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3. BELA COZINHA VERÃO: METODOLOGIA E ANÁLISE DO PROGRAMA

3.7 PREPARO E DEGUSTAÇÃO DAS RECEITAS – EPISÓDIO “DENDÊ”

3.7.1 Multiculturalismo: possíveis significados do comer

Como explicitado na seção anterior sobre o cacau, o multiculturalismo significa perceber o processo de trocas e transformações culturais devido à globalização. A cozinha de território – ou seja, denominar uma cozinha como tradicional regional – é, em si, resultante do processo de globalização.

Por meio da cozinha de território, se dá visibilidade a ingredientes e técnicas percebidas como tradicionais relacionadas à determinada perspectiva histórica e cultural de um lugar. Assim, quando Bela escolhe o dendê como ingrediente temático, ela vincula o Candomblé à história e aos hábitos culturais locais, os quais estão ligados à cozinha de território da tradicional culinária baiana. O multiculturalismo, nessa parte do episódio, é o vínculo do ingrediente junto ao imaginário consolidado do que é a culinária baiana, mas também se refere à culinária como espaço de trocas e influências de saberes.

No Candomblé, o azeite de dendê representa o sangue vermelho presente nas comidas de terreiro. Cada prato é baseado na preferência e nas características do orixá. Ao fazer uma oferenda, ou mesmo ao se alimentar cotidianamente, o devoto pode se alimentar de acordo com as predileções dos orixás dos quais é filho. Isso é uma maneira de o devoto se sentir bem, ter maior energia vital (VISSAL, 2018).

Sendo o azeite de dendê representante do sangue vermelho nas comidas de terreiro, as cores do próprio azeite – vermelho e laranja – evocam a força de elementos da natureza que possuem características semelhantes, como o fogo, aquele que aquece e transforma. Gilberto Gil faz referência ao azeite como sendo solar, assim como o Sol, o azeite de dendê se destaca na comida, devido ao seu aspecto visual marcante e ao seu sabor.

Sendo o dendê fortemente relacionado ao orixá Exu, o orixá das premissas, o orixá telúrico, das encruzilhadas, da contradição, comunicação e sexualidade. Ao ser relacionado ao Sol – elemento que aquece e ilumina tudo que está sobre a Terra –, na perspectiva da episteme afro-brasileira, o azeite tem como característica uma energia “terrena”. Energia que não dialoga com a busca de uma saúde perfeita, fundamentada no discurso da alimentação contemporânea racional ocidental. Saúde que, na ótica científica, racionaliza o prazer do comer visando ao prolongamento da vida.

Segundo Bela, talvez por seu aspecto forte e marcante, muitas pessoas têm medo de utilizá-lo em seu cotidiano. Como mencionado anteriormente, a apresentadora acredita que isso se dá porque as pessoas acham que ele

“engorda”, pois aparenta ser mais gorduroso devido à sua viscosidade. Porém, como ela explica, essa característica o faz ser bom para a saúde, pois aguenta altas temperaturas e não se torna tóxico ao cozinhar. Portanto, nos dois trechos, pode ser observado como a perspectiva científica da alimentação saudável é tensionada em relação ao azeite de dendê e à perspectiva afro-brasileira do Candomblé.

Na episteme do Candomblé o azeite de dendê faz bem e, portanto, frequentemente presente em sua culinária – a força do ingrediente evoca uma energia de presença e vitalidade. Já do ponto de vista científico, é aconselhável consultar um especialista para saber a frequência e a quantidade recomendável desse tipo de alimento, se é saudável consumi-lo (SOUZA JUNIOR, 2011).

Bela completa que o dendê é tão rico, ou seja, tem diversas funcionalidades. Da semente se extrai o óleo de palma, e da polpa se faz o azeite de dendê. Sua fala dialoga com a explicação de Souza (2000):

É o óleo mais apropriado para fabricação de margarina pela sua consistência e por não rancificar, excelente como óleo de cozinha e frituras, sendo também utilizado na produção de manteiga vegetal (shortening), apropriada para fabricação de pães, bolos, tortas, biscoitos finos, cremes etc. O maior uso não comestível do óleo de dendê é como matéria prima na fabricação de sabões, sabonetes, sabão em pó, detergentes e amaciantes de roupas biodegradáveis, podendo ainda ser utilizado como combustível em motores diesel (SOUZA, 2000).

Portanto, na perspectiva científica, existe uma contradição ao afirmar que o consumo do azeite de dendê não faz bem à saúde. A ingestão do fruto ocorre, mesmo que de modo indireto, por meio dos alimentos industrializados e como base de cosméticos. Ao afirmar que o dendê é muito “rico”, Bela remete ao Candomblé – do dendê, tudo se aproveita, e, por essa razão, o dendezeiro é conhecido como “árvore do paraíso” (LODY, 2018).

O multiculturalismo nesse trecho do episódio demonstra que a cozinha de território, ao visibilizar ingredientes e modos de fazer, também revela saberes.

Ao destacar o principal ingrediente da culinária baiana, também demonstra a divergência e similaridades sobre o que é ser saudável. A apresentadora se apropria do discurso científico para falar das propriedades nutricionais do azeite e, em contraposição, há, também, a análise do próprio ingrediente junto à história do que ele representa e à sua importância na episteme do Candomblé.

3.7.2 O que comer? Ensinamentos sobre dieta e alimentação saudável no Bela Cozinha Verão

Durante o preparo das receitas e a visita de Gilberto Gil, é perceptível que Bela difunde alimentação saudável, ensinando a substituir a proteína animal por plantas e vegetais – por exemplo, ao colocar o palmito pupunha na receita do bobó baiano ao invés do camarão, ingrediente comumente utilizado no prato. A escolha do ingrediente se dá também porque ele é um palmito “ecológico”, já que rebrota ao ser plantado.

Ela ainda ensina a distinguir fome da vontade emocional de comer ao dar a dica de mastigar uma folha de menta para saber se a pessoa está realmente com fome ou apenas com vontade “[...] de ter um gostinho na boca” (GIL, 2015, 33’22”).

Assim, a alimentação saudável defendida por Bela é uma alimentação com tendência para o veganismo e vegetarianismo, estilos de alimentação que ganham destaque devido ao seu vínculo a movimentos ambientalistas e ativistas

sobre alimentação contemporânea. Portanto, a opção pelo palmito pupunha demonstra uma preocupação ambiental ao priorizar um alimento “ecológico”, mas que também defende a redução do consumo de carne. Ambos os temas não foram aprofundados nesta pesquisa, porém, importa perceber que o ativismo ambiental e alimentar ganham notoriedade ao buscarem o resgate cultural dos alimentos e das técnicas tradicionais em resposta à padronização e à artificialização dos gostos inerentes ao processo de globalização (COSTA, 2015).

A concepção de alimentação saudável nessa etapa do programa representa uma reeducação a respeito da quantidade do consumo de comida.

Pois ensina a como resgatar a sabedoria de distinguir o que é vontade emocional e o que é vontade biológica de comer (MEAD, 2013). Nesse sentido, a instrução quanto à escolha alimentar também se dá com base na sabedoria em conhecer o próprio corpo e seus impulsos emocionais.