4 ANÁLISE DE RESULTADOS
4.2 O estado da arte do território da Bacia do Rio Grande
4.2.1 Os aspectos formais
4.2.1.2 Número de conselheiros e paridade
O número de membros da composição dos CMAS informa a quantidade de atores sociais envolvidos com o debate do desenvolvimento da Política no município, no sentido de construí-la. Na literatura especializada sobre o tema existe uma recomendação numérica para direcionar a composição dos conselhos entre 8 e 16 membros. Tal parâmetro tem o intuito de qualificar o debate nos espaços participativos, na medida em que, aumentando o número de membros, poderá inserir maior pluralidade de atores e diversificar os olhares sobre a Assistência Social.
No que concerne à realidade do Território da Bacia do Rio Grande, verifica-se quase a totalidade na composição dos conselhos, a exceção de Barreiras, São Desidério e Wanderley, que possuem 10 membros titulares cada; os demais são formados por oito membros, adotando assim a menor margem numérica para sua composição. As principais justificativas para o baixo número de membros se situam:
a) no vazio da alteridade, conforme abordado por Raichelis (2008), a partir de Francisco de Oliveira (1990), afetando a representatividade nos conselhos; b) diante da exigência da regularização das entidades para inserção nesses
espaços, muitos municípios se depararam com a dificuldade de identificar instituições da área, regularizadas e com interesse em atuar no CMAS.
Ainda se discute a relação entre a quantidade de membros na composição dos conselhos e a dimensão populacional dos municípios, com a tendência de aqueles que possuem maior população criarem conselhos mais numerosos. No contexto do Território estudado esta tese foi confirmada somente no município de Barreiras (Tabela 12). Em Luís Eduardo Magalhães, o segundo maior do Território, com densidade demográfica de mais de 75 mil habitantes, o CMAS é composto por apenas oito membros. Situação contrária ocorre em São Desidério e Wanderley, ambos com 10 membros.
A disparidade constatada entre o número de membros e o perfil demográfico dos municípios pode gerar distorções na representatividade dos CMAS do Território, conforme tratado. Duas questões são apreendidas dessa situação: a ausência da pluralidade de sujeitos e o processo de deslegitimação dos espaços participativos. A primeira decorre da incapacidade, ou melhor, da falta de condições em incluir a
multiplicidade de olhares e perspectivas, possível pela ampliação numérica, entre outras vias. Em virtude disso é que os espaços dos conselhos com composição díspar, em relação ao número de habitantes, não são efetivamente representativos, no sentido de não expressarem a complexidade da realidade e das demandas diante da desproporcionalidade, acabando por perder, em certa medida, o seu poder de representação e assim a legitimidade em apresentar as demandas da sociedade civil.
Tabela 12 - Municípios da Bacia do Rio Grande, Bahia, segundo estrutura do CMAS
quanto ao número de membros, conforme o Censo SUAS 2011-2012
Municípios da Bacia do Rio Grande Número de conselheiros titulares
2011 2012 Angical 8 8 Baianópolis 8 8 Barreiras 10 10 Buritirama 8 8 Catolândia 8 8 Cotegipe 8 8 Cristópolis 8 8
Formosa do Rio Preto 8 8
Luís Eduardo Magalhães 8 8
Mansidão 8 8
Riachão das Neves 8 8
Santa Rita de Cássia - -
São Desidério 10 10
Wanderley 10 10
Fonte: Elaborado pela autora com dados extraídos de Brasil (2011-2012)
Além da quantidade de membros na composição dos conselhos, também se discute a respeito da igualdade de voz e voto entre os segmentos representados nesses espaços participativos (usuários, organização de usuários, trabalhadores,
prestadores de serviços e governo). Uma das estratégias para o alcance da condição dessa igualdade entre os segmentos, conforme a LOAS, é a distribuição dos membros.
Desse modo, no Território da Bacia do Rio Grande seis municípios possuem o número de representantes da sociedade civil superior ao de membros do governo (Tabela 13). Em outros dois municípios ocorre a situação inversa, sendo que a quantidade de representantes do governo é superior. O efeito dessa situação pode ser sentido nas deliberações ocorridas no CMAS e demais ações.
Nesse sentido, conforme os dados a seguir, o município de Riachão das Neves foi o único do Território a atender, a rigor, esta exigência quanto à regra da distribuição, pois cada um dos representantes da sociedade civil é oriundo de um segmento social (usuários, organização de usuários, trabalhadores da área e prestadores de serviços), além da presença governamental.
Pode-se observar a divergência de informações referentes ao número de membros previsto na composição dos conselhos (Tabela 12) e a sua quantidade efetiva (Tabela 13). A razão para tal situação é que existe uma possível dificuldade de compreensão por parte dos respondentes no preenchimento do Censo SUAS. Observa-se que alguns municípios do Território fizeram referência apenas ao número de membros titulares, o que parece ser a forma mais correta, como o caso de Baianópolis, Mansidão e Riachão das Neves. Outros municípios lançaram a totalidade de conselheiros, titulares e suplentes, tal como Barreiras; e outro grupo apresentou um quantitativo divergente do número de membros, não correspondendo nem à quantidade de titulares, como Angical, Catolândia, Cotegipe e Wanderley, nem ao total de titulares e suplentes, como Formosa do Rio Preto, Luís Eduardo Magalhães e São Desidério. O número de representantes por segmentos tem implicações diretas sobre a paridade dos conselhos, podendo ser visto a seguir.
Tabela 13 - Municípios da Bacia do Rio Grande, Bahia, segundo estrutura do CMAS
quanto ao número de representantes por segmento, conforme o Censo SUAS 2012
Municípios da Bacia do Rio
Grande
Nº de representantes por segmento em 2012
Usuários Organizaç ão de usuários Entidades de assistên cia social Entidades dos trabalhado res do setor Governo Total de mem bros do CMAS Angical 0 1 0 1 2 4 Baianópolis 1 2 0 1 4 8 Barreiras 2 2 6 0 10 20 Buritirama 0 2 0 2 6 10 Catolândia 1 1 2 1 2 7 Cotegipe 0 3 0 1 3 7 Cristópolis 4 3 0 1 6 14 Formosa do Rio Preto 2 4 0 2 7 15 Luís Eduardo Magalhães 0 0 3 1 6 10 Mansidão 3 1 0 0 4 8 Riachão das Neves 1 1 1 1 4 8 Santa Rita de Cássia - - - - São Desidério 0 4 2 4 7 17 Wanderley 4 0 0 0 2 6
Fonte: Elaborado pela autora com dados extraídos de Brasil (2011-2012)
A paridade é, antes de tudo, uma exigência dos normativos legais da Assistência Social para a formação dos conselhos, sendo a igualdade numérica entre os pares na composição desses órgãos. Assim, a paridade pode ser definida a partir de duas perspectivas complementares: a formal e a qualitativa. Acerca da primeira o CNAS aprovou a Resolução nº 237, de 14 de dezembro de 2006
(BRASIL, 2006a), que trata, em seu Artigo 10, a questão da paridade, prescrevendo que os conselhos devem ter composição proporcional, de 50% entre representantes da sociedade civil e do governo. Já na perspectiva qualitativa, ou efetiva, Faria (2007) respalda essa discussão, quando ressalta que, para ocorrer a paridade em termos qualitativos, deve-se atentar para a entrada de representantes principalmente da sociedade civil, que não possuam vínculos empregatícios com a esfera governamental, zelando por uma representação isenta, evitando distorções.
Dessa forma, a partir da análise dos dados apresentados (Tabelas 12 e 13), foi discutida a paridade nos municípios do Território da Bacia do Rio Grande (Quadro 5). Como visto, apresentam dificuldade em distribuir de forma igual o número de membros entre os segmentos representados nos CMAS, deduzindo-se uma desigualdade em temos da garantia formal do direito de voz e voto nos conselhos. Sobre esta, foi analisada a perspectiva qualitativa, concluindo que, tanto em termos numéricos quanto qualitativos, a maioria dos municípios efetivamente não são paritários.
Quadro 5 - Municípios da Bacia do Rio Grande, Bahia, segundo estrutura do CMAS
quanto ao número de membros e a existência de paridade, conforme o Censo SUAS 2011-2012
(continuação) Municípios da Bacia do Rio Grande Paridade
2011 2012 Angical - Sim Baianópolis - Sim Barreiras - Sim Buritirama - Não Catolândia - Não Cotegipe - Não Cristópolis - Não
Formosa do Rio Preto - Não
(conclusão) Municípios da Bacia do Rio Grande Paridade
2011 2012
Mansidão - Sim
Riachão das Neves - Sim
Santa Rita de Cássia - -
São Desidério - Não
Wanderley - Não
Fonte: Elaborado pela autora com dados extraídos de Brasil (2011-2012)