Movendo-se no mundo x o mundo que se move

No documento Globalização: As consequências humanas (páginas 80-84)

As consequências culturais e psicológicas da polarização são enormes.

No Guardian de 10 de novembro de 1997, Larry Elliott cita Diane Coyle, autora de The Weightless World, que discorre sobre os prazeres que pessoalmente lhe proporciona o flexível e admirável mundo novo da computação eletrônica com sua alta velocidade e mobilidade: “Para pessoas

como eu, uma economista e jornalista, instruída e bem paga, com uma dose de espírito empreendedor, a nova flexibilidade do mercado de trabalho do Reino Unido revelou oportunidades maravilhosas.” Mas alguns parágrafos adiante a mesma autora admite que para “pessoas sem qualificações condizentes, sem os adequados recursos de família ou economias suficientes, a crescente flexibilidade acaba significando uma exploração ainda maior pelos empregadores …” Coyle diz que o recente alerta de Lester Thurow e Robert Reich sobre o perigo crescente do abismo social cada vez maior nos EUA entre “uma rica elite enfurnada em condomínios vigiados” e “uma maioria sem trabalho e empobrecida” não deveria ser tratado com leviandade por aqueles que se aquecem ao sol da nova flexibilidade do mercado de trabalho britânico…

Agnes Heller conta que num dos seus voos de longa distância conheceu uma mulher de meia-idade, empregada de uma empresa de comércio internacional, que falava cinco línguas e possuía três apartamentos em três lugares diferentes.

Ela migra constantemente entre diversos lugares e sempre está para cima e para baixo. E faz isso por conta própria, não como membro de uma comunidade qualquer, embora muitas pessoas façam como ela … O tipo de cultura de que participa não é a cultura de um determinado lugar, mas a de um tempo. É a cultura do presente absoluto.

Sigamos com ela em suas constantes viagens de Cingapura para Hong Kong, Londres, Estocolmo, New Hampshire, Tóquio, Praga e assim por diante. Sempre se hospeda no mesmo hotel Hilton, come o mesmo sanduíche de atum no almoço ou, se preferir, comida chinesa em Paris e comida francesa em Hong Kong. Usa o mesmo tipo de fax, telefone e computador em todo lugar, vê sempre os mesmos filmes e discute os mesmos problemas com o mesmo tipo de gente.

Agnes Heller, uma globetrotter acadêmica como muitos de nós, acha fácil simpatizar com a experiência de sua anônima companheira de viagem.

E acrescenta, em causa própria: “Mesmo universidades estrangeiras não são estrangeiras. Depois que se dá uma conferência, pode-se esperar as mesmas perguntas em Cingapura, Tóquio, Paris ou Manchester. Não são lugares estrangeiros nem são a terra da gente.” A companheira de viagem de Agnes Heller não tem residência fixa, mas nem por isso se sente desterrada. Onde quer que vá sente-se à vontade. “Por exemplo, sabe onde fica o interruptor elétrico, já conhece o cardápio, sabe interpretar os gestos e alusões, compreende os outros sem maiores explicações.”6

Jeremy Seabrook fala de outra mulher, Michelle, de um distrito vizinho:

Aos 15 seu cabelo era num dia ruivo, no outro louro, depois preto, em seguida eriçado em estilo afro, logo cortado em caminhos de rato, aí entrançado, então raspado rente ao crânio, cintilante … A cor de seus lábios era escarlate, depois púrpura, em seguida preta. O rosto ia de uma palidez de fantasma ao tom de pêssego, ficando depois bronzeado como se tivesse sido banhado em metal. Perseguida por sonhos de fuga, saiu de casa aos 16 para viver com o namorado, que tinha 26 …

Aos 18 voltou para a casa da mãe, com dois filhos … Sentou-se no quarto de onde fugira três anos antes, agora com as antigas fotos de astros pop já desbotadas nas paredes. Disse que se sentia como uma velha de cem anos. Experimentou tudo o que aquela vida podia oferecer. Nada mais restava.7

A companheira de viagem de Agnes Heller vive num lar imaginário de que não precisa e que portanto não importa que seja imaginário. A conhecida de Seabrook empreende escapadas imaginárias da casa que rejeita como ridiculamente real. A qualidade virtual do espaço serve a ambas, mas a cada uma oferece serviços diferentes e com resultados marcadamente diversos. À companheira de viagem de Agnes Heller ajuda a dissolver quaisquer restrições que uma casa real poderia impor, ou seja, a desmaterializar o espaço sem expô-la aos desconfortos e ansiedades da falta de um lar. Para a vizinha de Seabrook ele ressalta o espantoso e abominável poder de uma casa que se transforma em prisão, ou seja, decompõe o tempo. A primeira experiência é vivida como liberdade pós-moderna. A segunda, estranhamente, mais parece a versão pós-moderna da escravidão.

A primeira experiência dá o paradigma do turista (e não importa que a viagem seja a trabalho ou de lazer). Os turistas tornam-se andarilhos e colocam os sonhos agridoces da saudade acima dos confortos do lar — porque assim o querem ou porque consideram essa a estratégia de vida mais racional “nas circunstâncias” ou porque foram seduzidos pelos prazeres reais ou imaginários de uma vida hedonística.

Mas nem todos os andarilhos estão em movimento por preferirem isso a ficar parados ou porque querem ir aonde vão. Muitos talvez preferissem ir a outros lugares ou mesmo não ter uma vida nômade — se pudessem escolher; mas, para começo de conversa, não lhes deram opção. Se estão se movendo é porque “ficar em casa” num mundo feito sob medida para o turista parece humilhante e enfadonho e, de qualquer modo, a longo prazo não parece uma proposta factível. Estão se movendo porque foram empurrados — tendo sido primeiro desenraizados do lugar sem perspectivas por uma força sedutora ou propulsora poderosa demais e muitas vezes misteriosa demais para resistir. Para eles, essa angustiante situação é tudo, menos liberdade. Esses são os vagabundos, escuras luas errantes que

refletem o brilho luminoso do sol dos turistas e seguindo placidamente a órbita dos planetas: são os mutantes da evolução pós-moderna, os rejeitos monstruosos da admirável espécie nova. Os vagabundos são o refugo de um mundo que se dedica ao serviço dos turistas.

Os turistas ficam ou se vão a seu bel-prazer. Deixam um lugar quando novas oportunidades ainda não experimentadas acenam de outra parte. Os vagabundos sabem que não ficarão muito tempo num lugar, por mais que o desejem, pois provavelmente em nenhum lugar onde pousem serão bem-recebidos. Os turistas se movem porque acham o mundo a seu alcance (global) irresistivelmente atraente. Os vagabundos se movem porque acham o mundo a seu alcance (local) insuportavelmente inóspito. Os turistas viajam porque querem; os vagabundos porque não têm outra opção suportável. Pode-se dizer que os vagabundos são turistas involuntários; mas a noção de “turista involuntário” é uma contradição em termos. Por mais que a estratégia do turista possa ser uma necessidade num mundo marcado por muros e estradas móveis, a liberdade de escolha é a carne e o sangue do turista. Tire-a e a atração, a poesia e mesmo a suportabilidade da vida do turista se vão inteiramente.

O que se aclama hoje como “globalização” gira em função dos sonhos e desejos dos turistas. Seu efeito secundário — colateral mas inevitável — é a transformação de muitos outros em vagabundos. Vagabundos são viajantes aos quais se recusa o direito de serem turistas. Não se permite nem que fiquem parados (não há lugar que lhes garanta permanência, um fim para a indesejável mobilidade) nem que procurem um lugar melhor para ficar.

Uma vez liberado do espaço, o capital não precisa mais da mão de obra itinerante (enquanto sua mais avançada e emancipada vanguarda high-tech sequer precisa de mão de obra alguma, móvel ou fixa). E assim a pressão para derrubar as últimas barreiras ao livre movimento do dinheiro e das mercadorias e informação que rendem dinheiro anda de mãos dadas com a pressão para cavar novos fossos e erigir novas muralhas (chamadas de leis de “imigração” ou de “nacionalidade”) que barrem o movimento daqueles que em consequência perdem, física ou espiritualmente, suas raízes.8 Sinal verde para os turistas, sinal vermelho para os vagabundos. A localização forçada preserva a seletividade natural dos efeitos globalizantes.

Amplamente notada e cada vez mais preocupante, a polarização do mundo

e de sua população não é uma interferência externa, estranha, perturbadora, um entrave ao processo de globalização — é efeito dele.

Não há turistas sem vagabundos e os turistas não podem ficar à solta se os vagabundos não forem presos…

No documento Globalização: As consequências humanas (páginas 80-84)