• Nenhum resultado encontrado

4 ESFERA PÚBLICA, LEGITIMIDADE E TERCEIRO SETOR

4.1 A esfera pública em Jürgen Habermas

4.1.1 Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962)

O primeiro trabalho acadêmico expressivo de Habermas foi o livro "Mudança Estrutural da Esfera Pública", publicado em 1962. Nessa obra, Habermas analisa a esfera pública burguesa, a partir do contexto histórico da Grã-Bretanha, França e Alemanha, marcada pela ascensão do capitalismo financeiro e comercial e o fim do feudalismo (FARIA, 1999).

Segundo Blotta (2012), a obra “Mudança Estrutural da Esfera Pública” foi marcada pelo processo de redemocratização da Alemanha, ocorrido entre os anos de 1945 e 1960, período em que o país demonstrava dificuldades em absorver os novos ideais democráticos. Naquele período de transformação social, Habermas estava preocupado com o não retorno do autoritarismo do passado e da consolidação de uma cultura democrática, capaz de gerar uma esfera pública política integradora da sociedade civil e, ao mesmo tempo, fiscalizadora do poder (BLOTTA, 2012).

Para Lubenow (2007, p. 13), os primeiros escritos de Habermas “têm sua atenção teórica voltada para a esfera pública política e às reflexões sobre legitimidade democrática”. A esfera pública é a categoria central da linguagem política habermasiana, constituindo o espaço da formação democrática da vontade política, em que são discutidos os fundamentos da vida pública e social.

Nessa obra inicial, o sociólogo alemão tem como ponto de partida a democracia grega para que se possa compreender o delineamento de esfera pública burguesa que se firmaria com o desenvolvimento do Estado Moderno. Na visão de Habermas (1984), a esfera pública é o princípio organizativo do nosso ordenamento político, tendo o modelo ateniense adquirido uma grande força normativa a partir de seu pressuposto ideológico de participação plena dos indivíduos considerados cidadãos.

Na esfera da polis, o caráter público se constitui na conversação e a participação dos cidadãos na vida pública supõe (ou está vinculada a) sua independência na esfera privada como dono de mercadorias e de trabalho social. Assim, a esfera pública é constituída de modo distinto da esfera privada, pois somente à luz da esfera pública aquilo que é consegue aparecer, e tudo se torna visível a todos (LUBENOW, 2007, p. 16).

A conversação dos indivíduos entre si e a participação dos cidadãos na vida pública são maneiras de publicizar os debates e a opinião pública. É nesse ponto que emerge o interesse do autor alemão na configuração do caráter público da conversação (HABERMAS, 1984).

Habermas (1984) associa o surgimento da esfera pública burguesa ao desenvolvimento da economia capitalista, em virtude das transformações econômicas e seus efeitos sobre o desenho urbano, político e social iniciado com o fim do feudalismo.

Marques (2008) ressalta que, a princípio, o conceito de esfera pública estava ligado à ascensão da burguesia e aos espaços públicos (praças, casas de chás, etc.) nos quais os integrantes dessa classe se reuniam para argumentar e expressar juízos acerca de questões e problemas de interesse da coletividade.

De acordo com Habermas (1984), no contexto da formação do Estado burguês, o público tornou-se sinônimo de estatal, deixou de existir a figura da corte, representada por uma pessoa revestida de autoridade, passando-se o poder para um aparelho munido do monopólio da utilização da força legítima, com competências reguladas por lei. A partir da constituição do corpo estatal, surgiram as bases para a construção de uma esfera de poder público (FARIA, 1999).

Em contrapartida, a criação de um Estado interventor constitui-se a sociedade civil burguesa, a qual passava a atuar em resposta a um poder público que, por meio de atos administrativos, construía uma zona de relacionamento com pessoas privadas (FARIA, 1999; HABERMAS, 1984).

De acordo com Faria (1999, p. 18), o cerne da esfera pública burguesa seria “um grupo de pessoas privadas, reunidas em público, que reivindicava um espaço, para discussão com a autoridade de temas como as leis gerais da troca, do intercâmbio, do trabalho social, assuntos da esfera fundamentalmente privada, mas de incontestável relevância pública”.

No período de transição do modelo feudal para o Estado Moderno, a imprensa assumia um papel preponderante na sociedade. Habermas (1984) denomina o surgimento da imprensa como uma força explosiva de publicização das informações e da opinião pública (esfera crítica). No entanto esse canal de informações era manipulável, especialmente, pelos mercantilistas que não tinham interesse que notícias do mercado, sobretudo, de âmbito internacional, fossem publicizadas. “Por isso, os jornais políticos não existem para os comerciantes, mas, pelo contrário, os comerciantes que existem para os jornais” (HABERMAS, 1984, p. 34).

As notícias e comunicações das autoridades estatais não atingiam o público em geral, mas tão somente as “camadas cultas” da sociedade formada por funcionários da administração, médicos, pastores, oficiais e professores, entre outros, camada essa que seria o sustentáculo do público. Essa é a razão pela qual Habermas aponta a existência da esfera pública literária – o público que lia - como origem da esfera pública política (HABERMAS, 1984).

Na visão do autor alemão, a publicidade garantia a visibilidade das questões de interesse público, que até então permaneciam guardadas pelos governantes. Para Habermas (1984), a publicidade dos debates cotidianos, do diálogo e do confronto argumentativo, por meio do uso público da razão, era o que constituía a esfera pública burguesa.

O declínio da esfera pública burguesa veio com a passagem da esfera pública literária para uma que funcionava, politicamente, quando as forças que então desejavam influenciar as decisões do Estado apelavam justamente para o público como forma de obter apoio. Um exemplo disso era quando conflitos políticos eram levados pelos partidos à esfera pública, em que as discussões chegavam até mesmo à população que ainda não tinha direito ao voto (FARIA, 1999).

Segundo a argumentação habermasiana, a esfera pública burguesa permaneceu de pé, enquanto suas bases de interesses eram relativamente homogêneas e as formas de deliberação ainda atendiam os interesses do mercado (HABERMAS, 1984). No entanto as desigualdades econômicas geraram uma sobrecarga de tarefas de compensação de interesses que só se resolvia com a intervenção imediata do Estado. Essa intervenção estatal significava a

transferência de competências públicas para entidades privadas, ocasionando a substituição do poder público pelo poder social (FARIA, 1999).

Habermas descreve pelo menos três fatores responsáveis pela despolitização da esfera pública: interpenetração progressiva entre o setor público e o setor privado; ampliação do público da esfera pública e a consequente entrada das massas na política e a mercantilização da imprensa (CRUZ, 2017; LUBENOW, 2012; MARQUES, 2008).