CAPÍTULO I - EMOÇÕES NA SALA DE AULA DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

1.1.2. Na neurofisiologia

Nesta breve seção sobre a abordagem das emoções na neurofisiologia, quero me ater apenas àqueles apontados na literatura como os fundadores do campo. Um deles, René Descartes, já foi referido na seção anterior. A intenção principal desta seção é demonstrar

como o relato de um caso clínico feito por John Harlow na segunda metade do século dezenove foi fundamental para chamar atenção para a importância da corporalidade e do cérebro nas emoções. Este relato também iniciou uma tradição, que se prolonga até os dias de hoje, de estudos sobre pessoas que tiveram seu cérebro lesado de alguma maneira e suas conseqüências para a efetividade de nossas interações e relações conosco e com nossos diversos domínios sociais (cf. Magro, 1999: parte 1). Além disso, ao longo da seção abordarei alguns pontos fundamentais da fisiologia do funcionamento emocional.

Hughlings-Jackson, que postulava uma estrutura hierárquica do sistema nervoso, argumentava que o sistema nervoso consistia de níveis gradualmente mais elevados e complexos de atividade. Segundo Jackson, a parte mais inferior do sistema nervoso, o corpo estriado, de origem filogenética reptiliana, controla rotinas automáticas e reflexos. A parte média, o sistema límbico está associado filogeneticamente aos mamíferos e realiza as funções emocionais. O sistema límbico está por sua vez imbricado a parte mais superior, o córtex, em especial ao córtex frontal, que nos humanos totaliza quase oitenta por cento do seu volume total. E Walter Hess, fisiologista contemporâneo a Hughlings-Jackson, estava envolvido com estudos sobre os efeitos de estimulação elétrica e química no sistema nervoso, em especial em áreas relacionadas com o sistema autonômico.

Desde a publicação do caso clínico de Harlow, das idéias de Jackson e Hess e das obras de Darwin e James, a hipótese de que os processos mentais e emocionais dependiam de mecanismos neurais e químicos deixou de ser apenas especulação filosófica. Ao longo do século XIX, antes mesmo que a obra destes autores viesse à tona, observações clínicas de pacientes com acidentes cerebrais já sugeriam que o cérebro seria de fato a base física das emoções. Uma destas mais importantes observações foi feita por um médico do interior chamado de John Harlow, sobre o caso de Phineas Gage, um simpático mestre de obras, que trabalhando na construção de uma estrada de ferro em Vermont, EUA, sofreu um sério acidente, que é considerada por alguns como um marco na história da psicofisiologia moderna (cf. Damasio, 1994; Cacioppo et al., 2000).

No dia 13 de setembro de 1848, Gage estava colocando pólvora em uma pedra para estourá-la. Para socar o material, Gage usava uma barra de metal longa e pesada. Argumenta-se que movimento da barra pode ter provocado uma faísca. Com a explosão gerada, a barra penetrou o crânio de Gage logo abaixo de sua sobrancelha esquerda saindo pelo topo de sua cabeça. O homem sangrou terrivelmente e foi levado para Harlow, que o atendeu prontamente. Embora tenha sofrido uma inflamação inevitável, Gage sobreviveu. Harlow escreveu em seu relato que o equilíbrio entre as faculdades intelectuais de Gage e suas

tendências animais havia sido destruída. Depois do acidente, os amigos dele diziam que o homem “não era mais o Gage”. De um mestre de obras responsável, eficiente amigável e simpático, Gage se tornou um homem impaciente, irreverente, vacilante e bravo (Oatley e Jenkins, 1996: 22-23).

Gage foi despedido e vagou pelos EUA fazendo shows em circos do interior com sua barra de ferro. Depois foi para o Chile, onde trabalhou com cavalos por oito anos. Em 1860, em virtude da deterioração de sua saúde, retornou a São Francisco para morar com a mãe. Tentou vários empregos, mas não permanecia em nenhum. Começou a ter convulsões e acabou morrendo em 1861. Harlow só ficou sabendo da morte de Gage cinco anos mais tarde, e pediu à família para exumar seu corpo. Seu crânio e a barra de ferro encontram-se hoje no museu da Escola de Medicina de Harvard (Oatley, 2004: 60). O caso de Gage, publicado por Harlow em 1868, e a obra de Darwin sobre a expressão das emoções nos homens e animais, de 1872, abalaram o pensamento ainda preponderante de uma alma imaterial enclausurada no corpo por meio da glândula pineal como proposto por Descartes. A partir daí a idéia de que nossa personalidade, nossa emoção e razão sejam dependentes da integridade física do cérebro passou a ser aceita e difundida na comunidade médica e científica. Se o cérebro é danificado, assim também é nosso funcionamento mental e social, que aqui entendo como relacional. Data daí o início das duas abordagens mais comuns dos estudos sobre correlações entre fisiologia e a psicologia: o estudo dos efeitos de lesões cerebrais

A lesão no córtex pré-frontal de Phineas Gage tem uma compreensão mais elaborada atualmente do que no século XIX. Damásio (1994) e sua equipe confirmaram que pacientes com lesão nesta área dos lobos frontais tinham sérias dificuldades no planejamento de tarefas cotidianas simples, quando sua rotina era alterada, ao fazer planos que envolviam outras pessoas e nos relacionamentos sociais em geral. Damásio (1994) relata o caso de seu Phineas Gage moderno, um homem chamado Elliot. O homem tinha um casamento feliz, uma família equilibrada e era executivo numa grande empresa. Depois de retirar um grande tumor na região frontal através de uma cirurgia bem sucedida, Elliot alterou sem comportamento de várias maneiras.

Embora sua memória e intelectualidade permanecessem inalteradas, Elliot precisava que alguém o avisasse de que tinha que ir para o trabalho, não conseguia manter uma rotina de atividades e se distraía facilmente. Elliot gastava quantidades enormes de seu tempo na tentativa de fazer escolhas ponderadas, mas sem nenhuma conseqüência para sua vida cotidiana. Em conseqüência às alterações em seu comportamento, Elliot foi despedido, tentou negócios com pessoas de má fé, mesmo contra o conselho de seus amigos e, inevitavelmente,

foi à falência. Sua esposa se divorciou dele. Casou-se novamente com uma mulher que os amigos reprovavam. Divorciou-se novamente, seguido de sucessivos insucessos na vida conjugal.

Assim como tinha dificuldades no planejamento de suas atividades usuais, relacionamentos e todo tipo de decisões de ordem social, sua lesão no lobo frontal teria feito com que seus sentimentos ficassem seriamente comprometidos. Damásio (1994) relata que o paciente não se comovia quanto a sua própria tragédia pessoal. O homem relatava os eventos que se sucediam de forma distanciada. Elliot não demonstrava o menor grau de conflito interno, tristeza ou decepção com sua situação corrente. Em testes que pretendiam observar a reação de Elliot frente a casas pegando fogo, pessoas se machucando em acidentes graves e outras imagens alarmantes, ele não demonstrava qualquer reação, nem negativa nem positiva. Elliot não se alterava. Ele relatou a Damásio que mudou depois da operação, e que não se comovia mais com situações que antes o tocavam sentimentalmente. Na seção seguinte abordarei algumas outras questões pontuais sobre a obra de Damásio (1994).

Há hoje uma gama de teorias competidoras no estudo da fisiologia das emoções e suas correlações com a cognição e o comportamento, mas acredito haver tramas conceituais em comum entre elas que obliteram a compreensão sistêmica do fenômeno que têm relação com: a) a tentativa incansável de se estabelecer um isomorfismo entre dinâmicas fisiológicas, determinados circuitos neuronais e áreas do cérebro e certos comportamentos; b) em conseqüência, um colapso que reduz e sobrepõe um ao outro provocando caminhos reducionistas como as abordagens mente-cérebro; c) a proposição de propriedades essenciais a priori em termos genéticos e universais que garantem o aparecimento de emoções básicas que são posteriormente elaboradas pela cultura; d) como conseqüência a própria dicotomia básico/complexo, que embora seja uma inevitável herança da tradição, apresenta uma argumentação confusa e complicadora; e) a insistência na investigação, comprometida com órgãos financiadores e a tecnologia moderna, de neurônios, glândulas, áreas do cérebro e demais elementos do sistema nervoso que estão em menor ou maior grau envolvidos com a emoção/cognição como propriedades de agentes individuais isolados; f) uma dificuldade conceitual difusa, epistemologicamente pesada que envolve o uso complicador e reducionista de uma linguagem de termos naturalizados na tradição como estados afetivos, sentimentos,

somatizado, percepção, experiência afetiva, processos ascendentes e descendentes, informação genética, dentre outros11.

No documento RODRIGO CAMARGO ARAGÃO. SÃO AS HISTÓRIAS QUE NOS DIZEM MAIS Emoção, reflexão e ação na sala de aula (páginas 40-44)