seguir apresentam um resumo esquemático do mercado de publicações científicas atuantes no Brasil e que comercializam inclusive bases de dados bibliográficas. Por meio da leitura de relatórios financeiros anuais e parciais, da revisão de literatura, e de contatos com diversos colegas bibliotecários, foi possível colher informações que comprovam a existência de dois grandes oligopólios do poder(os information global players), atuantes também em diversos mercados espalhados pelo mundo, os quais controlam a quase totalidade do mercado local (mercado brasileiro) de produtos informacionais para bibliotecas especializadas e universitárias: o monopólio da empresa Wolters Kluwer, com sede na Holanda, e o da Thompson Corporation, com sede nos Estados Unidos. A Wolters Kluwer foi formada em 1987, pela junção da Wolters Samsom com a Kluwer, após tentativa de compra pela Elsevier, no mesmo ano, das ações da Kluwer.