2 LUCRO ÉTICA E ATUAÇÃO SOCIAL DA EMPRESA
2.1 Natureza jurídica do lucro e sua titularidade
A análise historicista e tendencial do lucro e suas facetas econômicas, sociais e políticas, tal qual exposto nas linhas anteriores, indica que intuitiva e historicamente o ser humano sempre buscou um ótimo ponto de equilíbrio entre a lícita acumulação de capital e extração de lucro da atividade econômica com a necessária e indispensável faceta social das fontes de riqueza.
Necessariamente relacionado a uma vantagem, importante anotar que o lucro não se confunde com reserva, relacionada esta última à noção de sobra com destinação específica. Ocorre que não obstante retirada de uma parcela do lucro, a reserva serve como forma de seguro para a hipótese de a atividade empresarial não produzir resultados positivos, de modo que não se pode falar em destinação solidária ou mesmo fraterna de reservas, o que já não se aplica ao lucro.
Lucro também não se confunde com dividendo, pois, se reserva é a parte do lucro que não foi distribuída entre os sócios ou acionistas, dividendo é a parcela do lucro que corresponde a cada ação. Assim, se o lucro é distribuído em forma de ações entre os acionistas, se denomina de dividendo.
Há que se destacar ainda, por ser relevante, que os lucros não se confundem com sobras, sendo a distinção bem caracterizada nos ensinamentos de Wilson Alves Polonio:
as sobras, como o próprio nome sugere, são os recursos não utilizados pela sociedade, os quais devem retornar aos associados na proporção da utilização de cada um dos serviços da cooperativa. (...) o que nos parece importante ter em mente é que as sobras, nesses termos, não representam acréscimo patrimonial para os associados que as recebem, mas devolução dos recursos não utilizados.39
Nesse norte, lucro também não pode ter natureza de restituição, sob pena de desnaturação de sua conotação positiva e tampouco se pode confundir lucro com qualquer espécie de compensação, sob pena de não se apresentar este último como ganho, o que mais se afigura claro se atentarmos para o fato de que as modernas perspectivas de responsabilidade civil não tem a função de fazer com que o indenizado aufira lucros, mas sim, que seja restituído naquilo que perdeu ou deixou de ganhar pelo ilícito de outrem.40
39
POLONIO, W. Manual das Sociedades Cooperativas, São Paulo: Atlas, 2001, p. 82.
40 MIRANDA, P. Tratado de Direito Privado. Parte Especial. Tomo XXVI. São Paulo: Bookseller, 2003, p. 80.
Vê-se, pois, que o lucro é um meio e não um fim da atividade econômica, o que se afirma, posto que a pessoa jurídica pode exercer sua atividade sem necessariamente auferir lucro em um determinado exercício, por exemplo.
Os titulares na obtenção e na distribuição de lucros são, em nosso sistema econômico, as empresas privadas tidas enquanto atividades econômicas organizadas com finalidade de êxito econômico.
Nesse sentido, José Luiz de Almeida Nogueira Porto leciona que:
para que surja o lucro numa coletividade, três condições prévias são necessárias: agente capaz, economia dinâmica e estatuto jurídico adequado. A primeira dessas condições implica em que existam pessoas que preencham uma série de requisitos, quer subjetivos, quer objetivos, o que limita o número de empreendedores. Assim, devem eles não só ter capacidade, energia e espirito de luta, como dispor de capitais nos volumes necessários à tarefa que se propõem realizar, sejam esses capitais próprios ou alheios. O segundo requisito é que a economia seja dinâmica. É certo também, que o desequilíbrio próprio do dinamismo deve manifestar-se nessa economia e com ele a incerteza quanto ao futuro e à viscosidade dos fatores na busca do novo equilíbrio.41
Frise-se, pois, que toda atividade econômica organizada é passível de auferir lucros. A atividade organizada pressupõe a reunião de quatro elementos básicos na produção de bens e/ou serviços: capital, mão-de-obra, materiais e insumo e tecnologia, chegando-se então ao conceito de empresa tida como atividade econômica organizada com a finalidade de produção de bens e serviços para o mercado, com a finalidade de obtenção de lucro em contexto de economia de mercado.
A empresa pressupõe uma estrutura, um conjunto organizado, melhor dizendo, uma organização composta de um complexo de bens materiais e imateriais coordenados pela figura do empresário, de modo que, elementos como a habitualidade no exercício dos negócios com o objetivo da obtenção de lucro, ou mesmo resultado econômico e organização de mão-de-obra, se mostram imprescindíveis para a criação e mantença da atividade empresarial lucrativa, perseguido o lucro, de acordo com objetivos sociais previamente qualificados e delimitados.
41 PORTO, J. Contribuição para a Teoria do Lucro. São Paulo: Edição Própria, 1954, p. 73 (N.E.: Ortografia alterada).
O Estado, como se sabe, não pode auferir lucro, já que não está incluído na definição de empresa, e sua atividade, ainda que organizada, não visa ganho. Apenas quando o Estado intervém na ordem econômica por meio de atividade empresarial é que pode ser equiparado à atividade privada e seus objetivos e assim obter lucro.
Neste tema, leciona Sérgio Pinto Martins que:
(...) cabe lembrar, contudo, que a empresa pública e a sociedade de economia mista que explorem atividade econômica sujeitam-se ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive, no que diz respeito às obrigações trabalhistas (inciso II do parágrafo primeiro do artigo 173 da Constituição). Isso quer significar que essas entidades deverão distribuir lucros aos seus empregados, caso o resultado do exercício seja positivo. Algumas empresas poderiam ficar excluídas da distribuição de lucros, como as microempresas e empresas de pequeno porte, pois a lei poderia instituir tratamento diferenciado a elas, com vistas à incentivá-las, pela simplificação de obrigações tributárias, previdenciárias e trabalhistas, como explicita o artigo 179 da Constituição.42
Nessa linha, tem-se que a empresa representa um conjunto de vários interesses, como o lucro, a criação e valorização de novos empregados, a formação da mão-de-obra qualificada e pagamento de tributos, atingindo ainda, com a responsabilidade social, verdadeiro dever jurídico em nossa ordem constitucional, relevante papel econômico-social.