Usuários confiam cada vez mais no uso intuitivo dos produtos, conforme apontado por Marc (1991 apud LEWIS et. al., 2008). O autor discorre que usuários tendem a
desconsiderar manuais de instrução para interagir com eletrodomésticos. Porém, o que seria exatamente o “uso intuitivo”? Após uma pesquisa do IUUI (Intuitive Use of User Interfaces; MOHS et. al., 2006 apud HURTIENNE, 2011) sobre como fabricantes, usuários e designers utilizam o termo “uso intuitivo”, Hurtienne (2011) propõe a seguinte definição:
“Uso intuitivo é definido como a forma que um produto pode ser utilizado por meio da aplicação inconsciente do conhecimento prévio, resultando em uma interação efetiva e satisfatória, necessitando do mínimo de recursos cognitivos.”
(HURTIENNE, 2011, P.29, tradução livre)
51
Ao relacionar o uso intuitivo com a Usabilidade, Hurtienne (2011) observa ainda que ambos os conceitos são características que se referem ao grau de adequação entre produto e usuário, resultando na interação de uso. Porém, a usabilidade e o uso intuitivo não são conceitos idênticos. O autor compara diversos indicadores da usabilidade e a relevância destes indicadores para um uso intuitivo, chegando à conclusão que questões como tempo de aprendizagem, tempo de sucesso da tarefa e custo não são necessariamente interligados com uso intuitivo.
Naumann et. al. (2007) também discutem a crescente necessidade do uso intuitivo no design de produtos, bem como as consequências do aumento de funções e usos dos diferentes sistemas para a vida cotidiana. Os autores identificaram uma “alta demanda de diretrizes” que guiem a avaliação do uso intuitivo e da experiência do usuário, evidenciando a necessidade que os profissionais desenvolvam meios que facilitem o projeto de produtos intuitivos. O mesmo tópico também foi estudado por Silva (2012).
Também intimamente ligado ao uso intuitivo está o conceito de affordance,
apresentado à comunidade do design por Norman (1988), bastante discutido por You
& Chen (2007) e Krippendorff (2006). De forma sucinta, You & Chen (2007) definem
“affordances” como pistas visuais que indicam operações necessárias ou funções as quais o produto se destina, porém não sendo sinônimo de sinalização, metáfora, ou até mesmo de semântica do produto. Exemplos de affordances são frequentemente encontrados em eletrodomésticos (ou, pelo menos, deveriam ser). A aplicação do affordance em produtos é útil para o design da UX por se relacionar diretamente com o comportamento do usuário a respeito de funções e propriedades disponíveis no produto (YOU & CHEN, 2007).
Blackler (2006) e Blackler, Popovic & Mahar (2010) desenvolvem com profundidade os conceitos do uso intuitivo aplicado em produtos de uso cotidiano. A autora (BLACKLER, 2006) define a intuição como um tipo de processamento cognitivo, na maioria das vezes inconsciente (KLEIN, 1998; KLEIN, 2008), que utiliza o conhecimento de experiências prévias, definição congruente com o posicionamento de Hurtienne (2011). A pesquisa de Blackler, Popovic & Mahar (2010) foi motivada pela dificuldade de uso dos produtos de consumo, principalmente no primeiro contato, e também pelas frustrações, obstáculos e usos indevidos causados pela falta do uso intuitivo.
Ainda sob a ótica da necessidade do uso intuitivo, Hurtienne (2011) aponta três tendências que contribuem para a indispensabilidade de que produtos de consumo proporcionem o uso intuitivo. Estas tendências são discutidas nos subtópicos a seguir.
I. Aumento do número de funções
52
O aumento do número de funções nos produtos reflete no aumento da complexidade do uso e da carga de conhecimentos e experiências necessárias para que o usuário seja capaz de utilizar o produto sem auxílio de instruções (HURTIENNE, 2011). Wickens &
Seidler (1995 apud BLACKLER, 2006) também comentam sobre o aumento da
complexidade de sistemas aplicados nos produtos do ambiente doméstico para auxiliar as tarefas do cotidiano (WICKENS & SEIDLER, 1995 apud BLACKLER, 2006), o que acarreta no aumento também da complexidade de uso.
II. Hardware em software
O aumento de funções no formato de software vem estimulando estudos em IHC e em interfaces bidimensionais como um todo, que muitas vezes tornam estudos em
hardware subestimados. Como exemplo tanto do aumento do número de funções, como das transformações de atributos hardware em funções software, é apresentado o estudo de Karwowski (2010) sobre as tentativas de lançamento do “refrigerador inteligente”, demonstrando que a adição de novas tecnologias em produtos nem sempre é bem sucedida.
Após protótipos desenvolvidos por diversas fabricantes (por exemplo: Whirlpool, LG e Electrolux) desde 1998, ainda hoje se questiona a real agradabilidade e facilidade de uso destes produtos (KARWOWSKI, 2010). O desenvolvimento de protótipos por estas fabricantes citados encontra-se ilustrado na Figura 7. Karwowski (2010) destaca que unir tecnologias (ainda no exemplo do “refrigerador inteligente”: tecnologia do refrigerador + tecnologia de computadores sensíveis ao toque) é relativamente fácil, porém, tornar o resultado agradável e útil ao usuário não é tão simples. É necessário tornar claro ao usuário a vantagem de adquirir um produto que some funções em relação ao produto original, além de levar em consideração questões de custos e ciclo de vida de ambas as tecnologias que estão sendo empregadas.
53 III. Diversidade de usuários
Por fim, a diversidade de usuários (não só para eletrodomésticos, mas para diversos outros produtos de consumo) tornam os grupos de pessoas propensas a utilizar o produto como heterogêneos, variados em idades, experiências e motivações (HURTIENNE, 2011).
Exemplificando esta diversidade de usuários com eletrodomésticos, foi traçado o seguinte contexto: um indivíduo com repertório alto em tecnologia adquiriu um cooktop por indução11, que pode ser considerado um produto com uma nova tecnologia (indução de eletricidade para materiais específicos, gerando calor).
Entretanto, este produto pode ser utilizado no mesmo ambiente por outros usuários
11 Nota da autora sobre o funcionamento de cooktops por indução:
Diferentemente do cooktop com resistência elétrica, este produto induz corrente elétrica apenas para determinados materiais (i.e., panelas de aço inox com fundo triplo), gerando calor. Assim, se este produto for utilizado com panelas de teflon ou de vidro, não haverá aquecimento.
Figura 7 - Protótipos comerciais de "Refrigeradores Inteligentes"
Fonte: Elaboração da autora, baseado em Karwowski (2010), p. 58. Imagens extraídas de:
Karwowski (2010) e< http://www.orangecone.com/archives/2008/01/the_fridge_comp.html>
54
secundários, como indivíduos com baixo repertório com tecnologias. Estes usuários secundários podem também ser diversos nos aspectos de idade, familiaridade com a categoria (cooktops), entre outros.
Mesmo que estes usuários secundários não tenham sido os compradores do produto, nem sejam o público alvo direto ao qual o produto foi projetado, a experiência de uso que terão com o cooktop irá afetar na imagem que possuem sobre a marca do
produto. Desta forma, fica claro que um eletrodoméstico deve ser de fácil utilização para uma ampla gama de usuários, pois isto irá refletir na percepção da imagem do produto, da categoria e da marca.
Durante a aplicação da revisão bibliográfica sistemática (definida no capítulo 4,
Métodos e apresentada no capítulo 5) foi possível perceber a preocupação de autores sobre a relação idoso-produto (HONG; ONO, 2009; LEWIS et. al., 2008). Esses estudos levam em consideração a carga mental necessária para executar as tarefas
relacionadas aos eletrodomésticos, concluindo que as experiências prévias desempenham um forte papel no uso intuitivo (LANGDON & HURTIENNE, 2009).
Similarmente, McAdams & Kolstovich (2011) observam a existência de pesquisas sobre inclusão de usuários de características distintas ou restrições, principalmente na área de arquitetura e ambientes construídos, destacando uma lacuna de tais estudos práticos e metodológicos para o campo dos produtos de consumo.
Eijk et. al. (2012) enfatizam que as necessidades individuais e demandas locais se tornam cada vez mais importantes no sucesso de produtos de consumo. Na ótica dos autores, pesquisas que contribuem para a satisfação de usuários com características específicas/ restrições tornam-se primordiais, levando em consideração suas
habilidades e repertórios distintos. Este processo pode resultar em um produto que alcance uma parcela maior de usuários.
Visto o exposto, conclui-se que eletrodomésticos são ferramentas facilitadoras no cotidiano doméstico. Estes são produtos que, por princípio, podem ser utilizados por uma ampla parcela de usuários, que objetivam uma interação intuitiva com esta categoria de produtos. Desta forma, verifica-se a necessidade do designer atuar no projeto da experiência de uso, almejando que o produto final proporcione uma interação intuitiva.
55