Ao nascimento e durante os primeiros tempos de vida, o bébé humano não possui a possibilidade de executar movimentos voluntários. Esta não é uma realidade comum a todos os mamíferos e muito menos a todas as espécies, mas parece ser uma consequência do nosso percurso evolucionário. Os nossos bebés nascem numa fase de crescimento e maturação do sistema nervoso, esquelético e muscular, que ainda não permite a execução de movimentos complexos. Por exemplo a cria dos mamíferos ruminantes (vacas, girafas, cavalos, etc) são capazes de se deslocarem de forma quase imediata após o nascimento, suportando-se nas quatro patas. Já o bebé humano parece nascer aparentemente desprotegido e precisando dos cuidados da mãe para a imediata sobrevivência.
De fato não será tanto assim (ou não terá sido sempre assim na nossa história evolutiva), e os nossos bebés vêm “equipados” com alguns movimentos que permitem a sua sobrevivência imediata no novo meio. Durante nove meses o bebé viveu em meio líquido, alimentou-se e respirou através da placenta. Ao nascimento passa a ter de respirar pelos próprios meios e a ingerir alimento pelo tubo digestivo, e para isto torna-se imprescindível possuir reflexos que não só o permitam, como o auxiliem. Alguns desses reflexos (como o de respirar, salivar, chorar, vomitar, defecar, engolir / deglutir, tossir, respirar, etc) vão manter-se ao longo de toda a vida, mas existem outros que apenas existem durante os primeiros meses de vida e a que chamamos movimentos reflexos infantis (MRI).
Os movimentos reflexos infantis são observados nos bebés ainda durante a vida fetal e consistem numa resposta motora involuntária e estereotipada (sempre igual no mesmo indivíduo, e em todos os indivíduos) a um estímulo conhecido e determinado. Distinguem-se dos reflexos normais por existirem apenas durante o período da infância - em oposição aos outros reflexos que se mantêm por toda a vida – e por sermos capazes de identificar com algum rigor o momento em que aparecem e desaparecem.
Assim, e do ponto de vista de utilidade ontogenética (história de desenvolvimento do indivíduo), os MRI cumprem um papel determinante imediato para a sobrevivência imediata do recém- nascido, mas também como “facilitador” de movimentos que vão permitir o desenvolvimento do
189 sistema neuromuscular. Incapaz de movimentos voluntários, a estrutura neuromuscular do recém-nascido necessita deste “jogo” entre a experimentação e a sensação do movimento para completar os processos maturativos que permitirão o domínio cortical e voluntário (Kathleen. Haywood & Getchell, 2001).
Por definição, um movimento reflexo é desencadeado sem qualquer intervenção dos níveis cerebrais superiores (corticais), e por isso é completamente involuntário. Desencadeada por um estímulo determinado, a resposta reflexa é localizada apenas ao nível medular, naquilo que é designado por arco reflexo. Normalmente, este tipo de reflexos ocorrem durante toda a vida e desempenham um papel essencial na defesa da integridade corporal (reflexos de defesa) e na regulação da tonicidade muscular. Exemplo típico é o do reflexo miotático. Este reflexo, que no quadricípede crural se denomina de reflexo rotuliano, é o responsável pela bem conhecida reacção de extensão brusca do joelho após a estimulação (pancada) do tendão abaixo da rótula (imagem ao lado)
Estes movimentos reflexos infantis apresentam formas muito variadas, o que por vezes provocou (e provoca) o espanto de quem os observa. Exemplo aparentemente simples é o do reflexo de busca: quando tocada na face, o bebé vira a cabeça e procura com a boca na direcção do estímulo. Parece óbvia a vantagem de tal acção para um bebé que tem na necessidade de alimentação um dos seus maiores desafios, e que assim consegue encontrar a origem do alimento (a mama da mãe).
Já o reflexo de preensão parece constituir um movimento mais intrigante. Quando se toca na palma da mão do bebé, este fecha a mão à volta do objecto, por vezes agarrando com força suficiente para poder segurar o peso do próprio corpo. Ou ainda o reflexo da marcha, que desencadeia o movimento de andar da criança quando é segura em posição vertical e contacta com a planta dos pés na superfície. Os MRI podem ser divididos ou classificados em Primitivos ou de Sobrevivência; Posturais; e Locomotores (ver quadro 1).
Os MRI Primitivos ou de Sobrevivência estão estabelecidos ao nascimento e são fundamentais para a sobrevivência imediata do recém-nascido da espécie humana, desaparecendo durante os
primeiros seis meses de vida (Carl. Gabbard, 2004). Nesta tipologia de MRI juntam-se aqueles que se ligam diretamente com as necessidades de alimentação (buscar, amar, deglutir, etc); os de defesa contra o meio (ex: reflexo de fecho da glote que impede a entrada de água nos pulmões,
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permitindo a imersão da cabeça em meio líquido); bem como alguns outros que são interpretados como reminiscentes de necessidades filogenéticas antigas da raça humana ou dos seus percursores (exemplo destes é o reflexo de preensão que poderia servir para o recém- nascido se poder agarrar à mãe em caso de fuga, como ainda sucede nos nossos “parentes” distantes, chimpanzés).
Os MRI Posturais são essencialmente responsáveis por fornecer ao bebé a possibilidade de reagir à gravidade e a mudanças no equilíbrio e posição, garantindo assim a mobilização dos músculos axiais que serão responsáveis pelas posturas (Carl. Gabbard, 2004). Em alguns casos, como no reflexo de endireitamento da cabeça, estes movimentos parecem também ser importantes para evitar a obstrução das vias respiratórias do bebé. São ainda classificados como posturais, MRI cuja origem poderá também ser longínqua no nosso percurso filogenético e que poderão constituir movimentos de defesa como os reflexos de Moro ou de Paraquedas.
Os MRI Locomotores assemelham-se aos futuros movimentos locomotores voluntários e por isso assim são denominados por alguns autores. Poderão mais uma vez ser reminiscências do nosso passado longínquo, já que alguns deles (rastejar, natatório, etc) parecem ter como intenção a possibilidade de deslocação do corpo como aliás acontece noutros mamíferos (cão, gato, etc) que embora incapazes de marchar à nascença, são impelidos a reptar para se deslocarem e procurarem o corpo da mãe. Mais incomum e objeto de inúmera investigação (e mesmo especulação) científica, é o reflexo da marcha que parece mimetar a marcha bípede humana.
Quadro 1. Classificação dos Movimentos Reflexos Infantis
Grupos de Movimentos Reflexos Infantis Exemplos
Primitivos ou de Sobrevivência
Estão presentes ao nascimento e usualmente desaparecem até aos 6 meses de idade.
Buscar, Mamar Preensão, Babinski, Preensão plantar, Babkin
Posturais
Originam respostas posturais. Moro, Páraquedas, Endireitamento da cabeça e corpo, Labiríntico, Galant,
Locomotores
Assemelham-se aos futuros movimentos
191 Ao longo do tempo estes MRI foram sendo intensamente estudados pela comunidade científica e clínica. Percebeu-se rapidamente que eles exibiam características comuns em todas as crianças da espécie humana, nomeadamente porque era possível estabelecer um momento de aparecimento e um de desaparecimento. Ou seja para cada RMI foi possível estabelecer um tempo (de início e desaparecimento) que se apresentava comum a todas as crianças humanas com um ritmo normal de desenvolvimento. Mas mais do que isso foi possível perceber que quando esse tempo normativo não era observado numa criança isso poderia constituir indício de alteração no próprio ritmo de desenvolvimento neurológico da criança. Em casos mais graves ou extremos poderia diagnosticar situações anómalas no desenvolvimento dessa criança. Em consequência disso mesmo, a avaliação dos MRI, nomeadamente a sua existência ou inexistência, os momentos de aparecimento e desaparecimento, a sensibilidade ao estímulo, e a intensidade da resposta, passaram a fazer parte da panóplia obrigatória de avaliação clinica e desenvolvimental do recém-nascido e bébé. Mais do que isso, a observação e avaliação dos MRI são a única janela direta pela qual podemos observar o desenvolvimento da criança nas primeiras idades, e realizar um primeiro despiste que possa levar a um diagnóstico precoce de situações (eventualmente patologias) mais graves.
Figura 2. Tempo de aparecimento e desaparecimento dos MRI [adaptado de Gabbard (2004)]
A descrição rigorosa das características dos MRI permitiu ainda a elaboração de escalas de avaliação do desenvolvimento e/ou de rastreio precoce de dificuldades de desenvolvimento (ex: escala de avaliação do recém-nascido de Brazelton, http://www.brazelton-
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institute.com/intro.html ); ou da Alberta Infant Motor Scale (AIMS,
http://www.albertainfantmotorscale.com/ ) que se situa especificamente no domínio da avaliação do desenvolvimento motor.
O que caracteriza um MRI?
Involuntário – não existe qualquer participação voluntária no movimento. Universal – comum a toda a espécie humana.
Estímulo conhecido - sabemos exactamente o que o desencadeia
Resposta Estereotipada – perante o estímulo existe sempre a mesma resposta
estereotipada e igual para todos.
Período de aparecimento – conhecem-se bem quais os momentos em que aparecem e
desaparecem cada um dos reflexos motores infantis.