5.2.5 Medidas de combate previstas pela Lei 12.318/10
5.2.5.9 Mudança de domicilio e competência processual
Um critério para fixação da competência das ações que tem como base a convivência familiar
foi previsto pelo legislador no art. 8º da Lei 12.318/2010:
Art. 8º: A alteração de domicílio da criança ou adolescente é irrelevante para
a determinação da competência relacionada às ações fundadas em direito de
convivência familiar, salvo se decorrente de consenso entre os genitores ou de
decisão judicial. (Grifo nosso)
373Para a perfeita compreensão do conteúdo do artigo oitavo da Lei 12.318/2010, é imprescindível
interpretá-lo de forma sistemática em conjunto com o comando disposto no inciso seis do artigo
sexto deste mesmo dispositivo legal que, diante da configuração de qualquer quadro de
alienação parental, permite que o Poder Judiciário estabeleça o domicilio do menor por meio
de medida cautelar.
374Por força do comando disposto no inciso cinquenta e três, do artigo quinto da Carta Cidadã de
1988, apenas uma autoridade que de fato possua competência (estabelecida expressamente por
meio de lei) poderá processar ou sentenciar uma pessoa.
Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:
LIII - ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade
competente; (grifo nosso)
375As causas que tratam direta ou indiretamente do fenômeno da alienação parental visam à
proteção dos interesses de sua principal vítima: o filho menor do casal que, para o direito pátrio
é considerado como incapaz até que complete dezoito anos de idade ou que se emancipe. O
domicílio dos incapazes, segundo a dicção do parágrafo único do art. 76 do Código Civil, é o
de seu guardião (representante legal), in verbis:
Art. 76. Têm domicílio necessário o incapaz, o servidor público, o militar, o
373BRASIL, Lei nº 12.318, de 26 de agosto de 2010, que dispõe sobre a alienação parental e altera o art. 236 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990.
374FREITAS, Douglas Phillips. Alienação parental –Comentários Lei 12.318/2010, 2015, Cap. 2, VitalBook file. 375BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
marítimo e o preso.
Parágrafo único: O domicílio do incapaz é o do seu representante ou
assistente; o do servidor público, o lugar em que exercer permanentemente
suas funções; o do militar, onde servir, e, sendo da Marinha ou da Aeronáutica,
a sede do comando a que se encontrar imediatamente subordinado; o do
marítimo, onde o navio estiver matriculado; e o do preso, o lugar em que
cumprir a sentença. (grifo nosso)
376O foro do domicílio daquele que detém a guarda do menor, segundo entendimento do STJ
(Superior Tribunal de Justiça) manifestado por meio de sua Sumula nº 383, será o competente
para processar e julgar ações conexas de seu interesse.
377Súmula nº 383 do S.T.J.: A competência para processar e julgar as ações
conexas de interesse de menor é, em princípio, do foro do domicílio do
detentor de sua guarda. (grifo nosso)
378Para a Lei 8.069/1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a regra de competência
estabelecida por seu art. 147 é absoluta, não admitindo alteração ou prorrogação. Este vem
sendo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça em seus julgados, a exemplo, dentre
outros do ‘STJ-CC: 151511 PR 2017/0063334-5’, ‘STJ-CC: 119318 DF 2011/0240460-3’ e
‘STJ-CC: 107400 BA 2009/0159407-3’
Art. 147. A competência será determinada:
I - pelo domicílio dos pais ou responsável;
II - pelo lugar onde se encontre a criança ou adolescente, à falta dos pais ou
responsável. (grifo nosso)
379Uma leitura superficial do artigo oitavo da Lei 12.318/2010 pode levar ao equivocado
entendimento que o dispositivo em comento contraria o ordenamento jurídico que fixa o foro
competente como o do menor. Entretanto, o artigo trata especificamente de casos de alteração
do domicílio do menor resultante de quadros de alienação parental.
380Desta forma, a alteração do domicílio do genitor guardião da criança e do adolescente para
outro município, estado ou país prevalecerá para fins de definição da competência processual
de ações judiciais em que o menor seja parte ou objeto (disputa de guarda), quando a mudança
decorrer do livre consenso entre seus pais ou for fruto de uma decisão judicial.
376BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil.
377BUOSI, Caroline de Cássia F. Alienação parental: uma interface do direito e da psicologia, 2012, p.143. 378BRASIL. Superior Tribunal de Justiça, Súmula nº 383.
379BRASIL, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providencias.
No entanto, se o genitor guardião do menor alterar seu domicílio para outro município, outro
estado ou, até mesmo, outro país, com o único objetivo de cometer atos alienadores visando
separar seu rebento do outro pai, o Poder Judiciário deverá considerar inválida tal mudança de
domicílio para fins de definição da competência processual.
Nestas situações, aplica-se a regra disposta no artigo oitavo da Lei 12.318/2010,
desconsiderando a alteração de domicílio do genitor guardião do menor para fins de definição
da competência processual, considerando como foro competente o domicílio do genitor
guardião anterior à mudança, para garantir a proteção dos interesses do menor.
381A implementação do mencionado dispositivo evita longos, demorados, custosos e, às vezes,
impossíveis, deslocamentos do genitor alienado nas visitas a seu rebento, especialmente quando
o objetivo primordial do guardião é apenas separar o menor do progenitor alienado, que terá
que arcar com vultuosas despesas adicionais para dar entrada no processo de alienação no foro
do novo domicílio do alienador.
382Quando a alteração de domicílio para fora do Brasil não for aprovada pelos dois genitores,
quando não tiver sido autorizada pelo Judiciário ou quando não possuir uma justificativa
razoável e legítima, estará configurado para o Direito o crime de sequestro interparental, que se
dá quando um menor é indevidamente retido em um país ou quando sai de seu país sem a devida
autorização.
383Nas famílias transnacionais, cujos membros possuem distintas nacionalidades, a mais grave
conduta alienadora se dá por meio do sequestro interparental, ou seja, quando um dos pais impe
de o convívio de seu filho com o outro genitor, impossibilitando que este último exerça sua auto
ridade parental por meio da alteração ilegal e não consentida de domicílio para outro país.
384Visando a coibir a prática da fuga dos genitores guardiães para outras cidades ou países, o
legislador pátrio, por meio da Lei 13.058/2014, alterou o inciso quinto do art. 1.634 do Código
Civil, introduzindo a exigência de autorização expressa de ambos os pais, para alteração
permanente de residência do menor para outro município ou país.
385Art. 1.634: Compete a ambos os pais, qualquer que seja a sua situação
381BUOSI, Caroline de Cássia F. Alienação parental: uma interface do direito e da psicologia, 2012, p.143-144.
382MADALENO, Rolf; MADALENO, Ana Carolina Carpes. Síndrome da alienação parental, 2015, p.128.
383Ibidem, p.128-129.
384SANDRI, Jussara. Alienação parental: o uso dos filhos como instrumento vingança entre os pais, 2013, p.115.