4. A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE CULTURA
4.8. Cultura e Multiculturalismo
4.8.2. Multiculturalismo e ideologia
Numa perspectiva crítica do multiculturalismo, autores como Slavoj Zizek e Alan Badiou tratam de insistir na maneira como a universalidade do capital se acomoda muito bem à multiplicidade cultural, de forma que reivindicações identitárias tendem a transformar o mercado no único meio neutro no qual tal multiplicidade pode se articular, promovendo uma rede mercantil de targets, favorecendo a visão de que a economia política das reivindicações identitárias dependesse do seu oposto ou seja, da universalização global como espaço “neutro cultural neutro” (SAFATLE, 2007).
A forma de acumulação flexível do capitalismo atual necessita de ideologias que o sustentem. A ligação entre o universal e um conteúdo particular que funciona como seu substituto seria contingente exatamente porque se trata do resultado de uma luta política pela hegemonia ideológica. Numa versão mais complexa que a tradicional marxista – de interesses particulares assumindo diretamente formas de universalidade – para que a ideologia dominante possa funcionar deve incorporar uma série de atributos em que a maioria explorada seja capaz de reconhecer como suas autênticas demandas. Zizek pontua que na verdade cada universalidade hegemônica precisa incorporar pelo menos duas características peculiares, tanto um conteúdo particular reconhecido como autêntico quanto sua distorção pelas relações de dominação e exploração (ZIZEK, 1997).
O autor utiliza alguns casos para exemplificar como uma particularidade específica pode assumir um caráter universal e atuar como uma ideologia dominante. No caso do fascismo, seu caráter ideológico se fez não por uma “fantasia totalitária”, base da crítica liberal, mas exatamente pelo poder de articulação do regime, ao reapropriar-se de uma noção bastante específica do que seria a exploração capitalista – a influência dos judeus, o predomínio do capital financeiro sobre o produtivo – e utilizá-la então como justificativa para a eliminação de milhares de judeus. Numa visão bastante próxima da função do consenso na hegemonia gramsciana, Zizek mostra que a luta pela hegemonia político-ideológica seria sempre uma luta pela apropriação de termos que são “espontaneamente” vivenciados como apolíticos, transcendendo as fronteiras do político e recolocá-los também de forma “quase espontânea” nos termos desejados. A ideologia seria, de alguma forma, nada mais que a forma das aparências, a distorção/rearticulação formal da não-ideologia (ZIZEK, 1997).
O mesmo raciocínio é utilizado pelo autor para explicar as demandas neoliberais por cortes nos gastos sociais, como o cuidado à saúde, o suporte à cultura, o incentivo à pesquisa, em suma, o desmantelamento do Estado de bem-estar. O permanente estado de crise financeira – ao invés de ser tratado como efeito da mudança no equilíbrio na luta de classes em favor do capital, serve de argumento legítimo para operar toda essa série de cortes que em verdade mudam alguma coisa para não mudar nada, revolução como suplente da reforma.
De maneira análoga, podemos verificar como se dá o tratamento do aumento da criminalidade em nosso país, que longe de ser apresentado como um resultado direto de nossa extrema desigualdade social tem sido cada vez mais isolado no espectro da segurança pública, trazendo como receituário o aumento do aparato repressivo, desde policiais nas ruas até o aumento do número de presídios para depositar a população que habita o mundo das classes perigosas. Pincelada com mais um pseudo-espaço de participação, dessa vez o patético plebiscito sobre o desarmamento, a história da acumulação primitiva é colocada no limbo para ser esquecida, favorecendo com isso a troca do papel do meliante (PINASSI, 2006). O limite dessa situação se coloca na instituição das prisões privadas, transferindo o monopólio do Estado da violência física e da coerção para um contrato com particulares – que obviamente entram no jogo para tão somente auferir lucros.
Assim, no momento em que a questão da criminalidade é apresentada como um problema em si e não como um sintoma, não se pode vislumbrar uma solução efetiva para o problema, haja vista que nenhum investidor em sã consciência vai construir prisões para que elas sejam desativadas quando a “boa índole” tomar conta de toda a sociedade. Numa ode à diminuição da capacidade ociosa do investimento, vamos continuar “enxugando gelo”, o sistema vai continuar funcionando e gerando o proletariado que antes considerado exército industrial de reserva agora será definitivamente trancafiado e esquecido, numa ação que assim se executa diretamente pelas mãos dos seus algozes privados.
O papel da mídia na construção, consolidação e disseminação desses modelos interpretativos é fundamental, uma vez que também a mídia se tornou refém de seus proprietários, ligados organicamente às forças do Capital e que prefere a criminalização da pobreza e a diminuição da maioridade penal a qualquer debate mais edificante sobre concentração da propriedade privada e internacionalização do capital financeiro. Sob o aspecto bastante peculiar e universalmente reconhecível da segurança pública, a violência urbana é então reinterpretada como um problema em si, isolado da questão social e como resultado da ação daqueles indivíduos de má índole, alheios aos ensinamentos dos céus e rebeldes às leis dos homens, e que precisam por isso ser trancafiados e tratados como desviantes do comportamento humano.
A solução para o problema é então reformulada nos termos daqueles que (erroneamente) não se sentem parte do problema, e que felizmente ainda conseguem viver isolados em seus feudos, carros blindados e condomínios fechados, cercados por muros, grades e um completo aparato de segurança privada. Com o apoio incondicional dos meios de comunicação, detentores primeiros do espraiamento da ideologia dominante em nossa sociedade, o receituário se difunde “consensualmente” por todas as classes sociais, inclusive e principalmente naquelas que serão mais passíveis da indicada repressão estatal e privada.
O autor ressalta ainda a falsidade do liberalismo multicultural elistista utilizando o exemplo da livre maçonaria, importante força dogmática que sabemos presente no Brasil pelo menos desde o século XVIII, refletindo os ideais do Iluminismo e da Razão. Para ele, a falácia sobre a livre maçonaria repousa no fato da tensão entre forma e conteúdo que já caracterizava o primeiro grande projeto ideológico baseado numa forma de tolerância universal. A doutrina da livre maçonaria – uma irmandade universal de todos os homens baseados na luz da Razão – claramente vai de encontro com a sua forma de expressão e organização, baseada numa sociedade secreta com rituais de iniciação, fazendo com que sua forma de expressão e articulação contrarie sua doutrina positiva (ZIZEK, 1997). A doutrina maçônica tem participado dos principais acontecimentos históricos em nosso país e ainda hoje tem um profundo enraizamento no Estado brasileiro. Com seus rituais secretos (apesar de muitos de seus praticantes afirmarem que houve uma transição para “rituais discretos”), códigos de comportamento e círculos restritos de participantes, com indicações e “padrinhos”, essa doutrina tem favorecido a concentração de poder nas mãos de alguns poucos privilegiados, atuando diretamente no Estado e contribuindo negativamente para a consecução de um projeto realmente universal para a vida sócio-política nacional.
Zizek ressalta a inesperada reversão do processo de passagem das identidades primárias para as secundárias analisada por Hegel. No pós-modernismo cada vez mais a instituição abstrata de identidades secundárias é vivenciada como externa, fazendo com que se busque
suporte em formas de identidade primordiais, geralmente menores, como religião e etnias. Com relação a essa busca de identidade, Zizek ressalta que,
Mesmo quando essas formas de identidade são mais ‘artificiais’ do que no caso das identidades nacionais, como no caso da comunidade gay, são também mais ‘imediatas’, apoderando-se do indivíduo direta e opressoramente na sua forma específica de vida, e, portanto restringindo a liberdade abstrata advinda de sua capacidade de cidadão do Estado-Nação: em contraste com a ‘nacionalização do étnico’ – a de-etnização, a sublimação do étnico no nacional – estamos agora enfrentando a ‘etnização do nacional’, com uma renovada busca das (ou reconstituição das) origens étnicas (ZIZEK, 1997; p. 42).
O autor pontua ainda que essa ‘regressão’ de formas secundárias para formas primordiais de identidade com comunidades ‘orgânicas’ é também ‘mediada’ e ocorre como uma reação à dimensão universal do mercado mundial. Na realidade, não seria uma regressão, mas a forma aparente de sua exata oposição: numa forma de negação da negação, essa específica reafirmação de identidades primordiais assinala que a perda da unidade substancial-orgânica está totalmente consumada (ZIZEK, 1997). A lição fundamental da política pós-moderna é que o Estado-Nação, longe de ser uma unidade ‘natural’ da vida social, assume uma universalidade que se apresenta como um equilíbrio temporário e precário entre uma relação de particularidades étnicas e a (potencial) função universal do mercado (ZIZEK, 1997). O momento final do processo de colonização global é aquele em que não há mais colonizadores, somente colônias – o poder colonizador não é mais um Estado-Nação mas diretamente a companhia global. No longo prazo, estaremos não somente usando camisetas Banana Republic mas também vivendo em repúblicas das bananas (ZIZEK, 1997).
Zizek sustenta que a forma ideal da ideologia desse capitalismo global é o multiculturalismo, provendo uma atitude que, de um tipo de posição global vazia, trata cada cultura local da forma como o colonizador trata os povos colonizados, como nativos cujos modos de vida precisam ser cuidadosamente estudados e ‘respeitados’. Assim, quando o
capitalismo ainda se agarra a alguma herança cultural particular, identificada então como a origem secreta do seu sucesso – executivos japoneses participando de cerimônias de chá ou obedecendo ao código budista – a referência a fórmulas culturais particulares é na realidade a tela para o anonimato universal do Capital (ZIZEK, 1997). Apesar de a grande mídia tratar entes abstratos como o mercado e o Capital de forma exaustivamente humanizada – “mercado nervoso”, “fuga de capitais”, o pano de fundo para essa pseudo-personalização é o verdadeiro anonimato do capitalismo global.
Uma das conclusões sobre o multiculturalismo para Zizek é que estamos tratando aqui da estrutura de um sintoma:
Ao lidar com um princípio estrutural universal, tendemos a assumir automaticamente que – em princípio, precisamente – é possível aplicar esse princípio para todos seus potenciais elementos, e que a não-realização empírica do princípio é meramente um problema de circunstâncias contingenciais. Um sintoma, entretanto, é um elemento que – apesar da não-realização do princípio universal – precisa permanecer como uma exceção, que é o ponto de suspensão do princípio universal: se o princípio universal também fosse aplicado nesse ponto, o próprio sistema universal se desintegraria. Como é bem conhecido, nos conhecidos parágrafos sobre sociedade civil na sua Filosofia do Direito, Hegel demonstrou como a classe do “populacho” não era um resultado acidental do mau gerenciamento, medidas inadequadas dos governos ou má sorte econômica: as inerentes dinâmicas estruturais da sociedade civil, que guarda interesses particulares antagônicos, fez surgir toda uma classe excluída dos benefícios dessa sociedade civil, uma classe privada dos direitos humanos elementares mas ainda com os deveres da vida em sociedade, um elemento dentro da sociedade civil que negava seu princípio universal, um tipo de ‘não-Razão’ inerente à própria Razão – em suma, seu sintoma (ZIZEK, 1997; p. 46).