O relato narrativo que apresento é de um jovem adolescente atleta de 19 anos, branco, jogador da categoria juvenil em um clube situado na zona sul do Rio de Janeiro. Boskolipe,51 como será chamado aqui, narra a constituição de suas experiências – atravessadas por marcadores sociais de diferença – como atleta de voleibol da categoria de base de seu clube. As identificações orientação sexual e idade (juventude) foram definidas de forma apriorística para a pesquisa e na narrativa outras categorias emergem integradas a estas duas.
Segue abaixo o trecho:
Leandro: Você me falou antes sobre as dificuldades que tem em continuar jogando vôlei. Pode me falar delas?
Boskolipe: Sim, são algumas. Não sei se você percebeu, mas eu acabei nascendo com um problema congênito de má formação da mão... aqui na mão direita. Mas eu tenho todos os movimentos dela e dos dedos apesar desse problema.
Leandro: Eu não percebi. Realmente estou vendo agora. Você já teve algum problema com os técnicos por isso, alguém não te aceitar?
Boskolipe: Não, mas no início me desencorajaram muito. O pessoal até falava
“pra jogar pela escola tudo bem, mas pra ser federado em clube impossível”, o que não aconteceu. O técnico do infantil, quando eu passei na peneira falou:
“nossa, você com essa mão assim joga tanto, parabéns”. Então tipo, eu acho que a minha mão nunca foi prejudicial, embora hoje no juvenil eu seja reserva.
No infantil e infanto eu era titular... mas sei lá. Porque também você imagina...
ser gay, pobre e deficiente... e além de ser gay dar pinta (risos). Difícil, né?
Leandro: Difícil?
Boskolipe: É.. sim. Aqui mesmo, quando eu troco de categoria, o técnico novo sempre observa muito a minha mão, mas depois vê que não tem problema. Em três categorias que eu subi sempre foi assim. Agora sobre falta de grana... eu já tive muita dificuldade de vir pra cá treinar três vezes na semana, vir pros jogos no fim de semana, viajar.. tem vezes que minha mãe não tem dinheiro pra me dar e eu já faltei em treinos importantes, em jogos.. vou levando, né... o técnico do juvenil cobra. Sobre ser gay eu tento ficar na minha, mas o técnico também já sabe, porque me vê sempre andando com os outros meninos que são gays também.. mas eu tento ficar mais na minha mesmo.
Leandro: Ficar na sua é não dar pinta? Isso que você quer dizer?
Boskolipe: Isso (risos). Os técnicos geralmente falam pra gente não dar pinta, ficar assim durinho e não demonstrar que é. (Relato do atleta)
Na abordagem indutiva baseada em dados, com base na primeira fase proposta por Bilge (2009), emergem pela narrativa as identificações deficiência e classe social. A orientação sexual é reafirmada por Boskolipe em articulação clara com a performance de gênero, o que faz com que quatro categorias se façam presentes na narrativa, além da categoria idade que foi predefinida e também será analisada. Aplicando as questões propostas pela teórica feminista, como segunda fase do método de interpretação, analiso se as identificações se interseccionam.
Durante realização da entrevista fui surpreendido por Boskolipe com relato sobre o problema congênito na sua mão. Ao vê-lo treinar e jogar, no contexto da pesquisa, não tive a percepção visual sobre a má formação de sua mão direita e também não fica evidente qualquer percepção de inferioridade frente aos outros jogadores. Como ele mesmo narra, há no primeiro momento desconfiança dos técnicos com relação à deficiência, que pode ser justificada pelo medo do rendimento inferior do atleta. Boskolipe também vai aproximar esse fato à questão de ser reserva na equipe, mas pela narrativa se percebe que também pode ser respondida pelas ausências nos treinos e jogos, relatada pelas questões financeiras. Deste modo, as
categorias deficiência e classe social não se integram e consequentemente não estão interseccionadas.
Não deixo de reconhecer que a categoria deficiência se mostra como um marcador de diferença importante na constituição da experiência do jovem adolescente atleta no contexto do voleibol, mas a mesma emerge pela narrativa de modo não integrado aos outros marcadores sociais. Já a classe social pode ser articulada à categoria idade, pelo entendimento de que o jovem adolescente atleta é um sujeito que depende financeiramente da família para dar prosseguimento à carreira de atleta e conforme a situação socioeconômica em que se situa, esta se mostra uma barreira a ser transposta. As categorias classe social e juventude se afetam e se interseccionam nesta interpretação.
Tal articulação entre as categorias pode ser problematizada pela noção de moratória social, de acordo com Andrade & Meyer (2014, p. 91), que afirmam que existe um prolongamento da fase da juventude, que entre variados fatores, pode ser explicitado por “transformações no mundo do trabalho que retardam o ingresso do/a jovem no mercado de trabalho e exigem dele/a cada vez mais qualificação e/ou escolarização;
consequentemente, maior tempo de permanência na casa da família [...]”.
Entretanto, as autoras reconhecem que a moratória social na fase da juventude é diferenciada conforme as classes sociais e que as classes populares também usufruem de certo período de moratória, ainda que seja vivida de outros modos. Assim, o jovem adolescente atleta Boskolipe narra como a dependência financeira de sua mãe interfere no seu desenvolvimento como jogador de voleibol no clube. Deste modo, aposto na constatação de que a perda da titularidade na passagem do time infantojuvenil para o juvenil tenha sido influenciada pela ausência nos treinos e jogos, respondida pela condição socioeconômica de Boskolipe.
De forma mais direta no relato narrativo, a cobrança por uma performance de masculinidade normativa no contexto do voleibol, ao enunciar na narrativa que não pode “dar pinta” durante os treinos e jogos, é articulada à orientação sexual e também se faz importante neste quadro de análise, o que mostra, inegavelmente, que as duas categorias se afetam e se reforçam, ou seja, estão interseccionadas. O treinador da equipe do jovem adolescente atleta cobra uma performance de gênero que esteja condizente com os preceitos masculinizantes exigidos nos espaços esportivos das equipes compostas por homens, buscando assim a regulação de uma masculinidade normalizadora (Brito; Leite, 2017) entre os jogadores de voleibol. A performance de masculinidade normativa, assim exigida pelo treinador, é uma categoria que busca invisibilizar a orientação sexual naquele contexto específico. Neste sentido, concordando com Butler (2015a, p. 21): “Resulta que se tornou impossível separar a noção de
‘gênero’ das interseções políticas e culturais em que invariavelmente ela é produzida e mantida”.
Bilge (2009) afirma que a interseccionalidade se constitui como uma perspectiva que não necessariamente se coloca como definida previamente e que pela sua mobilização contingente podem emergir eixos que apontem para novas interpretações nos registros de pesquisa. Ao narrar a autoidentificação “gay, pobre e deficiente”, o jovem adolescente Boskolipe enunciou como a complexidade das categorias de diferença marcam e constituem suas experiências como atleta de voleibol.