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Mudança de domicilio e competência processual

No documento Universidade Católica do Salvador (páginas 126-129)

5.2.5 Medidas de combate previstas pela Lei 12.318/10

5.2.5.9 Mudança de domicilio e competência processual

Um critério para fixação da competência das ações que tem como base a convivência familiar

foi previsto pelo legislador no art. 8º da Lei 12.318/2010:

Art. 8º: A alteração de domicílio da criança ou adolescente é irrelevante para

a determinação da competência relacionada às ações fundadas em direito de

convivência familiar, salvo se decorrente de consenso entre os genitores ou de

decisão judicial. (Grifo nosso)

373

Para a perfeita compreensão do conteúdo do artigo oitavo da Lei 12.318/2010, é imprescindível

interpretá-lo de forma sistemática em conjunto com o comando disposto no inciso seis do artigo

sexto deste mesmo dispositivo legal que, diante da configuração de qualquer quadro de

alienação parental, permite que o Poder Judiciário estabeleça o domicilio do menor por meio

de medida cautelar.

374

Por força do comando disposto no inciso cinquenta e três, do artigo quinto da Carta Cidadã de

1988, apenas uma autoridade que de fato possua competência (estabelecida expressamente por

meio de lei) poderá processar ou sentenciar uma pessoa.

Art. 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,

garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a

inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à

propriedade, nos termos seguintes:

LIII - ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade

competente; (grifo nosso)

375

As causas que tratam direta ou indiretamente do fenômeno da alienação parental visam à

proteção dos interesses de sua principal vítima: o filho menor do casal que, para o direito pátrio

é considerado como incapaz até que complete dezoito anos de idade ou que se emancipe. O

domicílio dos incapazes, segundo a dicção do parágrafo único do art. 76 do Código Civil, é o

de seu guardião (representante legal), in verbis:

Art. 76. Têm domicílio necessário o incapaz, o servidor público, o militar, o

373BRASIL, Lei nº 12.318, de 26 de agosto de 2010, que dispõe sobre a alienação parental e altera o art. 236 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990.

374FREITAS, Douglas Phillips. Alienação parental –Comentários Lei 12.318/2010, 2015, Cap. 2, VitalBook file. 375BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

marítimo e o preso.

Parágrafo único: O domicílio do incapaz é o do seu representante ou

assistente; o do servidor público, o lugar em que exercer permanentemente

suas funções; o do militar, onde servir, e, sendo da Marinha ou da Aeronáutica,

a sede do comando a que se encontrar imediatamente subordinado; o do

marítimo, onde o navio estiver matriculado; e o do preso, o lugar em que

cumprir a sentença. (grifo nosso)

376

O foro do domicílio daquele que detém a guarda do menor, segundo entendimento do STJ

(Superior Tribunal de Justiça) manifestado por meio de sua Sumula nº 383, será o competente

para processar e julgar ações conexas de seu interesse.

377

Súmula nº 383 do S.T.J.: A competência para processar e julgar as ações

conexas de interesse de menor é, em princípio, do foro do domicílio do

detentor de sua guarda. (grifo nosso)

378

Para a Lei 8.069/1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a regra de competência

estabelecida por seu art. 147 é absoluta, não admitindo alteração ou prorrogação. Este vem

sendo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça em seus julgados, a exemplo, dentre

outros do ‘STJ-CC: 151511 PR 2017/0063334-5’, ‘STJ-CC: 119318 DF 2011/0240460-3’ e

‘STJ-CC: 107400 BA 2009/0159407-3’

Art. 147. A competência será determinada:

I - pelo domicílio dos pais ou responsável;

II - pelo lugar onde se encontre a criança ou adolescente, à falta dos pais ou

responsável. (grifo nosso)

379

Uma leitura superficial do artigo oitavo da Lei 12.318/2010 pode levar ao equivocado

entendimento que o dispositivo em comento contraria o ordenamento jurídico que fixa o foro

competente como o do menor. Entretanto, o artigo trata especificamente de casos de alteração

do domicílio do menor resultante de quadros de alienação parental.

380

Desta forma, a alteração do domicílio do genitor guardião da criança e do adolescente para

outro município, estado ou país prevalecerá para fins de definição da competência processual

de ações judiciais em que o menor seja parte ou objeto (disputa de guarda), quando a mudança

decorrer do livre consenso entre seus pais ou for fruto de uma decisão judicial.

376BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que dispões sobre o Código Civil.

377BUOSI, Caroline de Cássia F. Alienação parental: uma interface do direito e da psicologia, 2012, p.143. 378BRASIL. Superior Tribunal de Justiça, Súmula nº 383.

379BRASIL, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providencias.

No entanto, se o genitor guardião do menor alterar seu domicílio para outro município, outro

estado ou, até mesmo, outro país, com o único objetivo de cometer atos alienadores visando

separar seu rebento do outro pai, o Poder Judiciário deverá considerar inválida tal mudança de

domicílio para fins de definição da competência processual.

Nestas situações, aplica-se a regra disposta no artigo oitavo da Lei 12.318/2010,

desconsiderando a alteração de domicílio do genitor guardião do menor para fins de definição

da competência processual, considerando como foro competente o domicílio do genitor

guardião anterior à mudança, para garantir a proteção dos interesses do menor.

381

A implementação do mencionado dispositivo evita longos, demorados, custosos e, às vezes,

impossíveis, deslocamentos do genitor alienado nas visitas a seu rebento, especialmente quando

o objetivo primordial do guardião é apenas separar o menor do progenitor alienado, que terá

que arcar com vultuosas despesas adicionais para dar entrada no processo de alienação no foro

do novo domicílio do alienador.

382

Quando a alteração de domicílio para fora do Brasil não for aprovada pelos dois genitores,

quando não tiver sido autorizada pelo Judiciário ou quando não possuir uma justificativa

razoável e legítima, estará configurado para o Direito o crime de sequestro interparental, que se

dá quando um menor é indevidamente retido em um país ou quando sai de seu país sem a devida

autorização.

383

Nas famílias transnacionais, cujos membros possuem distintas nacionalidades, a mais grave

conduta alienadora se dá por meio do sequestro interparental, ou seja, quando um dos pais impe

de o convívio de seu filho com o outro genitor, impossibilitando que este último exerça sua auto

ridade parental por meio da alteração ilegal e não consentida de domicílio para outro país.

384

Visando a coibir a prática da fuga dos genitores guardiães para outras cidades ou países, o

legislador pátrio, por meio da Lei 13.058/2014, alterou o inciso quinto do art. 1.634 do Código

Civil, introduzindo a exigência de autorização expressa de ambos os pais, para alteração

permanente de residência do menor para outro município ou país.

385

Art. 1.634: Compete a ambos os pais, qualquer que seja a sua situação

381BUOSI, Caroline de Cássia F. Alienação parental: uma interface do direito e da psicologia, 2012, p.143-144.

382MADALENO, Rolf; MADALENO, Ana Carolina Carpes. Síndrome da alienação parental, 2015, p.128.

383Ibidem, p.128-129.

384SANDRI, Jussara. Alienação parental: o uso dos filhos como instrumento vingança entre os pais, 2013, p.115.

conjugal, o pleno exercício do poder familiar, que consiste em, quanto

aos filhos:

IV - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para viajarem ao

exterior;

V - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para mudarem sua residência

permanente para outro Município; (grifo nosso)

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No documento Universidade Católica do Salvador (páginas 126-129)