Mapa 10 Migrantes nordestinos do Bairro Pintolândia: rota da
6.2 Abordagem Integradora: Multiterritorialidade
6.2.1 Multiterritorialidade, Migração e Hibridismo
No que se refere à migração, esse é um processo multidimensional, condensando toda a complexidade das dinâmicas territoriais das sociedades, por esta razão, no que diz respeito à multiterritorialidade, a abordagem do papel das migrações, em sentido mais amplo, está diretamente relacionado às dinâmicas, entretanto, há necessidade de saber até que ponto a mobilidade
geográfica pode ser vinculada à desterritorialização.
A mobilidade está diretamente ligada aos distintos sujeitos que a propõem e/ou exercem, o migrante é parcela integrante - ou que está em busca de integração - numa (pós) modernidade marcada pela flexibilização - e precarização - das relações de trabalho (HAESBAERT, 2004a, p. 238). O migrante enfatiza o papel “positivo” da des territorialização e desenvolve uma leitura que deve ser entendida cronologicamente, no sentido de uma generalidade que está ligada, ao mesmo tempo, à reterritorialização, sobre os novos circuitos; rural, sobre os novos modos de exploração; urbana, sobre as novas funções etc.
O migrante é associado à desterritorialização relativa, e sua mobilidade é de alguma forma, não só uma "mobilidade controlada" como também é "direcionada", inclusive pela definição mais simples de "imigrante", sempre referida à transposição de uma fronteira politicamente constituída, trata-se do "indivíduo móvel", numa perspectiva de mobilidade com permanência relativamente maior no sentido "residencial".
A migração, onde a mobilidade é mais um meio do que um fim, uma espécie de intermediação numa vida em busca de certa estabilidade (em sentido amplo), certamente não poderá ser vista simplesmente como um processo de "desterritorialização". Primeiro, porque não há desterritorialização sem territorialização (a migração pode ser vista como um processo em diversos níveis de des-reterritorialização) e, em segundo lugar, migrante é uma categoria que merece uma análise mais profunda, podendo dizer que há tantos tipos de migrantes quanto de sujeitos ou grupos sociais envolvidos nos processos migratórios, então, falar genericamente em migração pode mesmo tornar-se temerário – é obrigação qualificá-la (HAESBAERT, 2004a, p. 246).
Toda representação sem uma perspectiva histórico-social está levada a erros, não é o conceito que vai à realidade mas de realidade se constrói o conceito, e denota-se o conceito diante dos fundamentos do real porque dele emerge.
Em geral, ainda que na modernidade o mundo tenha sido considerado, por alguns teóricos, desterritorializado, esta gera várias formas de reterritorialização, portanto uma multiterritorialização, que envolve o esforço de criação de novos territórios (pessoais ou coletivos), que se fixam no sentido de criar e defender várias formas de direitos (formais ou informais, legais ou ilegais) que permitam que a
comunidade deslocada continue a se reproduzir.
Assim como os processos de des-territorialização podem ser multidimensionalmente caracterizados, o mesmo ocorre com as migrações, com a importante constatação de que se trata de processos internamente diferenciados: a análise da des-territorialização depende do momento e do lugar em que a trajetória do migrante está sendo analisada; há migrações ditas "econômicas" vinculadas à mobilidade pelo trabalho; migrações provocadas por questões políticas; além das por questões culturais ou ainda "ambientais" (não esquecendo que a questão prioritária pode ser uma das citadas, mas todas ocorrem e influenciam o mesmo processo migratório simultaneamente) (HAESBAERT, 2004a, p. 246).
Essa multiplicidade de fatores que desencadeia os fluxos migratórios deve ser relacionada ao tipo ou ao nível de desterritorialização, e através da figura do migrante pode-se, então, entender melhor as diversas formas com que a desterritorialização é focada (HAESBAERT, 2004a, p. 246).
O migrante que se desloca antes de tudo por motivos econômicos, imerso nos processos de exclusão socioeconômica, pode vivenciar distintas situações de des-territorialização: deixar um emprego mal remunerado para buscar outro com remuneração mais justa; pode estar querendo usufruir ganhos pela diferença de poder aquisitivo da moeda de um país em relação a outro; pode estar buscando investir capital ou expandir negócios. Todas estas situações envolvem níveis de des- territorialização distintos, ligados às diferentes possibilidades que o migrante carrega em relação ao "controle" do seu espaço, ou seja, à sua reterritorialização - o que inclui também, o tipo de relação que ele continua mantendo com o espaço de partida (HAESBAERT, 2004a, p. 246).
Há migrações envolvendo questões ecológicas ou de degradação ambiental, mas as questões políticas e socioeconômicas estão envolvidas no mesmo contexto, como as secas dramáticas, agravadas pela lógica capitalista vigente, que envolve fortes elementos de ordem "natural", pelo simples fato de que, diante do nível socioeconômico e tecnológico de certos grupos sociais, não existe possibilidade de "dominar" ou de se apropriar de certas áreas onde as condições físicas são muito adversas62(HAESBAERT, 2004a, p. 247).
Outra situação diretamente ligada a anterior e também enfrentam este tipo de
62 Não se trata, da discussão sobre as concepções "naturalistas" de território, de resgatar um discurso"
determinista", mas de reconhecer a especificidade da dinâmica sociedade-natureza, especialmente em determinados contextos políticos e socioculturais (HAESBAERT, 2004b, p. 247).
desterritorialização, são dos grupos de agricultores pobres ou nações indígenas expropriadas ou os atingidos por barragens, que em busca de terra agricultável ou que disponha dos recursos mínimos requeridos à sobrevivência migram para encontrar terras que possam utilizar (dimensão econômico- funcional do território) e através das quais possam reconstruir ou manifestar sua identidade cultural (dimensão simbólica ou expressiva do ter ritório) (HAESBAERT, 2004a, p. 247).
Num sentido mais político, as migrações ainda são amplamente regidas pela territorialidade dos Estados-Nações que ainda procura exercer o controle dos fluxos migratórios internos e externos, mesmo que as fronteiras tenham se tornado mais abertas para a circulação do capital financeiro ou para os fluxos de mercadorias (HAESBAERT, 2004a, p. 248).
Assim, não é obrigatoriamente por sair de seu território de origem, que os migrantes se tornam, automaticamente, "desterritorializados", o mesmo acontecendo em relação a sua identidade, pois, ainda que simbolicamente, é possível manter ou recriar territórios imaginários, representando uma "reterritorialização" a nível cultural (HAESBAERT, 2004a, p. 248).
Claro que a identidade em seu sentido reterritorializador não constitui simplesmente um transplante da identidade de origem, mas um amálgama, um híbrido (HAESBAERT, 2004a, p. 249). Póvoa Neto (1994), citado no capítulo que discute teorias sobre migração, por exemplo, destaca o papel da migração e das representações que se fazem do migrante fora de sua região na (re)construção da identidade analisando o caso dos migrantes nordestinos no Sudeste brasileiro. Ou o que Benchimol (1999), citado no capítulo que discute a migração nordestina, destaca a sociabilidade do nordestino na Amazônia.
Enfim é importante destacar a colocação de Haesbaert, em que coloca o migrante como uma entidade abstrata, resultado de um somatório das mais diversas condições sociais e identidades étnico-culturais, onde a desterritorialização desse, é um processo altamente complexo e diferenciado, diferenciação esta que aparece acoplada:
a. às classes socioeconômicas e aos grupos culturais a que está referida;
b. aos níveis de des-vinculação com o território no sentido de:
b.1. presença de uma base física minimamente estável para a sobrevivência do grupo, o que inclui seu acesso a infra-estruturas e serviços básicos;
b.2. acesso aos direitos fundamentais de cidadania, garantidos ainda hoje, sobretudo, a partir do território nacional em que o migrante está inserido;
b.3. manutenção de sua identidade sociocultural através de espaços específicos, seja para a reprodução de seus ritos, seja como referenciais simbólicos para a "reinvenção" identitária (HAESBAERT, 2004a, p. 250).
Baseado em Haesbaert, pode-se avaliar diferentes níveis de des-territorialização para cada grupo ou classe social, percebendo que aquilo denominado de desterritorialização para uns não o é para tantos outros, como a elite que se locomove com facilidade nada tem em comum com o deslocamento das classes mais pobres é preciso distinguir entre a desterritorialização dos grupos dominantes e a desterritorialização das classes mais expropriadas, pois a multiterritorialização é conseqüência de como cada processo ocorre, pois:
Desterritorialização, para os ricos, pode ser confundida com uma multiterritorialidade segura, mergulhada na flexibilidade e em experiências múltiplas de uma mobilidade "opcional" [...]. Enquanto isso, para os mais pobres, a desterritorialização é uma multi ou, no limite, a-territorialidade insegura, onde a mobilidade é compulsória quando lhes é dada como possibilidade, resultado da total falta de [...] alternativas, de "flexibilidade", em "experiências múltiplas" im- previsíveis em busca da simples sobrevivência física cotidiana (HAESBAERT, 2004a, p. 250).
Vale salientar que, mobilidade espacial não significa, obrigatoriamente, mobilidade social, e, num mundo onde o movimento é a regra, a fixidez e a estabilidade podem acabar transformando-se também numa espécie de recurso. É por essa razão que se utiliza o qualificativo "desterritorializado" muito mais para os migrantes de classes subalternas, do que para as classes privilegiadas, onde desterritorialização é apenas uma mobilidade física (HAESBAERT, 2004a, p. 251). No que diz respeito ao hibridismo, baseado na concepção que Haesbaert (2002, 2004a,b), tem desenvolvido mais recentemente, sobre a multiterritorialidade, analisa-se o hibridismo em torno das novas formas da relação espaço-cultura, especialmente no hibridismo cultural, em tomo da produção da diferença e das identidades, enfocando o que se refere ao estudo das identidades.
Segundo Saquet (2004, p. 8) essa é uma tendência que cresce sob a fluidez e heterogeneidade, e cujo processo de produção é inseparável das esferas política (a identidade como estratégia de poder) e econômica (a produção e o consumo da "diferença"), permitindo propor uma abordagem integradora no sentido de que qualquer análise de identidade/territorialidade, hoje, deve passar pelos interesses e/ou implicações político-econômicas de sua construção, priorizando, a
ligação entre hibridismo e multiterritorialidade.
Essa ação integradora da conta da complexidade - e do hibridismo - dos fenômenos contemporâneos e não perde a especificidade das interpretações geográficas, Assim, a proposta de abordagem integradora proposta por Haesbaert, envolve tanto uma interpretação que integre múltiplas dimensões (cultural, econômico, político...) quanto o reconhecimento do caráter híbrido ou múltiplo de muitos fenômenos geográficos.
Dessa forma, a migração sendo um dos condutores de uma multiterritorialidade, onde as identidades adquiridas se fundem, surgem novas concepções conceituais (sem perder a valorização das anteriores), que completam a dinamicidade e que servem de base para justificar a veracidade do que se afirma.
[...] novas concepções [...], indicam não a simples superação de antigas realidades (que em muitos casos ainda permanecem) e dos conceitos que procuravam traduzi-Ias, mas a emergência concomitante de situações mais complexas e, em parte, ambivalentes [...], em que o controle e os enraizamentos convivem numa mesma unidade com a mobilidade, a fluidez e os desenraizamentos (HAESBAERT, 2002, p. 137).
Por isso, mais do que marcar diferenças, os conceitos devem revelar multiplicidades, conexões, superposições, o que implica reconhecer sempre os elos com outros conceitos, pois são instrumentos auxiliares nas interpretações no sentido analítico, e no sentido de instrumentos de intervenção, capazes de, "intervir" no real, onde a validade destes estaria também no uso que se pode fazer deles e não apenas na significação/interpretação que eles propõem. Assim, como não há ciência "neutra", não há também "conceitos" neutros, a-históricos e a-políticos. O conceito está imerso, de alguma forma, na própria transformação da realidade que ele diz re-conhecer (SAQUET, 2004, p. 6) (HAESBAERT, 2004a, p. 137).
Com o território, portanto, não está sendo diferente, pois diante da realidade híbrida, ele passa a ser mais integrador especialmente quando separa cultura e natureza, mundo material e mundo imaterial, ou, em termos de poder, poder político (mais "funcional" ou concreto) e poder simbólico, pois como afirma Haesbaert:
representações, sua dimensão simbólica ou sua "territorialidade", do que por sua dimensão material - o que faz com que alguns relacionem este fenômeno com processos de desterritorialização -, não há dúvida que não se trata de um processo de desterritorialização, mas de uma dinâmica muito mais complexa e aberta à vivência de uma crescente e complexa multiterritorialidade (HAESBAERT, 2004b, f. 15).
O discurso de desterritorialização vincula-se ao desenraizamento e ao enfraquecimento das identidades territoriais, no mínimo é demasiado simples, pois o mundo está marcado pela imprevisibilidade e fluidez das redes e pela virtualidade, com fluxos, redes e imagens globais, assim o território, como espaço apropriado, tem uma concepção de multiplicidade, tanto no sentido da convivência de "múltiplos" tipos de território quanto da construção efetiva da multiterritorialidade.
Na análise de identidade/territorialidade, as implicações político-econômicas de sua construção, priorizam a ligação entre hibridismo e multiterritorialidade, pois, sujeitos que constantemente se deslocam migram ou mesmo aqueles que apenas virtualmente se deslocam, (fragmentados pela globalização), altera os referenciais modernos de sujeito, espaço e tempo, perdem, seu caráter mais estabilizado em tomo de uma cultura (identidade), criando novas posições de identificação, mais plurais, menos unitárias e estáveis.
Neste ponto, o hibridismo não se refere a indivíduos híbridos, que podem ser contrastados com os "tradicionais" e "modernos" como sujeitos plenamente formados, mas trata-se de um processo de tradução cultural, um momento ambíguo de transição, que acompanha qualquer modo de transformação social, pois de toda cultura de alguma forma nasce de um hibridismo, da mescla com outras culturas; como afirma Canclini (1997, p. 29, apud., HAESBAERT, 2004b, f. 16)63, " [...], geradas ou promovidas pelas novas tecnologias [...], pela reorganização do público e do privado no espaço urbano e pela desterritorialização dos processos simbólicos".
O mais comum é que as pessoas e os grupos sociais desenvolvam vínculos identitários com mais de um território ou com territórios de características muito mais híbridas, "multiterritorializando-se". Não há espaço produzido que não o seja através da cultura dos grupos que o constituem, seja no sentido de cultura como o conjunto de relações que os distinguem ou no sentido do que se refere à produção de significados, à dimensão simbólica.
Não há como dissociar a cultura da produção do espaço, pois os processos mais
funcionais de dominação e os processos mais simbólicos de sua apropriação são integrados e indissociáveis com outras esferas, como a econômica e a política que efetivam diferentes redes e um determinado campo de forças.
A formação das redes de circulação e de comunicação contribui para o controle do e no espaço; elas agem como elementos mediadores da re-produção do poder da classe hegemônica e interligam o local, ao global, interferindo diretamente na territorialidade cotidiana dos indivíduos e grupos ou classes sociais.
[...] a "experiência integrada" do espaço (mas nunca "total", como na antiga conjugação íntima entre espaço econômico, político e cultural num espaço contínuo e relativamente bem delimitado) é possível somente se estivermos articulados (em rede) através de múltiplas escalas, que muitas vezes se estendem do local ao global. Não há território sem uma estruturação em rede que conecta diferentes pontos ou áreas (HAESBAERT, 2004a, p. 79).
As identidades são múltiplas, relacionais e em permanente (re)construção, o homem vive um processo de constante des-re-territorialização, portanto multicultural.
Enfim, para uma análise territorial, tem-se que ter uma visão de espaço como um híbrido entre sociedade e natureza, entre política, economia e cultura, e entre materialidade e "idealidade", numa complexa interação tempo-espaço, onde o território pode ser concebido a partir da imbricação de múltiplas relações de poder, do poder mais material das relações econômico-políticas ao poder mais simbólico das relações de ordem mais estritamente cultural (HAESBAERT, 2004a, p. 79).