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Movimento e a Atividade Principal da Criança

Vimos que atividade principal é aquela cujo desenvolvimento governa as principais mudanças nos processos psíquicos e na personalidade da criança em um determinado estádio de seu desenvolvimento.

No período pré-escolar, a atividade principal da criança é a brincadeira. A brincadeira é um tipo de atividade caracterizado por uma estrutura tal que o motivo está no próprio processo e não no resultado da ação. Por exemplo, para uma criança que está brincando com cubos de madeira o alvo da brincadeira não consiste em construir uma estrutura, mas em fazer, isto é, no conteúdo da própria ação (LEONTIEV, 2001).

A brincadeira é uma atividade que se realiza por meio de ações, por exemplo, uma criança ao iniciar uma brincadeira, coloca um pano nas costas para se fingir de super-herói. Esse colocar um pano nas costas é uma ação, e essa ação implica uma série de movimentos. Assim, podemos dizer que o Movimento é conteúdo da brincadeira.

O desenvolvimento do movimento infantil não ocorre de forma isolada, pelo contrário, o movimento é um componente da brincadeira e adquire sentido no contexto das atividades da criança.

Para ressaltar essa questão, LEONTIEV (2001) apresenta, como exemplo, a brincadeira do quartel general. Essa brincadeira consistia em transmitir uma mensagem secreta ao comandante no quartel-general. O professor cochichava a mensagem no ouvido da criança e essa deveria executar a missão secreta. Para a realização dessa atividade foram chamadas crianças de diferentes idades. As crianças menores quando eram chamadas para transmitirem a mensagem, elas não prestavam a atenção nas palavras do professor, para elas o importante era correr até o quartel general e cochichar qualquer coisa no ouvido do comandante. Por isso, na maioria das vezes, as crianças pequenas corriam apressadamente para executar a missão sem mesmo terminar de ouvi-la. Já as crianças mais velhas se comportavam de forma diferente. Elas não apenas ouviam a mensagem, como também tentavam decorá-la movendo os lábios enquanto ouviam a mensagem ou repetindo para si mesma durante o trajeto para o quartel general. Se alguém tentasse falar com elas enquanto estavam correndo com a mensagem, as crianças sacudiam a cabeça e se apressavam.

Esse exemplo mostra que para as crianças menores o que dava sentido às suas ações era o movimento de correr de um lado para o outro para cochichar no ouvido do

comandante, pois a intenção das crianças era participar da atividade e para elas os movimentos de correr e cochichar já davam sentido à brincadeira.

No caso das crianças maiores, elas perceberam que o problema central da brincadeira era transmitir a mensagem. Então, além da ação de correr e chegar até o outro lado, tinha ainda a ação de memorização da mensagem.

Podemos notar, em ambos os casos, que dentro do contexto da brincadeira, encontramos ações com conteúdos diferenciados. O Movimento faz parte da atividade principal da criança, porém, dependendo da idade ele é o principal elemento da brincadeira e em outras idades ele torna-se secundário.

O Movimento do ponto de vista histórico-cultural de VYGOTSKY, só tem sentido inserido em categorias maiores, ou seja, o movimento se insere no contexto de uma ação que, por sua vez, se insere no contexto de uma atividade. Portanto, o Movimento sendo trabalhado de forma intencional e dando sentido para as ações, torna-se uma categoria central no desenvolvimento da atividade da criança.

Segundo MELLO (2001, p.77) “a fase de pré-escola constitui-se em um

marco na vida da criança. É o período em que ela abandona a segurança do lar para viver experiências novas que irão acompanhá-la por toda a vida”. Por isso, acreditamos que

uma educação consciente dessa mudança e atenta a ela, deverá proporcionar condições às crianças para que se desenvolvam integralmente. Para isso, o professor deve implementar ações mais intencionais na sua prática pedagógica, exercendo o seu papel de mediador.

Sabemos que o Movimento adquire sentido no contexto da atividade principal da criança, que é a brincadeira. Dessa forma, o professor ao analisar a atividade da criança e o sentido dos movimentos executados por ela, poderá direcionar essa atividade,

criando várias possibilidades para as crianças brincarem, colocando à disposição das crianças um grande elenco de materiais, aproveitando elementos que estão presentes no próprio ambiente, equilibrando as atividades dirigidas e as atividades espontâneas, alternando atividades individuais e em grupo e, principalmente, buscando criar novas necessidades (MELLO, 2001).

Quando falamos que o professor deve direcionar a atividade, não queremos dizer que o professor deve conduzir a atividade da criança para que ela realize uma atividade pré-determinada ou que dê continuidade a uma atividade espontânea que já foi iniciada. Mas sim que, intencionalmente, o professor busque inserir a sua ação na atividade da criança para que essa atividade, uma vez mediada, se torne uma atividade educativa, ou seja, que promova o desenvolvimento da criança a partir da atividade principal daquela faixa etária e não a partir de atividades externas que não têm sentido para ela.

A seguir, apresentaremos a importância do Movimento no desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos de idade a partir da visão biopsicossocial de WALLON (1968) e da visão histórico-cultural de MUKHINA (1996) e seus precursores.

Focalizaremos o desenvolvimento das crianças pequenas em três períodos: primeiro ano de vida, primeira infância e idade pré-escolar.

Gostaríamos de esclarecer que esses períodos não são normas absolutas, apenas os subdividimos para uma melhor visualização, pois essa seqüência de desenvolvimento infantil pode variar de acordo com o autor.