• Nenhum resultado encontrado

Saccol (2009, p. 252) registra que na ciência coexistem três visões ontológicas sobre como as

coisas são: uma visão realista e outra idealista (sendo essas em oposição), e uma terceira, da

interação sujeito-objeto.

A ontologia realista pressupõe que “lá fora existe um mundo” independente das percepções e

construções mentais que possamos ter a respeito dele. Essa ontologia se aplica fortemente às

ciências na natureza (matemática, física, química e biologia), e como exemplo, a crença de

que o mundo natural (aves, plantas árvores, pedras, rios...) existe independentemente da

existência ou percepção do ser humano (idem).

Em contraposição, a ontologia idealista (ou subjetivista) parte do princípio de que um

objeto ou entidade só passa a existir na medida em que é percebido por um observador em

uma construção mental. “Ela está relacionada ao mundo das ideias e à existência de um

ser pensante, a partir do qual as coisas existem; nossos pensamentos e sentimentos são a

realidade primária”, ou seja, “[...] de acordo com essa ontologia, o mundo existe a partir

das nossas percepções sobre ele” (idem).

Já a terceira ontologia, que considera a interação sujeito-objeto, concebe que a realidade

social é tomada como produto de um movimento de compartilhamento e de negociação de

significados entre os indivíduos. Segundo Moita Lopes (1994, p. 331), tratar-se-ia, portanto,

do resultado de uma elaboração social, ou seja, nesta visão a realidade não é concebida como

algo completamente extrínseco e independente da mente (algo objetivo), tampouco como

produto apenas da percepção intrínseca de cada sujeito de forma isolada (algo subjetivo ou

23

Entendemos ontologia como a questão do ser; como uma dimensão que busca compreender como as coisas são. A

palavra, formada pelos dos termos gregos “ontos” (ser) e “logos” (estudo, discurso), define-se, portanto, como o

estudo do ser. Na ciência, uma ontologia pode contribuir com duas ações: servir como fundamento na delimitação de

uma questão de pesquisa e auxiliar na definição sobre o método investigativo a ser utilizado. Assim, uma concepção

ontológica vai definir o modo como o pesquisador percebe o mundo e seus fenômenos sociais e físicos.

60

idealista), outrossim, que a realidade é vista e “construída” numa dimensão coletiva (as

interpercepções compartilhadas socialmente), portanto, sendo a realidade “intersubjetiva”.

A partir dessas três visões ontológicas, assumimos o nosso estudo na visão que considera a

interação sujeito-objeto, filiando-nos a uma epistemologia construtivista, que por sua vez

nos leva à adoção de um paradigma de pesquisa interpretativista – em geral, afirma Saccol

(idem), este paradigma utiliza métodos de pesquisa de natureza qualitativa e pouco

estruturada, como, por exemplo, o estudo de casos.

Nossa filiação à epistemologia construtivista se assenta na concepção de que o

conhecimento é produto da relação de interdependência entre o sujeito e o seu meio. Seria

a partir do engajamento do pesquisador com o mundo que significados e verdades

passariam a existir. Como definem Burrel & Morgan (1979, p. 28, tradução nossa), o

construtivismo parte do suposto de que a elaboração de significados se dá por meio de

processos sociais interativos e intersubjetivos, ou seja, que significados são criados e

compartilhados coletivamente. Assim,

O paradigma interpretativo é orientado por uma preocupação de compreender o

mundo como ele é, entendendo a natureza fundamental do mundo social ao nível da

experiência subjetiva. Procura explicação dentro da esfera da consciência individual

e subjetiva, dentro do quadro de referência do participante, em oposição ao

observador da ação. (ibidem)

Por este viés, significados não seriam descobertos, mas construídos, ou seja, não nascem

puramente de uma construção mental, mas como resultado da interação entre processos

mentais e as características de um objeto. A criação de significados, desse modo, pressupõe

intencionalidade, isto é, uma consciência que se volta a um objeto.

Jean Piaget (1972, p. 1), em suas teses sobre o construtivismo, já concebia esta visão. Para ele,

“[...] conhecer é modificar, transformar o objeto e compreender o processo dessa transformação

e, consequentemente, compreender o modo como o objeto é construído". Significa dizer que o

meio, ou o objeto existem independentes do sujeito, mas não podem ser conhecidos senão por

aproximações através da atividade física ou simbólica.

Piaget acreditava que estas aproximações podem provocar modificações da estrutura

cognitiva do sujeito tanto em nível de pensamento como em nível de ação. Por isso, a defesa

de que o conhecimento é relação de interdependência entre o sujeito e seu meio. Há nesta

ideia um sentido de organização, estruturação e explicação a partir do experenciado. É

construída a partir da ação do sujeito sobre o objeto de conhecimento, interagindo com ele,

sendo as trocas sociais condições necessárias para o desenvolvimento do pensamento.

Portanto, se as trocas sociais ocorrem em todas as direções na sociedade, "[...] o

conhecimento humano é essencialmente coletivo, e a vida social constitui um dos fatores

essenciais da formação e do crescimento dos conhecimentos" (PIAGET, 1973, p. 17).

Nas palavras de Jennifer Mason (2002, p. 3-4, tradução nossa), a partir desses fundamentos, é

comum que pesquisas construtivistas se organizem a partir de características qualitativas e de

paradigmas interpretativistas, pelas quais o pesquisador se ocupa em como é interpretado,

experienciado, compreendido e elaborado o mundo social, e o faz com base “[...] em métodos

de geração de dados que sejam flexíveis e sensíveis ao contexto social em que os dados são

produzidos (em vez de rigidamente padronizados ou estruturados, ou inteiramente captados a

partir de contextos ‘da vida real’)”.

Com base em métodos de análise, explicação e discussão que envolvam

compreensões da complexidade, detalhes e contextos, a pesquisa qualitativa tem

como objetivo produzir compreensões em torno de e contextuais de base ampla,

matizada e com dados detalhados. Há mais ênfase nas formas "holísticas" de análise

e explicação, nesse sentido, que em traçar testes padrões, tendências e correlações. A

pesquisa qualitativa frequentemente usa alguma forma de quantificação, mas formas

estatísticas de análise não são vistos como central. (ibidem)

Patton (1986, p. 22), de forma sintética, define a pesquisa qualitativa como uma “abordagem

da compreensão” ou “da interpretação”. Em oposição crítica ao positivismo, que apregoa a

posição neutra do pesquisador diante do objeto pesquisado, o paradigma qualitativo assume

não ser impossível separar o observador da coisa observada. Partindo do suposto de que “[...]

as pessoas agem em função de suas crenças, percepções, sentimentos e valores, e que seu

comportamento tem sempre um sentido, um significado que não se dá a conhecer de modo

imediato, precisando ser desvelado” (ALVES-MAZOTTI, 1991, p. 54), na abordagem

qualitativa, o pesquisador tem a tarefa de interpretar e de compreender esses sentidos

experienciados pelos indivíduos; de desvelá-los.

A partir desses aspectos, considera-se o pesquisador “[...] como o principal instrumento de

investigação e a necessidade de seu contato direto e prolongado com o campo para poder

captar os significados dos comportamentos observados” (ibidem). Desses mesmos

62

aspectos, Patton (1986, p. 23) afirma que surgem as especificidades dos dados

qualitativos, quais sejam: “[...] descrições detalhadas de situações, eventos, pessoas,

interações e comportamentos observados; citações literais do que as pessoas falam sobre

suas experiências, atitudes, crenças e pensamentos; trechos ou íntegras de documentos,

correspondências, atas ou relatórios de casos”.

Já na abordagem de natureza quantitativa, também o “[...] pesquisador descreve, explica e

prediz”, porém, “[...] mediante a análise da frequência de incidências e de correlações

estatísticas” segundo Chizzotti (1995, p. 52). A pesquisa quantitativa “[...] permite

estabelecer relação entre variáveis pré-estabelecidas, procurando verificar e explicar sua

influência sobre outras variáveis” (idem). Este tipo de pesquisa se utiliza de instrumentos

fechados em si que permitam a quantificação das informações sobre o objeto de estudo.

Para Gatti (2004, pp. 13),

Os métodos de análise de dados que se traduzem por números podem ser muito úteis

na compreensão de diversos problemas educacionais. Mais ainda, a combinação

deste tipo de dados com dados oriundos de metodologias qualitativas, podem vir a

enriquecer a compreensão de eventos, fatos, processos. As duas abordagens

demandam, no entanto, o esforço de reflexão do pesquisador para dar sentido ao

material levantado e analisado. [...] Em si, tabelas, indicadores, testes de

significância, etc., nada dizem. O significado dos resultados é dado pelo pesquisador

em função de seu estofo teórico. [mas] [...] as metodologias qualitativas também são

empregadas dentro dessa racionalidade. Cabem, então, distinções de foro filosófico

ou teórico-interpretativo na atribuição de significação a números e tratamentos,

sejam estes quantitativos ou qualitativos.

Portanto, para alguns autores (GAMBOA, 2001; MINAYO, 2010; CRESWELL, 1994; GATTI,

2004), o qualitativo e o quantitativo na pesquisa científica não devem ser opostos, mas

complementarem-se e convergirem sem compartimentar suas contribuições aos limites do

pensamento positivista ou do pensamento interpretativista, pois ambos têm a sua complexidade

e limites que apelam a uma elevada abstração do pesquisador. Por isso, adotamos neste estudo

os pressupostos do paradigma construtivista, concebendo-o como uma epistemologia

subjetivista cujos valores conduzem a uma compreensão do real a partir da interação entre

pesquisador e campo pesquisado (ALVES-MAZZOTTI & GEWANDSZNAJDER, 1998). A

escolha considera a ênfase do construtivismo sobre a intencionalidade dada pelos indivíduos às

ações humanas e ao “mundo vivido”, privilegiando as percepções dos sujeitos.

Não menos rigorosa, a concepção construtivista construcionista apela ao pesquisador que

busque pôr em suspensão suas crenças e conceitos prévios acerca do mundo para melhor

apreendê-lo. Nas palavras de Lincoln & Guba (1985, citados por ALVES-MAZZOTTI &

GEWANDSZNAJDER, idem, p. 141), como nenhuma teoria a priori pode abarcar as

inúmeras realidades emergentes em uma pesquisa, e como “acreditar é ver”, o pesquisador

construtivista deve desenvolver suas relações com as fontes o mais suspenso quanto possível.

A partir desse quadro delineado, concebemos que o objetivo do pesquisador é interpretar as

ações dos indivíduos no mundo social e as formas pelas quais os indivíduos atribuem

significado aos fenômenos sociais. A partir dessas perspectivas, nossa pesquisa assume o

desafio de fazer dialogar o qualitativo e o quantitativo quanto ao método de coletas de dados,

à definição das fontes e ao método analítico dos dados. Assume também o desafio de, a partir

das questões de pesquisas, debruçar-se sobre o estudo de dois casos de formação de

professores, buscando explorar os fenômenos ali situados para desvelá-los.

Em síntese, perspectiva interpretativista e pesquisa qualitativa (e a quantitativa como apoio)

enfatizam a importância dos significados subjetivos e sociopolíticos, assim como ações

simbólicas na forma como as pessoas constroem e reconstroem sua própria realidade. A

compreensão desses processos de construção e reconstrução sociais pressupõe um mergulho

no mundo em que eles são gerados, ou como entendem Lincoln & Guba (2000, p. 110), “[...]

um compromisso com a compreensão do mundo a partir do indivíduo em interação, ou seja,

investigador e objeto de investigação são assumidos interativamente ligados”. Isso envolveria

conhecer como as práticas e os significados são formados e informados pela linguagem e por

normas tácitas compartilhadas em um determinado contexto social.

Portanto, no caso deste estudo, buscamos caminhar sobre os pressupostos do modelo

construtivista por considerarmos que os contextos dos cursos de formação de professores

de cada campus do Instituto Federal de Educação Técnica e Tecnológica do Espírito Santo,

seus docentes, técnicos e alunos e os fenômenos ligados à criação de culturas, o

desenvolvimento de políticas e a orquestração de práticas inclusivas em educação são

únicos e irreplicáveis, ou seja, são únicos em seus contextos, e distintos se contrastados

com outros contextos. Para o construtivismo não há uma realidade dada como única

(positiva), uma vez que esta realidade é socialmente construída. Assim, como um meio de

tentar conhecer o mundo a partir do ponto de vista daqueles que nele vivem, cremos que

esta epistemologia se adéqua perfeitamente à metodologia do estudo de caso que

adotamos, considerando apontar para leituras complexas, múltiplas e aprofundadas da

realidade social dos contextos de formação docente.

64

Documentos relacionados