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5 O MOVIMENTO BRASILEIRO DE PROSTITUTAS E O ESTADO

5.1 Cenário Sócio-Político

5.1.2 Poder Legislativo

5.1.2.1 Neoabolicionismo Brasileiro

Recentemente, esta nova onda, pautada pelos já conhecidos valores e princípios morais-religiosos, vem ganhando força no Congresso Nacional. Neste contexto, a prostituição, ao ser considerada uma prática “abominável”, ganha uma especial atenção por parte de algumas frentes parlamentares contrárias à sua realização. Os Projetos de Lei apresentados pelos Deputados Federais João Campos (PRB-GO, anteriormente PSDB-GO) e Flavinho (PSB-SP) sugerem, em seu conteúdo, uma nova estratégia de combate à prostituição, ao propor alterações no Decreto-Lei Nº 2.848, de 7 de Dezembro de 1940 — O Código Penal. Embasados num modelo de corrente neoabolicionista, defendem a criminalização da demanda, ou seja, pretendem atacar à atividade atribuindo a “responsabilidade de culpa” aos clientes destes serviços.

O PL 377/2011, apresentado pelo Deputado Federal e presidente da Bancada Evangélica na Câmara, João Campos12 (PRB-GO), propõe criminalizar a atividade a

partir de uma ótica baseada no modelo implementado na Suécia, tipificando o crime de contratação de serviços sexuais, ao recomendar a inclusão do Art 231-A junto ao Código Penal, como pode ser visto em seu conteúdo:

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º. O Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal – , passa a vigorar acrescido do seguinte art. 231-A: “Contratação de serviço sexual”

“Art. 231-A. Pagar ou oferecer pagamento a alguém pela prestação de serviço de natureza sexual:”

“Pena – detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses.”

“Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem aceita a oferta de prestação de serviço de natureza sexual, sabendo que o serviço está sujeito a remuneração.”

Art. 2º. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação (BRASIL, 2011). Ao criminalizar a conduta daqueles que pagam ou oferecem pagamento pela prestação de serviços sexuais, ou seja, daqueles que contratam pessoas mediante remuneração para a prática da prostituição, o presente Parlamentar busca repreender a atividade, tratando-a como um problema social a ser erradicado. Assim, pretende- se reduzir a imagem da “prostituta” a uma condição de vítima, ao invés de tentar empoderá-la.

Atualmente, pronta para ser introduzida como pauta junto a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados, a respectiva proposição vem sendo alvo de críticas. Apontada como um retrocesso à Constituição

12 A título de curiosidade, o nobre Deputado Federal João Campos, além de presidir atualmente a

Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, ele também foi autor do Projeto de Decreto Legislativo (PDC) Nº 234/2011, popularmente conhecido como “cura gay”. Cf. PRAZERES, Leandro. Deputado que apresentou projeto da “cura gay” presidirá Frente Evangélica. UOL Notícias, Brasília, 24 fev. 2015. Política. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas- noticias/2015/02/24/deputado-que-apresentou-projeto-da-cura-gay-presidira-frente-evangelica.htm>. Acesso em: 01 jun. 2017. Cf. DINIZ, Fernando. Deputado da "cura gay" volta a liderar bancada evangélica: Parlamentares querem aprovar projeto contrário ao aborto e liberar entidades religiosas para questionar leis no STF. Terra - Notícias, Brasília, 24 fev. 2015. Política. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/deputado-da-cura-gay-volta-a-liderar-bancada-

Federal, alguns especialistas afirmam que no Brasil, em vista da prostituição não ser considerada crime, este PL tende a ser ilegítimo13.

O PL 6.127/2016 de autoria do Deputado Federal Flavinho (PSB-SP), assim como o Projeto apresentado pelo parlamentar João Campos, desdobra-se a partir desta lógica. Indicando também alterações no Código Penal, com a inclusão do Art.

230-A, seu projeto se assemelha em diversos aspectos com a proposição

anteriormente apresentada:

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º Esta lei inclui o artigo 230-A no Código Penal Brasileiro, a fim de penalizar o cliente que contratar, por qualquer meio, pessoa a fim de comercializar o seu próprio corpo para prática de sexo ou afins.

“Art. 230-A Acordar ou contratar pessoa, por qualquer meio, mediante pagamento ou promessa de recompensa, com intuito de obter conjunção carnal ou a prática de outro ato libidinoso.

Pena - detenção, de 6 (meses) a 1 (ano) ano, e multa

Art. 2º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação (BRASIL, 2016). O Parlamentar fundamenta a criação desse PL a partir da convicção de que esta prática traria inúmeros malefícios no que diz respeito à garantia da dignidade da pessoa humana. Portanto, para o autor a prostituição, definitivamente, não deveria ser tratada como profissão, tendo em vista que os profissionais do sexo estariam neste negócio contra sua própria vontade. Em resposta a este quadro, a punição aos clientes da atividade seria a alternativa mais apropriada, pois desestimularia o exercício deste ofício, sem punir diretamente os trabalhadores sexuais, que estariam nesta condição devido não terem encontrado outros caminhos.

Por conseguinte, para o Deputado, a redução da prostituição, através deste meio, abriria espaço para que fossem criadas políticas voltadas à proteção e ao auxílio daqueles que quisessem abandonar esta ocupação e mudar de vida. Apesar de

13 Cf. NETO, Walacy. Deputado João Campos quer tornar crime a prostituição: Caso seja aprovada, a

contratação e oferta de serviços sexuais poderá resultar em pena de um até seis anos de prisão. Jornal

Opção, Goiânia, 12 set. 2013. Constituição. Disponível em:

<http://www.jornalopcao.com.br/posts/ultimas-noticias/deputado-joao-campos-quer-tornar-crime-a- prostituicao>. Acesso em: 13 ago. 2016. Cf. ARTICULISTA da Folha ironiza proposta de João Campos para criminalizar a prostituição. Goiás 24 horas, Goiânia, 05 set. 2013. Nacional, Opinião. Disponível em: <http://goias24horas.com.br/18110-articulista-da-folha-ironiza-proposta-de-joao-campos-para- criminalizar-a-prostituicao/>. Acesso em: 13 ago. 2016. Cf. CALLIGARIS, Contardo . O prazer (ainda) é um escândalo. Folha de São Paulo, São Paulo, 05 set. 2013. Colunistas. Disponível em: <http://folha.com/no1336787>. Acesso em: 13 ago. 2016.

paradoxal, a proposta — ao defender a criação de políticas públicas que, de alguma maneira, pudessem ajudar as prostitutas, na busca por dignidade, requalificação profissional, etc. — entra em sinergia com as ideias defendidas entre os grupos que são a favor da regulamentação e/ou descriminalização da prostituição.

O projeto, como o próprio autor justifica, pretende despertar o debate mais amplo do tema em relação à proposta de reforma do Código Penal, afirmando que a regulamentação profissional do métier não seria a solução mais adequada a este problema. Ao contrário, foi defendida a necessidade de políticas públicas que desincentivassem a sua realização. Atualmente, o PL 6.127/2016 encontra-se apensado ao PL 377/2011.

É importante salientar que o discurso acerca da criminalização da prostituição, no Brasil, não se trata de um fenômeno recente, como podemos destacar o Projeto de Lei Nº 2.169/2003, de autoria do ex-Deputado Federal Elimar Máximo Damasceno (PRONA-SP), que atualmente se encontra arquivado. É ressaltado que seu texto foi à base para a criação do PL 377/2011, ao utilizar-se do mesmo conteúdo, justificativa e proposta supracitada. O próprio Deputado João Campos, autor do PL 377/2011, se baseou nesta referência teórica para justificar a criação da sua proposta: “Tal matéria foi apresentada pelo ínclito Deputado Federal Elimar Máximo Damasceno tendo sido arquivada ao final da legislatura passada” (BRASIL, 2011).

Contudo, a atual mudança na conjuntura política e social brasileira, na última década, abriu espaço para que estas demandas ganhassem força e fossem legitimadas. Um ponto de destaque é que estes projetos que pretender criminalizar a prática surgem num mesmo tempo em que vem sendo discutido, no Senado Federal, o Projeto de Lei do Senado (PLS) Nº 236/201214 de Reforma do Código Penal

Brasileiro.

14 Cf. BRASIL. PLS n. 236, de 09 de jul. de 2012. Reforma do Código Penal Brasileiro. Novo Código

Penal. Senador José Sarney. Brasília, p. 1-198, jul. 2012. Disponível em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/106404>. Acesso em: 18 maio 2017. Uma observação sobre o PLS é que se for aprovada a reforma do Código Penal que tramita atualmente no Senado, entre uma das mudanças propostas está a possibilidade de encaixar a prostituição em mais um vazio legal. Se aprovado como está agora, o novo Código não regulamentaria a profissão, mas

Apesar do caráter de cunho religioso, por vezes, puritano ou, até mesmo, messiânico15, de tais parlamentares, suas atuais proposições não possuem adesão

majoritária. O debate acerca da criminalização da demanda da prostituição junto à Câmara é marcado por grandes contradições. Tendo em vista a participação dos próprios parlamentares como clientes assíduos do mercado da sexual16, a providência

mais sensata a ser tomada seria a abstenção. Ao final, estes projetos seguem caminhos semelhantes àqueles que normalmente defendem à regulamentação da atividade — o seu “engavetamento”17.

Tabela 4 – PLs que buscam a criminalização da prostituição. PLs QUE BUSCAM CRIMINALIZAR A PROSTITUIÇÃO

PL Nº 6.127/2016 PL Nº 377/2011 PL Nº 2.169/2003

 Alteração no Código Penal: Inclusão do artigo 230-A;  Penalizar o cliente que

contratar, por qualquer meio, pessoa a fim de comercializar o seu próprio corpo para prática de sexo ou afins: Pena - detenção, de 6 (meses) a 1 (ano) ano, e multa;

 Redução da demanda por serviços sexuais;

 Não punir diretamente aqueles que estão nesta vida por não ter encontrado outra saída;

 Acrescenta artigo ao Código Penal: Acréscimo do artigo 231-A;

 Criminalizar a conduta daquele que paga ou oferece pagamento pela prestação de serviços sexuais, ou seja, daquele que contrata pessoas mediante remuneração para prática da prostituição: Pena – detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses;

 Mesma pena para quem aceita a oferta de prestação de serviço de natureza sexual, sabendo que o

 PL com conteúdo semelhante ao PL Nº 377/2011;

 Atualmente arquivado.

descriminalizaria o rufianismo e as casas de prostituição. Cf. “ANEXO D – NOVO CÓDIGO PENAL: Título VI, Capítulo V”.

15 Ao propor uma espécie de “salvação” às prostitutas.

16 Diversos parlamentares são clientes desse mercado paralelo. Casos de escândalos envolvendo

deputados e senadores com prostitutas não são novidades, sendo algumas vezes divulgados pela imprensa: Cf. UM MERGULHO NA PROSTITUIÇÃO DE LUXO DO CONGRESSO: Reportagem da revista meiaum e do Brasília 247 revela os meandros do comércio sexual no coração do poder. Brasil 247, Brasília, 04 ago. 2011. Poder. Disponível em: <http://www.brasil247.com/pt/247/poder/10594/Um- mergulho-na-prostitui%C3%A7%C3%A3o-de-luxo-do-Congresso.htm>. Acesso em: 14 maio 2017. Cf. CARONE, Carlos. Prostituição explícita nas dependências do Congresso Nacional: Garota de programa cobra até R$ 1 mil para atender clientes na Câmara dos Deputados. Ela foi fotografada na porta de entrada que dá acesso às comissões e dentro do banheiro masculino. Polícia legislativa deve apurar o caso. Metrópoles, Brasília, 30 mar. 2016. Distrito Federal. Disponível em: <http://www.metropoles.com/distrito-federal/prostituicao-explicita-nas-dependencias-do-congresso- nacional>. Acesso em: 14 maio 2017.

17 Por se tratar de um tema controverso, medidas contra ou a favor da prostituição tendem a serem

 Criação de “rotas de saída” para aqueles que desejem deixar a atividade;

 Regulamentação

profissional não é a solução;  Criação de políticas públicas que desestimulem a prática;  Apensado ao PL Nº

377/2011.

serviço está sujeito a remuneração;

 Modelo Sueco de combate à prostituição;

 O exercício da atividade como forma de subsistência é um encargo gerado pelas circunstâncias sociais;  Prostituição: Problema

social a ser erradicado;  Despreocupação com as

consequências de se assumir publicamente o fato de ter sido prostituta, ao deixar a atividade.

Salienta-se também que uma possível criminalização no desempenho da atividade poderia configurar-se em uma matéria inconstitucional. As liberdades individuais e o direito à livre iniciativa são alguns dos fundamentos do Estado Democrático de Direito previstos na Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB/1988). Com base nisso, o ato de se prostituir ou demandar serviços sexuais seria, portanto, salvo algumas exceções, uma decisão individual, livre e autônoma da pessoa que assim deseje. Ao impor uma legislação que tenha por objetivo a penalização dos atores envolvidos na atividade, o Estado poderia estar violando princípios constitucionais fundamentais como, por exemplo, os que regem os princípios gerais da atividade econômica:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

[...]

Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei (BRASIL, 1988).

A questão em relação à “Dignidade da Pessoa Humana” vem sendo usada como contra-argumento por estas frentes que buscam impor sua agenda antiprostituição. Entretanto, este conceito é caracterizado pela ambiguidade de interpretações. Uma sugestão a este imbróglio seria à consulta a grupos à quais seriam destinados estes projetos – as profissionais do sexo. Por certo, sob uma ótica Fonte: Câmara dos Deputados (http://www.camara.gov.br).

liberal, o Estado não poderia e nem deveria interferir no exercício da prática, ao tentar criminalizá-la18.